O boicote a Israel funciona?

05/02/2014 | Conflito; Economia; Política

Comprei ingressos para assistir shows de dois artistas internacionais em Tel-Aviv no próximo verão.

Quando ainda morava no Brasil, shows internacionais eram sinônimo de stress no ato da compra: altíssima demanda por ingressos, sites de venda precários, carga total vendida em menos de meia-hora. Anunciava-se que tal evento teria suas entradas vendidas a partir das 23:00 e todos já estavam no site de vendas às 22:55, atualizando a página a cada segundo para serem os primeiros a comprar e garantirem seus lugares. Quanta adrenalina!

Poster dos shows dos Pixies e do Soundgarden, no Estádio Bloomfield, em Tel-Aviv, 17 e 18 de junho de 2014.
Poster dos shows dos Pixies e do Soundgarden, no Estádio Bloomfield, em Tel-Aviv, 17 e 18 de junho de 2014.

Em Israel, comprar os ingressos é simples: a demanda é baixa e muitas vezes demora semanas ou meses até que se esgotem as entradas. O frio na barriga vem depois: será que o artista vai aparecer mesmo?

Vivemos em plena era do BDS: boicotes, desinvestimento e sanções!

O que é o Movimento BDS?

Para governos e empresas, a participação no movimentos BDS – que visa criar um desconforto na sociedade israelense a ponto desta exigir de seu governo o fim da ocupação dos territórios palestinos – pode ser pontual: já são vários os países (a União Européia como um todo, por exemplo) que exigem do Estado de Israel que identifique instituições acadêmicas localizadas “a Leste da Linha Verde” (um eufemismo israelense para “em territórios palestinos ocupados”, o termo usado internacionalmente), com as quais não têm interesse em cooperar. O acordo de livre-comércio entre o bloco europeu e Israel também caminha em direção à interpretação estrita da expressão “made in Israel”: muitos dos países europeus já consideram que, se foi produzido nos assentamentos, não é made in Israel.

Para os artistas internacionais, que já não vão se apresentar dentro dos territórios de qualquer maneira, só resta uma forma de aderir – mesmo que cegamente – à causa: cancelar seus shows em Tel-Aviv. Muitas vezes, não se trata nem de aderência cega à causa, mas de sucumbência à pressão de seus pares.

Mas é claro que não estar na rota das turnês mundiais não afeta ninguém. Em nenhum momento de sua história, a agenda cultural do país esteve cheia de eventos internacionais. O boicote econômico à produção agrícola e industrial dos territórios também não é representativo – ainda que tenha um potencial de incomodar bastante ao longo da próxima década, se receber mais adeptos. O principal boicote que o Estado de Israel sofre – e este começou já à época de sua fundação, duas décadas antes da ocupação – é político. Israel sofre de um isolamento diplomático bastante prejudicial.

Poster do show de Neil Young no Parque HaYarkon, em Tel-Aviv, em 17 de julho.
Poster do show de Neil Young no Parque HaYarkon, em Tel-Aviv, em 17 de julho de 2014.

O boicote da Liga Árabe

Logo após a Guerra de Independência, além de não reconhecerem o novo país, os Estados árabes institucionalizaram no nível das relações internacionais o boicote informal já existente à “produção sionista”. Foram estabelecidos três níveis de boicote econômico: cada país deveria optar entre (1) boicotar produtos de empresas israelenses; (2) boicotar produtos de empresas israelenses e de empresas estrangeiras produzidos em Israel; (3) boicotar produtos produzidos em Israel ou produzidos no exterior por empresas que negociam com Israel. Quem visitou o país em suas primeiras décadas (até os anos 1980), lembra-se de que eram poucas as opções disponíveis de carros, refrigerantes e até cadeias de fast-food. Eu sequer havia nascido, mas escuta-se que em Israel apenas a Coca-Cola – e mesmo assim, só depois de muito esforço – era vendida, enquanto que a Pepsi optou pelo mercado árabe e só chegou por aqui nos anos 1990.

