O Campo Centrista – Substituindo Netanyahu

04/10/2016 | Política

Um encontro cara-a-cara, num apartamento em Kfar Saba, impulsiona mobilização que leva a um baque político, e põe fim ao governo de Netanyahu. Roteiro imaginário (mas nem um pouco infundado).

Uri Mark
Artigo publicado na revista do jornal Haaretz, 16/09/2016.
Tradução do hebraico: Rafael Ellis Reuben

Aconteceu no último motzaei shabat [sábado à noite] de abril. O telefone da casa da família Ashkenazi em Kfar Saba tocou, e da outra ponta da linha escutou-se uma voz profunda e poderosa. “Gaby? Aqui é o Ehud. Ehud Barak”. Um longo silêncio prevalesceu. “Gaby, eu quero me encontrar com você. Vou direto ao ponto para não desperdiçar o seu tempo: quero pedir desculpas. Todo esse caso Harpaz [footnote]Caso Harpaz: escândalo revelado em 2010, envolvendo uma fraude na nomeação do Chefe do Estado-Maior do Exército que sucederia Gaby Ashkenazi. No momento, quando o ministro da Defesa Ehud Barak estava apoiando Yoav Galant para o cargo, o tenente-general Boaz Harpaz forjou uma carta em que teriam sido reveladas estratégias escusas para promover a candidatura de Galant em detrimento dos concorrentes Benny Gantz e Gadi Eisenkot. Gaby Ashkenazi foi investigado por suspeitas de obstrução de justiça na investigação que se seguiu, até o arquivamento das acusações contra ele em junho de 2016/
http://www.haaretz.com/israel-news/the-harpaz-affair-for-dummies-what-s-it-all-about.premium-1.435656
https://www.israelnationalnews.com/News/News.aspx/206770[/footnote] foi um episódio infeliz e lamentável, e o melhor é que seja deixado para trás. Eu quero que você venha para a minha casa em Tel Aviv. E vou surpreender você: a Nili está fora do país, e eu não cozinho nada mal”.

Ashkenazi ficou atônito e empalideceu. Barak quer lhe pedir desculpas? O mesmo Barak que lhe amargou a vida como Chefe do Estado-Maior? O mesmo Barak que o acusou de “comportamento delinquente”? Os segundos se passaram e se foram, Ashkenazi suspirou sonoramente, mas antes que chegasse a responder, Barak lhe falou novamente, desta vez em um tom suave.

“Você certamente está se perguntando o que está por traz do meu pedido de desculpas, e eu não o deixarei no escuro. Eu acho que você não precisa ser o número dois de Lapid. Não há nenhuma chance que Lapid consiga 61 deputados que o recomendem como chefe de governo, e não vale a pena ir nesse sentido. Acredito que você deve ser primeiro-ministro, e quero lhe apresentar um plano prático que ponha fim ao governo de Netanyahu. Na realidade, esta é a única forma de substituir Netanyahu”.

Barak parou por um momento, mas após alguns segundos prosseguiu, ainda incisivo e imponente: “Não pense que eu me tornei um altruísta. Ainda que eu tenha sincera preocupação com o futuro do país, nos planos que eu pretendo lhe apresentar há uma função central reservada para mim. Estou vindo a você depois de uma análise sóbria das possibilidades. Gaby, se nos entendermos bem, daqui a um ano você será primeiro-ministro”.

Depois que se recompôs e o efeito-surpresa se dissipou, Ashkenazi pediu um ou dois dias para responder. E de fato, dois dias depois, primeiro de maio, cedeu e concordou em se encontrar. Ele colocou apenas uma condição: confidencialidade total, incluindo a transferência do encontro da torre de Barak em Tel Aviv para o seu apartamento em Kfar Saba, para que ele não fosse identificado e a ocorrência do encontro não fosse sabida em público. Sobre cozinhar e todo o resto.

Uma semana depois encontraram-se os dois em Kfar Saba. A conversa sobre o caso Harpaz durou menos de quinze minutos. Barak estendeu cumprimentos ao seu interlocutor e acusou os parceiros próximos de ambos de fornecerem-lhes conselhos escusos. Quando começou a analisar os desdobramentos detalhados do caso, Ashkenazi o interrompeu: “Chega, Ehud. Apresente o plano”.

