O atoleiro do Oriente médio mais atolado ainda

09/10/2015 | Conflito, Política.

Em um mês extremamente turbulento para a política e a dinâmica internacionais, a violência e confusão se disseminam com mais força pelo Oriente Médio. Neste último mês, vários integrantes dessa novela mudaram seu foco e dinâmica, com novos atores e novos enredos.

Para ler a respeito da atual onda de violência em Jerusalém e em Israel em um texto atualizado, clique aqui.

Uma das mais complicadas regiões do mundo, o Oriente Médio teve em sua complexa equação mais uma incógnita adicionada: a chegada do exército russo. O presidente da Rússia Vladimir Putin decidiu intervir com seu exército na guerra síria e tentar salvar um de seus antigos aliados, que trava uma guerra que já dura 4 anos e meio com o saldo de de um quarto de milhão de mortos e provocou à Síria a perda de mais de 6.5 milhões de habitantes.

Um dos mais terríveis efeitos colaterais dessa violência foi o surgimento e o desenvolvimento do ISIS[ref]Também conhecido em árabe como Daesh ou Estado Islâmico.[/ref]. Atualmente ocupando a posição de inimigo mundial “número um”, sua eliminação (a do ISIS, não a da violência, que fique claro) vem bem a calhar como a desculpa perfeita de Putin para a entrada russa na guerra.

E Putin nem ao menos tenta disfarçar que o ISIS se trata mesmo de uma desculpa. Em primeiro lugar, porque a força aérea russa tem atacado alvos do Exército Rebelde Sírio (armado pelos EUA) e não do ISIS,  adotando mais ou menos a mesma cara-de-pau dos turcos ao bombardear bases do PKK curdo[ref]O PKK (Partido dos Trabalhadores Curdos) é a mais importante e influente organização turca separatista que vem lutando ativamente pela fundação de um Estado curdo independente[/ref] enquanto afirmavam estarem atacando o ISIS. Em segundo lugar, porque os russos estão criando coalizões com o Irã e o Hezbollah com o objetivo  de defender a faixa costeira alauíta (ou seja; reduto do presidente sírio Bashar al-Assad), e não para destruir bases terroristas. Não bastasse isso, os russos desembarcaram na Síria equipamentos como radares antiaéreos e mísseis terra-ar e terra-mar. Até onde se sabe, o ISIS não tem aeronáutica, nem tampouco navios de guerra. Em último lugar, sabe-se que não há como combater grupos de guerrilha sem soldados a pé – e essa não foi, pelo menos até o momento, a tática russa.

O que eles sim fizeram foi invadir o espaço aéreo da Turquia, que é membro da OTAN[ref]Este é um detalhe importante. Ser membro da OTAN significa que, de forma quase automática, outros membros auxiliarão no caso de uma invasão por um exército estrangeiro. É uma forma moderada de dizer que um seríssimo conflito global poderia se deflagar de um incidente destes[/ref]. A Turquia ,com razão, não gostou de ter SUs-34 sobrevoando seu território e exigiu explicações. “Desculpinha, foi mal, errei a curva” foi mais ou menos a resposta dos russos. Ninguém acreditou. Este foi provavelmente um teste de velocidade de reação. Mas a história, por hora, parou por aí.

Espere! Não ligue já! Tem mais!

A Arábia Saudita, importantíssimo aliado americano no Oriente Médio, e uma das mais evidentes forças motoras do terrorismo sunita pelo mundo, está em situação complicada. Com o baixo preço do petróleo, suas reservas monetárias foram reduzidas em mais de 10% desde o ano passado e o índice de sua economia tem perdas acumuladas na casa dos 30%. Envolveu-se em uma guerra com o Iêmen que já resultou em mais de 4.500 mortes, metade deles civis.

Tudo isso tem seu peso na influência política do reino Saudita sobre seus estados apadrinhados e sobre os movimentos extremistas sunitas pelo mundo. Recapitulo aqui um exemplo importante: há pouco tempo, a Arábia Saudita patrocinou um acordo entre o governo do presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi e o Hamas, na faixa de Gaza. Foi considerado um sucesso na época, e deveria trazer uma maior colaboração entre as duas entidades para pôr fim ao impasse quanto a reconstrução de Gaza. Mas, no mês passado, o Egito começou a encher com água do mar os túneis que ligavam a cidade de Rafah do lado palestino com Rafah do lado egípcio. Essa é, na verdade, a segunda fase de um processo que começou com a limpeza de mais de 1000 moradias palestinas em Rafah do lado da faixa de Gaza, para criar uma faixa de segurança na fronteira .

