No caso de Israel, a união não faz a força

17/06/2015 | Conflito; Opinião; Política

Quais são as medidas necessárias para que o atual governo israelense neutralize a devastação diplomática que o país está sofrendo? Como reduzir o impacto que o movimento de boicotes, desinvestimentos e sanções (BDS) tem tido sobre Israel?

Há quem afirme que diante do grave quadro diplomático é necessária a formação de um governo de união nacional, o que invariavelmente acarretaria na entrada da União Sionista (coligação entre o Partido Trabalhista e o Hatnua) na coalizão. Apesar da preocupação com a deturpada imagem que o movimento BDS cria sobre Israel, oponho-me em gênero, número e grau a uma governo de união nacional. Essa oposição é baseada nos seguintes motivos:

  1. O povo elegeu democraticamente a direita por acreditar em seus princípios na gestão do país. Que assim seja na prosperidade e na crise – a direita assumiu o poder e ela é quem deve administrar os problemas diplomáticos de Israel. É o preço que “se paga” por possuir uma democracia bem-estabelecida.
  2. Com a entrada da União Sionista no governo, a coligação dividirá a responsabilidade dos erros diplomáticos cometidos por Benjamin Netanyahu durante os seis últimos anos em que foi primeiro-ministro. O sucesso do movimento BDS deve-se, em certa medida, aos erros de cálculo do governo Likud – negligência, egocentrismo, megalomania e imprudência estão entre os fatores que provocaram o erro. Portanto, não me parece razoável [tampouco justo] que os partidos de centro-esquerda sofram dos nocivos efeitos colaterais de políticas que não implementaram. Deve-se interromper o ciclo vicioso “a direita comete o erro, a esquerda divide o ônus e Benjamin Netanyahu é exonerado de culpa”.
  3. A formação de um governo de união nacional tornará a atmosfera “todos contra nós” ainda mais carregada, colocando a população israelense em um estado psicológico defensivo que impossibilitará qualquer auto-crítica capaz de provocar mudanças fundamentais – é o discurso do medo em sua máxima. A união governamental não trará soluções para o negativo impacto que o BDS produz à imagem de Israel e, como desdobramento, ainda fortalecerá o discurso de que “nós representamos a voz da justiça em um mundo completamente antissemita” – discurso que Netanyahu, em seus lapsos de esquizofrenia churchilliana, insiste em promover.
  4. A realização de um governo de união nacional não neutralizará os boicotes a Israel. Em um primeiro momento, a comunidade internacional pode comover-se ao ver o moderado Isaac Herzog ou o diplomático Yair Lapid no Ministério das Relações Exteriores, mas no longo prazo a política de assentamentos permanecerá, as negociações seguirão estagnadas e a Autoridade Palestina continuará sua campanha unilateral contra Israel na arena internacional. Some-se a esse quadro a descrença instaurada em Benjamin Netanyahu. Em suma, não há qualquer coalizão possível capaz de amenizar o duro golpe que Israel vem sofrendo – a mudança é antes de caráter moral e somente depois de natureza estrutural.

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    Isaac Herzog e Tzipi Livni, líderes da coligação União Sionista.

Então qual seria a solução que não unir forças contra o inimigo comum? Não há uma única resposta à essa questão, mas há certos passos que certamente auxiliariam no processo de neutralização dos boicotes a Israel. O primeiro é reconhecer que o país está em crise, já não há como negar – mesmo Benjamin Netanyahu percebeu a magnitude do problema. O segundo é perceber que o país paga o preço por anos de inoperância em relação à emergente onda de boicotes ao redor do mundo, ao crescente antissemitismo na Europa, à crise diplomática com os Estados Unidos (seu maior e, em alguns casos, único aliado no conselho de segurança da ONU), ao conflito árabe-israelense e à problemas políticos internos. Em um terceiro momento, deve-se levar em consideração que o movimento BDS tem apenas dez anos, enquanto o agravamento da crise diplomática tem em torno de cinco; ou seja, ainda há tempo para que o atual governo promova as transformações que lhe são requeridas.

Finalmente, o primeiro-ministro  Benjamin Netanyahu terá que desenvolver um plano de ação mais pró-ativo e menos defensivo. Tal plano deve fundamentar-se em amenizar as divergências com Barack Obama, nomear um ministro do Exterior, demonstrar genuino interesse em retomar as negociações de paz, reaproximar-se das potências ocidentais (substitutindo, assim, a estratégia do ex-ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, de fortalecer laços com países do leste europeu) e, por fim, renunciar à ineficaz tática de “boicotar em retorno”.

Sem dúvidas, o governo israelense terá muito trabalho na implementação dessas mudanças. Ainda assim, por mais triste que possa parecer, não é o momento da esquerda israelense participar ativamente desse processo. No caso de Israel, a união não faz a força. Em efeito, é o momento da esquerda apenas observar a obsoleta política externa vigente conduzir ao sufocamento do quarto governo Netanyahu e esperar pela sua oportunidade de governar segundo os princípios e valores que acredita. O boicote não pode servir aos interesses eleitorais do Likud, assim como os ataques de Gaza não deveriam fortalecer o discurso do medo promovido por políticos da direita.