Barak inclinou-se para frente, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e começou a expor sua tese: “Bibi precisa ir embora. O empasse na situação diplomática, a caminhada cega em direção a um estado binacional, o isolamento no mundo, o dano às relações com os Estados Unidos, a legislação contra as entidades civis, o ataque frontal contra os meios de comunicação. Eu conheço Bibi há anos, e ele perdeu o jeito. Ele precisa ir embora. Até onde eu sei, você compartilha da minha posição, de modo que eu não preciso detalhar as explicações e justificativas”.

Ashkenazi assentiu cautelosamente, e sinalizou a Barak que prosseguisse. “Isto posto, a questão é como fazer com que Netanyahu se vá. Qualquer pessoa que se coloque contra ele ‘um contra um’ – perderá. Buji, Tzipi, Lapid, Bogui, Saar, Kahlon, Katz, Liberman, Bennett, Diskin, Gantz, Shelly, Amir, Barkat, Margalit [footnote]Respectivamente: Itzhak Herzog – líder da oposição e do partido Avodá (trabalhista); Tzipi Livni – ex-ministra do Exterior e da Justiça, antiga líder do partido Kadima e atualmente do HaTnuá; Yair Lapid – ex-ministro da Fazenda e líder do partido Yesh Atid; Moshe Yaalon – ex-Chefe do Estado-Maior (“Ramatkal”), ex-ministro da Defesa e político recém-saído do Likud; Guidon Saar – ex-ministro da Educação e do Interior, também deixou o Likud recentemente; Moshe Kahlon – ministro da Fazenda e líder do Kulanu; Israel Katz – ministro dos Transportes e membro do Likud; Avigdor Liberman – ministro da Defesa e líder do Israel Nossa Casa (Israel Beiteynu); Naftali Bennett – ministro da Educação e líder do A Casa Judaica (HaBait HaYehudi); Yuval Diskin – ex-chefe do Shin Bet; Benny Gantz – ex-Chefe do Estado-Maior; Shelly Yachimovich – ex-líder trabalhista; Amir Peretz – trabalhista, ex-ministro da Defesa; Nir Barkat – prefeito de Jerusalém, recém filiado ao Likud; Erel Margalit – político trabalhista.[/footnote]. Para onde quer que a gente se vire, não há nenhuma pessoa percebida pelo público em geral como alguém feito do material com que se fazem primeiros-ministros, e que ao mesmo tempo tenha chance real. Lapid é o mais próximo, mas ainda está longe: ele poderia arrancar uma vitória inexpressiva em mandatos, mas não seria mais do que conseguiu Livni em 2009, quando ela levou 28-27. Em número de recomendações para o presidente, perderia de longe”.

“Você é visto pelo público como material de que se faz primeiro-ministro, mas tem dois problemas: primeiro – se você disputar lado a lado com Netanyahu, perderá. Segundo – você não tem um campo para liderar. Teoricamente, se Lapid e Kahlon reunissem forças e o colocassem como seu líder, você venceria, mas essa opção não está em jogo. Se você disputasse como líder dos trabalhistas (Avodá), perderia. Honrosamente, mas perderia”.

As palavras de Barak entravam em ouvidos atentos. “Eu me encontro em uma situação parecida, mas menos favorável”, continuou Barak. “Eu perco no um-a-um com Netanyahu, não tenho campo, e parte dos eleitores de centro-esquerda se lembram de mim negativamente, tanto pelo meu mandato em 99, quanto pelo episódio da fação Ha’Atzmaut [footnote]HaAtzmaut: Partido criado por Barak em ao rachar o Avodá em janeiro de 2011 para poder continuar na posição de Ministro da Defesa na coalizão de Netanyahu.
https://en.wikipedia.org/wiki/Independence_(Israeli_political_party)[/footnote] e da associação a Netanyahu. O fato de eu ter retirado o Tzahal [Exército de Defesa de Israel] do Líbano, infelizmente, não é tão lembrado”.

Ashkenazi se movimentou no seu assento e pareceu perder a paciência. “Tudo isso está muito bonito”, disse, “mas você me chamou para apresentar um plano. Fale abertamente. Em quê você pensou?”

