O Concerto

28/05/2013 | Cultura e Esporte

Em todos os lugares do mundo, quando uma pessoa tem tosse, ela vai ao médico.
Em Tel Aviv ela vem aos meus concertos.
Arthur Rubinstein

Sábado dia 25 de Maio, 9 horas da noite, horário de Israel. Em Londres dava-se o pontapé inicial da final da Copa dos Campeões, entre o Bayern Munich e o Borussia Dortmund. Neste mesmo instante eu estava em Tel Aviv, de pé aplaudindo o início de um outro espetáculo, de natureza bem diferente, e na minha opinião, muito mais interessante.

Zubin Mehta havia entrado no palco, com seu jeito gracioso e sorriso na cara, dirigiu-se ao centro do palco, cumprimentou brevemente a platéia e logo virou-se para a orquestra. Mais de cem músicos começaram a tocar em perfeita harmonia o hino nacional, o Hatikva. No meio do hino, na parte do “Od lo avda tikvatenu”, Mehta virou-se ao público e começou a regê-lo. O movimento de sua batuta fez dos ouvintes cantores, e todos fomos instrumentos em suas hábeis mãos. Mehta sempre começa com o hino, e lembro há muitos anos ele regendo a Filarmônica de Israel no parque do Ibirapuera em São Paulo. Meu pai e eu cantando o hino, e toda a platéia em volta olhando esquisito.

Zubin Mehta. Foto de Angela George [CC-BY-SA-3.0], via Wikimedia Commons
Zubin Mehta. Foto de Angela George, via Wikimedia Commons

Dava-se início à temporada 2013 da Orquestra Filarmônica de Israel, no recém reinaugurado Heichal Hatarbut de Tel Aviv, depois de quase dois anos de reforma. Regência do maestro Zubin Mehta, e com participação especial do violinista Itzhak Perlman. O programa: Noam Sheriff, Beethoven e Mahler.

Três horas antes, fui à casa de um amigo que mora em Tel Aviv, e de lá para uma festa de aniversário no terraço de um edifício no boulevard Rothschild. O fim de tarde estava agradável, e a cerveja descia ‘redonda’. Nas escadas no caminho de saída, troquei o shorts, camiseta e havaianas por um outfit mais apropriado à ocasião. De pouco adiantou. A nata da sociedade israelense comparecera em massa ao evento no Teatro Municipal, e não posso dizer que os meus blue jeans e sapatênis fizeram muito bonito comparados com a madame emplumada que sentava ao meu lado. Como eu sempre digo, o importante é a apreciação musical.

Mehta começou regendo Festival Prelude, do israelense Noam Sheriff. A obra durou cerca de dez minutos e foi bastante interessante. No final o próprio compositor foi chamado ao palco para receber os aplausos. Rabisquei a caneta no programa do evento quatro estrelas (de cinco).

Finalmente era hora de receber a estrela da noite, o violinista Itzhak Perlman. Perlman é internacionalmente renomado, e uma rápida lida no Wikipedia nos ensina que ele nasceu em 1945 em Tel Aviv, começou a tocar violino muito jovem e foi estudar aos 10 anos no Juilliard School nos EUA. Ele entrou de muletas, decorrência da poliomelite que pegou aos 4 anos. Mehta o escoltava carregando seu violino, provavelmente o antigo Stradivarius do qual é dono. A escolha da obra não poderia ter sido melhor: Concerto em D maior para violino e orquestra, de Ludwig van Beethoven.

Recomendo ao leitor tocar o video acima, no qual Perlman toca a última parte do concerto, e continuar lendo e ouvindo. Estávamos sentados bem na frente, porém bem no canto direito do auditório, o que colocou uma corpuda violinista loira bem na linha imaginária que ligava os meus olhos ao craque da noite. Na verdade não importa, o importante é que eu estava lá (e a apreciação musical, sempre), e escutei com os meus próprios ouvidos Perlman mostrar a que veio. A palavras prodígio, milagre, sublime, fenômeno, não chegam a explicar o que presenciamos. O longo solo que começa no minuto 6:57 do video acima (não pula, deixa a música rolar sozinha até lá!) nos deixou todos estupefatos, embasbacados, atônitos. O final da obra nos arrancou mais de 10 minutos de ovação em pé, com diversas idas e voltas para fora do palco. Lembrei da cena do mestre Yoda no Ataque dos Clones: chega mancando de cajado, dá uma mostra do que sabe fazer com o lightsaber, dando cambalotas e saltos, e no final retoma o cajado e saí devagarzinho.

A noite terminou com a Sinfonia número 5 de Gustav Mahler, que segundo o programa duraria 70 minutos. Foi um certo de anticlímax, já sem Perlman no elenco e uma obra não tão cativante. O grand finale chegou bastante antes de quando esperava, então no final das contas eu gostei da obra, embora agora eu não lembre muito bem dela, e nenhuma parte da melodia ficou comigo para que eu pudesse assoviar na saída.

