Nunca perdoarei os árabes

15/10/2015 | Conflito, Opinião, Sociedade.

Em meio à conturbada situação de Israel, um amigo desabafou: “Nunca perdoarei os árabes por provocarem esse preconceito dentro de mim. Nunca os perdoarei por fazerem do preconceito a minha luta por sobrevivência”.

O medo tem, de fato, consumido o cidadão israelense. Ele provoca uma atenção redobrada que, em determinados momentos, se desenvolve para raiva, intolerância ou mesmo violência. Não é fácil encontrar as palavras adequadas para responder a um desabafo como o do meu amigo. Para ele e muitos outros, a atual situação remete ao medo que sentiam durante a Segunda Intifada. Da forma que contam, trata-se de um trauma ou um constante receio que, com muita dificuldade, foi controlado. Trata-se do desespero que é pensar na possibilidade de ter um potencial terrorista diante de você. É uma descrição e uma mentalidade que levam tempo para nós, imigrantes, entendermos. Esses relatos são partes do mosaico que é a identidade israelense; pequenas pistas em uma imensa investigação.  

Em meio à conturbada situação de Israel, há também uma ignorante tendência de equalizar entendimento e justificativa. Perguntar “por que” em dias conturbados é quase uma afronta. Refletir sobre as causas da atual onda de violência é quase um processo de humanização do terror.

É realmente difícil encontrar a “frieza de espírito” (kor ruach), uma expressão comum por aqui, para ponderações. Mas, convenhamos, não há motivo para perguntarmos “por que” em dias de paz, quando tudo está (aparentemente) bem. Não por falta de interesse, mas porque não há necessidade de (também) nos preocuparmos com a normalidade. Em efeito, é nos dias em que o caos parece se tornar a ordem que o questionamento torna-se mais fundamental. Afinal, para neutralizarmos o distúrbio instaurado há de se entender a sua causa. Para encontrarmos a solução, há de se compreender a situação

Também é verdade que o Oriente Médio não é para leigos e que tudo tende a ganhar imensas proporções. Numa região onde a ordem é a guerra, são os dias de paz que, infelizmente, se tornam um “distúrbio”. Por aqui, “guerra é paz”  no mais estrito senso da lógica orwelliana. E, por mais paradoxal que pareça, são os períodos de tranquilidade que tendem a provocar questionamentos.

No entanto, deve-se confrontar essa tendência malévola de fazer do entendimento uma justificativa moral. Deve-se questionar e não permitir que um nacionalismo cego e deturpado domine o discurso público. Esse nacionalismo é doentio – ele é obcecado pelo conflito e não quer entendê-lo por medo que este desapareça. Na realidade, esse nacionalismo vive do conflito e se alimenta da violência alheia que, por fim,  justifica a sua própria existência – “quanto mais volência, mais nacionalismo”.  

Uma pena que assim seja. É em meio à tristeza e à raiva provocadas pelo terrorismo islâmico que o nacionalismo judaico se torna refém da ignorância. Parafraseando o meu amigo israelense: “Nunca perdoarei os árabes por nos tornarem ignorantes. Nunca os perdoarei por fazerem dessa ignorância a base do nosso nacionalismo”.

Comentários    ( 10 )

10 Responses to “Nunca perdoarei os árabes”

  • Rita Burd

    15/10/2015 at 14:32

    Nobru,
    o título da tua matéria, é tão impactante que praticamente nos obriga a ler.
    Imagem voces da Conexão como estão os corações e mentes dos seus pais.
    Imaginem que a cada atentado, cada pai e mãe recebem a notícia como se os próprios fossem os feridos.
    De longe, tudo aumenta, cresce e se torna mega.
    Rita

  • Mario S Nusbaum

    15/10/2015 at 15:38

    Sempre que leio esse tipo de coisa fico me perguntando se na Alemanha de 33 haviam judeus se perguntando porque os nazistas os odiavam tanto, se havia algo que eles poderiam fazer para mudar a opinião deles. E no Sul dos EUA, será que os negros deveriam ter perdido tempo filosofando sobre isso?

  • Yair Mau

    15/10/2015 at 15:51

    excelente, belo título, belo texto!