Barak gesticulou como quem pede mais um momento de paciência. “Só mais uma coisa: quando começou o último período eleitoral, Buji (Herzog) não fez nem cócegas em Bibi. Três meses antes das eleições ele anunciou o acordo de rotação com Livni e o jogo mudou. Separadamente nenhum deles tinha chance. Juntos, eles repentinamente começaram a liderar nas pesquisas”.

Ashkenazi tensionou os músculos e se endireitou, mas Barak o ignorou e prosseguiu: “Eu me lembro na época do desprezo dos comentaristas, da oposição de Adler. Disseram que não era sério, que isso enfraquecia Herzog, que não se podia partilhar o cargo de primeiro-ministro. Na minha opinião, todos erraram. E não apenas porque os números provaram que eles estavam errados. Naquela ocasião eu ouvi em conversas privadas falas totalmente diferentes. Algumas pessoas se impressionaram que eles abriram mão do ego e viram com bons olhos essa ideia de liderança compartilhada”.

De repente Ashkenazi se levanta do seu lugar, aponta a mão para Barak e se deteve como quem tenta encontrar as palavras. “Você está sugerindo o que eu penso que você está sugerindo? Você quer que eu e você nos candidatemos juntos a primeiro-ministro? Desculpe-me pela expressão, mas você perdeu o juízo? Ou os boatos estavam certos e você está sofrendo de Alzheimer? Ehud, eu e você somos o pai e a mãe do caso Harpaz. Eu preciso recordar-lhe a matéria? As declarações sobre o cheiro de carcaça que aderiu ao exército? Você acha que o público vai esquecer tudo e votar em nós para primeiro-ministro, e ainda mais em conjunto?”

Barak parecia como quem assumiu uma posição defensiva. “Falando sério, Gaby, com um pouco de perspectiva, o que realmente havia lá? Rixas sobre nomeações? Oficiais que procuraram informações sobre os meus voos para me envergonhar? Vou dizer que eu gosto disso? Vou dizer que não foram praticados atos irregulares? Foram. Na verdade, eu estou zangado com você até hoje. Muito. Mas ao lado disso, eu entendo que só a nossa cooperação levará à substituição de Netanyahu. E se o que é necessário é que deixemos para trás o caso Harpaz, então é o necessário”.

Ashkenazi começou a andar de um lado para o outro na sala. Barak se levantou atrás dele, bateu na mesa com a mão e continuou insistindo. “Gaby, agora Bibi parece invencível, mas juntos vamos lhe dar um nocaute. Atualmente Bibi é o número um na lista de candidatos a primeiro-ministro. Buji, Kahlon, Bogui e Saar estão muito para trás. Lapid parece ser o número dois, mas isso é uma ilusão. Ele pode receber numa pesquisa 25 assentos, e no momento em que as cartas mudarem se encontrar com um número inexpressivo.

Ashkenazi, que já estava quase fechando sua união a Lapid como número dois, tentou começar com as palavras de defensor do Yesh Atid, mas Barak subiu seu tom de voz e adquiriu novamente sua atenção.

“O Yesh Atid é um partido de momento, assim como o partido Shinui [footnote]“Mudança”, partido criado por Tommy Lapid (pai de Yair), ativo na política e representado na Knesset entre 1974 e 2006.[/footnote], porém sob ritalina. Os aposentados com anabolizantes. Lapid não tem como vencer porque ele não corrói suficientemente o bloco da direita, além de que Kahlon e os árabes não estão de modo algum no seu bolso. As pesquisas são uma ficção. Na prática, se é composta a lista real dos concorrentes a primeiro-ministro, você é o número dois e eu sou o número três. Quando o número dois e o número três se juntam contra o um, ele perde. Nós podemos perder individualmente, ou vencer juntos”.

“Mas Ehud”, Ashkenazi levantou a voz, “Como será com o público? E com os jornalistas? Eles colocarão para fora todas as histórias, os SMSs de Ronit e Boaz, as gravações. Eles jogarão repetidamente as palavras duras que você disse sobre mim. Você acha que alguém comprará isso? O caso não vai evaporar”.

