O desfecho de uma tragédia nacional

03/07/2014 | Conflito, Política, Sociedade.

Assim que soube que o enterro de Eyal Ifrach, Gil-ad Sha’er e Naftali Fraenkel seria em Modi’in, cidade onde eu moro, não tive dúvidas de que eu estaria lá.

Toda a tragédia que tomou conta das nossas vidas nas últimas três semanas mexeu comigo profundamente. Desde o momento em que surgiram os boatos de um sequestro, eu não conseguia pensar em outra coisa. Checava notícias o tempo todo, lia tehilim (salmos), postava atualizações no Facebook para tentar compensar o descaso da mídia internacional, ajudava a divulgar na diáspora a campanha #BringBackOuyBoys, comprava e entregava doações para os soldados trabalhando na operação de resgate. O sentimento era uma mistura de dor, angústia, tristeza, indignação, impotência.

Sentia muita pena das famílias dos jovens, e ao mesmo tempo, muita admiração. Que mães corajosas! Quanta fé! Quanta força! Como elas conseguiram discursar na reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, com tamanha eloquência e auto-controle?

Mas desde o início do episódio, uma coisa já me chamava a atenção: a comoção nacional e a união do povo. Eram tantas demonstrações de solidariedade e tanta vontade de ajudar! Religiosos e laicos acompanhando, rezando, cantando, acendendo velas de Shabat, assando chalot (tradicional pão de Shabat), recolhendo doações aos soldados, participando de manifestações virtuais e presenciais. Enfim, todos os corações e mentes dos israelenses pareciam estar em sintonia.

No dia 30/06, por volta de 20:30, eu estava fazendo compras quando ligaram o rádio do supermercado. A primeira coisa que ouvi foi algo como “… e agora vamos falar com x-y-z que foi quem encontrou os jovens”. Por um momento, achei que Eyal, Gil-ad e Naftali tinham sido encontrados vivos e resgatados, mas logo depois percebi que não era nada daquilo e que o pior tinha acontecido. Silêncio sepulcral no mercado, funcionários se preparando para fechar as portas. A partir daí, minha televisão passou a ficar ligada horas e horas seguidas e o meu sono foi para o espaço. Que tristeza. Que indignação. Que raiva.

Por isso, quando soube que o enterro seria na minha cidade, senti uma obrigação moral de participar. O enterro estava marcado para as 17:30. As 17:00 sai de casa em direção a um dos pontos na cidade de onde sairiam ônibus para transportar as pessoas até o cemitério. Muitas ruas estavam fechadas e carros particulares não tinham permissão para estacionar dentro do cemitério.

Quando cheguei ao tal ponto de encontro, vi dezenas de pessoas esperando debaixo do sol. Os ônibus não estavam conseguindo absorver tanta gente. Então, alguns perguntaram a um dos policiais quanto tempo levariam para chegar se fossem a pé. Diante da resposta do policial de que seria mais ou menos uma hora, disseram: “Ok, me explique o caminho”. A determinação deles me contagiou e resolvi andar de volta até o carro e dirigir até o ponto mais próximo possível. O resto do trajeto eu faria a pé. Não queria perder a cerimônia de jeito nenhum. Dei carona para dois amigos e um estranho. Depois de estacionar o carro, ainda andamos mais 30 minutos e seguimos por uma trilha no meio do mato para cortar caminho.


De repente, quando o mato terminou, olhei para frente e vi um mar de gente. Caramba, quanta gente! Em uma procissão silenciosa, as pessoas continuavam a chegar num fluxo incessante. Apesar de já ter passado das 18:00, o calor era quase insuportável. De repente, encontramos um repórter do Jornal Nacional, que acabou entrevistando a mim e a minha amiga. Perguntou sobre o que nos levou até lá e se haveria diferença entre a violência do Brasil e a dos terroristas em Israel. “Somos um povo só e quando dói em um, dói em todos. Toda a violência é ruim, não importa onde. Nesse caso, os meninos foram mortos simplesmente por serem judeus.” A entrevista não foi ao ar até onde eu sei, mas ficamos todos muito impressionados com a coincidência.


