O Boicote Contra a Liberdade

09/05/2015 | Opinião; Política

Em 2011 escrevi um artigo chamado “Liberdade de expressão – um caso de quase-certeza”. No texto, cito casos concretos que foram julgados pela Suprema Corte do país. Em todos eles, os juízes se viram obrigados a discutir situações em que havia um pedido de limitação da liberdade de expressão.

O primeiro caso ocorreu nos primeiros anos pós-independência, logo em 1953. Ali, naquele julgamento, criou-se os parâmetros para este tipo de situação. Foram estabelecidas regras que permearam toda a história jurídica israelense que envolve a limitação do direito a opinião. Expliquei sobre um certo “teste” desenvolvido pelo juiz Shimon Agranat denominado “teste da quase-certeza” que dizia mais ou menos o seguinte:

No caso específico, (a Suprema Corte) estabeleceu um teste chamado “quase certeza” – toda vez que a liberdade de expressão colidir com outro direito basilar, este determinaria qual direito deverá prevalecer.

Mas o que era este “teste” exatamente? Os juízes deixaram claro que a consagrada liberdade de expressão não era um sinal verde para alguém gritar falsamaente “fogo!” em um teatro lotado, apenas para gerar pânico. O teste de “quase-certeza” deveria analisar o caso concreto afim de determinar se a limitação da liberdade de opinião ocorreria em decorrência de um perigo claro e iminente a outro indivíduo. Em outras palavras, o cerceamento a esta liberdade só deveria ocorrer nos casos em que há “quase-certeza” da existência de dano real ao interesse público.

Ao final do artigo citei a recente (2011) promulgação da “Lei de prevenção de danos ao Estado de Israel através de boicotes (2011)” como mais uma tentativa de limitar por lei o direito a opinião. Esta lei determinava que qualquer chamado público a uma revolta econômica, acadêmica ou cultural contra o país – incluindo as regiões sob o seu controle (assentamentos) – poderia ser criminalizada, sendo passível de uma ação de perdas e danos.

Naquele ano eu observava que a lei era uma manobra política para impedir a crítica ao governo – especialmente com relação aos assentamentos. Não seria mais possível – por exemplo – iniciar um boicote pacífico a produtos produzidos por colonos. E então profetizei:

“Certamente, este caso chegará a Suprema Corte israelense que deverá se inspirar mais uma vez na sábia sentença de 1953. Acredito que a decisão será apenas uma: O poder judiciário utilizará a sua competência para anular a recente lei promulgada pelo poder legislativo pois uma lei deste tipo não passará no teste determinado pelo juiz Agranat. Os juízes demonstrarão que existem no mundo países ditatoriais em que dizer “sim” é sempre permitido… Somente um país que eleva a liberdade de expressão a um princípio basilar do Estado, permite aos cidadãos o direito de dizer não – não à uma política do governo, não ao ataque a valores democráticos, não à corrupção, etc.”

E o caso finalmente chegou a Suprema Corte. A sentença foi publicada no dia 15 de abril de 2015.

Organizações de defesa dos direitos humanos argumentavam que a lei acabaria com declarações políticas legítimas e prejudicaria o debate público, especificamente em questões tão controversas como a construção nos territórios. Desta forma, uma lei como esta violaria direitos constitucionais como a liberdade de expressão, dignidade e igualdade. Estaríamos aplicando severas sanções contra cidadãos que escolheram um caminho pacífico para atingir seus objetivos políticos, como no caso dos pedidos de boicote a produtos produzidos nos assentamentos.

O governo defendia a lei indicando que o boicote a um determinado grupo não é uma expressão própria e natural da liberdade de expressão e das regras do debate público. Trata-se de uma ação agressiva e, por si só, passível de ser condenada. Na verdade, o boicote seria utilizado como uma ação beligerante e obscena contra um determinado grupo que apenas pensa de forma diferente. O país deveria ter o direito de se defender não só contra danos contra a sua segurança, mas também contra prejuízos económicos.

Durante o julgamento os juízes questionaram os apelantes se haveria a possibilidade de desistência da ação, caso fosse removido a menção aos territórios ocupados.Tal proposta foi terminantemente recusada por aqueles que propuseram o pedido de anulação da lei. Eles explicaram que ainda que  houvesse a remoção desta parte específica, não seria o bastante para sanar todos os danos constitucionais impactados pelo restante do texto.

