O dilema dos prisioneiros e o Conflito Israel-Palestina

04/08/2014 | Conflito.

É do nosso interesse melhorar as condições socio-econômicas do povo palestino. Esta seria a melhor forma de evitar futuros conflitos, como a atual operação Margem de Proteção. E não se trata de uma questão moral. Minha análise pretende mostrar que do ponto de vista estratégico, isto seria bom para Israel. Neste texto, apresento este argumento com base no dilema dos prisioneiros, um famoso modelo de Teoria dos Jogos.

O dilema dos prisioneiros já foi usado por diversos cientistas políticos e economistas, como um modelo para explicar relações entre países, competição entre empresas ou mesmo situações do dia a dia.[ref] Prisoner’s DilemmaA Study in Conflict and Cooperation, Rapoport,A. [/ref] Este modelo ganhou popularidade por ser de fácil entendimento e, principalmente, por apresentar um resultado paradoxal: seu equílibrio se encontra em um ponto ineficiente. Veremos isso mais adiante.

Vamos começar pelo nome. Porque Dilema dos Prisioneiros? O dilema se refere a uma história de dois prisioneiros que devem decidir se acusam um ao outro ou se mantém calados. Esta descrição retirada da Wikipedia nos explica bem a situação:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?

Costumamos escrever jogos como esse em formas de tabela para tornar mais fácil a sua visualição. Neste caso, a Tabela 1 nos mostra como ficaria o dilema dos prisioneiros descrito acima:

B permanece em silêncioB acusa o outro
A permanece em silêncio6 meses preso, 6 meses preso10 anos presoLivre
A acusa o outroLivre , 10 anos preso5 anos preso, 5 anos preso

 

A melhor opção para cada um seria ser liberado da prisão imediatamente. No entanto, se decidirem simultaneamente pela única estrategia que conduz a este resultado, os prisioneiros acabariam por ficar presos por 5 anos. Paradoxalmente, a posteriori  eles perceberiam que teria sido muito mais vantajoso para ambos permanecer em silêncio e obter uma pena de apenas 6 meses.

Qual será o resultado deste jogo na prática, caso seja jogado uma única vez, simultaneamente? O equílibrio está no ponto em que ambos decidem por acusar um ao outro. Não  entrarei na discussão de conceitos técnicos. Quem se interessar, este livro apresenta uma exposição teórica sobre o tema.

Acredito, no entanto, que a lógica do equílibrio já tenha sido captada por você, leitor. O que leva os prisioneiros a não cooperarem? Falta de confiança, aliada ao fato do jogo ser jogado uma única vez de forma simultânea, faz com que o equílibrio final seja ineficiente. De agora em diante, chamarei este de equílibrio “ruim” e o outro, em que ambos os prisioneiros permanecem em silêncio, de  “equílibrio  “bom”.

O Conflito Israelo Palestino e o Dilema dos Prisioneiros

Apesar do nome e da descrição, o dilema dos prisioneiros pode ser adaptado a muitas outras situações do dia-a-dia. Entre as mais conhecidas, está a utilização deste modelo para o estudo da estabilidade de cartéis em economia.

Será que podemos utilizar o dilema dos prisioneiros para explicar o conflito entre israelenses e palestinos? Existe alguma relação? Pois bem. Já adianto ao leitor que daqui em diante trabalharei com simplificações. Sei muito bem que a realidade do conflito é mais complexa. Mas o estudo de modelos exige simplificações e hipóteses. Nos comentários dos leitores, podemos discutir se elas sao críticas ou não para realidade do modelo.

Hipóteses

Sem entrar no mérito direto de dar nomes aos grupos, vamos supor que em ambos os lados existem grupos moderados e grupos radicais.