O enterro ainda não havia começado porque o corpo de um dos jovens estava preso no trânsito, tamanha era a quantidade de gente indo em direção ao cemitério. Enquanto subíamos mais uma ladeira, a ambulância passou do nosso lado. Tristeza.

Conseguimos avançar só mais um pouco, porque todos os espaços estavam tomados de gente. O máximo que conseguíamos era ouvir os discursos através de alto-falantes. Depois descobrimos que até isso foi um privilégio, já que a quantidade de pessoas atrás de nós não parou de crescer e de lá nem o alto-falante dava para escutar.

Chefes de Yeshivá, Rabino-chefe Sefaradi, Rabino-chefe Ashkenazi, Primeiro-Ministro, Presidente. Foram discursos emocionados e emocionantes, mas nada foi mais doloroso do que ouvir os pais dizendo o kadish (reza para os enlutados) para os filhos. A nossa volta, lágrimas corriam soltas nos rostos de dezenas de milhares de pessoas que nem sequer conheciam as famílias.

Em seguida, foi anunciado que os parentes desejavam que o enterro propriamente dito acontecesse de maneira privada, com a presença apenas de familiares e amigos muito próximos. Depois de terminado esse ritual, a entrada de todas as outras pessoas seria liberada.
Começamos a caminhar em direção a saída. Olhar para os lados era um exercício impressionante: de um lado, um homem cego sendo amparado por um aluno de yeshivá (academia rabínica), do outro o Rabino Lifschitz, da Yeshivat HaKotel, que perdeu seu filho no atentado à Yeshivá de Mercaz HaRav, em 2008. Mais a frente, uma mulher de cadeira de rodas. Por todos os lados, adolescentes, idosos, casais jovens, bebês recém-nascidos, vindos de todos os cantos do país. Todo o tipo de gente, todo o tipo de linha ideológica. O único que não se via eram crianças. Graças a D’s, no Oriente Médio isso não é óbvio.

Pessoas ofereciam água a desconhecidos, pessoas ofereciam carona a desconhecidos, pessoas ofereciam todo o tipo de ajuda a desconhecidos. Depois soube que 60 mulheres da cidade de Beit Shemesh se voluntariaram para serem babysitters da crianças de Talmon, povoado onde vivia a família Sha’er. O objetivo era que os amigos dos pais de Gil-ad pudessem ir ao enterro. Incrível.

Esse espírito de amor e união foi o que saiu de positivo dessa história tão triste. Quase todas as figuras públicas que discursaram tocaram nesse ponto, assim como os familiares. Eu senti isso na pele. Onde há dois judeus, há três opiniões. Mas definitivamente um só coração. Que o nosso povo continue cada vez mais unido e forte, não só nas horas difíceis, mas em todas as horas. Amen.


karen Karen Rosental Nigri é carioca, economista e sionista. Chegou a Israel em abril de 2009 e atualmente vive com seu marido, filho e filha em Modi’in, cidade localizada no meio do caminho entre Jerusalém e Tel Aviv

Comentários    ( 10 )

10 Responses to “O desfecho de uma tragédia nacional”

  • Yair Mau

    03/07/2014 at 16:17

    Obrigado, Karen, por seu relato.
    Gostaria de saber o que você tem a dizer sobre as pessoas que estão clamando agora por vingança.

    • Natan Rolnik

      03/07/2014 at 17:58

      Yair, estive com a Karen no enterro, e pelo que conheço, tenho certeza que ela, assim como eu, reprova esse tipo de comportamento.

      Gostaria de saber o que você tem a dizer sobre as pessoas que correram para condenar os “judeus religiosos terroristas que mataram” o árabe encontrado morto ontem pela manhã em Jerusalém, antes mesmo da polícia divulgar o resultado final da investigação – que, pode tanto indicar para um background de vingança, quanto um oportunismo dos árabes de uma situação de win-win: tanto jogar a culpa nos “judeus religiosos terroristas”, quanto matar um garoto de uma família que diferia quanto sua opção sexual (artigo relacionado: http://www.algemeiner.com/2014/07/02/analysis-arab-sex-and-arab-terror/). Independente do motivo, ainda não se tem conclusão nenhuma.