O boicote econômico prejudicou bastante Israel em seus primeiros anos. A economia do país passava por dificuldades e estas limitações atrapalharam bastante seu crescimento e a absorção dos milhões de imigrantes que chegaram ao país, fugidos do Holocausto ou expulsos dos países árabes e muçulmanos. Por outro lado, Israel se viu forçado a buscar soluções internas criativas [ref]Estímulo à indústria nacional em áreas que, após o afrouxamento do boicote, foram substituída por importações, por exemplo, além de racionamento de uma longa lista de produtos[/ref]que acabaram permitindo à economia do país crescer em taxas muito mais altas que a de seus vizinhos que, em teoria, se beneficiavam do boicote.

Com os anos, o surgimento de instituições para a nova economia globalizada e os acordos de paz com o Egito e a Jordânia, muitos países se viram impossibilitados de manter sua aderência plena ao boicote. Pode-se afirmar que atualmente todos os países árabes suspenderam os níveis secundário e terciário do boicote, mantendo apenas a limitação aos produtos de empresas israelenses. Em muitos casos, mesmo esta limitação (o boicote primário) já foi suspensa, ao menos de facto, através do uso de empresas laranja de importação e exportação ou de jure através dos acordos de paz, ou da adesão dos países à Organização Mundial do Comércio, que proíbe seus membros de boicotar outros membros. Resta apenas a opção citada anteriormente, de alegar que a produção dos assentamentos não é israelense e não está sujeita às regras comuns.

O isolamento diplomático: mecanismos e conseqüências

O isolamento político de Israel, entretanto, mantém-se firme. A grande maioria dos países árabes e muçulmanos ainda não reconheceu o Estado de Israel. Muitos sequer toleram contatos culturais ou esportivos indiretos[ref]Clique aqui para ler sobre o caso dos nadadores e judocas olímpicos iranianos.[/ref]. Ao longo das décadas, construiu-se uma realidade em que Israel é o país com participação mais reduzida nas instituições das Nações Unidas.

Os leitores que acompanham competições esportivas conhecem a história: Israel foi sendo gradualmente excluído de todas as competições asiáticas, passou décadas isolado e apenas nos anos 1990 foi plenamente acolhido pelas instituições europeias. A política internacional, entretanto, é um pouco mais dura. O Estado de Israel jamais foi recebido pelas instituições asiáticas e, como aqui não estamos falando de brincadeiras esportivas, tampouco pôde posicionar-se como membro da comunidade europeia.

Os artigo 23 da Carta das Nações Unidas determina que os dez membros não-permanentes do Conselho de Segurança devem ser eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos, respeitando a distribuição geográfica:

1. O Conselho de Segurança será composto de quinze Membros das Nações Unidas. A República da China [ref]Atualmente, a República Popular da China.[/ref], a França, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas[ref]Atualmente, a Federação Russa.[/ref], o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América serão membros permanentes do Conselho de Segurança. A Assembléia Geral elegerá dez outros Membros das Nações Unidas para Membros não permanentes do Conselho de Segurança, tendo especialmente em vista, em primeiro lugar, a contribuição dos Membros das Nações Unidas para a manutenção da paz e da segurança internacionais e para os outros propósitos da Organização e também a distribuição geográfica equitativa.

O costume – que tem peso de lei no direito internacional – ajudou a consolidar uma distribuição fixa das vagas: são sempre dois latino-americanos, três africanos, dois asiáticos, um país da Europa Oriental e dois do “Grupo Europa Ocidental e Outros”, que inclui o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. Adicionalmente, há sempre um representante dos países árabes, ocupando alternadamente uma vaga asiática ou africana.

Esta divisão resulta no fato de que as eleições na Assembleia Geral são mera formalidade. As vagas são divididas previamente dentro dos Grupos Regionais e raramente dois países lançam oficialmente candidaturas para o mesmo mandato, chegando-se à votação própriamente dita com “as cartas marcadas”. Israel, obviamente, nunca teve a oportunidade de ser membro do Conselho de Segurança, o órgão mais importante da Organização das Nações Unidas, o único com poderes executivos.

As demais comissões funcionam de forma análoga. A principal diferença está na inexistência da figura dos membros-permanentes e seu respectivo poder de veto e no número ampliado de membros, que podem chegar às dezenas. Estas características permitem uma participação maior dos países do terceiro mundo, inclusive como protagonistas. Ainda assim, todas as instituições têm seus Estados participantes definidos através dos Grupos Regionais, dos quais há apenas um país excluído: Israel. Este arranjo leva a situações bizarras em alguns destes “conselhos de segundo escalão”: o Conselho de Direitos Humanos, por exemplo, com seus quarenta e sete membros, para o qual Israel também nunca foi eleito, transformou-se num palco de propaganda antissionista. Cerca de metade das resoluções aprovadas pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas condenam Israel.