O tribunal estava composto de nove juízes devido a complexidade da questão: “boicotes seriam ou não seriam uma expressão pura da liberdade de opinião?” Após intensas discussões, a Suprema Corte rejeitou o pedido das organizões de direitos humanos e aprovou parcialmente a lei.

No veredito os juízes esclarecem que o boicote é um instrumento legítimo da democracia. Entretanto, por ser uma ferramenta coercitiva, poderia causar danos diretos a outros indivíduos. A lei não proíbe a expressão de uma opinião relacionada com o país ou uma região específica, nem proíbe a participação em qualquer boicote. Desta forma, a lei não estaria censurando um pensamento nem a expressão de qualquer indivíduo, mas sim, estaria dando instrumentos jurídicos para a indenização daqueles que foram objetivamente prejudicados com o boicote. Corroborando este pensamento, os juízes decidiram por unanimidade remover um artigo que permitiria ações de indenização com base nesta lei sem a comprovação do dano sofrido.

Eu discordo integralmente da decisão final. Esta lei, bem como outras que serão votadas no próximo governo põe em xeque o carácter democrático do Estado de Israel. Na medida em que entendo haver uma violação direta a liberdade de expressão política e na medida que percebo uma tentativa de silenciar a crítica a uma determinada ação do governo. A lei protege e dá legitimidade a ocupação israelense nos territórios sob o seu controle.

Em 2011 eu escrevi que a Suprema Corte nos ensinaria qual era o limite de nossas liberdades. Como ficou claro e evidente, na Israel de 2015 ela nos ensinou que temos amplo e irrestrito direito de defender a ocupação.

 

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Comentários    ( 22 )

22 comentários para “O Boicote Contra a Liberdade”

  • Raul Gottlieb

    09/05/2015 at 17:18

    Marcelo,

    Não consigo entender esta lei. Gostaria que você explicasse melhor.

    “Qualquer chamado público a uma revolta econômica, acadêmica ou cultural contra o país – incluindo as regiões sob o seu controle (assentamentos) – poderia ser criminalizada, sendo passível de uma ação de perdas e danos.”

    Você consegue dar exemplos do que seriam os “chamados públicos contra o país”?

    Uma pessoa convidar outras a não consumir o produto x porque ele é produzido por uma empresa que a pessoa não gosta (por qualquer motivo) seria um chamado público contra o país?

    Uma pessoa convidar outras a não se inscrever na aula do professor x (por qualquer motivo) seria um chamado público contra o país?

    Uma pessoa convidar outras a não assistir os jogos de Israel na televisão porque o técnico não convocou (por qualquer motivo) o jogador x seria um chamado público contra o país?

    Ou seja, como vai ser possível definir o que é contra o país e o que é contra uma determinada empresa, profissional, política?

    Se esta definição não for muito clara esta lei parece abrir as portas para a ditadura. Vale a pena trazer uns exemplos.

    Também ficou esquisita a decisão dos juízes: “a lei … estaria dando instrumentos jurídicos para a indenização daqueles que foram objetivamente prejudicados com o boicote”.

    Pelo que você escreveu, se a Marina me convencer a assistir o filme A, ela fica passível de ser processada pelo produtor do filme B (que é o que eu teria escolhido se estivesse sozinho).

    Creio ser necessário explicar melhor tudo isto. O teu texto me deixou com muitas dúvidas.

    Um abraço,
    Raul

    • Marcelo Treistman

      09/05/2015 at 19:28

      Olá Raul,

      Eu não preciso trazer exemplos. O texto da lei é muito claro definindo o que é “chamado público” e o que é “boicote”. Aqui, você poderá encontrar a tradução (não oficial) da pequena lei em inglês. Veja lá no artigo 2o o que vai abaixo:

      Aquele que publica de forma consciente um convite público a um boicote contra o Estado de Israel,
      onde de acordo com o conteúdo e as circunstâncias da publicação existe a probabilidade de que o convite levará a um boicote, e aquele que promove este convite estava ciente de que esta possibilidade é real, serão consideradas como tendo cometido um dano civil para o qual a Lei de Responsabilidade Civil é aplicável

      Você certamente conseque imaginar as futuras ações que poderão ser embasadas em tal lei. Estou exagerando em afirmar que é uma tentativa de cassar a crítica?