E por falar em Egito…

Desde que levaram uma porrada em si bemol do ISIS no deserto do Sinai, o Egito tem se virado como pode para manter a cabeça fora da água. Um ataque a um suposto comboio de armas matou um turista mexicano e feriu outros dez em setembro. No mesmo mês. um carro-bomba matou dois soldados e deixou vários outros feridos. Segundo especialistas, é só questão de tempo até o ISIS se reagrupar e realizar mais um mega-ataque.

E o contexto?

Enfim, a Síria, como país, já deixou de ser.

O exército russo passeia por aqui, despejando toneladas de bombas “burras”, inclusive sobre civis.

Países sunitas deste lado do Oriente Médio perderam apoio financeiro dos Qatares e Emirados, e o apoio político também sumiu quando a crise dos refugiados emborcou.

E, dentro deste cenário extremamente periclitante, forças extremistas (ou, diria eu, histéricas) decidiram que o maior perigo hoje no Oriente Médio é o de Israel assumir o controle do Monte do Templo. A acusação se fundamenta em grupos extremistas judaicos que fazem questão de realizar orações na Esplanada das Mesquitas. Considerando que isso não é novidade nenhuma, uma vez que esses grupos advocam essa liberdade desde 1967, é difícil entender porque isso seria uma ameaça nova, seja ao lugar sagrado, seja à soberania palestina.

Para ler mais detalhes sobre esta atual onda de violência, clique aqui

Mas acontece que o extremismo religioso dos palestinos da Jerusalém oriental (tradicionalmente muito religiosa) tem sido canalizado para revoltas civis na esplanada, provavelmente pela própria liderança palestina. Isso já envolveu, um dia, pedras e entulhos. Desta vez, os grupos se organizaram com coquetéis molotov e bombas caseiras. Vários jovens e adolescentes saíram por Jerusalém afora a fim de “matar judeus” e vingar El-Aqsa[ref]El-Aqsa é o nome da esplanada e também da principal mesquita na cidade velha de Jerusalém, o terceiro lugar mais sagrado do islamismo[/ref]. Nas últimas semanas, os mortos do lado judeu incluem um jovem casal metralhado  na frente dos quatro filhos pequenos, dois transeuntes na cidade velha e um ativista social.

A polícia israelense fechou o cerco e, nesta geração espontânea de violência, já matou pelo menos três palestinos. O Hamas e outros grupos da faixa de Gaza decidiram mandar recados. Mandam foguetes. Israel revida com bombardeios.

E a solução?

O presidente da Autoridade Palestina Abu Mazen, em seu recente discurso na ONU, disse que iria desistir. Que desmantelaria a Autoridade Palestina e “entregaria as chaves”. Foi blefe, dos ruins. E irresponsável. A grave situação dos palestinos não exige que se chame a atenção ao problema na base do “assim não brinco mais”. Exige responsabilidade de tomar as rédeas e mostrar-se líder, contendo a fervura e, se assim ele quer, criando condições para a existência de um país. Antes de criá-lo.

Mas assustadora mesmo foi a resposta de Bibi Netaniahu. Depois que ficou bem claro que a vizinhança é barra pesada, Bibi falou de tomates. Falou do Irã. E de tomates. E de Parkinson. E fez 47 segundos de silêncio.

Disse que estava disposto para negociações sem pré-condições com os palestinos. É também blefe. Muito, muito ruim. E extremamente irresponsável.

Se ficasse, no entanto, 45 minutos quieto, seria 45 vezes mais estadista do que foi. Estamos na iminência de uma terceira Intifada. Sob o comando de tão irresponsáveis lideranças, talvez só mesmo a fé possa resolver.

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Comentários    ( 6 )

6 Responses to “O atoleiro do Oriente médio mais atolado ainda”

  • Raul Gottlieb

    09/10/2015 at 14:49

    Caro Gabriel

    Gostei da tua análise, mas creio que ela poderia ser ampliada para incluir a passividade do governo Obama, em cuja sombra a Rússia está agindo na Síria, na Ucrânia e na Geórgia. A meu ver se os americanos não tiverem o bom senso de eleger um presidente com uma visão radicalmente oposta de política externa o mundo vai ficar mais e mais inóspito, devido aos avanços de diversas fontes de totalitarismo.

    E não se trata de ser democrata ou republicano. O JFK era democrata e reagiu adequadamente aos russos quando isto foi necessário.

    Sobre o discurso do Abbas na ONU, eu penso que ele ameaçou dizer o que você escreveu, mas não o fez. Soltou um balão de ensaio e se retraiu na hora H. Talvez porque assim ele chamou a nossa atenção para uma ameaça que ele não tem a menor razão de fazer cumprir. Ele está hiper-super confortável com a situação atual.