Manifestantes pró-Palestina em Londres pedem o boicote a produtos Israelenses.
Manifestantes pró-Palestina em Londres pedem o boicote a produtos Israelenses.

Ainda que a questão dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados seja bastante delicada[ref]O último artigo do Bruno nos propõe uma interessante discussão sobre os limites do que se pode fazer em defesa da “nossa segurança”[/ref], pode-se afirmar que o Estado tem mais méritos que deméritos. Ainda que hajam atos condenáveis cometidos pelo Estado de Israel, eles certamente não representam 45% dos atos condenáveis no âmbito dos direitos humanos em todo o mundo. Entretanto, esta é a proporção de resoluções condenando Israel em relação ao total de resoluções aprovadas pelo Conselho. Fica caracterizado que esta instituição, composta atualmente por Estados como Cuba, Rússia, Arábia Saudita, Paquistão e Serra Leoa, entre outros campeões dos direitos humanos e criada há menos de uma década, já se tornou mais um grande desperdício de dinheiro e oportunidade ao deixar-se dominar por uma agenda que visa prejudicar Israel enquanto acoberta grandes vilões dos direitos humanos, como Ucrânia, Líbia e Congo, apenas para citar três dos países que foram membros do Conselho nos últimos anos.

A influência econômica árabe sobre as nações miseráveis da África Subsaariana e a formação do bloco dos países “não-alinhados”, reunindo a grande maioria do terceiro mundo, resultou no que convencionou-se chamar de “maioria automática anti-Israel”, responsável, entre outras pérolas, por igualar sionismo a racismo.

Em função desta situação bastante delicada, e também para persuadir o governo israelense a levantar o boicote que havia imposto ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, o grupo regional “Europa Ocidental e Outros” admitiu recentemente Israel como membro associado para suas atividades em Genebra, onde está sediado o Conselho, o que permitirá ao país um acesso maior a mecanismos de defesa no âmbito específico das excessivas condenações por violações de direitos humanos.

Neil Young vem mesmo?

O sucesso das sanções políticas e econômicas internacionais é amplamente contestado. Ainda que muitos afirmem que os estragos econômicos causados pelas sanções tenham influenciado diretamente a eleição de um presidente moderado no Irã, no clássico caso do Iraque, por exemplo, décadas de sofrimento do povo não impediram nenhuma atrocidade por parte do regime de Saddam Hussein. Mas o novo movimento BDS – cujo mais recente episódio envolve a atriz americana Scarlett Johansson, a ONG internacional Oxfam e a companhia israelense Sodastream no comercial de televisão acima – inspira-se na bem-sucedida campanha internacional de deslegitimação do regime de apartheid sul-africano e é defendido até por alguns intelectuais israelenses[ref]Clique aqui para ler o notório artigo publicado pelo Prof. Niv Gordon no Los Angeles Times, cujo apelo à comunidade internacional para que inicie um amplo boicote cultural, econômico e político a toda atividade israelense nos territórios quase resultou no fechamento por parte do governo israelense do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Ben-Gurion do Negev.[/ref] como a única atitude capaz de tirar a sociedade local de sua zona de conforto e levá-la a pressionar o governo pelo fim da ocupação.

Ficamos, então, diante de um interessante questionamento. Sanções internacionais poucas vezes surtiram efeito na política interna de um país e os israelenses, acostumados com o injusto boicote econômico que sofreram durante as primeiras décadas do Estado, sequer dão-se ao trabalho de se importar com a primeira leva de artistas internacionais que cancelam suas apresentações no país. Por outro lado, um amplo boicote exclusivamente à produção dos territórios – da qual toda a população do país se beneficia, ao menos indiretamente – poderia levar a uma maior conscientização de que a ocupação, ao contrário do que afirmam aqueles que se apossaram recentemente do termo “sionismo”, não está nos fazendo tão bem assim.

E eu fico aqui, com meus dois ingressos em mãos, preocupado se os Pixies e o Neil Young vão furar comigo ou não.

