O Estado de Israel Declara Independência

12/04/2013 | Política, Sionismo, Sociedade.

O texto abaixo conta a fascinante história das apressadas preparações nas horas antes da declaração de independência de Israel, em 14 de Maio de 1948. O texto foi escrito em 1999 por Shelley Kleiman em inglês, e se chama “The State of Israel Declares Independence”. Eu mesmo traduzi o texto para o português, usando o original em inglês e uma tradução ao espanhol. O original pode ser encontrado no site do Ministério do Exterior de Israel, neste link, bem como versões em francês e espanhol.

O Estado de Israel Declara Independência
Shelley Kleiman

Se tivesse que resumir o Congresso da Basiléia em uma frase apenas que não me atrevesse a publicar, diria: na Basiléia criei o Estado Judeu.

Theodor Herzl, Diário, 1897

Nós, membros do Conselho Nacional, em representação do povo judeu na Terra de Israel e do Movimento Sionista… proclamamos a fundação de um Estado judeu na Terra de Israel, que se conhecerá como Estado de Israel.

Declaração de Independência , 14 de Maio, 1948

No tranqüilo boulevard Rothschild do centro de Tel Aviv, entre casas antigas do começo do século XX, está um edifício de aspecto banal, rebocado com cimento, que muitos poucos israelenses conhecem, e o qual provavelmente nunca haviam reparado. Pouco antes das quatro da tarde da sexta-feira 14 de Maio de 1948, David Ben-Gurion entrou nesse edifício, que era então o Museu de Tel Aviv. Ele abriu a sessão com o martelinho tradicional, leu ante o pequeno número de presentes a Declaração de Independência do Estado de Israel. Mais por necessidade que como resultado de uma opção bem madurada, a primeira nação judia independente em 19 séculos nasceu com pressa e sem pompa. Não houve fogos de artificio nem música, não se içaram bandeiras nem houve desfiles. Com inimigos em suas portas, com sua própria existência em perigo, o Estado nascente viveu um acontecimento que foi sem dúvida o mais surpreendente da história judaica moderna mas talvez também o menos impressionante.

Prédio onde foi lida a declaração de independência com enfeites comemorativos dos 50 anos do Estado.
Prédio onde foi lida a declaração de independência com enfeites comemorativos dos 50 anos do Estado.

Para a maioria dos judeus, a existência do Estado já era um fato consumado. Este havia sido a aspiração de Theodor Herzl, o visionário dos fins do século XIX, criador do nacionalismo judeu moderno, ao organizar em 1897 o primeiro Congresso Sionista na Basiléia, Suiça, e em 1917 a Declaração Balfour do governo britânico confirmou o direito do povo judeu a estabelecer um “lar nacional” na Terra de Israel Palestina. Mas para os judeus residentes na Palestina, o Estado de Israel nasceu de fato em 29 de Novembro de 1947, no dia em que a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou por uma maioria de dois terços o plano de partição da Palestina. Multidões saíram a cantar e a dançar euforicamente nas ruas de Tel-Aviv, Jerusalém e Haifa e demais cidades do país. Os judeus teríam um Estado próprio, embora pequeno, e as autoridades mandatárias britânicas abandonariam o país em 1º de Agosto de 1948.

Contudo, em Novembro não ocorreu nada tangível. Rechaçada pelo bloco árabe, e não apoiada pelo governo britânico, a decisão tomada pelas Nações Unidas em Lake Success tardou cinco meses e meio de crescente violência e luta diplomática para refletir-se na fundação do Estado de Israel, em condições muito distintas das propostas inicialmente. Os dirigentes da população judaica, imersos durante meses em sua polêmica com os britânicos, não haviam previsto que ficariam sozinhos antes de tempo (os britânicos anteciparam sua saída da Palestina para 15 de Maio), nem haviam percebido a gravidade da ameaça militar árabe. Desesperados pela falta de armas, os judeus da Palestina, ainda por cima, foram sacudidos pela recomendação dos Estados Unidos de suspender o plano de partição e implantar um protetorado temporário das Nações Unidas na Palestina (a iniciativa, que saiu do Departamento de Estado, causou embarasso pessoal no Presidente Harry Truman).