Moderados desejam uma solução de dois estados, ou pelo menos a maioria deles pensa desta forma. Radicais querem atingir seus objetivos a todo custo, sem margem para negociações. Do lado palestino, radicais desejam um Estado Binacional com maioria árabe,ou mesmo, desejam que todos os judeus saiam/sejam expulsos do país. Radicais do lado israelense, desejam que o pais volte a ser “A Grande” Israel dos tempos bíblicos, ou então, se não forem religiosos, acreditam que a segurança de Israel está baseada em uma expansão de suas fronteiras e na eliminação dos radicais do outro lado.

Com base nesta descrição, o jogo ficaria da seguinte forma:

A população palestina escolhe governo/politicas radicaisA população palestina escolhe governo/politicas moderadas
A população israelense escolhe governo/politicas radicais
A população israelense escolhe governo/politicas moderadas


E como completaríamos a tabela? Bem, de acordo com as minhas suposições simplificadas, ficaria assim:

Radicais de ambos os lados: provavelmente chegam a um confronto. E confrontos são custosos em muitos sentidos: perdas humanas, danos psicológicos, problemas econômicos, entre muitos outros. Por mais que confrontos também possam trazer ganhos políticos. Me explico:  muitas vezes o eleitor mediano[ref] http://en.wikipedia.org/wiki/Median_voter_theorem[/ref] se torna mais radical em épocas de confronto, o que nesse caso favorece os grupos politicamente.

Radicais israelenses e moderados palestinos: os radicais manteriam a expansão dos territórios e deixariam os palestinos sem perspectivas de um Estado.Neste cenário, radicais isralenses alcancariam seu objetivo, enquanto os moderados palestinos sofreriam pressão interna, podendo inclusive serem considerados traidores de sua propria causa e, consequentemente, perder o poder – e em alguns casos a vida.

Radicais palestinos e moderados israelenses:  os radicais palestinos pressionariam Israel e enfraqueceriam os moderados israelenses por meio de ataques à cidadãos do país. Eles vetariam iniciativas de paz e, possivelmente, levariam o governo moderado de Israel a ter pouco espaço político nas próximas eleições.

Moderados de ambos os lados: (em teoria) maiores probabilidades de um acordo de paz. Resultado positivo para os dois grupos. Mesmo sem um acordo imediato, pelo menos uma garantia de cessar fogo na região. Sofreriam pressão de setores radicais.

Faço questão de ratificar que estou tratando a questão de forma simplificada, mas ao mesmo tempo, não completamente distante da realidade.

Se completarmos as tabelas com minhas descrições, acredito estar tratando de um modelo similar a um “Dilema dos Prisioneiros”. E ao jogarmos, chegaríamos ao equilíbrio “ruim”, prejudicial a ambas as populações.

Existe forma de passar do equilíbrio “ruim” para o equilíbrio “bom”?

Por incrível que pareça a resposta é  sim. Isto é possível caso determinadas condições sejam cumpridas. Novamente, passarei adiante dos detalhes técnicos e discutirei diretamente as condições para que haja cooperação no longo prazo. Recomendo novamente que os interessados busquem mais informações no capítulo 7  do livro citado anteriormente.

Para que haja cooperação entre moderados, três condições devem ocorrer (existe uma condição extra que não é crítica para nossa discussão)

  • O jogo deve  poder ser infinitamente repetido, não havendo interrupções ou algum limite em que ele pare de ser jogado
  • Não deve existir coerção entre os participantes, ou seja, o surgimento de cooperação deve ocorrer, se este for factível, de forma espontânea.
  • O fator de desconto das preferências intertemporais deve ser baixo – em simples palavras, os jogadores devem valorizar o futuro.

A primeira condição nos diz que não deve haver um prazo determinado para o jogo. Neste caso, os grupos interagem durante seguidas “rodadas” sem saber quando o “jogo” irá acabar, ou mesmo se algum dia ele acabará. Por rodadas, me refiro a vezes em que o dilema dos prisioneiros será jogado. Essa condição me parece bem próxima da realidade do conflito. De tempos em tempos, israelenses e palestinos escolhem que tipo de política seguirão: mais moderada ou mais radical. Inclusive sem eleições oficiais, a escolha sobre o tipo de política também acontece no lado palestino.

