Não Te Leve a Sério Ó Jerusalém

15/12/2014 | Conflito, Sociedade.

*Por Michel Gherman

 

Conheço bem Jerusalém. Em Israel nunca morei em outra cidade que não esta. Conheço as dores e os prazeres de ser um Yerushalmi, conheço muitos dos bairros desta cidade. Conheço Rehavia e Musrara, conheçoBeit Safafa e Shoafat, Beit Menachem e Pisgat Zeev, conheço Har hazeitim e Jabel Mukahaber, Meah Shearim e Moshavá Hagermanit.

Além disso, conheço as linhas de Jerusalém, conheço bem suas fronteiras e seus limites. Sei onde vivem os religiosos e os seculares, sei onde estão os esquerdistas e os direitistas, conheço onde circulam os muçulmanos e os cristãos, as elites e os excluídos. Enfim, devo dizer que conheço Jerusalém como conheço minha mulher, conheço Jerusalém como conheço alguém da minha família. Dessa forma, imagino saber de seus pontos fracos e fortes, sei onde posso exagerar e onde preciso cuidar, sei onde Jerusalém explode e onde Jerusalém se acalma.

Quem conhece Jerusalém sabe que essa cidade pode ser tudo, menos unida. Não há uma Jerusalém, há varias, dezenas, centenas talvez. Mais, as várias cidades não se falam, não conversam entre si, por vezes se ignoram e até brigam, mas quase sempre se tratam apenas como parentes distantes.

Uma das poucas referências que unifica seus moradores é o humor. Os Yerushalmim se esforçam para não se levar a sério e para não levar a sério aquilo que contam sobre sua cidade. Afinal de contas, como viver, amar, odiar e trabalhar em uma cidade santa? Mais, como estar, pensar, refletir e sentir em uma cidade que é o centro do mundo? Dizem isso por aí… ok, que digam. Jerusalém é a cidade onde moro, onde vivo, onde amo e me divirto, de resto que digam.

Estive em Jerusalém em alguns de seus piores momentos. Vi corpos, ou pedaços de corpos, dependurados nos primeiros ônibus que o Hamas explodiu. Vi a instigação e o racismo pulularem quando Bibi e Sharon marcavam o destino de Rabin na sacada de uma casa da Kikar Sion, vi brigas e linchamentos nas ruas da Ben Yehuda.

 Por vários anos vi, também, judeus nacionalistas e muçulmanos fundamentalistas que entram na cidade buscando alcançar a cidade velha. Vi gente que usa as ruas profanas de Jerusalém apenas como corredores que levam ao sagrado.

Em todos esses anos, senti que ao fim e a cabo, a gente de Jerusalém voltava, depois das crises, a ser o que era. Enterravam-se os mortos, cuidava-se para o ódio não infiltrar profundamente na alma, e o povo da cidade tentava não levar muito a sério as desgraças, as dores ou as mudanças que forasteiros trouxeram.

Agora está tudo diferente. Sinto que Jerusalém mudou. Entre as loucuras de Bibi e sua gente, está a tentativa de que Jerusalém se leve a sério, entre as loucuras de Bibi e seus parceiros está a tentativa de que Yerushamilitas acreditem, de fato, naquilo que falam deles.

Bibi, Bennett e seus amigos não sabem o que estão fazendo. Jerusalém, a cidade central mais periférica de Israel, aquela cidade que todos amam simplesmente não pode se levar a sério, senão ela explode e acaba por detonar todo um país.

Claro que nós, judeus de Jerusalém não somos um só. Claro que gente de Katamonim não frequenta as mansões de Rehavia, claro que habitantes de Pat não vão às festas de Talbie, é óbvio que os moradores ortodoxos de Bait VaGan não vão às festas enlouquecidas do Merkaz HaTarbut. Somos profundamente diferentes, uma cidade de grupos divididos, e é bom que sejamos assim. Claro que nem todos queremos construir o terceiro templo e é obvio que não somos todos que sonhamos em rezar no kotel.

O atual governo, entretanto, tenta nos convencer de nossas qualidades especiais. Eles dizem: “Vocês são santos, escolhidos, uma cidade fora de série”, enfim essa gente tenta trazer para dentro tudo aquilo que permanecera fora. O que acontece? Sentimentos tribais, de pertencimento étnico, de fundamentalismo religioso, de violência afloram.

Para sermos iguais temos que parecer iguais. Comecemos então a expulsar, agredir e romper com o diferente! E quem são os diferentes? Ah, há uma fila enorme deles. O que Bibi e Bennett não sabem é que em algum momento a fila chegará também até eles.

