Só o conflito importa?

03/09/2014 | Conflito; Sociedade

No dia em que a Copa do Mundo começou, anunciou-se o sequestro de três jovens judeus Eyal Yifrah, Naftali Frenkel e Gilad Shaye. Desde então este tema dominou completamente os meios de comunicação no país e expandiu-se para o exterior. Talvez devido ao azar por ter ocorrido em paralelo ao torneio esportivo mais importante do mundo, o caso não tenha recebido tanta atenção da mídia internacional. Aqui em Israel, entretanto, só se falava nisso. Claro, também se falava em Copa do Mundo. O noticiário era dividido entre o caso dos três garotos,  a busca por eles na Cisjordânia e os prognósticos para um sombrio futuro. Parecia que nada mais acontecia no país.

 

Ao ler os jornais, no entanto, pode-se perceber que acontecem outras coisas no país. Coisas muito importantes, por sinal. Fora os rotineiros e infelizes acidentes de trânsito com vítimas fatais, a página policial recheada de acontecimentos deprimentes (como em todos os lugares do mundo) e outras notícias, colunas e reportagens sobre temas comuns, há, de fato, coisas importantes acontecendo no país. Tão importantes que mereceriam destaque nas capas dos principais periódicos sérios de Israel, caso não houvesse um tema que dominasse a agenda do país: o conflito com os palestinos. Não estou discutindo se o conflito é ou não é o tema mais importante desde sempre. É sim. Mossi Raz, diretor-geral da rádio Kol HaShalom, me disse nesta entrevista que os jornais dão cada vez menos espaço ao conflito israeli-palestino. A grande questão é que, quando o conflito tem momentos de crise, parece que nada mais acontece em Israel. Selecionei estes quatro exemplos, todos eles ocorridos ainda antes do início da Operação Margem de Proteção, quando o sequestro dos adolescentes e a reação israelense ainda eram os principais assuntos.

 

Shai Piron
Shai Piron

Uma declaração polêmica do ministro da educação, o rabino Shai Piron (Yesh Atid), mexeu com parte do país há um tempo, Piron afirmou: “Acho que é um dever do Estado judeu dar aos casais homossexuais o direito de viver suas vidas normalmente – mas não constituir família. Mas devem ter direitos econômicos, hipoteca, decidir seus rumos, etc.” Posteriormente, pensando no rumo que suas declarações pudessem tomar, Piron disse: “Não é minha função definir o que é família. Eu tenho uma família e ela se define desta forma. (…) Peço desculpas aos que se ofenderam, eu devo permitir a todos construírem suas vidas e definir o que é família como quiserem.” Prosseguindo, disse: “Eu aceito que cada um defina o que é família para si. Ao mesmo tempo, vocês devem recordar-se que eu sou um rabino, e qual é a minha identidade. A definição haláchica (lei judaica) sobre família é diferente da definição civil”. Shai Piron não é qualquer um, é o ministro da educação. Era visto pela população secular como um rabino ortodoxo tolerante, com quem seria possível construir um diálogo. Seu comentário gerou protestos: o partido Meretz exige a sua demissão até agora, mesmo após suas desculpas, que não convenceram a todos. Mais uma contradição existente em um Estado judeu e democrático (leia mais aqui e aqui) mexe com o país. Ou melhor, deveria mexer. Mas não gerou muito alarde, pois a população estava mais preocupada com outras coisas.

 

Gideon Saar
Gideon Saar

Não só declarações polêmicas tivemos nestes dias: o ministro do interior Gideon Saar, e número dois do Likud, regulamentou uma lei que obriga os estabelecimentos comerciais de Tel-Aviv a fechar suas portas durante o Shabat (leia mais aqui). A cidade mais laica do país, oásis de liberdade durante o dia no qual quase tudo fecha em quase todo o país, agora seria obrigada a fechar suas portas. Segundo Saar, “O Shabat necessita ser visto de outra forma em Israel”. Parlamentares de alguns partidos protestaram. Nitzan Horowitz, do Meretz, afirmou: “Vocês, religiosos, pensam que o secularismo não tem valores. Pois eu lhes digo: sim, tem. O Shabat para um judeu secular é um dia de descanso e liberdade”. Eli Yishai, número dois do partido Shas, afirmou: “Todos os países têm seu dia de descanso, e é totalmente compreensível que o sábado seja o do povo judeu. Eu sinto muito que em um momento tão sensível alguns procurem prejudicar a doutrina israelense e a fé da maioria dos habitantes do Estado de Israel”. Analistas do diário Haaretz afirmam que Saar estaria tentando trazer os partidos ultraortodoxos (como Shas e Yahadut HaTora) para seu lado, já que Netanyahu os deixou de fora da coalizão[ref]Por exigência de Yair Lapid.[/ref]. Segundo os mesmos analistas, Saar representa uma parcela do Likud que, insatisfeita com Netanyahu, pensa em lançá-lo como alternativa para as primárias do partido. Passou quase despercebido. Neste sábado eu pude presenciar os estabelecimentos abertos. Segundo o Canal 2 de televisão, eles preferiram pagar multas a fechar suas portas. A diferença é que a mudança na legislação pode fazer com que a justiça multiplique estas multas. O prefeito de Tel-Aviv, Ron Huldaí (Trabalhista), está indignado. Mais um tema que envolve as disputas entre religião e democracia. E ninguém fala sobre isso. Há temas mais importantes no momento.

