O calor tem dessas coisas

27/07/2015 | Sociedade

Imaginemos o auge do verão em Israel. Os dias vão ficando mais quentes e vai dando aquela moleza no corpo com mais frequência. Qualquer refeição é acompanhada por uma preguiça enorme e o calor pode levar a sensações de quase desmaio. Suamos. Apagamos. Sonhamos.

Em um dia desses cheguei em casa sem saber o que realmente havia acontecido. O que era verdade e o que era sonho.

De 18 de junho até 16 de julho, mulçumanos pelo mundo inteiro jejuaram desde as primeiras horas do dia até à noite, seguindo as regras do Ramadã. Cerca de 16 horas diárias sem beber, comer, fumar e nem mesmo ter relações sexuais.

Eu havia sido convidado pela família Umar para a refeição da noite. O local do jantar fica dentro do território palestino, perto de assentamentos onde moram cerca de 100.000 colonos judeus. A região é classificada como Território C, ou seja, controles administrativo e militar israelense.

O terreno pertence à família Umar, mas eles não moram ali. Eles têm ali algumas plantações e o terreno é um grande ponto de encontro. Para mim, encontros inusitados. Graças ao documento de registro de compra do terreno celebrado há décadas, a família Umar conseguiu ficar ali, mesmo com a construção dos assentamentos.

Uma das principais atividades que acontecem naquela pequena ilha palestina dentro de seu próprio território é o encontro entre palestinos e israelenses, árabes e judeus. Os Umar apostam no diálogo apesar de diversas histórias de prisões e mortes na família.

Chego por volta de 19:30, pouco antes da primeira refeição, depois de um longo dia de calor e trabalho. Um pequeno cachorrinho, filhote ainda, corre na minha direção para me recepcionar, e após um pequeno afago, permite a minha entrada na casa.

Sob uma lona preta que ajuda a aliviar o calor, há algumas pessoas sentadas nos sofás em torno de uma mesa improvisada que, aparentemente, já havia virado mobília fixa. Um menino joga um jogo barulhento no seu Iphone, mas quando me aproximo, ele coloca um fone de ouvidos moderno impedindo que o som continue sendo escutado.

Outras crianças correm e brincam com o cachorrinho, todos esperando a hora para que possam comer e beber. Mulheres se dividem na preparação da comida. Umas cortam verduras e legumes sobre a mesa improvisada, outras preparam a comida na pequena cozinha ao lado da tenda onde sentamos.

Então vem em minha direção Yazen, pai de parte das crianças que brincavam pelo pelo terreno, que me dá boas vindas e me aponta um lugar para sentar enquanto aguardamos a janta. Sento e imediatamente sinto o fresco vento de final de tarde na região da Samaria.

Yazen, que aparenta ter mais de 40 anos,  me apresenta a sua irmã, Rima, poucos anos mais velha que ele, e que escreveu um livro sobre a vida de sua mãe, já falecida, mas que ficou durante seis anos detida em uma prisão em Israel. Maruan, filho de Rima, também já passou um tempo na prisão e, segundo sua mãe, sofreu danos psicológicos gravíssimos. Agora, depois de solto, já não é mais a mesma pessoa. Quem confirma essa história é Bashar, sobrinho de Yazen e Rima, que esteve preso com Maruan.

Começo a conversar com Yazen que, de antemão e com um hebraico excelente, pede desculpas porque logo depois da janta terá que viajar para Jerusalém para dar uma palestra para israelenses sobre diálogo e as relações com os judeus da região. Ele me conta sobre as atividades que são feitas naquele terreno e o que acontece por ali. Toda a família já participou de movimentos de diálogo entre palestinos e israelenses.

Salvamos o pouco tempo que temos e ele me explica que aqueles sofás em torno da mesa improvisada, sob a lona preta, servem de ponto de encontro entre palestinos e israelenses. Pergunto se muitas pessoas vêm de Israel para atividades ali e a resposta me surpreende: não vêm exatamente de Israel. Grande parte das pessoas que vão até ali são colonos que moram nos assentamentos que cercam aquele terreno mágico.