Barak suspirou. “Gaby, deixe-me expor para você todo o plano. Vamos fazer uma pausa para o café e depois disso você me julgará a partir dos detalhes. Eu lhe digo: essa mobilização vai virar a mesa, e o dano do caso Harpaz será periférico. O público não quer saber mais disso. Nós nos apresentaremos como quem superou o ego em prol do país. Os jornalistas não conseguirão vender novamente uma mercadoria que já ninguém quis comprar três anos atrás. E você está se esquecendo de uma coisa: exceto o ‘Israel Hayom’, os jornais estarão ao nosso lado”.

Buji não terá escolha

Os dois terminaram o café e Barak voltou a expor seu plano. “Nós concorreremos a primeiro-ministro e anunciaremos antecipadamente a rotação. Você será primeiro-ministro nos dois primeiros anos, e eu trocarei com você após dois anos. A princípio eu receberei o Ministério da Defesa, e quando eu o substituir e for nomeado primeiro-ministro, a pasta passará para você. A lista que nós lideraremos será uma lista supra-partidária, composta por algumas facções. Ela se chamará Machane HaMerkaz – O Campo Centrista”.

“Idealmente, Lapid deveria ser um fator significativo nessa lista. Contudo, ele está decidido a ser o número um, e não disputará num formato que diminui a sua força no Yesh Atid. Assim, para estabelecer um bloco amplo e forte no centro, não há alternativa a não ser engolir o Partido Trabalhista. O problema é que os trabalhistas são esquerda, e a maioria do público abomina a esquerda. Então o objetivo central para criar o bloco será diluir”.

“Diluir?” interrompeu-o Ashkenazi. franzindo o cenho. “Diluir a esquerda”, explicou Barak. “Diluir o Partido Trabalhista e mudar o nome para que o eleitor não identifique a nossa lista com a esquerda, ao menos não claramente. Exatamente o que eu fiz em 99 = diluí o Partido Trabalhista junto com o Guesher e o Meimad e chamei a lista de Israel Achat [‘Uma Israel’]. Hoje o público abomina a esquerda ainda mais do que abominava então, de modo que precisaremos diluir melhor. Israel Achat era uma união de três partidos? O Campo Centrista será a união de sete listas: Kadima, Partido Trabalhista, HaTnuá, Kulanu, aposentados, Partido Verde e Meimad.

“Você certamente está se perguntando como exatamente vamos angariar todos na lista que nós vamos liderar. Dê-me mais alguns minutos de paciência e eu detalharei tudo. Será mais simples do que parece”.

Barak parou por um momento para bebericar o resto do café que estava sobre a mesa, tomou fôlego e começou a mergulhar nas minúcias do plano. “O primeiro passo será recriar o Kadima. É uma marca que nos colocará no lugar certo do mapa político. É o coração do centrismo, o partido de Sharon, é uma marca que pertencia ao partido do governo. Nós iremos a Shaul Mofaz (ex-ministro da Defesa) e recriaremos o Kadima como partido dos Chefes de Estado-Maior”.

“Você pretende se associar a Bogui e Halutz?” indagou Ashkenazi. “De forma nenhuma”, respondeu Barak. “Bogui não pode ser parte desse movimento, porque ele é mais falcão (direitista) que Bibi. Nós vamos querer evacuar os assentamentos de fora dos blocos, e ele não nos deixará mover uma pedra. Sobre Halutz, ele é mais um peso que uma vantagem. Ele carrega com ele a Segunda Guerra do Líbano e é visto pelo público como arrogante. Ambos estão fora do plano”.

“Shaul e Benny?” perguntou Ashkenazi. “Exatamente. Criaremos o partido dos quatro Chefes do Estado-Maior. Você, eu, Mofaz e Gantz. Os ministérios mais significativos teremos que guardar para as outras facções que formarão parte do Campo Centrista. A Mofaz sugeriremos ser o candidato do campo à Presidência. Ele acabará concordando. Gantz também concordará, tanto que o chamam no exército de Benny-Huta [footnote]Jogo de palavras, algo como “Benny-tranquilão”.[/footnote]. Benihuta é ótima. Ofereceremos a ele ser ministro da Segurança Interna no governo que formaremos. É exatamente o que a polícia precisa, um pouco de silêncio produtivo”.

