Nossos Egitos

25/03/2013 | Religião e Judaísmo

Sempre me pergunto como cumprir com o mandamento dos  sábios do Talmud (lei oral judaica) de que em todo Pessach nos devemos sentir como se nós mesmos estivéssemos saídos do Egito. Como se nós mesmos no século XXI estivéssemos sido escravos por 400 anos no Egito faraônico. E a partir disso, nos identificarmos com a história e o desenvolvimento de um povo e uma fé.

Obviamente surgem várias perguntas deste mandamento. “Como sentir-se escravo dentro de uma sociedade democrática? Será que as famosas analogias de nossa “escravidão” em relação a moda ou sobre o que os outros pensam de nós, ou ainda, de nossa necessidade de estar “conectados em facebook;e-mails…” se comparam á escravidão física e real?; Será que este pedido de identificação não caducou e deixou de ser relevante para nossos tempos?”.

pessachA partir destes questionamentos passei a buscar nas fontes judaicas algumas explicações sobre este pedido. Claramente encontrei várias opiniões dentro da enorme biblioteca judaica que cobre quase 1500 anos de debates sobre o tema em específico. Entre as respostas algumas me chamaram muito a atenção e adotei de forma pessoal.

Em Pessach há um chamado para limpar e não possuir em nossas casas (bdikat Chametz)  e nem ingerir chametz (alimentados fermentados) durante toda a semana da festa. Para isso, necessitamos de toda uma preparação especial de limpeza total da casa, compra de produtos e alimentos para o período e etc… Junto a isso há uma tradição de reunirmos nossas famílias e amigos em volta da mesa do Seder (“cerimônia” durante a refeição das primeiras noites) e lermos a Hagada (livro de rezas e contos da festa).

Descobri em minha investigação que todos estes rituais estão conectados com aquele pedido/ensinamento que toda geração deve ver a si mesma como saída do Egito. A palavra “Egito” em hebraico tem a mesma raiz das palavras “limite/estreito/limitador”. Ou seja, Egito é aquilo que nos limita, que nos diminui ou que nos faz mais estreito. O chametz é todo aquele alimento fermentado ou “azedado”. Fazendo uma generalização, a fermentação do pão, por exemplo, nada mais é que o fenômeno de crescimento da farinha e água com ar. Não existe um crescimento em essência ou com mais ingredientes, apenas inflamos a “coisa”. O azedamento, por exemplo, é o fenômeno de colocar o pepino em conserva e esperar que ele “de uma azedada-apodrecida”…

Sendo assim, pode-se traduzir a palavra Chametz como tudo aquilo que nos faz inflar, encher, mas sem agregar em essência ou, ainda, aquilo que nos faz “azedar/apodrecer”. Exemplo disso são nossas atitudes guiadas por ego, egoísmo, soberba… Inflamamo-nos e queremos parecer o que de verdade não somos. Relacionamo-nos com outros ou até com nós mesmos “no alto de nossa soberba”.

A partir disso, posso concluir que o ritual que os sábios determinaram há quase 1500 anos tem um significado e uma relevância enorme até os dias de hoje. Durante a época de Pessach, cabe a cada um, em todas as gerações, buscar realizar uma auto-análise de suas atitudes, seus pensamentos e comportamentos. Deve-se buscar o chametz dentro de cada um, pois estes são nossos Egitos e quando conseguirmos tirar isto de nós estaremos realizando nosso êxodo pessoal e rumando à nossa verdadeira essência.

Na tradição judaica esta essência é simbolizada pela Matza (pão ázimo) o alimento que os israelitas levaram para sua jornada no deserto. Jornada, esta, que resultou na formação de um povo e de uma nação com uma fé e um conjunto de leis e práticas éticas de relacionamento entre o EU e o TU.

Por isto, desejo que neste Pessach possamos vernos livres desse chametz, saindo de nossos Egitos e atingindo nossa verdadeira essência/liberdade.

 

Chag Sameach  (Feliz festa)

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