O bloco do “eu te falei” não sairá

25/05/2016 | Eleições; Opinião; Política

Tudo parecia indicar um governo de união nacional. Isaac Herzog, líder da União Sionista, conduzindo, junto ao primeiro-ministro, uma séria negociação para a ampliação da coalizão, a esquerda ensandecida, a mídia cobrindo os desenvolvimentos em tempo real e a sociedade israelense em sua usual apreensão.

No entanto, como de costume, quando a entrada da União Sionista era dada como certa, Israel acordou pasma com mais uma surpresa: não apenas a negociação havia falhado, como o governo passaria a contar com um “novo-velho” membro: o Israel Beiteinu. Pior, Avigdor Liberman, líder da facção russa no parlamento, seria nomeado ministro da Defesa de Israel, a União Sionista se desfaleceria em decorrência de brigas internas e Moshe Yaalon abandonaria a vida política por não estar integralmente alinhado com o discurso nacionalista radical. Para muitos em Israel, “the winter is coming”.

Se a esquerda convulsionava com a forma que o líder da União Sionista “renunciava” aos princípios que o conduziram aos 24 mandatos, agora ele é quem a acusa de ser co-responsável pelo caos político que sucede a falha nas negociações. Enquanto isso, Benjamin Netanyahu assiste do bunker a intensa troca de tiros.

Isaac Herzog afirma que o Partido Trabalhista está repleto de radicais que não representam os príncipios sionistas de tempos modernos; radicais que não permitem à esquerda ampliar seus horizontes eleitorais. Apesar de sua postura estar alinhada com o projeto que possui para o partido, suas declarações são, claramente, um ato de desespero; um solitário choro após ter percebido o suícidio político que, por pura ingenuidade, cometeu. Seduzido pelos feitiços do “mago Netanyahu”, Herzog se ludibriou com tudo o que lhe era oferecido, sem perceber que nada lhe era prometido. Infelizmente, para o promissor líder da União Sionista, é hora de pagar o preço pela empreitada que decidiu iniciar. É hora de “recalcular a rota”.

Ainda assim, em meio aos legítimos ataques à manobra, um deles não apresenta fundamento: o de que Herzog estaria traindo milhares de eleitores que acreditavam ser “nós ou ele”. A crítica, que faz referência ao slogan utilizado durante a campanha, apresenta a mesma distorção vista durante as eleições de março de 2015 em relação as motivações políticas de eleitores de Meretz e Yesh Atid que optaram pelo voto estratégico.

Naquela época, esquerdistas e centristas, desiludidos com o papel de oposição e cansados de Netanyahu e seus “aliados naturais” (Naftali Bennett, Ayelet Shaked, Uri Ariel e companhia), viram na União Sionista a possibilidade de mudança – tornar o partido a maior bancada da Knesset e, com isso, permití-lo formar um governo essencialmente de centro-esquerda. Esses tinham como objetivo central destituir o reinado de Bibi e, para tal fim, estavam dispostos a renunciar suas preferências partidárias pelo melhor projeto eleitoral naquele momento. O voto na União Sionista era, invarialmente, a melhor estratégia para que o objetivo fosse alcançado, queira Zehava Galon, atual líder do Meretz, ou não.

Engana-se quem pensa que esses eleitores pragmáticos buscavam fortalecer a União Sionista no parlamento ou demonstrar apoio às políticas de centro-esquerda de um partido que buscava renascimento. Equivoca-se quem aponta o dedo julgador como quem diz “na próxima vez, você já sabe”.

A instalação de um governo de união nacional, em caso de derrota, era o preço que estavam dispostos a pagar por votarem na melhor possibilidade de por fim ao império nacionalista radical. Não há, portanto, qualquer motivo para arrependimento – o mesmo será feito se houver, como em 2015, a real possibilidade de tirar Benjamin Netanyahu do poder.

Na época, cabe lembrar, as pesquisas corroboravam com a ideia de voto estratégico – a tão sonhada mudança era plausível. Ainda assim, os mesmos que naquele período insistiam em apontar o risco de um governo de união nacional, ao invés de enaltecer a possibilidade de mudança, são os mesmos que hoje argumentam que o voto pragmático foi um erro. Esses parecem não entender que as recentes negociações entre Herzog e Netanyahu não contradizem o projeto eleitoral de 2015 abraçado por milhares de eleitores. A crítica não passa de uma difamação anacrônica.