Saímos do Heichal Hatarbut transbordando de uma sensação de gratidão. Obrigado Mehta, pela estupenda regência! Obrigado mestre Itzhak-yoda Perlman, obrigado Beethoven! Obrigado professor Victor do Departamento de Física, que nos comprou os ingressos com desconto e que me daria carona de volta a Beer Sheva!

Fotos de Aviad Bar Nes, extraída do site Xnet, e de Wikimedia Commons.

No carro no caminho de volta, Victor e sua esposa, ambos russos que imigraram a Israel nos anos 90, me contaram que são assíduos frequentadores da filarmônica, e que também estiveram presentes no evento comemorativo de 75 anos de fundação da orquestra, em 2011, realizado no porto de Tel Aviv. Eles me contaram que o violinista Bronisław Huberman recrutou músicos judeus que haviam sido despedidos de suas orquestras por toda a Europa, por causa de políticas antissemitas. Em 1936 ele negociou com as autoridades britânicas que controlavam a Palestina, e pode trazer cerca de 1000 judeus, salvando-os da iminente catástrofe. Assim foi fundada a Orquestra Filarmônica da Palestina, renomeada a Orquestra Filarmônica de Israel após 1948.

Perguntei à mulher de Victor se eles sempre escutaram música clássica, só pra puxar papo. Ela virou para trás com um olhar fulminante, dizendo “sou professora de piano! Sabe como é, os judeus que vieram da Rússia são todos ou cientistas ou músicos… ou médicos.”

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “O Concerto”

  • Mario Silvio

    28/05/2013 at 14:39

    ” o início de um outro espetáculo, de natureza bem diferente, e na minha opinião, muito mais interessante.”
    Permita-me uma observação Yair. Independentemente de gosto (enquanto você se deliciava com a Filarmônica eu assistia ao jogo em um cinema em 3D), os “tops” merecem ser vistos.
    Tive a honra e o prazer de ouvir os dois aqui em São Paulo (Itzhak Perlman e a orquestra, separaamente) assim como, apesar de não gostar nem um pouco de ballet fui assistir o Barichnikov.
    Pode-se preferir música a futebol ou vice-versa, mas entre Barcelona x Bayern e a Sinfônica de Piraporinha do Oeste, ou entre a de Israel e Quixeramobim x Guajara-Mirim, não deve haver dúvida sobre o que ir ver.

    Falei em Bayern e Barcelona apenas para não citar o óbvio, o melhor de todos, o Campeão do Mundo.

  • Isabel

    28/05/2013 at 18:40

    Adoro os textos do Conexão. Toda semana leio e por morar em Sede Boqer ( um pouco “distante” do centro ) me sinto super atualizada do que acontece com seus textos Yair. Porem esse ultimo em especial me tocou !!! Escutei a musica ( nao fui ao solo como vc recomendou… risos) e pude sentir ate um pouqinho a emoção. Sabe aqui no Midresht temos uma vez ao ano concerto de piano _ assim como no Kibbutz alguns bons shows e festivais de musica – Isso é algo que passei a apreciar ainda mais desde que vim para Israel !!! Obrigada pelo belo texto ! Isabel

  • Raul Gottlieb

    28/05/2013 at 20:04

    Sempre que posso vou assistir a Filarmônica de Israel e fiz isto no mês passado, num dos “soft openings” do Auditório Mann. Ele não mudou quase nada, só ficou tudo novinho, A modificação deve ter sido na infra estrutura.

    Sempre penso que é mais fácil arrancar aplausos com Beethoven do que com qualquer outro, da mesma forma que é mais fácil arrancar aplausos com a Filarmônica de Israel do que com qualquer outra. Você efetivamente assistiu o creme de la creme.

    Quanto à citação do Rubinstein lá em cima, ele só fala isto porque nunca tocou no Rio. Aqui a coisa é muito mais grave! Pena que você não levou o Marcelo ao concerto – ele também gosta muito, você sabe…

  • João K. Miragaya

    06/06/2013 at 21:23

    Muito legal, Yair!

  • Sonia Barg

    09/06/2013 at 00:10

    Yair muito obrigada por me dar o prazer de participar deste lindo concerto. Me senti sentada no Heichal Hatarbut como se o estivesse ouvindo. Fiquei emocionada!!!

  • Vivianne

    10/06/2013 at 16:53

    Eu estou muito feliz por ter conhecido a revista Conexão Israel. Sempre que possível acompanho as notícias que aqui são difundidas. Yair saiba que gosto muito da maneira como produz os seus textos. Nesse, especialmente, você conseguiu descrever e passar aos seus interlocutores o profundo sentimento de estar no concerto. Isso é bastante positivo. Dá prazer de ler o que escreve. Também estou gostando de conhecer o Shirim em Português. Até breve.