Negro, judeu, israelense, etíope, Beta Israel.

Existem quase 14 milhões de judeus no mundo. Os estimados 6 mlhões de judeus americanos são apenas 2,11% da população americana, enquanto os pouco mais de 6 milhões de judeus israelenses são 75,4% da população do Estado de Israel, o único país de maioria judaica do mundo. Os judeus passam de 1% da população também no Canadá, Uruguai e Gibraltar.

O significado da “maioria judaica” é sensível. Em nome dessa maioria, pessoas e governos tomam decisões. Uns dispensam, enquanto outros evocam a paz como maneira de mater a maioria judaica do Estado Judaico. Pode soar errado aos olhos e ouvidos do mundo, mas judeus israelenses e até os americanos terão que advocar o direito dos judeus de não serem refugiados neste Planeta Terra.

Com essa introdução, peço permissão para trazer uma história que reflete bem o significado de maioria judaica no Estado de Israel. A existência da Lei do Retorno, junto ao reconhecimento dos judeus etíopes sob a mesma em Abril de 1975, permitiu a emigração e absorção de uma significante população de etíopes Beta Israel de origem judaica. Hoje eles são cerca de 130 mil pessoas em Israel. Mais de 1% da população do único país de maioria judaica que poderia recebê-los. Trazem consigo sua cultura e idioma, maneiras e culinária rica de um país que esteve em guerra. São meros 1% do pequeno povo judeu.

Operação Salomão, que trouxe qiase 15 mil judeus etíopes a Israel.
Operação Salomão, que trouxe quase 15 mil judeus etíopes a Israel.

Após operações militares heróicas e uma política de absorção dos governos de Israel desde a década de 80, essa mesma população passa agora por desafios diferentes da população judaica ou israelense. Eles buscam seu espaço na sociedade e tentam romper barreiras que envolvem o preconceito e a falta de qualificação. Em 2005, a taxa de desemprego entre os maiores de 45 anos era de 65%. No entanto, atualmente os judeus etíopes tem taxa de emprego parecido à do público geral, mas com quase o dobro de pessoas abaixo da linha da pobreza, 35% contra 18,6%.

Com acesso à educação formal e maior domínio do hebraico, as novas gerações dos Beta Israel tem maior facilidade de integração social e econômica. Ainda assim, a taxa de pessoas com educação entre os etíopes israelenses é menor do que do público israelense em geral.  Essa diferença é acompanhada de figuras como a maior criminalidade, os salários mais baixos ou dificuldade de encontrar empregos.

São claros os desafios do lado social. O retrato da população etíope em Israel pode ser colorido com o fato de que os números tem melhorado de ano a ano. No entanto, Israel vive hoje dois desafios em relação a essa população: (i) acabar com o racismo; e (ii) levar a frente um programa especial para emerger essa classe em termos de educação e infra-estrutura.

A absorção dos judeus etíopes é um diamante ainda a ser lapidado na história do povo judeu. Esses judeus, que se revelaram às comunidades do mundo no último século, vivem hoje em Israel através da lei que os proíbe de serem refugiados em mundo estranho. Ainda assim, são marcantes os casos de racismo, similar ao que se vê no Brasil. Escolas ortodoxas não aceitaram o judaísmo de meninas etíopes em 2009, e essas instituições ao final perderam qualquer financiamento governamental; violência policial à la Polícia Militar de Minas Gerais; preconceito no dia a dia e dificuldade de absorção no mercado de trabalho, além de menores salários. São algumas marcas a serem trabalhadas.

As novas gerações vêem o que acontece ao seu redor e provavelmente serão responsáveis por quebrar um ciclo de pobreza através de seu protesto. De certa maneira, Israel conhece esse protesto com os ensinamentos da absorção dos judeus que vieram do Oriente. Judeus vindos de países árabes até hoje lembram de terem sido levados ao deserto após deixarem sua culturas, vidas inteiras, casas e riquezas que matinham em seus países de origem. Certamente os judeus Beta Israel terão um caminho a percorrer com temperos diferentes.

Movidos por um caso específico de violência policial contra um soldado de origem etíope, há uma comoção social em torno do tema e especialmente o racismo. Em 2015, protestos começaram a trazer o assunto à tona, o que torna o momento importante para esse grupo. Interessante saber que resposta esse assunto trará no nível político, econômico e educacional.