 

Stav_ShaffirAlém dos temas que envolvem religião e Estado, lhes digo que a mais significativa notícia do mês tem a ver com economia. A parlamentar trabalhista Stav Shaffir (Trabalhista), líder das manifestações por justiça social que eclodiram no país no verão de 2011, foi responsável por um feito de singular relevância: a Lei do Orçamento, a mais importante do país em minha opinião, será revisada. A parlamentar questionou a forma como o presidente da Comissão de Finanças Nissan Slomiansky (HaBait HaYehudi) executa o seu processo, e, intimidada pelo mesmo, resolveu ir à Suprema Corte de Justiça. Lá a parlamentar questionou dois pontos: a forma como as reuniões da Comissão de Finanças são marcadas (na hora que o presidente bem entender, sem importar-se se há outras sessões na Knesset) e a redação da lei. Segundo Shaffir, todas as pequenas leis que envolvem qualquer quantia financeira, são adicionadas à Lei do Orçamento. Esta seria uma forma de os partidos pequenos aprovarem leis sem ter a maioria da Knesset, de forma anti-democrática. Ao questionar Slomiansky, recebeu como resposta: “Sempre foi assim. Quem se interessa que venha discutir.” Shaffir acusou-o na Suprema Corte de ser o responsável pelo corte de 250 milhões de dólares do orçamento para políticas sociais. A Suprema Corte deu vitória a Shaffir, e Slomiansky terá 90 dias para rediscutir a Lei do Orçamento e aprová-la. Caso contrário, colocará o governo em risco[ref]A Lei do Orçamento deve ser sempre revisada a cada dois anos, e, em caso de não aprovação, o governo cai[/ref]. Mas a maioria da população parece não saber o que aconteceu. Há coisas mais importantes.[ref]Durante um cessar-fogo a comissão de orçamento voltou a reunir-se. A parlamentar Shaffir foi expulsa da reunião por ordem de Slomiansky[/ref].

Nissan Slomiansky
Nissan Slomiansky

 

De fato, havia algo mais importante acontecendo. Mais de um milhão de israelenses estavam, naquele momento, escutando sirenes, sendo obrigados a esconder-se de foguetes lançados pelo Hamas e pela Jihad Islâmica de Gaza. O exército israelense, por sua vez, bombardeava a Faixa de Gaza com frequência, com o objetivo de danificar a estrutura militar do Hamas na região, e consequentemente causando mortes e destruição de bens pertencentes a civis. O exército invadiu Gaza, iniciou uma operação terrestre. A operação causou em 50 dias a morte de 66 soldados e seis civis isralensese, e 2.143 palestinos (segundo as FDI, mais da metade eram terroristas). Em Jerusalém Oriental e em algumas cidades árabes em Israel (como Uhm Al-Fahm, Nazaré e outras), e em diversos pontos na Cisjordânia, polícia e exército entraram em choque com a população, causando mortos, presos e feridos. O Hamas clamou pela Terceira Intifada. Foguetes foram (e ainda são) lançados do Líbano e da Síria. O cessar-fogo não mudou o clima de guerra.

 

Sem dúvidas resolver o conflito é urgente. Desde antes de o Estado de Israel existir, a população judaica aqui lida com o conflito (leia aqui para saber mais). Alguns acusam o governo, quando pouco, de usar o conflito para camuflar problemas graves. Não estou 100% de acordo, mas tampouco nego. Marx uma vez disse que a religião era o ópio do povo. O conflito, eu diria, está longe de aliviar a população. Mas a distrai muito. A distrai tanto que faz com que a sua resolução (ou tratamento, nas palavras do radical Arie Eldad) seja prioridade máxima. E aí o conflito permanece no topo da agenda. Enquanto não for resolvido, parece que nada mais será.

 

O artigo foi escrito nos primeiros dias da Operação Margem de Proteção. Durante os confrontos, o governo anunciou a verba de 40 milhões de shkalim (aproximadamente 12 milhões de dólares) para a expansão de assentamentos na Cisjordânia, sem que nenhum grande veículo de informação desse destaque.

Comentários    ( 5 )

5 comentários para “Só o conflito importa?”