A segunda condição diz respeito a coerção. A cooperação deve ser espontânea, sem coerções. Imagino que esta também seja uma condição bem plausível. Israel, por mais que tivesse vontade, não parece ser capaz de impor um governo aos palestinos. Além disso, quando de fato conseguiu fazer isso na primeira Guerra do Líbano, os resultados não foram satisfatórios.[ref] Ver detalhes no livro Israel’s Wars, Ahron Bregman. [/ref] Ou seja, coerção não é uma solução e, desta forma, essa também me parece uma condição realística.

A terceira condição trata de preferências intertemporais. Nesse caso, significa o seguinte: quanto mais os jogadores valorizarem o futuro, maiores são as possibilidades de optarem pelo equilibrio “bom” logo na primeira rodada. Quanto mais imediatistas em relação a seus interesses, maiores as chances de se que mantenham no equilibrio “ruim”.

O que nos diz a terceira condição?

A interpretação é a seguinte: melhorar a perspectiva futura de ambos os jogadores fará com que eles tenham mais interesse de cooperar no curto e no longo prazo. Ou seja, é impossivel pensar em equilibrio “bom” de longo prazo, sem antes melhorar as perspectivas de futuro de todos os jogadores.

Como aumentar a perspectiva futura dos jogadores?

Partindo do pressuposto que a maioria da população israelense tem uma perspectiva de futuro razoável no que diz respeito a acesso a educação, saúde, saneamento básico, seguranca, entre outros, a condição passa a estar focada no lado palestino. O modelo nos diz que quem tem pouco a perder, prefere resultados imediatos, mesmo que no final, eles levem a resultados piores. Desta forma, melhorar as condições da população palestina, aumentaria a perspectiva futura deles e, com isso, o seu incentivo de buscar a cooperaração. Algumas pessoas dirão que não é função de Israel se preocupar com isso. O modelo, no entanto, nos mostra que é do próprio interesse israelense que isso aconteça.

O que mais o modelo tem a nos dizer?

Além das três condições expostas anteriormente, um entrave para a cooperação é a falta de confiança entre os lados. Inclusive dois prisioneiros que tenham uma boa relação, quando tem que tomar a decisão sem saber o que o outro decidirá, dificilmente escolherão por ficarem calados, a não ser que a confiança mútua seja forte.

No caso do conflito Israel-Palestina, em geral, ambos os lados tem precondições para negociações. Palestinos exigem libertação de prisioneiros, fim do cerco (no caso de Gaza) e congelamento das construções nos terrìtórios. Israelenses exigem o reconhecimento do Estado de Israel, a manutenção de uma faixa de segurança no Vale do Jordão e a desmilitarização de um futuro Estado Palestino. Uma solução seria atender simultaneamente a uma precondição de cada lado – fato que poderia gerar uma primeira fase de confiança, uma demonstração de comprometimento.

Conclusão

Entre os muitos textos escritos sobre a operação Margem de Proteção aqui no Conexão Israel, acredito que a proposta que apresento aqui apresenta similaridades com as idéias expostas neste texto, escrito por meu colega Bruno Lima.

No curto prazo, talvez estejamos sendo obrigados a jogar o equílibrio “ruim”, mas a longo prazo, temos que passar para o equílbrio “bom”. E para isso, é do nosso interesse, melhorar as condições socio-econômicas dos palestinos. Políticas de cooperação econômica e social podem ser estabelecidas antes mesmo de um acordo formal. Com a Jordânia, as relações comerciais ocorriam antes do firmamento dos acordos. Está na hora de pensar em como buscar o equilíbrio de longo prazo.