O Executivo da Agência Judaica, encabeçado por Ben-Gurion, reagiu de imediato, informando a Washington que os sionistas se oporiam a toda tentativa de adiar a independência judaica. O plano americano, submetido ao Conselho de Segurança em sua sessão de 19 de Março, obteve um apoio internacional pequeno e alguns países o consideraram como séria diminuição da autoridade das Nações Unidas. Em 1º de Abril, o Conselho de Segurança aprovou uma resolução muito mais inócua, em busca de uma trégua entre judeus e árabes. Foi aquele dia quando Ben-Gurion, seguindo a recomendação de Yigael Yadin, chefe de operações da Haganá, converteu esse corpo, até então simples milícia defensiva, em um exército que passou à ofensiva. Enquanto Jerusalém e grande parte da Galiléia permaneciam ilhadas, a Haganá fixou como meta ganhar o controle da rede de estradas e dos pontos altos. Até fins de Abril, a Haganá conseguiu fazer passar um grande comboio de abastecimento a Jerusalém e apoderar-se de Haifa; em Maio, se apoderou também de Tzfat, reestabelecendo a comunicação com os povoados judaicos do leste da Galiléia. Ante a crescente apatia das Nações Unidas, a comunidade judaica da Palestina começou a criar uma nova realidade militar.

David Ben-Gurion
David Ben-Gurion

Ao mesmo tempo, os dirigentes sionistas começaram a criar também uma nova realidade política. A fins de Abril, os britânicos aceleraram sua evacuação, e o caos resultante foi causa do cessar quase completo dos serviços públicos: correios, telefones, trens, etc. Para preencher este vazio, e colocar as fundações do futuro Estado judeu, o Comitê de Ação Sionista formou um organismo de 37 membros: Moetzet Haam (Conselho do Povo), com a participação de todas as agrupações políticas. Encabeçado por Ben-Gurion, vinha a cumprir as funções de corpo legislativo interino. Se criou também um Diretório Nacional (Min’helet Haam) de 13 membros, um governo interino o qual se investiu de plenos poderes em assuntos de defesa. Apesar da pressão crescente dos Estados Unidos, que exigiam adiar a independência, a criação do Diretório Nacional foi o primeiro passo para o estabelecimento de fato do Estado.

Depois de uma sessão maratônica de 11 horas do Diretório Nacional, em 12 de Maio de 1948, se decidiu finalmente proclamar a independência dois dias mais tarde. A decisão de não adiá-la não foi fácil, nem tampouco unânime. Yigael Yadin e o comandante em chefe da Haganá, Israel Galili, informaram os pontos fortes e fracos das forças armadas da população judaica. Se negaram a prever o resultado de uma invasão árabe em grande escala, estimando que a probabilidade de ter êxito era de apenas 50%, e expressaram preocupação pela moral dos 30 mil mal supridos combatentes. Ben-Gurion adverteu que a população judaica devia preparar-se para graves perdas de território e vidas. “Não obstante agrego que em vista de nossos valores morais, e caso aproveitemos plenamente nossas forças e conseguirmos mais armas, teremos todas as chances de ter sucesso”. Vários dos assistentes concordaram com Ben-Gurion, dizendo que a independência reforçaria o sentimento de solidariedade da população, e em contrapartida o adiamento desmoralizaria a população e os soldados.

Naquela reunião, Golda Meyerson (mais tarde Meir), diretora do Departamento Político da Agência Judaica, descreveu suas fracassadas negociações com o rei Abdullah da Transjordânia, numa última tentativa de evitar a invasão dos exércitos árabes. Moshe Shertok (mais tarde Sharett), que acabava de regressar de Washington, onde havia representado o Diretório Nacional como Ministro de Relações Exteriores, informou sobre as propostas de trégua dos Estados Unidos e de sua tentativa de adiar a declaração de independência. O Secretário de Estado, George Marshall, alertara Shertok a respeito de uma excessiva confiança na Haganá contra um eventual pedido de ajuda aos Estados Unidos em caso de uma invasão árabe. Shertok lhe respondeu: “Temos lutado sós nesta guerra… Agora não pedimos ajuda. Somente pedimos que se abstenham de interferir”.

Depois de discutir toda a noite, o Diretório Nacional decidiu por seis votos contra quatro recusar a proposta de trégua dos Estados Unidos e seguir adiante com a declaração de independência. O presidente da Organização Sionista Mundial, Chaim Weizmann, o qual se contatou por telefone em Nova York, apoiou a decisão (“O que esperam esses idiotas?” disse-se que gritou, enfurecido, em yídish) e logo depois pediu ao presidente Truman que reconhecesse o estado judeu, carente ainda de nome. “A opção para nosso povo, senhor presidente, é independência ou extermínio”, declarou Weizmann. “Confio que o sr. decida segundo o espirito da lei moral”.