  • Mario Silvio

    03/09/2014 at 15:27

    O importante é que você concorda que havia algo mais importante acontecendo. Eu diria muito mais, mas tudo bem.
    Em relação aos seus três exemplos, concordo com o terceiro, mas os dois primeiros, na minha opinião, não merecem que se perca tempo com eles. Aqui no Brasil, como estamos muito perto das eleições, todos os dias os candidatos falam besteiras enormes. Coitado de quem os leva a sério.

  • Rafael Stern

    03/09/2014 at 17:43

    Além dos milhões de shekalim liberados para os assentamentos, segundo a própria Stav Shafir, as comunidades no entorno de Gaza que sofreram destruições durante a operação Amud Anan, há dois anos atrás, ainda não viram 1 centavo do dinheiro prometido para a sua reconstrução. Só para frisar, a operação de dois anos atrás! E estamos falando de comunidades dentro das fronteiras incontestáveis de Israel, não de comunidades que um dia podem ser evacuadas, fazendo com que todo esse dinheiro investido nelas seja literalmente desperdiçado (sem mencionar o erro moral que é construí-las). Enfim, parece que esses verdadeiros pioneiros sionistas, que se recusam a sair de suas casas na fronteira com Gaza e delineam assim o mapa de Israel são menos importantes do que fanáticos religiosos que sonham com uma Israel messiânica…

  • Marcelo Starec

    03/09/2014 at 23:51

    João,
    O que você relata no texto (e para mim faz todo o sentido) é que,segundo entendi, o conflito é um problema real de Israel, mas acaba fazendo com que a sociedade não dê a devida atenção a uma série de questões que, na hipotética ausência deste, seriam melhor debatidas e eventualmente outro caminho seria delineado. É verdade e inclusive eu até ousaria comparar isso, por exemplo, com o antissemitismo, como uma mera analogia. Sem ele, o povo judeu eventualmente pensaria de forma diferente. Concordo com o que você colocou, entretanto, acrescento que, a despeito do conflito e da ameaça existencial constante a Israel, muita coisa foi feita. É certo que Israel, com todos os defeitos, consegue ser uma democracia vibrante, aceitar em seu território, como cidadãos, um número relativamente muito grande de um povo em tese “inimigo” – mérito que, em meu entendimento, poucas sociedades do mundo conseguiriam ter êxito. Apesar de todos os méritos,entretanto, sou obrigado a concordar que, sem o conflito, é mais do que razoável pensar que Israel estaria apta a atingir um nível muito melhor ainda, em quase todos os aspectos para se medir o bem estar e o desenvolvimento humano de uma nação.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    04/09/2014 at 07:53

    Outra coisa importante que aconteceu durante o conflito foi a negociação de um acordo de fornecimento de gás natural para a Jordânia pelo período de 15 anos, num valor estimado em 15 bilhões de dólares. O acordo será assinado nos próximos dias e demonstra que Israel negocia com os países árabes que o aceitam como um Estado judaico e consegue chegar em acordos vantajosos para o desenvolvimento da região.

    Sem a tecnologia israelense o gás continuaria debaixo do mar, não servindo para melhorar a condição de vida dos humanos em cima dele e sem a visão dos Jordanianos os árabes deste país pagariam um preço mais alto pela energia.

    Outro episódio que se passou durante a guerra foi a negociação da prefeitura de Jerusalém para a obtenção da aprovação pelo conselho da cidade do projeto de construção de um grande bairro árabe no leste da cidade. O acordo foi alcançado ontem, depois da guerra, mas as negociações se mantiveram durante a guerra. O bairro de Arav al-Sawara abrigará 2.200 casas para famílias árabes.

    Sem o empenho do prefeito Nir Barkat e do vice prefeito Kobi Kahlon este projeto, contestado pela extrema direita no conselho da cidade, não teria sido aprovado. Barkat saudou a decisão dizendo “The planning of neighborhoods in eastern Jerusalem by the municipality is a clear expression of Israeli sovereignty over all parts of the city and strengthens the unity of Jerusalem.”

  • Raul Gottlieb

    05/09/2014 at 13:37

    Outra boa notícia durante a guerra é que aprendemos via o texto cujo link vai abaixo que nem todos os Palestinos são facilmente ludibriados como os intoxicados pela ideologia da da fraternidade e igualdade universais ou são mortalmente aterrorizados como os jornalistas que operam dentro de ditaduras sanguinárias.

    Recomendo fortemente a leitura para os que não tem medo de ler blogs qualificados como “de direita”. Para os demais, suspeito que tanto faz, pois a meu ver não entenderão nada mesmo.

    http://www.gatestoneinstitute.org/4628/hamas-war-crimes-and-crimes-against-islam

Você é humano? *