Foto de capa: http://static1.businessinsider.com/image/52ef022769beddd711698e3b/scarlett-johansson-makes-fun-of-the-sodastream-controversy-in-super-bowl-ad.jpg

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “O boicote a Israel funciona?”

  • Luiz Carlos

    05/02/2014 at 13:11

    Artigo bem escrito trazendo luz à nós ocidentais do além mar, as três Américas. Fica inequívoco o papel das Nações Unidas da total indiferença com Israel, excluindo-o do Conselho de Segurança deste a criação do Estado de Israel em 1948 – são quase 70 anos! Há hoje cerca de 100 mil foguetes e mísseis pontados para Israel desde os países árabes, graças ao conluio permissível da ONU. Estes mesmos países árabes são os campeões em ferir os Direitos Humanos mutilando cristãos e todos aqueles que professam uma religião que não seja a muçulmana. Israel é o único país livre onde há liberdade de culto para cristãos, muçulmanos, judeus, e outras religiões. La povos árabes, e drusos ocupam mesmo importantes cargos na política e na sociedade como um todo. A segurança e assistência médica é prestada da melhor forma à todas Às pessoas, inclusive aos inimigos feridos, pois a Torá, o Livro Sagrado ordena cuidar e promover da vida e saúde humana indistintamente, é um dever religioso!

    • Claudio Daylac

      05/02/2014 at 17:11

      Olá, Luiz Carlos.

      Obrigado pela visita e pelo comentário.

      Volte sempre!

      Um abraço.

  • Raul Gottlieb

    05/02/2014 at 23:19

    Também gostei do texto, Claudio e imaginei dois cenários:

    Cenário A

    A Apple abre uma fábrica no Vietnam. Contrata 500 vietnamitas e paga a eles salários no nível do país. Com isto ganha aplausos de todo o mundo por estar ajudando o desenvolvimento de países mais pobres.

    Cenário B

    O mesmo acima, só que a empresa é a israelense Sodastream, o Vietnam é a área C da Cisjordânia (que pelos acordos de Oslo ficam sob a administração israelense até o acordo final) e os salários são quatro vezes mais altos que o nível Palestino.

    Com isto ela ganha as vaias e o boicote dos defensores do BDS, que gostariam de ver uma aldeia Palestina no lugar da fábrica (sendo que naquele local nunca houve aldeia alguma – a área é industrial há 70 anos).

    Conclusão

    O mundo todo pode se desenvolver, mas a Palestina tem que ser reduzida a frangalhos e os Palestinos mantidos na pobreza. Talvez com o objetivo de provar a atávica crueldade judaica. Penso que toda aquela argumentação sobre os “territórios ocupados” seja um grande papo furado.

    Um abraço, Raul

    PS eu morei em Israel em 1960 e realmente as ofertas de produtos globalizados era mínima. O refrigerante era um xarope gaseificado chamado “Tempo” e tudo era bem rudimentar. Mas o Brasil também era assim – cheio de marcas nacionais, não havia (ou havia pouco) produto globalizado no Brasil em 1960. Não tenho certeza se a penúria econômica dos primeiros anos de Israel foi fruto de boicote ou de fraqueza econômica mesmo. Israel em 1960 era muito pobre! Na cidade onde eu morava apenas a rua central era asfaltada, o resto era terra batida mesmo. As cidades pequenas se pareciam com aldeias maranhenses. A diferença é que o Maranhão ainda é o Maranhão.

  • Nelson Burd

    06/02/2014 at 16:45

    Tempo é sensacional. Na frente da minha casa, tem um lugar que vende esses refrigerantes “shel paam” (daquela época). Parece uma água mineral com gás misturada com xarope. É DEMAIS.

  • Raul Gottlieb

    07/02/2014 at 17:15

    Eu lembro do Tempo e concordo parcialmente com o Nelson: é [ruim] demais!

    Um líquido pegajoso com sabor mais artificial do que o sorriso da Dilma.

    Era impossível distinguir o de limão do de grapefruit, era tudo o mesmo gosto de xarope.

    Mas custava uma lira, o que é pouquinho. Lembro da entonação dos meninos árabes berrando “Tembo be Lira” (os árabes pronunciavam o p de forma diferente) nos pontos de ônibus de Jericó e Hevron.

    Mas é o precursor do Sodastream que a gostosa anuncia. Ela vale a pena! O Tempo era fraquinho.