O drama do High-Tech

Há duas semanas, escrevi sobre a atmosfera de fartura e de abundância das empresas israelenses de alta tecnologia, com salários acima da média da economia local, ambiente de trabalho com protocolo relaxado e mimos para os funcionários. Esta análise, paradoxalmente, é apenas sintomática de um silencioso problema, um espectro que ronda a Start-up Nation: a mão de obra especializada está cada vez mais escassa. E não há sinais de que o quadro será revertido.

Não param de surgir indicativos desta realidade. As empresas israelenses reclamam que já não conseguem competir com os salários e benefícios oferecidos por multinacionais, como Apple, Google ou Microsoft. A economista Karnit Flug, presidente do Banco de Israel (o banco central do país), vem alertando ao longo dos últimos anos sobre a escassez de capital humano. Mais recentemente, o cientista-chefe do Ministério da Economia (Indústria, Comércio e Emprego), Avi Hasson, quantificou o dado: faltarão 10 mil engenheiros e programadores para o setor de high-tech nos próximos dez anos.

A análise ingênua da microeconomia pode levar o leitor a pensar que a alta demanda continuará forçando aumentos nos salários destes profissionais, que se beneficiarão como nunca. Mas a visão macroeconômica é clara: estes empregos, portanto, não serão criados em Israel. Assim como as gigantes mundiais do setor abriram filiais aqui para beneficiarem-se do clima inovador do país, as companhias locais estão abrindo centros de desenvolvimento no exterior.

Neste caso, devem ser respeitadas as proporções e considerada a nossa posição geográfica. As empresas israelenses de tecnologia, e aqui incluo mesmo pequenas start-ups com número bastante reduzido de funcionários, estão montando equipes na Europa Oriental. Lituânia, Ucrânia, Bulgária, Estônia — os mesmos países de onde chegaram mais de um milhão de imigrantes nos últimos 25 anos mantêm seu perfil qualificado de mão-de-obra. Mesmo que seu trabalho ainda possa exigir um polimento final, os salários são muito mais acessíveis e compensam.

E o que Israel faz diante deste êxodo? Simplesmente deixa acontecer.

O Estado parece não ter o menor interesse em evitar o encolhimento de sua população economicamente ativa e atuante no ramo da tecnologia. O Estado parece não se importar quando suas empresas decidem criar empregos no exterior, devido a oferta de mão de obra, ou a benefícios fiscais oferecidos pelos governos locais. Nas últimas semanas, o Estado abriu mão até mesmo da aplicação do currículo obrigatório – que inclui matemática, inglês e ciências – nas escolas do setor ultraortodoxo, que é justamente a população  que mais cresce, e cuja obrigatoriedade havia apenas recentemente sido aprovada (e ainda aguardava para entrar em vigor).

Israel surfa na fama de menos de meia dúzia de universidades de altíssimo nível, mas não se sabe até quando a excelência da Universidade Hebraica de Jerusalém, do Technion de Haifa, da Universidade de Tel Aviv e da Universidade Ben-Gurion do Negev resistirá à falta de investimento no ensino básico. O orçamento do Ministério da Educação aloca mais recursos às escolas dos setores de populações cujos partidos sustentam o governo, especialmente as localizadas nos assentamentos da Cisjordânia mas, de uma maneira geral, as escolas religiosas (que ensinam o currículo completo) e as ultraortodoxas (que estão dispensadas da aplicação do currículo obrigatório). Tudo isto em detrimento da rede majoritária das escolas, ou seja, das judaicas não religiosas e das escolas árabes. Mesmo sendo essa última uma população crescente, suas salas de aula são as mais lotadas e seus recursos, mais escassos.

Naturalmente, se até as empresas locais precisam criar centros de desenvolvimento no exterior, as multinacionais nem sempre priorizam Israel em seus investimentos. Estes dois fatores, somados a cortes constantes no investimento estatal, levaram a uma reviravolta dramática: depois de mais de uma década na vanguarda, o país perdeu a liderança do ranking de investimento em pesquisa e desenvolvimento dos membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE – que reúne as economias mais desenvolvidas do mundo). O novo líder é a Coreia do Sul, um país famoso por ter percorrido o caminho exatamente oposto e investido em uma ampla reforma educacional que impulsiona sua economia até hoje.

Outro fator ideológico impede que Israel recorra a um recurso muito utilizado pelo Vale do Silício californiano para manter-se na liderança entre as regiões do mercado global de tecnologia: é muito difícil importar mão de obra estrangeira. Com exceção de judeus com direito à cidadania pela Lei do Retorno, e cônjuges estrangeiros de cidadãos israelenses (que enfrentam o pesadelo anual da renovação do visto), são pouquíssimos os engenheiros e programadores nascidos no exterior. Existem estudos para a criação de um programa-piloto de emissão de autorizações, mas, na verdade, conseguir um visto de trabalho para um funcionário estrangeiro que não seja judeu “é mais difícil do que fazer a paz”.

O boom do high-tech israelense já dura algumas décadas e foi impulsionado por alguns fatores. A imigração em massa das antigas repúblicas soviéticas trouxe quantidades espetaculares de doutores, pesquisadores, professores, médicos, atletas, artistas e todo tipo de profissionais de destaque em suas respectivas áreas. Os setores de tecnologia e inteligência do exército continuam selecionando e lapidando mentes brilhantes. Mas estes parecem mais efeitos colaterais do que políticas de Estado, ocorrendo quase sem querer.

Enquanto isso, as nossas políticas de Estado não transmitem otimismo.


Foto de capa de Rodrigo Uriartt. Seu Flickr é https://www.flickr.com/photos/ruriak/