Obviamente acusarão a esquerda de traição e de boicote (já que está na moda usar o termo). Sugiro que os partidos de centro-esquerda não sucumbam à pressão – o fardo de traidores da pátria não passa de uma categorização, fruto de um profundo medo infantil por parte da direita israelense que não se conforma com a ideia de que não haja  quem culpar pelos erros que comete. É hora de começar a tratar esse medo, e de forma intensiva.  É hora de assumir a responsabilidade pela situação diplomática de Israel, e de forma imediata. Pela minha parte, desejo-lhes apenas boa sorte.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “No caso de Israel, a união não faz a força”

  • Fábio

    17/06/2015 at 10:04

    Caro Bruno, parece que só entro nesse site para discordar (risos). Bem, não é com tudo. Suas premissas tem lógica e o melhor dos mundos seria um governo sem a direita, o que me parece muito difícil, embora muitos sonharam com uma coalizão entre os centro-esquerda e os árabes. Insha-lá um dia. Cairia muito bem em termos de política externa e estratégia contra os boicotes.

    Por enquanto (e aqui explico a minha pequena discordância) é que do jeito que está, com esses camaradas absolutamente despreparados para diplomacia e política externa, a coisa tende a ficar cada vez pior e mais perigosa. Ruim uma coalizão com eles, pior ainda eles sozinhos. Assim me parece.

    Com um abraço, Fábio.

  • Mario S Nusbaum

    17/06/2015 at 21:17

    “o país paga o preço por anos de inoperância em relação à emergente onda de boicotes ao redor do mundo, ao crescente antissemitismo na Europa, à crise diplomática com os Estados Unidos (seu maior e, em alguns casos, único aliado no conselho de segurança da ONU), ao conflito árabe-israelense e à problemas políticos internos.”
    Não há como discordar.

    “ainda há tempo para que o atual governo promova as transformações que lhe são requeridas.”
    Por quem? Parece óbvio que as requeridas pelo Obama não são as mesmas que as pelo Abbas ou pela esquerda européia apesar de terem muito em comum: não são claras e estão sempre mudando. E isso sem falar em Irã e hamas, que “requerem” a destruição de Israel. Voltando ao Obama, acho que não está ao alcance de Israel terminar com a paixão dele pelo Rohani e pelo Erdogan. Sabe-se lá porque, sua política externa se baseia em apunhalar os amigos e baixar as calças para os inimigos. Mais um exemplo de como ele e o ditador (na prática) turco se entendem, os dois estão indignados com o combate, mas do necessário à Irmandade Muçulmana:
    .
    “The latest news prompted a tightly-worded White House response, with the Obama administration saying it was “deeply troubled” by Morsi’s sentence and other similar verdicts handed out to members of his Muslim Brotherhood in Egypt, and warned that such political trials were “not only contrary to universal values but also damaging to stability that all Egyptians deserve.”
    But the greatest outsider ire came from Turkey’s President Recep Tayyip Erdogan, an outspoken critic of the Sissi government.”

    “esperar pela sua oportunidade de governar segundo os princípios e valores que acredita” E quais seriam eles?

  • Marcelo Starec

    18/06/2015 at 00:44

    Oi Bruno,

    Estou aqui pensando sobre o seu artigo e enfim, também não sei se um governo de união nacional seria ou não bom…porém discordo de seu argumento sobre a lógica do “ciclo vicioso – a direita comete o erro, a esquerda divide o ônus e Benjamin Netanyahu é exonerado de culpa”…Em meu entender, essa filosofia da esquerda israelense de que só ela sabe resolver os problemas é um grande erro e acabará, isto sim, levando a esquerda israelense cada vez mais à irrelevância…Israel está lutando para existir desde 1948 até hoje e a mesma luta continua, apenas mudam algumas peças no tabuleiro – mas não a luta existencial !….Era Israel um País amado pelo mundo quando a esquerda governou e a direita era irrelevante?…Não foi por acaso nesse período que aconteceram todas as grandes guerras globais contra o mundo árabe (1948-1956-1967 e 1973)?…Não foi por acaso nesse período que Israel conquistou todos os Territórios que tem hoje e muito mais?…Enfim, não foi nesse período que tudo o que o BDS reclama foi gestado?…Bom, enfim, não estou aqui para julgar e tampouco para tomar partido, mas o fato é que é realmente comodo ficar sentado na oposição jogando pedras no governo – e ter propostas que simplesmente “parecem” ser boas mas será que são mesmo???…Não poderia ser que outros fatores (não dependentes de Israel) estariam levando o País a algumas mudanças de estratégia???….Enfim, estou apenas pensando alto e não tenho certeza sobre o que deve ou não ser feito, mas eu não consigo concordar com essa visão de que, bastaria eleger a esquerda e Israel iria ao paraíso – quem sabe poderia até mesmo dissolver o exército, pois tudo seria facilmente resolvido pela competente diplomacia da esquerda e obviamente o País nunca mais seria boicotado – Quem sabe???….Deixo aqui apenas uma mera reflexão, nada mais, nada menos….

    Abraços,
    Marcelo.