Estou de acordo que Israel deveria reagir aos lançamentos de foguetes em direção a sua população civil. Em vias gerais, fui a favor da operação Margem de Proteção e concordo com sua necessidade. Mas quero que ao mesmo tempo em que reagimos, passemos a pensar na solução de longo prazo. E não estou propondo voltar as mesas de negociação de imediato. Preste atenção que o modelo nos apresenta uma ordem inversa dos fatores: primeiro melhorar as condições socio-econômicas, depois pensar em algum tipo de acordo formal. Quero ações de Israel que permitam melhores condições  ao povo palestino, sem ter que obrigatoriamente relacionar-se de forma direta com sua liderança. Existem mecanismos que podem ser elaborados sem que haja a necessidade de um acordo [ref] Apenas para citar alguns, http://www.ipcee.org/, http://www.ipso-jerusalem.org/ e  http://www.peres-center.org/[/ref]

Ja discuti este modelo em diferentes fóruns, inclusive com palestinos. Apesar de uma grande aceitação, existe também ceticismo em relação a sua elaboração e praticidade. Muitas questões complexas não estão apresentadas nele, como por exemplo, uma possivel motivação religiosa por tras do pensamento palestino  – fato este que transformaria o jogo em um jogo de soma zero. Neste caso, discordo da afirmação, porque não acredito que o conflito é religioso para a grande maioria da população palestina.

De qualquer forma, estou de acordo que o modelo não aborda alguns pontos complexos e importantes.

Aproveito para reafirmar que apenas Teoria dos Jogos não trará todas as respostas. Se voce leu meu primeiro texto sobre este assunto aqui no Conexão Israel, sabe o que penso sobre a praticidade dos modelos [ref] The purpose of models is not to fit the data but to sharpen the questions.

Samuel Karlin (1924-2007) [/ref]. Eles nos ofereçem insights, diferentes perspectivas. Apenas aliados a análises feitas por outros campos de estudos, estes insights se transformarão em ferramentas que permitirão a elaboração de um plano de ação efetivo.

A operação parece ter chegado ao seu fim nestes últimos dias. Já está mais que na hora de passarmos para o equilibrio de longo prazo. Apenas ele pode evitar a próxima operação.

 

 

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “O dilema dos prisioneiros e o Conflito Israel-Palestina”

  • Marcelo Starec

    05/08/2014 at 05:37

    Oi Amir,

    Parabéns pelo seu artigo! Acho que sim, temos de demonstrar claramente que não vamos ceder aos radicais do outro lado e vamos sobreviver, queiram eles ou não mas, ao mesmo tempo, é preciso buscar uma solução que seja viável para ambos no longo prazo – é do nosso interesse! Concordo plenamente! Israel veio para ficar! Existe e isso é fato, aceitem eles ou não! É fato também que existe na região entre “o rio e o mar” uma população árabe, a qual também necessita de uma solução justa. Enfim, não consigo vislumbrar nenhuma outra solução viável, a longo prazo, que não seja a de dois estados para dois povos, com fronteiras que maximizem o interesse de ambos, ou seja, onde todos precisarão ceder para chegar a melhor solução possível. Entendo assim que o que é preciso, no caso de Israel, é tentar cada vez mais demonstrar aos árabes palestinos que eles não são os inimigos, mas sim parte de suas lideranças, que aliás nada ou muito pouco fazem por eles e muitas vezes até os prejudicam, de forma clara, com o intuito de defender uma “causa”, a do radicalismo islâmico, que certamente não é justa e nem mesmo razoável. A pergunta que eu gostaria de deixar aqui, por ora, é como fazer essa mensagem chegar aos palestinos, sem que isso seja indevidamente compreendido como uma fraqueza, por parte de Israel? É um dilema, em meu entender, cujo acerto poderá valer o encontro de uma solução justa e de nosso interesse e também do interesse de todas as pessoas, no mundo inteiro, que buscam de boa fé encontrar alguma solução justa para esse complexo conflito, que tanto nos aflige.
    Um abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    05/08/2014 at 16:06

    Tenho que ir ao dentista e por isso vou fazer um comentário breve, mais tarde deixo outro mais detalhado.