Ao ouvir aquilo me sinto intrigado e pergunto se é possível manter diálogo com pessoas que moram em assentamentos no território palestino. São os colonos, penso. A construção de assentamentos é um dos principais impeditivos para a aplicação da política de dois Estados para dois povos. Além disso sempre tive a ideia de que as relações entre colonos judeus e palestinos são bem violentas.

Yazen me olha e diz: “90% do judaísmo (em termos históricos) se dá na Judeia e Samária. Como eu posso negar que o povo judeu tem uma relação histórica com essa terra? Essa é uma terra importante para dois povos, temos que entender isso e construir algo que permita a todos serem livres.”

Nesse momento somos interrompidos pela chegada de Bashar, que além de caixas de frutas, traz a notícia que já deu a hora e que todos poderíamos comer e beber. Todos se levantam para preparar rapidamente a mesa, os pratos e copos descartáveis são distribuídos e todos comem com uma enorme alegria.

Ainda no início do jantar chega Tzion, um colono ortodoxo, que levaria Yazen de carro para Jerusalém. Ele senta ao meu lado e conversamos brevemente. Pergunto se ele mora ali e ele brinca: “De acordo com a minha esposa eu moro aqui, mas a minha casa é em um assentamento a cinco minutos de carro daqui”.

Rima nos interrompe para implicar com Tzion. Dá a ele um prato e convida-o a servir-se. Diz que fez o pepino em conserva e que é kasher. Tzion ri meio aliviado, porque pelo menos o pepino ele poderia comer. Os deliciosos frango e arroz não são experimentados por ele. Rima então pergunta o que aconteceria a ele se comesse aquela comida. E a resposta é: “Provavelmente, nada. Neste mundo!” Ambos riem e entendem que esse é o mesmo motivo que leva os membros da família Umar a jejuarem durante o Ramadã.

Em pouco tempo Yazen e Tzion partem para Jerusalém. Fico conversando ainda com Rima e Bashar, que acende o seu primeiro cigarro do dia (fumar também não é permitido à luz do dia). Contam suas histórias e falam sobre a sua disposição em dialogar. Contam também sobre as dificuldades e questionamentos internos que eles enfrentam ao sentarem com quem está do outro lado. Mas apostam nisso.

Realidade ou sonho? Você está disposto a rever seus conceitos após um dia de calor?

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Comentários    ( 4 )

4 comentários para “O calor tem dessas coisas”

  • Marcelo Starec

    27/07/2015 at 05:59

    Oi Marcos,
    Parabéns pelo belo artigo!…Muito verdadeiro e emocionante…Sim, no final judeus e árabes são seres humanos e podem dialogar e se entender…E talvez esse seja o caminho – as pessoas começarem a se entender e se respeitar, independente dos governos…E isso acaba levando os governos também a fazê-lo e não o contrário…No mais, apenas como observação, entendo que não é a existência de colonos judeus nos Territórios que impede a paz, do mesmo modo que a existência de árabes dentro de Israel também não. Em meu entender, ao contrário, isso talvez possa até mesmo trazer a coexistência e a tolerância em relação aos judeus, do mesmo modo que a existência de quase 2 milhões de árabes dentro de Israel, com todos os problemas, desenvolveu a tolerância com o tempo – e não o ódio…Como você coloca muito bem “Realidade ou sonho? Você está disposto a rever seus conceitos após um dia de calor?”

    Abraços,
    Marcelo.

  • Jaques

    27/07/2015 at 17:21

    Texto excelente, parabéns.

  • Las florindas del pueblo

    28/07/2015 at 20:13

    Ė absurdamente bom poder aprender com os mais jovens!!! Tenho 49 anos e uma graduação em História… Mas leio conexão Israel e fico feliz em aprender…e fico mais feliz em perceber que tamanha lucidez vem acompanhada de humor e de uma forte pegada humanista…
    Um forte abraço a todos!!!!

  • Ricardo Schmitman

    29/07/2015 at 21:26

    Eu opino que assim como existe 1,5 milhões de árabes vivendo em Israel, é possível judeus viver em território de um “estado palestino”. A questão é a tal da tolerância. Temos ou não tolerância, eis a questão.

Você é humano? *