Ashkenazi sorriu, e Barak sentiu que conseguiu a primeira brecha na muralha de resistência com que se encontrou no começo. “Nessa etapa começaremos uma campanha curta e agressiva do Kadima. A próxima etapa será voltar-nos para o Campo Sionista [footnote]Lista conjunta do Partido Trabalhista de Buji Herzog com o HaTnuá de Tzipi Livni na Knesset atual.[/footnote]. Buji e Tzipi estarão por um fio. Faremos a eles uma oferta irrecusável”.

Ashkenazi reagiu com suspeita, mas Barak não se dissuadiu. “Você sabe o que acontecerá na primeira pesquisa? Nós vamos desfrutar do efeito do elemento novo e refrescante. Na pesquisa seguinte à coletiva de imprensa de lançamento do novo Kadima receberemos 10-12 cadeiras. Nós pegaremos mandatos de Lapid e Kahlon, mas o golpe mais devastador e doloroso será sofrido pela União Sionista. Pode escrever o que eu estou dizendo: eles receberão nessa pesquisa menos de dez cadeiras.”

“Viremos falar com Buji e Tzipi e os colocaremos diante de duas alternativas: a primeira – eles se juntam a nós como número três e número cinco, Buji como ministro das Relações Exteriores e Tzipi Livni como ministra da Justiça, enquanto o quarto lugar seria reservado para Kahlon. A segunda – eles disputam sozinhos e põem os nomes deles na maior humlihação da história do Partido Trabalhista, oito ou nove cadeiras”.

Ashkenazi estava contemplando o nada e parecia completamente absorto em seus pensamentos. Barak o observou, e se perguntou se o homem a sua frente estava se convencendo. Passados dois minutos de silêncio, Ashkenazi novamente se levantou do seu lugar, cruzou os braços, e disse a Barak que ele tem um pequeno furo no plano.

“Você não tem coalizão sem Lapid, então você precisa guardar para ele a pasta do Exterior”, decretou Ashkenazi. “Se nós formos nesse negócio, e isso é um grande ‘se’, não poderemos guardar a pasta da Defesa para revezar entre nós. Quem de nós não for primeiro-ministro terá que se contentar com o título de vice-primeiro-ministro.”

“Além disso, não vá pensando que o cargo dos sonhos de Buji é a pasta do Exterior. Todo mundo quer ser o que não é. Buji é visto como fraco, e por isso vai preferir exercer a função de ministro da Defesa. A inclusão de Tzipi, por sua parte, começa e termina com a questão diplomática. Isso é o que a interessa. Você terá que oferecer a ela o acordo que ela recebeu de Bibi – Ministério da Justiça mais a responsabilidade pela negociação diplomática sobre o conflito”.

Barak se deliciou. Ele entendeu que não só pescou Ashkenazi na sua rede, mas também que o militar a sua frente era de fato um político de sentidos aguçados. “Escute, Gaby, nós seremos uma equipe invencível”.

O dilema de Kahlon

Como recrutar para o Campo Centrista o Kulanu, perguntou-se Ashkenazi em voz alta, e apresentou diante de Barak três obstáculos: primeiro, Kahlon é um direitista e seus eleitores vêm da direita, então terá dificuldades em ser parte de uma lista que inclui o Partido Trabalhista. Segundo, Kahlon deve preferir manter a independência para ser o fiel da balança, como foi nas últimas eleições. O terceiro é que a força de Kahlon deve crescer uma vez que dois jogadores ainda estão no banco de reservas – Yaalon e Guidon Saar.

“O terceiro obstáculo não existe”, respondeu Barak. Yaalon e Saar não entrarão no Kulanu, por duas razões: os dois sofrem de superestimação da sua força política, e ambos insistem em ser o número um e concorrer para Primeiro-Ministro. Quando Kahlon ler as pesquisas, ele descobrirá que os dois não justificam a expectativa deles de que ele lhes dará de bandeja a liderança do Kulanu”.

“Sobre os dois primeiros obstáculos, eu concordo com você. Se formos agora propôr a Kahlon se juntar a alguma união abstrata, ele vai rir da nossa cara. Mas a vida é dinâmica. E aqui entra o fator definidor – a iniciativa de Liberman em um determinado momento de elevar a cláusula de barreira para 3,25%.