O palco estava pronto, e a sorte estava lançada. Restavam apenas 48 horas para redigir a Declaração de Independência e planejar algum tipo de cerimônia, enquanto que se recebiam notícias trágicas da situação em Jerusalém e sobre o grupo de assentamentos judaicos de Gush Etzion. Se concordou em proclamar a independência na sexta-feira às quatro da tarde, oito horas antes da finalização oficial do Mandato britânico, para poder concluir o ato antes do início do Shabat. Iniciava-se uma verdadeira corrida surreal contra o relógio.

Na sessão de 12 de maio havia sido apresentado um rascunho da Declaração. Não era o primeiro, nem tampouco seria o último, mesmo dado o escasso tempo disponível. Três semanas antes, Félix Rosenbluth (mais tarde Pinchas Rosen), encarregado de assuntos jurídicos e posteriormente primeiro Ministro de Justicia de Israel, havia proposto várias perguntas às quais deveria dar-se resposta antes da independência: Qual seria o nome do novo Estado? Como seria sua bandeira e qual seria seu idioma oficial? (Propôs que fosse o hebraico, com a condição de que os cidadãos árabes pudessem usar sua própria língua na legislatura, nos tribunais e na administração). A proclamação da independência se fundamentaria na resolução das Nações Unidas? Os limites territoriais do novo Estado se definiriam já na Declaração de Independência? E em tal caso, seriam os determinados pelas Nações Unidas ou por outros?

Félix Rosenbluth (Pinchas Rosen)
Félix Rosenbluth (Pinchas Rosen)

Rosenbluth havia pedido a Zvi Berenson, o assessor jurídico da Histadrut, a Confederação de Trabalhadores, (e mais tarde juiz da Suprema Corte de Justiça), para elaborar um rascunho preliminar da Declaração. Não havendo recebido diretivas, Berenson optou por referir-se a quatro temas básicos: o vínculo histórico do povo judeu com a Terra de Israel; os antecedentes da criação do Estado, bem como a opinião internacional e a Declaração Balfour; o significado de um regime soberano e democrático; e, por último, a proclamação de direitos pessoais, sociais e jurídicos. A versão de Berenson leva a data de 9 de Maio.

Um segundo rascunho, uma versão revisada do primeiro, foi a obra de três advogados: A. Beham, A. Hintzheimer e Z.E. Beker. Completada em 10 de Maio, não menciona o nome do novo estado. Este foi o rascunho submetido à sessão de 12 de Maio, junto com um memorando do Dr. Jacob Robinson, assessor legal da Agência Judaica em Nova York, (mais tarde assessor jurídico da delegação de Israel nas Nações Unidas), que expunha as eventuais implicações caso se afastassem das diretrizes da ONU. Segundo Robinson, a ONU não havia criado o direito do povo judeu a ter um estado; somente o havia sancionado. Na opinião de Robinson, havendo-se retirado as tropas da potência mandatária, e não havendo criado as Nações Unidas um organismo executor segundo o que previa o Plano de Partição, não existia impedimento jurídico algum. Igual conclusão alcançou Sir Hersch Lauterpacht, um jurista internacionalmente afamado, que mais tarde foi membro da Corte Internacional de Justiça da Haya.

Na sessão de 12 de Maio se dedicou muito pouca atenção aos problemas jurídicos. O que sim suscitou inflamadas discussões foi o problema das fronteiras. Rosenbluth opinou que na Declaração de Independência deviam fixar-se as fronteiras do Estado. Ben-Gurion e Aharon Zisling, um dirigente trabalhista de esquerda, se opuseram veementemente. Ben-Gurion indicou que a Declaração de Independência dos Estados Unidos “não contém referência alguma a limites territoriais”. Com o país quase em guerra, Ben-Gurion não queria comprometer-se de antemão: “Aceitamos a resolução da ONU, porém os árabes não. Se preparam para nos fazer guerra. Se os vencermos e nos apoderarmos da Galiléia Ocidental ou de territórios em ambos os lados do caminho a Jerusalém, essas áreas se converterão em parte do Estado. Por que comprometer-nos a aceitar limites que os próprios árabes não aceitam?”