    Em paralelo a isto, o Bibi (e Israel) neste momento não tem nenhuma voz nesta confusão toda. Somos um elemento neutro para o mundo árabe. É muito conveniente para todos que permaneçamos assim como estamos. Assim que o discurso dele é irrelevante, qualquer que seja, poderia ter falado sobre tomates, pepinos ou sobre o armazenamento de ventos (como fez a Dilma, de forma deliciosa) que não faria diferença alguma. O conflito será resolvido pelo surgimento de estadistas árabes e não de qualquer outra coisa.

    Transcrevo abaixo a frase de um analista brasileiro sobre o PT que serve com perfeição para a OLP e a ANP:

    Espaço para a conversa, para o entendimento, para a distensão? Não há interlocução possível com quem quer nos destruir. Não é questão de gosto, mas de sobrevivência. A vida nos ensina a respeitar a natureza das coisas, das pessoas, dos processos, das entidades, dos grupos. E a OLP [o PT] tem a sua. Para que pudesse fazer diferente, teria de ser composto de outra matéria.

    Um abraço, Shabat Shalom e cuide-se bem!
    Raul

    • Gabriel Paciornik

      09/10/2015 at 20:39

      Na verdade, tenho o costume de escrever só sobre o que eu entendo. E a cabeça do Obama, sinceramente, eu não entendo. Então, quando há uma direção clara a respeito da maneira em que tomam decisões, eu levo em consideração na análise. Quando há só apatia sem propósito, por conta única e simplesmente inação, queimo meus neurônios e fico na minha, compartilhando minha ignorância.

  • Mario S Nusbaum

    09/10/2015 at 19:54

    “Mas assustadora mesmo foi a resposta de Bibi Netaniahu.”
    Não entendi Gabriel. Assustadora mesmo? O que ele deveria ter dito? O que PODE ser dito quando o líder de um povo com o qual você precisa conversar prega abertamente o assassinato dos seus representados? Na minha opinião não resta nada a dizer, a fazer, muito.

    • Gabriel Paciornik

      09/10/2015 at 20:36

      Ser um líder responsável, por exemplo? Propor soluções? Demonstrar controle e exercer controle? Ele fez algo disso? Bibi mostrou-se vazio, sem planos, sem vontade política que não seja a assuntos batidos e fora de seu poder. É, para mim, assustador que quem tem que resolver o problema não tem ideia do que está fazendo.

    • Mario S Nusbaum

      12/10/2015 at 03:10

      Gabriel, li sua resposta antes de ler o post do Marcelo. Ele foi mais claro do que eu dizendo o que também penso, não existe nada que o Netanyahu pudesse ter dito. Que soluções ele poderia ter proposto quando o outro lado insiste na ÚNICA que propôs até hoje, a destruição de Israel?
      Já lhe ocorreu que pode não haver solução que dependa de Israel? Há 77 anos atrás tentaram solucionar o problema nazista pacificamente e hoje o Obama tenta a mesma tática com os aiatolás.
      Vale a pena ler o que um palestino acha sobre isso:
      http://pt.gatestoneinstitute.org/6674/palestinos-lideres-mentirosos Aliás vale muito a pena ler outros artigos dele também.
      http://pt.gatestoneinstitute.org/author/Bassam+Tawil

  • Marcelo Starec

    10/10/2015 at 21:51

    Oi Gabriel,

    Excelente artigo!…Especificamente sobre o Bibi, entendo do seguinte modo: 1) Ele de fato não tem muito o que fazer (na verdade, quase nada!) e o que ele fez me parece razoável (Pedir calma, proibir parlamentares israelenses de fazer discursos num local onde insufla a violência) e dizer que combate o extremismo, seja ele judeu ou árabe…); 2) O discurso do Abbas foi o primeiro e você colocou com perfeição as criticas em relação ao que ele falou – nada tenho a acrescentar; 3) O que Bibi poderia ter respondido ao Abbas na ONU, depois desse decepcionante discurso do nosso “parceiro da paz”???…(Que também vai rasgar os acordos de Oslo tal como fez o Abbas e “partir para cima”?…) ou que tem alguma nova solução (O que em meu entender ele não tem mesmo, não sabe o que fazer!…) e bem, se alguém sabe e tem uma solução que gere a paz e seja viável para o curto prazo, que a apresente então!…Eu não tenho e não acredito em nenhuma “solução mágica”, infelizmente, e acho que a única possibilidade é isso vir a ser construído por alguma nova liderança palestina – que deseje de fato construir (o que até hoje não surgiu, infelizmente…). E aí fico com a sua brilhante colocação – Criar as condições para um País,antes de criá-lo!…Os palestinos precisam de um Ben Gurion palestino!!!…Torço para que isso um dia venha a ocorrer!!!…..

    Um abraço,

    Marcelo.

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