Para que isso não ocorra, devemos fechar a torneira do incitamento, voltarmos a não nos levar a sério, se esquecermos disso Jerusalém pode esquecer sua direita, sua esquerda, grudar sua língua no céu da boca e dar boas vindas ao caos.

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Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Não Te Leve a Sério Ó Jerusalém”

  • otavio zalewski

    15/12/2014 at 16:48

    Boa tarde, caro Michel. Em certo momento de sua coluna extremamente bem escrita, onde deixa fluir suas idéias sobre como vês e de como deveria ser a cidade santa, falaste sobre a riqueza cultural da população, da diversidade de idéias e opiniões, enfim das diversas “cidades” dentro de Jerusalém. Me causou estranheza quando criticaste e diminuíste as idéias de Bibi e seus correligionários, afinal defendeste a beleza da diversidade de opiniões.
    Outra ponto importante foi achares o pertencimento étnico ruim. O que salvou o nosso povo foi justamente este aspecto, e é impossível uma pessoa viver sem ter este sentimento, sem se identificar com algo. Mesmo a identidade judaica sendo de díficil definição, todos concordamos com um modo de ver o mundo baseado em certas premissas da filosofia judaica que segundo Julius Guttmann em sua obra máxima, é uma filosofia baseada na religião.
    Enfim são idéias interessantes a ser ponderadas.
    Att. Otávio

    • David

      16/12/2014 at 20:40

      Dizer que a diversidade de opiniões é boa não significa ser acrítico a elas. Michel não está censurando o Bibi, apenas o criticando. Por isso, a aparente incoerência que você aponta não existe.

    • otavio zalewski

      17/12/2014 at 15:44

      Quando a crítica é pontual e construtiva concordo contigo David, mas na expressão “Entre as loucuras de Bibi e sua gente…” é tudo menos engrandecer um debate.

  • Marcelo Starec

    15/12/2014 at 19:27

    Oi Michel,
    O seu texto está muito bem escrito e em meu entender passa ao leitor um pouco do que é Jerusalém…De um certo modo, acho que em todas as cidades do mundo onde se convive com o diferente, isso acontece…Em Jerusalém, sempre vi todo esse sentimento de cada grupo mais aguçado – mais forte!…É uma cidade onde tem judeus, cristãos e muçulmanos rezando quase que lado a lado…Onde eu já vi um judeu ortodoxo sentar-se no ônibus ao lado de um muçulmano trajado a rigor e no banco ao lado um cristão, também trajado do mesmo modo. Acho que esse é um momento importante em Jerusalém, visto que ao longo dos últimos 3.000 anos de história, esta cidade quase sempre foi complicada para alguma das 3 religiões monoteístas. Hoje, Jerusalém é livre para todos! – mas as pessoas são muito diferentes mesmo!…E continuarão a sê-lo. Assim deve ser Jerusalém, uma cidade muito tolerante como tem sido!…mas para que isso seja possível tem de continuar a haver o devido respeito a todos, independente de quem sejam! Com a única ressalva que todos tenham apenas uma coisa em comum – a tolerância com o diferente! Pois a intolerância, como recentemente tem sido praticada, principalmente por alguns muçulmanos extremistas, essa jamais pode vir a ser tolerada!…Sob nenhum pretexto, por nenhum motivo….Nada justifica a intolerância! E que, como bem colocado:”não se levar a sério”, o que interpreto como um simples respeito mútuo – ninguém pode sair esfaqueando ninguém e cada um vive do jeito que entende correto – quase que em “mundos paralelos”….mas com o devido respeito a vida e aos direitos mais comezinhos dos demais!……
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario Silvio

    18/12/2014 at 23:11

    “. Sinto que Jerusalém mudou. Entre as loucuras de Bibi e sua gente, está a tentativa de que Jerusalém se leve a sério, entre as loucuras de Bibi e seus parceiros está a tentativa de que Yerushamilitas acreditem, de fato, naquilo que falam deles.” Se você diz que mudou não tenho porque duvidar Michel, mas será que o assassinato de quatro judeus em uma sinagoga da cidade não foi uma mudança muito maior que as “loucuras” de Bibi e sua gente?

    “Conheço bem Jerusalém. Em Israel nunca morei em outra cidade que não esta. ” Eu por outro lado passei apenas 4 dias na cidade, e, claro, conheço muito, muuuiiiitooooo menos dela que você. É por isso que pergunto:
    Quando estive em Jerusalém (1981), visitei Al Aqsa, hoje isso é possível?
    Se não for, quem impede, Bibi e sua gente ou fanático muçulmanos? ” Claro que nem todos queremos construir o terceiro templo e é obvio que não somos todos que sonhamos em rezar no kotel.” Por exemplo eu, mas faço questão de poder visitar o Kotel, o que, salvo engano não era possível antes de 67.

Você é humano? *