      Os juízes na sentença (não há tradução para o inglês) deixam claro que o chamado ao boicote poderá causar danos financeiros a pessoa (física ou jurídica) e por isso – deveria ser limitado. Eles consideraram que existia a necessidade de aprovar uma lei que fornecesse instrumento jurídico para a busca de indenização, caso comprovado o dano.

      Esta lei é perigosa, sem dúvida. Acaba de passar no crivo do STF israelense. Outras leis neste sentido virão neste próximo governo. E teremos como ministra da justiça Ayelet Shaked (do A Casa Judaica). É – de fato – preocupante.

      Um grande abraço

  • Raul Gottlieb

    09/05/2015 at 21:40

    Olá Marcelo,

    O texto que você publicou esclarece alguns pontos, mas ainda fica pendente de esclarecimento o que será considerado “Estado de Israel”.

    Boicotar uma empresa sediada em Israel é um boicote ao Estado?

    Eu não como comida com selinho de Kasherut. Eu estou boicotando o Estado de Israel (visto que muita desta comida é produzida por empresas sediadas no Estado)?

    A meu ver eu estou boicotando, por me ser repulsivo, uma atividade comercial que foi criada e é mantida com pretexto religioso. Não tem nada a ver com o Estado de Israel, visto que esta indústria está espalhada em muitos países.

    Outra coisa, a negativa de convidar para falar em seminários os professores de um certo país causa prejuízo financeiro para alguém mais do que a indústria de transporte, alojamento e afins? Como este prejuízo será quantificado? A meu ver os prejudicados aí são os participantes do seminários que talvez tenham que ouvir palestras de menor nível.

    É uma lei complicada, confusa e realmente muito perigosa. Uma pena que a cegueira da esquerda Israelense com relação a natureza do Islã tenha nos presenteado com este governo.

    Abraço, Raul

    • Marcelo Treistman

      10/05/2015 at 11:27

      Raul,

      As respostas para as suas perguntas estão na lei. Se você entende que a lei é por demais genérica, então deveremos aguardar a interpretação que o STF israelense fará quando julgar o primeiro caso ancorada em tal obscena legislação.

      Você diz que que “ainda fica pendente de esclarecimento o que será considerado “Estado de Israel”. Ora Raul, a lei é clara:

      “1. No presente projeto de lei, “um boicote contra o Estado de Israel” é definido como: evitar de forma deliberada laços econômicos,
      culturais ou acadêmicos com outra pessoa ou organismo unicamente por causa de sua afinidade com o Estado
      de Israel, uma das suas instituições ou de uma área sob seu controle, de tal forma que possa causar
      dano econômico, cultural ou acadêmico”

      Eu lhe recomendo cuidado em suas futuras críticas e publicações que convidam a comunidade judaica a boicotar os produtos com selos de kasherut. Você poderá ser processado em uma ação de indenização. É óbvio que o autor terá que comprovar a relação entre o seu convite ao boicote e o dano que lhe foi causado… Mas talvez, para avitar a dor de cabeça de uma ação judicial e a possibilidade de perda financeira, você seja mais “educado” em suas críticas. Quem sabe até, pense 10 vezes antes de fazê-la.

      E então, a lei terá logrado o seu objetivo. Você perderá a sua voz, perderá o direito ao seu protesto pacífico que objetiva um ideal político/religioso.

      A lei é muito mais do que “complicada”. Ela é perigosa, porque demonstra o rumo que seguiremos neste novo governo.

  • Raul Gottlieb

    10/05/2015 at 12:34

    Sim, agora ficou bem claro.

    E sim, ela é mais que complicada, ela é perigosa, pois gera a possibilidade de qualquer tipo de ação.

    Tendo em vista as ambiguidades de seu texto, vai precisar de uma dose muito grande de interpretação para ser aplicada.

    Obrigado pelo esclarecimento. Ru achei eles necessários para o perfeito entendimento do teu texto.