“Kahlon está recebendo hoje nas pesquisas cinco-seis mandatos. No momento em que declararmos a criação do Kadima, ele aparecerá com quatro. Quando nos juntarmos a Buji e Tzipi, ele já se encontrará balançando em torno da cláusula de barreira. Kahlon se deparará com três opções: retornar ao Likud sob Netanyahu; concorrer com a base Kulanu que lhe trará aniquilação política, antes que tenha conseguido lidar com a crise da moradia; ou incorporar-se a nós no Campo Centrista, com a promessa de receber o Ministério da Fazenda e todas as competências que pedir. Acredite em mim, ele escolherá a terceira opção”.

Ashkenazi parecia estar superando suas incertezas. “A penúltima etapa será a mais simples”, continuou Barak. “Elencaremos na lista três representantes das três listas pequenas – os aposentados, os verdes e o Meimad – e apresentaremos ao público um campo unificado e diversificado, composto de sete listas”. “Qual é a última etapa?” indagou Ashkenazi. “A última etapa é a cereja do bolo”, disse Barak. “Esse será o movimento tático final, que se revelará como movimento estratégico. A manobra que ninguém esperava, próxima ao fechamento das listas. Vamos tomar alguma coisa e eu vou detalhar, você vai gostar dessa ideia”.

Generais em blitz midiática

No fim do mês de maio as coisas começaram a se desenrolar em ritmo frenético. Ashkenazi informou Barak que ele aceitava a proposta, e passadas duas semanas os dois se encontraram separadamente com Mofaz e Gantz. Mofaz exigiu a princípio a garantia de receber a pasta da Defesa, mas ao fim se contentou. Gantz pediu um fim de semana de reflexão, até que concordou.

Os quatro concordaram sobre duas semanas de ataque contra Netanyahu, cada um em separado. Barak apareceu em “Encontro com a imprensa”, e alertou sobre a deterioração das relações com os Estados Unidos. Ashkenazi se apresentou ao plantão de notícias do Canal 2, e disse a Yonit Levi que se não se levantar uma força contrária, Bibi e Sara poderão ser coroados rei e rainha, o que assegurará a queda do reino. Gantz foi destaque no Shabatarbut em Beer Sheva, e na semana seguinte em Modiin, quando atacou de frente a conduta de Netanyahu na onda de terror das facadas, incluindo a demora na conclusão da barreira de separação.

Mas o show inesquecível quem deu foi Mofaz na sexta-feira com Dani Kushmaro, quando atacou Netanyahu e cunhou a expressão “20 anos de corrupção”. Por dois minutos ele vociferou no estúdio e bateu o punho na mesa, num momento televisivo que se tornou viral nas redes sociais: “Bar-On-Hevron! O empreiteiro Amadi! Bibi-tours! Mimran! Os presentes! As residências! O eletricista em Yom Kipur! Os móveis do jardim! As garrafas! Os sorvetes! Vocês são todos cegos? Me explica isso, Dani, vocês são todos cegos?”

Os quatro decidiram anunciar a volta do Kadima ainda no fim do mês, para dar tempo de convencer os líderes do Campo Sionista da necessidade da unificação antes da convenção do Partido Trabalhista em julho. Dois dias depois do anúncio as manchetes dos jornais reverberaram os resultados das pesquisas: Likud 21, Yesh Atid 17, Kadima 13, União Sionista 8. A implosão de Kahlon foi ainda mais aguda do que Barak imaginou: uma pesquisa previu para ele quatro mandatos, mas em outras duas pesquisas o Kulanu sequer alcançou a cláusula de barreira. O caminho para o estabelecimento do Campo Centrista estava pavimentado.

Em fins de junho se encontraram Ashkenazi e Barak com Livni e Herzog. Livni percebeu o potencial e evidenciou os sinais positivos, mas Herzog viu na proposta um insulto. Perto do fim da reunião entre os quatro, Ashkenazi surpreendeu Barak quando atirou aos dois uma ameaça improvisada: “Pela decência, saibam que o nosso plano B é se associar ao Yair. Eu em segundo lugar, Ehud no terceiro. Yesh Atid e Kadima é uma aliança devastadora para vocês. Sejamos justos, Buji, você basicamente está nos dizendo: ‘obrigado, mas eu não quero ser ministro da Defesa, prefiro levar o meu partido a sete mandatos e terminar como diretor do Banco de Jerusalém’”.