Vale dizer que as lideranças etíopes provavelmente estão emergindo entre os 2785 (de um total de 312 mil) estudantes etíopes matriculados em instituições de ensino superior no ano acadêmico de 2013/2014. Destes, 88% estavam na graduação; 11,2% estavam no mestrado; e 0,5% no doutorado.

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Comentários    ( 12 )

12 comentários para “Negro, judeu, israelense, etíope, Beta Israel.”

  • Raul Gottlieb

    22/06/2015 at 10:40

    David,

    Acabar com o racismo é uma meta inalcançável. O crime, o racismo e tantas outras características antissociais do ser humano sempre existirão.

    O que sim pode ser alcançado é o repúdio da grande maioria da sociedade a estas facetas do comportamento.

    É fundamental entender isto para balizar corretamente a questão.

    Um abraço,
    Raul

    • Mario S Nusbaum

      22/06/2015 at 16:16

      Concordo com o Raul e acrescento que outra meta é tornar o racismo (impossível de extinguir) mais “light”. Se a pessoa não quiser se relacionar com judeus/negros/latinos/ciganos, paciência, mas que fique calada.
      Sei que para vocês começou ontem, mas mesmo assim, uma ótima semana para todos.

    • zegeraldo

      06/07/2015 at 17:13

      Mario vc tem razão, nós aqui no Brasil conhecemos bem o que é o racismo light, é o famoso “PRETINHO DE ALMA BRANCA” é a teoria do embranquecimento. Há mais ou menos 30 anos atrás era comum entre famílias negras, dizer o seguinte: vc meu filho negro, vai casar com uma loirinha para apurar raça.
      Outras expressões, ainda são usadas no inconsciente coletivo brasileiro demonstrando o racismo light.
      Na pior das hipóteses é preferível o racismo “as claras” como nos EUA, onde fica bem claro a posição das pessoas, a favor ou contra.
      Shalom!!!

  • Rafael Pires

    22/06/2015 at 21:20

    Sou negro, morei por 3 anos em Israel, frequentando sinagoga ashkenazi, andando de ônibus todo dia por Measharin e tranquilamente sofro mais racismo aqui no Brasil do que em Israel (onde, por sinal, não lembro de ter sofrido qualquer ato racista) Obviamente que a situação dos etíopes é bem diferente da minha (o brasileiro é quase sempre bem recebido por onde passa), mas vejo com muito mais esperança uma evolução na diminuição do racismo em Israel que aqui no Brasil.

    • zegeraldo

      06/07/2015 at 17:27

      Rafael, concordo com vc, também sou negro como vc, e vou sempre a Israel, nunca vivi lá, mas minha vivencia de 20 dias anualmente, já por 9 anos dá para verificar que aqui no nosso querido Brasil tem muito mais racismo que em Israel. A medida que vamos alcançando projeção pessoal, profissional, economica e social, o racismo brasileiro tenta de toda forma nos embranquecer na alma, não conta a nossa história nas escolas, etc. assim como fazem com os judeus. Nossa História é manipulada sempre. Nossos ícones são segregados. Etc.
      Rafael, tomei o maior susto quando fiquei sabendo do envolvimento dos judeus com os negros no Quilombo de Palmares e dos Beta Israel, pra mim só tinha judeus branco e rico. Susto também quando ví judeu pobre e sujo em jerusalém.
      Shalom!!!

  • Marcelo Starec

    23/06/2015 at 06:14

    Oi David,

    Entendo essa questão como muito abrangente e importante para todo o povo judeu!….Sei que esse assunto é complexo, mas entendo que faz parte do sentido pleno, da razão de existir da lei do retorno o reconhecimento e a aceitação de todos os descendentes do povo judeu…Assim, no “espírito da lei do retorno”, em meu entender, não há espaço para aceitar este judeu e não aceitar aquele outro – sendo portanto essencial albergar a todos os descendentes de judeus!…Preconceitos, infelizmente, fazem parte dos seres humanos e não há mesmo (concordando com o Raul e o Mário) como debelar completamente, mas sim como estarmos sempre atentos, combatendo o preconceito onde quer que ele surja, com toda a força!…Faz parte da sociedade israelense bem como de qualquer outra, estar sempre atenta para combater o preconceito e promover a luta no sentido da aceitação e integração plena dessas pessoas na sociedade israelense, onde eles escolheram viver!…..