  • Marcelo Starec

    15/10/2015 at 21:00

    Parabéns Bruno!…Excelente texto!…E gostaria que as pessoas entendessem que sim, as ações de uns provocam as reações de outros – e vice-versa!…Desde pelo menos o início do século XX, os judeus foram virtualmente expulsos de todo o Oriente Médio e tiveram de se refugiar em um território minúsculo e desprovido de recursos naturais – e o fizeram!…Ainda assim, a ideia de “jogar os judeus ao mar” foi o fator dominante das lideranças árabes – que hoje tem os palestinos como uma espécie de “ponta de lança”, a “linha de frente” dessa estratégia!…Os ataques a civis judeus ocorriam antes de 1948 e após a independência de Israel – o islã radical, fascista, totalitário e anti-democrático está presente nessa equação!…Precisamos, contudo, em meu entender, ter a sabedoria de separar o povo palestino das suas péssimas lideranças, as quais deixo aqui muito claro o meu desprezo!…Elas não estão dispostas, até hoje, a uma agenda de construir um Estado Pacífico, lado a lado com Israel, mas a prosseguir na luta para “jogar os judeus ao mar”!…Isso é péssimo para os palestinos e também é péssimo para nós judeus – eis que fomenta o nosso extremismo – que hoje é muito pequeno mas vai crescer cada vez mais!…É realmente muito triste – me deixa pessimista e tentando “pensar fora da caixa”, ou seja, ver quais soluções são possíveis apesar dessas péssimas lideranças palestinas!…Há uma geração inteira que precisa ser “preparada e educada para a paz e a coexistência” e tenho plena convicção de que foi exatamente esse o objetivo dos Acordos de Oslo – sem podermos contar com as lideranças palestinas para isso, por mais verbas que recebam, só nos resta buscar alguma alternativa viável para construir um Estado Palestino viável e pacífico – Que surjam novas soluções!!!…

    Um abraço,

    Marcelo.

  • Carlos Bekerman

    15/10/2015 at 22:54

    Ótimo texto!! Nos faz realmente pensar!! valeu!!:-)

  • Dani Lindenbaum

    16/10/2015 at 16:05

    Nunca perdoarei os extremistas arabes por fazerem a direita nacionalista israelense se fortalecer! Alias um alimenta o outro, um odio necessita do outro odio.

  • Renan

    16/10/2015 at 20:35

    Muito bom despertar essa curiosidade a respeito da relação entre os judeus e árabes. A reflexão entre esse ódio, acredito ser algo muito mais antigo e que não tem conexão somente com os árabes. O povo judeu é um dos maiores milagres vivos no nossos dias, mesmo que muitos não queiram admitir.
    Eles foram perseguidos durante toda sua história e continuarão a ser até o final dos tempos, mas por que? Bom aqui podemos recorrer aos históricos do povo que possui uma das mais antigas e bem documentada história de todo mundo.

    O povo judeu é o povo escolhido por Deus e desperta uma batalha espiritual que muitas vezes não é lembrada. Esse ódio contra os judeus é algo muito mais profundo que uma simples inveja. Quantas vezes esse povo chegou perto da destruição total e foi salvo por inúmeros milagres no final das contas.
    Será difícil de entender o motivo de ódio exato de cada povo em relação aos judeus ou qualquer outra nação ou raça, porém para combater esse ódio devemos tomar como exemplo a vida de um judeu que passou por aqui 2 mil anos atrás e deu sua vida por todos nós. Procurem a paz em Yeshua !!!!

    Abraços.

    Renan

  • Amorim

    26/12/2015 at 01:35

    Esse é o problema do seu irmão, Isaque; e vocês vão querer fazer o mesmo?
    O caminho não é esse porque se fosse esse o caminho Ismael teria sido morto no deserto porque tinha ido para morrer mas o nosso Pai enviou o seu anjo para que não morresse.
    Eles não estão agradecendo a misericórdia de Deus; mas o problema principal não é esse é o pecado.
    Esta escrito: 2 Crônicas 7
    …13Se Eu fechar o céu para que não derrame a chuva, ou ainda se ordenar aos gafanhotos que devorem a terra, ou mesmo enviar a praga sobre a minha própria gente; 14e se esse meu povo, que se chama pelo meu Nome, se humilhar, orar e buscar a minha face, e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e seus erros e curarei a sua terra. 15De hoje em diante os meus olhos estarão observando e os meus ouvidos atentos às orações que serão realizadas neste lugar…
    O mesmo Deus de Abraão, Isáque e que não deixou morrer Ismael e Jacó esta no controle de tudo.
    Porem o ódio, o rancor, a ira será lançado no inferno junto com os que guardam essas coisas em seus corações porque o eterno Deus é Deus de paz e santidade

Você é humano? *