    Quanto a ser mais cuidadoso com as minhas críticas, o que posso dizer é que sempre sou, Sempre pondero muito bem o que vou criticar ou elogiar. Não acredito que vá ser processado por dizer que é melhor consumir chocolate em selinho de kasherut visto que chocolate é sempre kasher e que o selinho é apenas um imposto inútil. Mas se for, vai ser divertido.

    Abraço, Raul

  • Marcelo Starec

    11/05/2015 at 04:16

    Oi Marcelão,
    Interessante o seu texto, entretanto gostaria de ter o direito democrático a discordar das suas conclusões. Há, de fato, uma série de boicotes proposto contra Israel por motivos meramente antissemitas – na mesma linha dos boicotes contra os judeus na época do nazismo…Entendo que Israel, nesse contexto, precisa sim ter um conjunto de leis que de algum modo protejam os seus cidadãos desse tipo de agressão. Em regra, concordo com a decisão de que quem causar danos comprovados ao Estado de Israel ou a seus cidadãos possa eventualmente correr o risco de ser processado…..
    Abraços,
    Marcelo.

    • Marcelo Treistman

      11/05/2015 at 11:25

      Prezado Marcelo,

      Agradeço o comentário.

      O seu direito democrático de discordar de minhas conclusões está garantido em meu artigo.
      Fique tranquilo: não ingressarei com uma ação de indenização de perdas e danos contra você. Afinal de contas, seria um tanto quanto ditatorial, o desejo de calar a crítica ou a discordância com a propositura de uma ação indenizatória… Você não acha?

      Um grande abraço

  • Mario S Nusbaum

    11/05/2015 at 19:38

    Marcelo, concordo que a lei é clara, mas é exatamente por isso que não consigo entender certas conclusões a que você chegou.
    A lei não deixa nenhuma margem a dúvidas que se aplica “a boycott against the State of Israel” , certo? Logo não se aplica ao Raul boicotar produtos Kasherut, nem, muito menos ao seu xará discordar de você. Ele poderia até pregar o boicote ao seu artigo que não estaria infringindo a lei. Com toda sinceridade, não entenderia um grupo brasileiro promovendo um boicote a produtos …. brasileiros.
    Voltando ao um hipotético boicote a você, acho que seria muito diferente alguém promove-lo por discordar das suas opiniões, o que seria legítimo ou por você ser judeu. “deliberately avoiding economic,
    cultural or academic ties with another person or body solely because of their affinity with the State
    of Israel”
    A palavra chave aqui é SOLELY.
    um grande abraço

    • Marcelo Treistman

      12/05/2015 at 00:36

      Mario,

      Se alguém for processado ao promover um boicote a produtos produzidos nos assentamentos vou lhe recomendar como advogado de defesa. Acho que você fará um grande trabalho esmiuçando a palavra “solely” para inocentar o “ofensor”.

      O problema Mario, é que caso você perca ação, o seu cliente será obrigado a pagar uma indenização pela expressão de sua opinião política. Esta “possibilidade” não existia antes desta lei passar pelo crivo do STF israelense.

      Veja o lado positivo: em breve – muito em breve – você poderá receber uma ligação de um israelense querendo a sua ajuda em uma certa ação que foi proposta contra ele. Tudo por que ele promoveu “deliberadamente um boicote cultural, econômico ou acadêmico “SOLELY because of their affinity with the State of Israel, one of its institutions or an area under its control, in such a way that may cause economic, cultural or academic damage.”

      Um grande abraço

    • Mario S Nusbaum

      13/05/2015 at 13:25

      Obrigado Marcelo, pela explicação e pela dica de um bico. Tenho a impressão de que você inverteu a coisa, eu vou acusar o ofensor, vou PROVAR que foi “solely”. Em todo caso, vou precisar de você como tradutor para o hebraico. Na minha opinião, e falo como alguém com uma grande experiência em defender Israel em vários fóruns, brasileiros e estrangeiros, o problema é o oposto. Anti-semitas óbvios costumam se “desculpar” em vários níveis:
      1) são contra os assentamentos
      2) são contra o atual governo de Israel
      3) são contra Israel como país judeu, pregam um estado único, laico
      4) idem ao 3 com a expulsão dos que vieram no século XX e seus descendentes
      Esses últimos são os meus favoritos.
      É CLARO que alguns pouquíssimos estão sendo sinceros, mas…… pouquíssimos. O que eu estou querendo dizer é que é relativamente fácil provar de que não é nada disso, mas sim que eles dizem o que dizem “solely” por se tratar de judeus e seu país. Para isso basta perguntar: que outros países você boicota? Apoiava Israel quando os trabalhistas estavam no poder? Era neutro na questão? O assunto, como costumam ser os jurídicos, é complicado e sujeito a interpretação, mas quando alguém não gosta de NADA que fulano diz ou faz, desconfio que não gosta é mesmo de fulano.
      um abraço