    ” é preciso buscar uma solução que seja viável para ambos no longo prazo ”

    “A longo prazo, todos estaremos mortos”.
    John Maynard Keynes

    Um abraço e que a trégua se prolongue

  • Mario S Nusbaum

    05/08/2014 at 20:09

    ” – e em alguns casos a vida.” Em praticamente todos os casos. No conflito atual mesmo vinte palestinos foram fuzilados por pedirem pacificamente o cessar-fogo.
    ” Desta forma, melhorar as condições da população palestina, aumentaria a perspectiva futura deles e, com isso, o seu incentivo de buscar a cooperaração. Algumas pessoas dirão que não é função de Israel se preocupar com isso.”
    Também acho que não é, mas digamos que Israel decida colaborar para isso. Quantos bilhões de dólares foram doados para os palestinos e ou roubados ou usados para fazer foguetes e túneis? Uma ajuda teria o mesmo destino que tiveram as centenas de milhões de dólares deixados para a víuva do Arafat, ou não?

    ” ambos os lados tem precondições para negociações. ” Posso estar enganado, mas sempre soube que só os palestinos tem condições PARA conversar, o que sempre achei um absurdo. Se eu quero negociar com alguém, exponho minhas condições para FECHAR O NEGÓCIO e não para negociar.
    Em 2010 Netanyahu chegou a ceder a esse absurdo, congelou os assentamentos para o Abbas fazer o grande favor de conversar. Não adiantou.
    “Uma solução seria atender simultaneamente a uma precondição de cada lado ”
    É uma ideia, mas Israel soltou os prisioneiros das fases 1, 2 e 3. O que os palestinos fizeram?

  • Alex Strum

    08/08/2014 at 20:29

    Almir, parabéns pelo seu artigo.
    O modelo da teoria dos jogos é muito interessante para mostrar um processo de construção de confiança (confidence building).
    Porém, como voce mesmo aponta há muitos fatores que fazem com que jogar o jogo se torne bem complicado.
    No contexto deste conflito cada jogada é na verdade fazer uma concessão ao adversário com a esperança de que aquela concessão irá melhorar a confiança do outro em mim fazendo que ele tambem faça a sua concessão.
    A concessão que voce sugere como jogada de abertura é pelo lado econômico.
    Eu discordo e explico.
    Cada jogada implica, como voce tambem ressaltou, em riscos e custos, caso a jogada não dê os resultados desejados. Para Israel o principal custo que conta é medido em vidas humanas.
    Tenho a convicção que somos um povo traumatizado por séculos de discriminações, perseguições, ameaças, fugas, expropriações, violência e mortes; tudo isto sem condições de defesa ou reação e agora reforçado por episódios recorrentes de antissemitismo pelo mundo afora.
    A criação de Israel representa para os judeus que não estamos mais dispostos a correr riscos que sejam pagos com vidas. Este aspecto para mim é fundamental para entender a posição israelense embora ela não seja expressada desta forma pelos políticos.
    Alem disto o meu oponente me deu razões de sobra para se mostrar não confiável, ou seja a minha percepção de risco aumenta e muito.
    Resumindo, como jogador a minha visão é que tenho risco alto e custo alto ou até intolerável, se der errado. Nestas condições minha propensão a fazer concessões é baixa antes que o outro lado faça primeiro.
    E a concessão básica que eu quero é que ele simplesmente demonstre claramente que não pretende me eliminar.
    O risco e custo dele para fazer esta concessão é baixa a menos que pelos critérios dele a não eliminação de Israel seja intolerável.
    Na minha opinião este conflito se resolve de baixo para cima e não ao contrário.
    Pessoas, famílias de ambos os lados se conhecendo e se aceitando, convivendo em situações cotidianas; educação em ambos os lados não desumanizando o outro. Construir a confiança entre pessoas, pequenas comunidades. Os acordos políticos vem depois.
    Uma terceira parte, neutra, mediando um looongo processo de transição ajudaria.
    Lamento não ser otimista.

  • Felipe

    08/08/2014 at 21:44

    Colé Gueri.