Três dias depois Herzog hasteou a bandeira branca, e Livni informou a Ashkenazi que os dois concordam com a mobilização. Então começou a bateria de reuniões: Yachimovich foi a única teimosa, quando recusou a proposta de apoiar a união na conferência em troca do Ministério da Economia com competências expandidas. A (Eitan) Cabel foi garantido o cargo de Presidente da Knesset. Amir Peretz recebeu a pasta dos Transportes. Erel Margalit seria ministro das Comunicações. Ashkenazi formulou diante deles a alternativa de forma que entendessem: “Vocês podem vencer Buji e receber um partido de oito mandatos, ou apoiar a unificação, construir a si próprios num gabinete com cargos, e ganhar um partido três ou até quatro vezes maior daqui a quatro anos”. Não foi necessário nada mais que isso.

Hora da cereja

Na convenção de julho de 2017 os membros do Partido Trabalhista votaram a favor da unificação das listas. Ficou concordado que o Campo Centrista disputaria como um único bloco, mas as facções manteriam sua independência. Para Kahlon não sobraram muitas alternativas. A proposta de Barak e Ashkenazi foi generosa: dez candidatos do Kulanu nos 35 primeiros lugares, independência absoluta depois das eleições e competências plenas para cuidar da crise da moradia (ministérios da Fazenda, da Moradia e do Meio Ambiente).

Perto do fim da reunião com Kahlon, Barak arrebatou a jornada de convencimentos: “Moshe, você não vai poder reduzir os preços das unidades habitacionais só com preço do financiamento. Você precisa subir os juros, mas isso você não vai receber da Karnit Flug. Não dá para impôr nada a ela. Você não tem culpa. Se você tiver mais um mandato no ministério, terá a oportunidade de escolher um novo presidente do Banco Central de Israel, e verificará antecipadamente que ele está com a mesma cabeça que você, e passados quatro anos você será um ministro da Fazenda com dez cadeiras, que salvou o mercado imobiliário e os casais jovens. Sendo a alternativa não passar a cláusula de barreira, não há nem dúvida”. Kahlon concordou. Ao longo de agosto foi completado o arranjo da lista com os aposentados, os verdes e o Meimad. O Rabino Melchior se satisfez com o lugar 36.

Às vésperas das festas judaicas a coalizão começou a se enfraquecer. Para todos estava claro que as eleições são só questão de tempo. Ao fim ficou marcado que elas ocorreriam em março de 2018.

Em novembro o Campo Centrista registrou uma vantagem grande nas pesquisas sobre o Likud, enquanto o Yesh Atid ia perdendo altitude. Mas nesse momento a direita reagiu com a sua própria unificação. No quartel-general Ashkenazi-Barak essa movimentação já era antecipada. Numa coletiva de impensa magnífica, Netanyahu, Bennett e Liberman anunciaram que disputariam juntos. Por um momento as pesquisas tenderam em favor da direita, com vantagem de três mandatos.

Ao longo de dezembro foi mantida uma diferença estável de três mandatos em favor da união de direita. “Chegou a hora da cereja”, disse Barak a Ashkenazi em uma de suas reuniões. “É hora de executar a jogada tática que definirá o resultado”.

Em dois dias foi convocada uma reunião de quatro pessoas. Barak, Ashkenazi, Zehava Galon e Ilan Gilon (os dois últimos do Meretz). Barak mostrou à dupla Galon-Gilon uma pesquisa profunda. A imagem era clara: o Meretz não passa a cláusula de barreira. “Acontecerá exatamente o que aconteceu em 2009, quando os eleitores de vocês fugiram no último momento para Livni, para que ela ganhasse do Bibi. Neste momento vocês têm quatro cadeiras, com dificuldade. Mas na hora da verdade, parte considerável dos eleitores do Meretz virão para nós, para que ganhemos mais mandatos que o Likud. Vocês não chegarão a 3,25%”.