De qualquer forma, com o fim das conversas e a certeza de que a profecia não se materializará, o bloco do “eu te falei” terá que guardar seus tambores em casa. Hoje não haverá festa nas ruas de Israel; apenas uma pequena celebração na residência do primeiro-ministro.

 

Comentários    ( 5 )

5 comentários para “O bloco do “eu te falei” não sairá”

  • Mario S Nusbaum

    26/05/2016 at 00:22

    Meu conhecimento sobre as nuances da política israelense, é muito pequeno, principalmente da interna. Mas baseado nele (e peço que acreditem, Bruno e todos os demais colegas), minha pergunta é 100% sincera e sem segundas intenções: dado que Israel está em guerra com quem está, esta não é a melhor (menos pior) opção?
    Stalin não foi mais útil do que seria Gandi para derrotar Hitler? Acho que o que estou querendo dizer (a grosso modo) é que, para negociar com quem argumenta, é melhor contar com um intelectual, mas para negociar com quem só sabe atirar, é BEEEEEMMMMMMMMM melhor um sniper.

  • Raul Gottlieb

    26/05/2016 at 12:18

    Caro Mario,

    Também não sou um expert em política israelense, mas me parece que o Lieberman é mais fanfarrão do que efetivo. Sem dúvida que Israel precisa de um governo que saiba enxergar os árabes da forma como eles são, sem ter a cabeça nas nuvens. Mas o Lieberman não agrega muita coisa nem em competência nem em visão. Ele tem votos, mas veja que a Dilma também os teve,

    Abraço,
    Rau

    • Mario S Nusbaum

      29/05/2016 at 23:33

      Caro Raul, (não é só reciprocidade, sempre tive muito carinho por você), NUNCA fui fã do Lieberman, mas minha opinião sobre a popularidade dele é a mesma que tenho sobre a do Trump, é uma REAÇÃO ao extremismo do outro lado.
      Ambos são consequência mais do que esperada do bom-mocismo do Obama e da esquerda israelense.
      Mas vamos deixar de lado tanto os EUA quanto Israel, porque a maior prova da minha tese é a Europa Ocidental. A ascensão da extrema-direita nessa região é simplesmente uma reação ao politicamente correto, à falsa presunção de que a culpa por todos os males do mundo cabe ao colonialismo, imperialismo e, no caso específico de Israel à ocupação.
      Vou escrever, mais uma vez (foram no mínimo duas) o que li aconteceu em uma palestra nos EUA. Um judeu esquerdista insistia em culpar Israel por tudo de errado que acontecia na região. No fim do evento outro judeu disse a ele: você parece aquelas mulheres que apanham do marido e pensa “deve ter sido algo que eu fiz”.
      Voltando ao Lieberman, claro que ele não é ingênuo, assim como o Trump não é, mas percebeu que parte da população (a maioria?) está com o saco cheio de ser acusada por tudo o que de errado existe.

  • Henrique Samet

    30/05/2016 at 15:45

    Acho que o autor do texto cometeu um equívoco com a expressão “união nacional”. A forma de derrotar o Bibi passa por uma união da centro esquerda e mais amplamente pela possibilidade de agregar algum partido da direita não extremista.
    “União Nacional” nunca será para o fortalecimento dos moderados tal como aconteceu agora!!!
    O Herzog chama agora seus colégasa de partido de esquerdistas radicais. Comprovou-se ser um “bocó” indigno, desprezível e manipulável .
    Ser moderado hoje em dia corre o perigo da impopularidade. Sugiro tentar refletir sobre a ambiência que permitiu Hitler chegar ao poder pelo voto. Resultou de uma exploração demagógica dos medos populares a que alguns aqui dão ares de “verdade”. O mal estar do mundo se deve então aos árabes, aos mexicanos , aos refugiados etc. Antigamente se devia aos judeus integralmente.
    Nós estamos em um momento de escuridão, ou apagão. Qual é a promessa contida nestes populismos de extrema direita? Eles são mensageiros da morte e é pena que tal como os alemães certos setores só darão conta do erro de escolha depois da catástrofe anunciada.

  • Iana Abecassis

    23/06/2016 at 16:49

    Estou magoadíssima, não consigo postar meus comentários, principalmente nos posts do Bruno Lima que é o meu PREFERIDO!

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