O dia em que fui homem

Tudo começou com um querido amigo me pedindo ajuda com a maquiagem para Purim. Ele é crossdresser. É heterossexual, mas gosta de se vestir de mulher de vez em quando. Isto não tem relação com orientação sexual, é simplesmente uma troca de identidade e vontade de experimentar a vida sob outro aspecto, no caso, outro gênero.

Um fotógrafo quis registrar a transformação do Yuval, e lá fui eu fazer a maquiagem. Ajudei com a depilação, contei todos os segredos de maquiagem que eu sei e ainda emprestei os meus melhores produtos. Depois disso saímos para uma cerveja com a sua namorada e outros amigos. Ele não só se veste de mulher, mas se comporta como uma. Foi super interessante ver essa transformação. E daí me veio a ideia de me vestir como homem para Purim.

Meus amigos sempre brincam que eu sou um homem gay preso dentro do corpo de uma mulher, especialmente por causa do meu gosto musical. Purim seria uma excelente oportunidade para realizar essa fantasia. Com ajuda do meu roommate procurei uma referência masculina marcante e – por que não?  – glamourosa. Chegamos à conclusão que Clark Gable seria ideal, ainda que nenhum israelense soubesse quem ele foi.

Fui a uma loja de roupa masculina e comprei uma camisa social branca, com o colarinho perfeito. No mercado encontrei um paletó preto de segunda mão, e na loja de fantasias uma gravata borboleta e suspensórios. Na farmácia comprei gaze para esconder os seios, afinal queria levar tudo a sério. Com um lápis preto desenhei um bigodinho no estilo Gable, e fui para a rua celebrar.

11021212_10153131162317350_4682012212478008550_n

 

A primeira parada foi no bar do hostel onde trabalhei, para uma cerveja. Ainda estava tentando entrar na persona.  A linguagem corporal demorou um tempo. Me pegava sentando com a perna cruzada e descruzava imediatamente. Tentei jogar sinuca, mas mesmo como homem sou um fracasso.

Depois fui encontrar amigos para drinques. Comecei a perguntar para os homens onde eles tinham comprado o sapato, que era lindo, e pedindo dicas de como ajeitar a gravata borboleta. De lá fui para o ponto alto da noite, um jantar no Mona – um dos melhores restaurantes de Jerusalém – com uma amiga querida que voltou para Israel. Ela é jornalista e ficou presa no escritório por uma hora e meia. Então eu me tornei o cara sozinho, sentado no bar, bebendo um gin tonic e esperando pela garota. A bartender, muito gentil, entrou na brincadeira e só me tratava no masculino (em hebraico se flexiona o verbo). Foi engraçado. Resolvi usar o banheiro masculino, já que estava carcaterizada, e descobri que o feminino é muito melhor.

No dia seguinte, Shushan Purim, fui com amigas para a festa de rua no bairro de Nachlaot. No caminho fomos paradas por uma mulher religiosa distribuindo velas de Shabat. Ela entregou para todas as meninas, menos para mim. Sucesso! pensei. Meus amigos, já no clima, só falavam comigo no masculino. Na hora de dançar, nova dificuldade, tentei segurar os braços e o quadril, já que o objetivo era vivenciar tudo como homem. Infelizmente eu não consigo fazer xixi em pé.

Em algum momento me perdi dos amigos e resolvi voltar ao hostel. Lá encontrei meu ex-chefe com a família, 3 crianças lindas, que brincaram comigo sem fazer nenhuma pergunta. Impressionante como as crianças encaram o que para os adultos é diferente ou estranho bem melhor. Voltei pra casa bêbada – já falei que era Purim, certo?  – e muito feliz.

11035928_10153136211192350_8533446140697241555_n

Minhas considerações sobre dois dias como homem: andar sem bolsa é um alívio. O paletó é cheio de bolsos, tinha tudo o que precisava sem ficar com nada pendurado no ombro. Os homens que me olhavam ficaram confusos. Foi o primeiro purim em que nenhum flertou comigo, mesmo no fim da bebedeira. Andei pelas ruas com a maior segurança, o poder da masculinidade existe e é forte. Em geral as meninas se vestem com fantasias bonitas ou sexys, o fato de estar longe da figura de mulher atraente me deu uma liberdade enorme.

O exercício de se colocar no lugar do outro é fascinante, seja outro gênero, outro ponto de vista, e pode servir como metáfora pra muita coisa por aqui. Se quiserem fazer isso no próximo carnaval não hesitem em me pedir ajuda.

 

Foto de capa: Julie Andrews em Victor/Victoria

 

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “O dia em que fui homem”

  • Marcelo Starec

    25/03/2015 at 16:58

    Oi Mila,
    Adorei o seu artigo!…Fiquei rindo sozinho imaginando tudo o que você vivenciou…Interessante o artigo e a metáfora também!…..
    Abraços,

  • Ada Chaseliov

    25/03/2015 at 18:53

    Que pena que eu não estava aí!
    Ia ser uma ótima experiência ser mãe de um rapaz.
    Adorei o texto!

  • Cassio Pandolfh

    25/03/2015 at 19:19

    Na brincadeira você pesquisou a realidade. Com as suas ferramentas não só realizou um bom trabalho mas também forneceu dados para futuras pesquisas de outros possíveis interessados. Experimentou e compartilhou. Você sabe viver.

Você é humano? *