“É claro que vocês não podem se juntar ao Campo Centrista, se vocês entrarem perderemos os eleitores de centro-direita, e os mandatos que vocês trarão não compensarão o número de mandatos que sairão. A única forma de vencer Bibi é que vocês não concorram. Ao invés de se humilhar, vocês liberarão a arena, os mandatos de vocês passarão integralmente para nós sem que se grude em nós a mancha do esquerdismo, e os nove anos de Netanyahu chegarão ao seu fim”.

“Não temos expectativa que isso ocorra sem recompensa. Nós queremos propôr a vocês uma oferta justa: Zehava, você será nomeada ministra da Educação, e você, Ilan, ministro do Bem-Estar Social, ambos de fora da Knesset, assim como Bibi nomeou Neeman ministro da Justiça. Além disso, a Knesset aprovará em um ano uma lei para reduzir a cláusula de barreira para 2%, para que seja assegurado o retorno do Meretz à Knesset nas eleições seguintes”.

Ao longo de quatro dias foram realizados aconselhamentos ardentes na cobertura de Galon em Petach Tikva. Em uma das noites, foi organizado um verdadeiro simpósio, com a participação de Amós Oz e David Grossman. No final das contas, todos internalizaram: se o Meretz continuar na disputa, ele não passará a cláusula de barreira, e Netanyahu vencerá. A sorte foi lançada.

Galon telefonou para Barak e informou que ela aceitava a minuta, com duas condições: primeiro, a promessa de reduzir a cláusula de barreira seria ancorada num acordo escrito e vinculante, “não como os acordos secretos do Bibi com seus ministros”. Segundo: a lei de financiamento partidário seria alterada de modo que o repasse seria definido de acordo com a média de cinco legislaturas, não de acordo com a última Knesset, em que o Meretz estaria ausente. Barak concordou imediatamente.

Os dias da definição

O período eleitoral de março de 2018 esteve entre os mais tempestuosos de que se lembravam os analistas. Ashkenazi e Barak orientaram todos os membros do Campo Centrista a evitar atacar o Yesh Atid, o Yahadut HaTorá e o Shas, que seriam os futuros parceiros da coalizão no dia seguinte às eleições. Todas as flechas estavam apontadas para Netanyahu: a onda de terror, os escândalos de corrupção, a denúncia contra Sara no episódio das residências oficiais, o custo de vida, a aliança de extrema-direita com Bennett e Liberman. A investida combinada não lhe deixou chance.

Na segunda semana de março foi disseminado nas redes sociais um meme que dominou o debate público. Na primeira linha se viam fotos desanimadas de Netanyahu, Erdan, Katz e Steinitz. Sob cada imagem estava escrito “ashkenazi”. Na segunda linha estavam sorridentes Ashkenazi, Mofaz, Cabel e Kahlon, com legenda abaixo das fotos. Primeiro-Ministro – sírio; presidente – persa; Presidente da Knesset – iemenita; ministro da Fazenda – tripolitano. Netanyahu se apressou a acusar o Campo Centrista de provocar o monstro da identidade étnica e aprofundar as fissuras do povo. Ashkenazi lhe respondeu que os mizrahim [orientais] estão fluindo em direção às urnas em multidões assombrosas, mas eles não pretendem exatamente votar pela continuação do império dele e de Sara.

Os resultados reais representaram vitória de um mandato para Ashkenazi e Barak, ainda que a diferença entre os blocos fosse inequívoca – 63 para o Campo Centrista, Yesh Atid e a Lista Unificada (árabes), e 57 para o Likud, Judaísmo da Torá e Shas. O Campo Centrista terminou a campanha eleitoral com 44 assentos, o Likud com 43, a Lista Unificada com 11, Yesh Atid 8, e Judaísmo da Torá e Shas com 7 cada.

Ao longo de abril foi completada a negociação da coalizão, e se juntaram ao Campo Centrista conforme planejado o Yesh Atid e as facções ultraortodoxas. A coalizão contabilizou 66 membros, porém na prática contava com o apoio de 77 membros da Knesset. A Lista Unificada, ainda que esclareceu não ter interesse em entrar no governo, garantiu apoio de fora em troca de duas comissões, orçamentos formidáveis para a sociedade árabe e um processo verdadeiro que trouxesse o fim do conflito.

Ao fim da primavera foi empossado o governo.

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