  • Marcelo Starec

    11/05/2015 at 19:46

    Oi Marcelão,
    Acho sim…Com certeza!…Considero um valor muito importante a liberdade de expressão!…Nesse aspecto, estou 100% contigo…O que quis mostrar, em termos de discórdia, é que esse valor importantíssimo, assim como qualquer outro da mesma natureza não pode ser absoluto…Veja, não sou jurista e portanto é um tanto mais difícil para mim tentar mostrar algo que, a meu ver, é distinto…mas vamos lá: Uma coisa é a liberdade de discordar ou até mesmo de manifestar opiniões contrárias a determinados textos ou políticas de governo, por exemplo. Outra coisa é propor boicotar, jogar uma bomba atômica, matar, assassinar cidadãos por conta de discordar de algo – em meu modesto entender, o boicote pode ser algo tão agressivo quanto matar, explodir, assassinar e o chamamento específico à prática de tais atos, por ser algo que transcende a mera liberdade de opinar – mas enseja uma ação concreta – merece o direito a uma reparação, se comprovado o dano – Imagine se, por exemplo, ao invés de discordar de sua opinião eu conclamasse que seus textos fossem bloqueados no Brasil – e conseguisse fazer isso, simplesmente por não gostar deles ( o que nem é o caso, mas serve como exemplo…). Desse modo, eu eventualmente estaria, ao propor uma ação do gênero, causando um prejuízo injusto e portanto sendo passível de ser processado – Essa é a minha discórdia Marcelão!…
    Um grande abraço,
    Marcelo.

    • Marcelo Treistman

      12/05/2015 at 00:19

      Marcelo,

      Gosto desse embate jurídico.
      Seguimos no seu exemplo: matar, jogar bomba atômica, assassinar cidadãos não podem ser equivalentes a “boicote” por razões óbvias. E não são. Os primeiros são punidos criminalmente e o último apenas no campo do direito ivil. Enquanto os primeiros envolvem pena privativa de liberdade, o último, quando muito, chegará a uma indenização pecuniária.

      Pelo visto a sua opinião é a mesma do STF israelense. Você também acha que a “agressividade” do boicote merece ser punida, ou seja, se a discordância extrapolar para uma “ação concreta” como o boicote econômico, então – causa gere algum dano ao ofendido – a lei deveria possibilitar a busca da proteção da lei.

      Este é o ponto central de nossa discordância. Discordo fortemente do STF israelense. E dircordo frontalmente de você. Explico:

      A lei israelense protege pessoas (físicas e jurídicas, privadas ou públicas), contra calúnia, injúria ou difamação. Se eu não concordo com um colono, eu não posso sair por aí dizendo que ele coloca pesticida em seu tomate para evitar que pessoas comprem o produto dele. Se restar comprovado a minha calúnica, serei obrigado a indenizá-lo. Justo e razoável.

      Outra questão completamente diferente é eu convidar pessoas a “não comprar o tomate do colono, porque eu acredito que ele escolheu o lugar errado para morar”. Eu não tenho nada contra a pessoa do colono e muito menos contra o seu tomate.

      Desta forma o boicote é um instrumento pacífico para atingir os meus objetivos políticos. É um instrumento da democracia que agora poderá ser configurado como “fora da lei”.

      Para que não reste dúvida: Eu acredito que o boicote pode até ser uma ação “agressiva”, mas, sem dúvida, deveria ser considerada válida. Eu compraria o tomate do mesmo vendedor, se ele morasse em Haifa. O meu problema não é com ele ou com ou seu tomate, é com a sua posição política. E é a minha posição – política – que poderá ensejar uma ação contra mim. Triste, não é?