      Será que esse sentimento de vingança existe entre o nosso povo e nossos vizinhos, ou principalmente *dentro* do nosso povo, que já saiu fazendo protesto contra os “judeus religiosos terroristas”?

    • Yair Mau

      04/07/2014 at 03:52

      Claro que é errado supor automaticamente que foram os “judeus religiosos terroristas” que mataram o garoto árabe, não há discussão a respeito. Existe ódio por todas as partes, entre judeus e árabes, e entre judeus de diferentes backgrounds. Agora eu faço uma pergunta. O que é mais provável que aconteça:
      a) um árabe passando pela manifestação dos “vingadores” de jerusalem ser linchado, ou
      b) um “vingador” ser linchado numa manifestação de esquerda em Tel Aviv.
      A resposta é clara, eu mesmo a dou: a. Não dá pra comparar. Aliás, creio que os “esquerdistas” não tenham tando ódio dos “vingadores” por quem eles sejam, e mais pelo que eles estão fazendo com a democracia israelense.

    • Mario S Nusbaum

      04/07/2014 at 18:38

      “Agora eu faço uma pergunta. O que é mais provável que aconteça:
      a) um árabe passando pela manifestação dos “vingadores” de jerusalem ser linchado, ou
      b) um “vingador” ser linchado numa manifestação de esquerda em Tel Aviv.”
      A minha resposta também é a, SÓ QUE:
      Nenhum foi. Será possível que nenhum árabe passou perto das várias manifestações???
      Trechos do post Olho por Olho, nem um pouco suspeito de ser favorável aos vingadores:

      “Então, do outro lado da rua, vejo uma moça com hijjab, correndo e abaixando sua cabeça. Pensei em ir atrás dela. Após alguns segundos, o rebanho passa a persegui-la, gritando “Morte aos árabes!”. Sinceramente temi por sua vida, sinceramente achei que fossem linchá-la”
      Não foi
      ” Quando o grupo de recistas percebeu o garoto, as portas do vagão já havia se fechado, mas eles atingiam os vidros com golpes mortais e faziam gestos obscenos para o garoto. Ele fez os mesmos gestos de volta, mas sentava-se curvado e eu acredito que também um pouco amedrontado”
      Não aconteceu nada com ele.

      Agora, se você me permite, também tenho uma pergunta:
      a) um árabe passando pela manifestação dos “vingadores” de jerusalem ser linchado, ou
      b) um judeu ser linchado no enterro do jovem palestino

    • Yair Mau

      04/07/2014 at 03:56

      Não estava acusando ninguém de nada, de toda forma obrigado pela resposta. Eu tenho conhecidos que sim justificam a vingança, achei pertinente perguntar para você também. Aliás, suponho que você também conheça gente com sede de vingança, eles estão por toda parte nestes dias.

  • Claudio Daylac

    03/07/2014 at 17:36

    Karen, parabéns pela sua iniciativa em participar e obrigado por compartilhá-la conosco!

  • Rodrigo Weisz

    03/07/2014 at 23:57

    Belo Relato!! Impressionante, pra mim, foi o papel da mídia brasileira, que se limitou a cobrir as incursões feitas pelo exército em busca dos 3 meninos, mas o sequestro por si, era colocado secundariamente…

  • Mario S Nusbaum

    04/07/2014 at 18:47

    Yair é óbvio que existe ódio por todas as partes, entre judeus e árabes, e entre judeus de diferentes backgrounds.
    Existe ódio em todos os países do mundo a diferença entre eles é que em alguns o governos faz de tudo para não deixar que ele se manifeste violentamente e em outros faz de tudo para incentiva-lo e para que termine em tragédias.
    Não seria necessário, mas mesmo assim vou dar exemplos dos dois casos.
    Do primeiro: Israel, EUA e Holanda. Do segundo: Gaza, Irã e Síria

Você é humano? *