    Abraços,
    Marcelo.

  • Mauricio Victor

    23/06/2015 at 23:35

    Quando, em Israel em 2003, peguei um táxi com um motorista etíope. Perguntei a ele se sofria racismo em Israel? A resposta foi na “lata” “Com certeza”, e me deu alguns exemplos, como pessoas que ficam paralisadas quando o vêem, que desistem de pegar o táxi entre outras. Mas também disse que sem dúvida, ele sofria menos preconceito em Israel do que na Etiópia, e quem sem dúvidas a perspectiva de vida da filhas dele eram infinitamente melhores do que as dele na idade delas, que elas frequentavam uma boa escola, estavam bem alimentadas, e que já falavam vários idiomas. Pra ele pelo menos, era dos males o menor. Acredito que todos “Olim” não ideológicos, passam pela mesma provação. Meu tio Avô odiava os Ashquenazim e seus filhos casaram com Ashquenazim. Esperamos que com o tempo isso melhore para os Beta Israel.

    • Raul Gottlieb

      24/06/2015 at 12:47

      Os etíopes em Israel são proibidos de fazer alguma coisa pelo fato de serem etíopes?

      Se isto não acontece (e não acontece), então não há racismo nem Israel nem no Brasil.

      O que existe na maior parte dos casos é a reação de surpresa de algumas pessoas frente a uma situação inesperada.

      A palavra “racismo”, como tantos outros vitimismos é muito mal empregada atualmente.

      O que não quer dizer que existam racistas em Israel e no Brasil.

      Contudo, é preciso entender que o fato de existirem racistas dentro de uma sociedade não a converte em sociedade racista.

      A afirmação de que é possível discernir o racismo pelo olhar da pessoa é muito ridicula! Mas muito ridícula e pretensiosa mesmo. O que mais este gênio da perspicácia consegue discernir pelo olhar dos desconhecidos?

      Enfim, para afirmar que o racismo está disseminado numa sociedade é preciso muito mais do que alguns casos de olhar supostamente esquisito e reações de surpresa.

    • zegeraldo

      06/07/2015 at 17:37

      Prezado Raul, veja o que aconteceu com a “garota do tempo” da rede globo, a negra MAJU, Maria Júlia e as redes sociais. Veja o que aconteceu e me diz se há racismo no Brasil ou não.
      Shalom!!!

  • Sam de Mattos

    26/06/2015 at 20:14

    Muito corajoso e louvavel esse “laundry cleaning” candido e aberto. Sim, temos tambem o nosso tipo de racismo, mas o enfrentamos abertamente, sem subterfugios, afinal, como Judeus de “Cojones Bien Puestos”. Parabens. Sam

  • Agamenon

    10/07/2015 at 17:57

    Não interessa se é racismo ou uma forma ligth de preconceito…enfim não existe justificativa para tais ações já que a TORÁ determina Ahavat Israel. Esse comportamento vindo de ashkenazim, sefaradim ou seja lá de quem for é inaceitavel e enquanto isso existir com toda certeza não estaremos preparados para a era messianica e pior ainda, a profanação do nome de Hashém se torna gritante.

    Já temos problemas demais para aceitar esse comportamento dentro da sociedade israelense ou em qualquer parte do mundo dentro das comunidades judaicas. Esse tipo de coisa já deveria ter acabado no século passado.

    Shabat Shalom

  • J.Roberto

    14/07/2015 at 18:12

    Para todos os meus irmãos e irmãs que vivem ou cujas raízes estão na África: Hoje, o dia do nascimento e ascensão de Moshe Rabbenu (Moisés) é de especial importância para todos os amantes Africanos da Torá porque como referido na Torá e relacionado em detalhes no livro muito antigo de Jasher (Sefer HaYashar), quando Moisés fugiu da espada do Faraó no Egito (Êxodo, capítulo 2), antes que ele fosse para Midiã, ele foi ao rei de Kush (Sudão-Etiópia) e influenciou muitos Africanos para acreditar em HaShem e servi-lo, mesmo antes de o povo de Israel receber a Torá no Sinai.

    Por: Rabbi Avraham Ben Yaakov.

Você é humano? *