      Essa lei é um tiro no pé de um Estado que deseja garantir a liberdade de expressão como princípio basilar em sua sociedade.

      Um grande abraço

    • Marcelo Starec

      12/05/2015 at 02:24

      Oi Marcelão,
      Estou achando muito interessante este debate e seus argumentos são muito bons, embora eu discorde deles – Explico: se a sua questão é que os israelenses não deveriam poder em nenhuma hipótese morar nos Territórios, então proponho que você tome um outro caminho, o político. Bastaria haver uma lei que os proibissem de lá morar e/ou lá produzir qualquer coisa, sob quaisquer condições. Ocorre que os colonos estão hoje agindo de acordo com a lei – quando não estão, aí o caminho é retirá-los do local de forma coercitiva, pelas próprias autoridades israelenses, como já ocorreu. Neste momento, estamos discutindo acerca de pessoas que estão respeitando a lei, presumem-se boas pessoas e nada há contra elas, além do fato de que você considera errado elas morarem onde hoje residem (e só!). Veja então o risco de defender o direito ao boicote a essas pessoas (sem dúvida, uma agressão!) simplesmente porque você não gosta do lugar onde elas residem. Adotando esse princípio, então também seria válido que alguém colocasse em prática um boicote contra negócios de negros, simplesmente porque pelo direito da liberdade de expressão você não gosta deles. Entendo que sim, o STF israelense está correto pois não se está negando a ninguém o livre direito de opinar, mas o direito de agir impunemente contra um determinado grupo de pessoas que estão agindo de acordo com a lei, simplesmente por você por algum motivo não gostar deles. Em meu entender, é exatamente para isso que existe o estado de direito (para definir o que está ou não de acordo com a lei) – e tudo o que está de acordo com a lei pode ser feito, embora pode parecer absurdo ou imoral para parte das pessoas. Assim, israelenses podem ser homossexuais, laicos, muçulmanos, judeus ortodoxos e também colonos (pelo menos até hoje!) e a liberdade de expressão não pode ser um valor absoluto, a ponto de alguém ter o direito de propor penalizar algum grupo de pessoas,seja ele qual for, simplesmente por não gostar deles. Só para finalizar o que penso a respeito, gostaria de acrescentar que embora eu pessoalmente não seria colono (por vários motivos), também não concordo com o argumento de que judeus não poderiam morar em um futuro Estado Palestino, aliás, ao contrário, entendo ser muito salutar existir uma população judaica lá residindo, de acordo com as leis palestinas, com igualdade de direitos e obrigações – não sendo a existência de judeus nos Territórios o empecilho para se criar um Estado Palestino.
      Um grande abraço,
      Marcelo.

    • Marcelo Treistman

      12/05/2015 at 12:05

      Marcelo,

      O seu exemplo de “boicote aos negros” não é comparável ao “boicote a produtos produzidos em assentamentos”. Esta posição é equivocada. Explico:

      Enquanto o boicote (negros) ocorre contra uma etnia, um grupo social ou indivíduos com uma cor de pele diferente e afeta diretamente a “CONDIÇÃO INTRÍNSECA” do indivíduo, o boicote contra produtos dos assentamentos é uma “ação concreta” contra uma opinião, posição política, ideologia que afeta diretamente a “Condição temporária” do indivíduo.

      O boicote contra negros trata-se de uma ação criminosa, uma vez que o negro jamais deixará de ser negro. Nada do que ele faça cessará o boicote. Nada do que ele fizer cessará a minha “ação concreta” contra ele.
      O boicote contra colonos é uma livre expressão de minha opinião política e será temporário. Como informado, não tenho um problema com o colono ou com o seu tomate. O problema é o local onde o tomate foi plantado. Bastará que o tomate seja produzido em Haifa para que eu acredite ser possível comprá-lo novamente – ainda que seja vendido pelo mesmo “colono” e que seja o mesmo “produto”.

      Você percebe a diferença?

      Eu não nego que o colono esteja atuando de acordo com a lei israelense. Sobre este ponto não há dúvida. Gostaria, no entanto, que a minha liberdade de expressar a minha opinião sobre o local que ele escolheu viver, com um possível convite de boicote aos produtos por ele comercializados também estivesse dentro da lei. Como podemos peceber, hoje eu poderei ser punido legalmente.