    Tu bem sabe que gosto desse tema inclusive você foi o meu co-orientador quando falei disso na minha pós-graduação.
    Acho que no seu texto vinha muito bem, mas você foi político demais e esqueceu-se a estratégia do gatilho.
    Quando Israel saiu de Gaza, quando Barak ofereceu 95% das terras à Arafat e talvez alguns outros acontecimentos que não estou lembrando, houve a quebra de confiança de um dos lados e seguindo a estratégia do gatilho não Israel não deveria mais negociar com este adversário.

    Tomando apenas estes 2 exemplos podemos dizer que Israel errou em negociar? Não vais poder discordar seguindo esta condição para o jogo.

    Outro ponto que podemos discutir mas que não cabe neste post é que Israel e Palestinos não estão em igualdade como os prisioneiros e dessa forma a negociação (jogadas) teriam de ser diferentes.

    Se eu fosse o 1o ministro de Israel a minha jogada seria repetidamente a mesma: Ou Hamas deixa o poder ou não negocio.

    Abs

  • Amir Szuster

    16/08/2014 at 15:00

    Marcelo,

    Obrigado pelo comentario. Como disse no modelo, precisamos pensar em politicas que ajudem a populacao, sem ter que diretamente lidar com a liderança. Alguns exemplos eu pus nas notas de rodapé.Mas existem outras formas. Pelo que estou vendo, as condicoes para a proposta de cessar fogo atual estao proximas de algumas das condicoes que coloquei aqui neste texto. Resta ver se trarão resultados.

    Mario,

    Obrigado pelos comentarios. Muito interessante voce ter colocacado a frase do Keynes, ja que esta era a frase final do meu artigo original,mas que eu acabei por troca-la antes da edicao final.
    O artigo terminava da seguinte forma – se nao fizermos isso, NO CURTO PRAZO estaremos todos mortos. Mas enfim, esta citação de Keynes esta colocada em uma perspectiva completamente diferente da que eu estou abordando aqui, então preferi por nao utiliza-la.

    Sobre a ajuda isralense ser utilizada na construção de tuneis, acredito que Israel pode fazer isso de maneira indireta. Pode permitir que palestinos trabalhem dentro de Israel, tratar diretamente com a populacao,nao com o Hamas. O centro Peres para a Paz faz muito deste trabalho hoje em dia.Nao estou a favor de ajuda e passagem de materias para o Hamas. Falo em ações diretas ao povo, como por exemplo, oferecer trabalho em Israel (que tambem é do interesse israelense), acesso a saúde, entre outros.Soa um pouco utopico, voce dirã.Mas para mim é possivel.

    Sobre as precondicoes. Um lado sempre acusa o outro de nao atender a elas. Esta acusacao que voce fez, també m é feita pelo outro lado, quando dizem que Bibi não aceita congelar as construções nos assentamentos. Entao a proposta é simples. Que sejam atendidas precondições de forma simultanea.

    Alex,
    Obrigado pela participacao. Estou de acordo com sua conclusão. O acordo comecará de baixo para cima. Neste ponto devemos trabalhar. Náo é um caminho facil. Tive a oportunidade de viver durante dois meses com palestinos. (escrevi um texto sobre isso aqui no Conexão). As diferenças sao grandes, mas podem ser ultrapassadas.

    Guery,
    Feliz por te ver por aqui! De fato, o modelo não engloba todas as possibilidades.Ele apresenta um ponto de vista e precisa ser melhor discutido.
    Sobre a estrategia gatilho, ela não é a única que funcionaria para este modelo (por isso que eu não abordei ela).Ou seja, poderiamos obter o mesmo resulltado com algumas outras estrategias – mas isso vai alem do escopo deste texto.
    Acredito que a maior contribuicao do modelo esta na construcao de confiança. E proponho alguns passos para isso
    – atender simultaneamente precondições
    – melhor a situação do povo palestino.

    So assim poderiamos chegar a um equilibrio de longo prazo. Mas enfim, apenas modelos!

    Um abraço!

Você é humano? *