      Como eu disse, uma lei muito perigosa e preocupante para um Estado que deseja garantir a liberdade de opinião em sua sociedade.

      Um grande abraço.

    • Raul Gottlieb

      12/05/2015 at 10:32

      O convite ao boicote é a expressão de uma opinião. Algo na linha de “na minha opinião você não deveria comprar os produtos com selo de kasherut porque alimenta uma atividade comercial baseada em pretexto religioso”.

      A pessoa segue esta opinião se quiser.

      Não se está falando aqui de coagir alguém a fazer algo. A pessoa que recebe o chamado ao boicote pode escolher acolher este chamado ou não.

      Assim que, a meu ver, o chamado ao boicote é sem a menor dúvida uma questão de opinião e deveria ser defendido pelo princípio de liberdade de expressão.

      Mesmo que provoque prejuízo financeiro aos que vendem os produtos boicotados.

    • Mario S Nusbaum

      13/05/2015 at 13:50

      Em tese você tem toda razão Raul, mas o que acharia alguém que pregasse o boicote ao kasherut mas não ao halal (ou vice-versa, tanto faz)?
      Na minha opinião esse é o x da questão. Três pessoas, uma delas negra, estão andando peladas pelas ruas e eu SÓ me manifesto contra a negra, prego punição apenas para ela.
      Você não desconfiaria de nada?

  • Marcelo Starec

    12/05/2015 at 19:26

    Marcelão, claro que entendi a diferença e concordo contigo nisso!…Eu simplesmente usei um exemplo extremo para tentar deixar claro aqui um ponto de vista!…Na verdade, o que realmente me incomoda nessa questão (e o artigo trazido pelo Carlos aqui é importante!), é o fato de banalizarmos o boicote…O povo judeu foi boicotado ao longo da história, de todos (ou quase) todos os modos possíveis, por um sem número de vezes e por isso sinto essa questão de modo forte – veja, os boicotes foram desde a impossibilidade de praticar oficios, tantos e tantos confiscos de bens e até mesmo da dignidade humana, quando não da própria vida em si, do direito de existir !….E em pleno século XXI isso não acabou…Ainda assim, conseguimos sobreviver e reconstruir a nossa dignidade – com um esforço muito grande!…Hoje, Israel é atacado de um modo quase sempre injusto e com um claro viés e muitos dos que falam em “ocupação”, mundo afora, apenas como exemplo, estão se referindo ao direito de Israel existir (tal como a “turma do BDS”, simples assim! (Claro que muitos os seguem por mera ingenuidade!)…O boicote é uma agressão e em meu entender, cabe refletir se é de fato correto considerar uma arma dessas como algo tão “pacífico” assim!…Enfim, queria apenas deixar aqui essas questões para reflexão – isto porque se a lei eventualmente pode dar margem a interpretações injustas, por outro lado o uso leviano de boicotes contra qualquer um por mera discórdia, é certo, também pode acabar gerando muitas injustiças e eu tenho minhas dúvidas se a grande maioria das pessoas de fato está pronta para avaliar o que está boicotando e quais as reais consequências de seus atos…..
    Abraços,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    13/05/2015 at 12:24

    Um interessante (e infelizmente não original) exemplo da campanha de difamação de Israel, que é a fonte da qual bebem os advogados do BDS.

    http://honestreporting.com/disgusting-exploitation-of-a-disabled-palestinian-child/

    Depois de ler tudo o que foi escrito neste post do Marcelo eu cheguei à conclusão que o caminho do Canadá é o mais interessante. Boicote é um instrumento válido, mas difamação (hate speach) tem que acarretar consequências aos difamadores e no caso de Israel o boicote é quase sempre um filhote da difamação.

    É realmente preocupante ao Estado de Israel criar uma lei anti boicote.

  • Mario S Nusbaum

    13/05/2015 at 13:58

    Como muitos aqui talvez não lembrem, não custa repetir: sempre fui contra os assentamentos, e continuo sendo.

  • Carlos Cohen

    13/05/2015 at 19:00

    O BDS e outros movimentos afins não se resumem somente à questão dos assentamentos, esse é o problema.

Você é humano? *