A posição de Ben-Gurion foi aprovada por cinco votos contra quatro. Este foi o único ponto submetido a votação em 12 de Maio. Foi proposto o tema do nome do Estado. Uma subcomissão sobre o nome em árabe nada teve a objetar a “Israel” em fonética árabe. Outras alternativas consideradas foram “Sião”, “Terra de Israel”, “Yehudá” (Judeia) e “Heber” (de hebreu), porém não se tomou uma decisão a respeito. A formulação final da Declaração se encomendou a um comitê de cinco integrantes: David Remez, Félix Rosenbluth, Moshe Shapiro, Moshe Shertok e Aharon Zisling.

Decidiu-se também que a cerimônia se levaria a cabo no salão principal do Museu de Tel Aviv, embora outras alternativas foram consideradas, como o teatro Habima ou a Grande Sinagoga de Tel Aviv. Por temor a um ataque aéreo, que poderia terminar de um golpe apenas com todos os dirigentes do nascente Estado, se decidiu manter em segredo o lugar e a hora do ato. Renunciou-se a toda pompa e cerimônia, favorecendo-se um ato modesto em um lugar discreto. O salão principal do museu era um território neutro, sem afiliação religiosa ou política, e tinha a vantagem adicional de situar-se parcialmente abaixo do nível do solo, com janelas altas.

Mesmo que não se considerasse importante naquele momento, o fato de que a proclamação da independência tivesse lugar na que fora uma das primeiras casas da primeira cidade judaica do mundo, mostra em retrospectiva o oportuno da eleição. O Estado de Israel nasceu no que foi originalmente o “lote 43”, o primeiro que se extraiu no sorteio de parcelas de um prédio pertenecente a Achuzat Bait, (associação para a construção de moradias), localizado na duna conhecida como “Vinha de Chibalia”. O sorteio teve lugar em 11 de abril de 1909, data que muitos consideram como a da fundação do núcleo original de Tel Aviv. O lote correspondeu a Meir Dizengoff, mais tarde prefeito de Tel Aviv, e a sua esposa Zina, uma excelente pianista. A casa, acabada em 1910, se converteu no centro cultural e intelectual da nascente cidade. Personalidades das letras e das artes, como o poeta Chaim Nachman Bialik, o escritor Shai Agnon e o pintor Nachum Gutman, visitavam com freqüência os Dizengoff. Muitos visitantes extrangeiros vieram também a sua casa, entre eles Churchill e Einstein. Para poder acolhe-los dignamente, Dizengoff agregou um segundo andar a sua casa em 1926. Após o falecimento de sua esposa em 1932, converteu sua residência em museu de arte, por considerar que nenhuma cidade digna deste nome podia carecer de um. Em 23 de Fevereiro de 1936, pouco antes do falecimento de Dizengoff, inaugurou-se o museu naquele edificio, que foi remodelado, agregando-lhe um terceiro andar.

Antiga casa de Meir Dizengoff, posteriormente Museu de Tel Aviv, e hoje Salão da Independência.
Antiga casa de Meir Dizengoff, posteriormente Museu de Tel Aviv, e hoje Salão da Independência.

Embora Ben-Gurion quase não tivesse papel na preparação do ato (este se confiou a Zeev Sherf, secretário do Diretório Nacional e posteriormente secretário do Gabinete), ele pediu que no salão do ato somente estivessem expostos quadros de pintores judeus ou referentes a temas judaicos. Os que ali se expunham se substituíram por outros como “Judeu com um rolo da Torá”, de Chagall, “Pogroms”, de Moldowsky, e “Exílio”, de Hirshenberg. Sherf encarregou o artista gráfico Otto Wallish, de Tel Aviv, da preparação da sala para o ato e do pergaminho da Declaração.

A medida que passavam as horas, os preparativos tinham a aparência febril de um ensaio geral. Dois carpinteiros trabalharam 24 horas sem descanso para construir o estrado; as cadeiras (desiguais) foram emprestadas de cafés das redondezas, e os microfones os proporcionou uma loja de música; um tapete foi trazido de outro comércio do bairro. Wallish comprou lâmpadas adicionais. A parede detrás do estrado foi coberta com um pano azul (comprada por Wallish na loja cooperativa Hamashbir), e no meio se pendurou uma grande fotografia de Herzl, trazida da sala do Keren Kayemet (Fundo Nacional Judeu) onde o Conselho Nacional se reunia para deliberar. As bandeiras que enquadravam a fotografia foram lavadas e passadas em honra do ato.

Arie Rifkind, do Comitê Nacional do Keren Hayesod, foi o encarregado de distribuir os convites. O texto, assinado simplesmente por “A Secretaria”, era lacônico porém mencionava que o lugar e a hora deviam se guardados em segredo. (Para a imprensa, que estava informada dos preparativos, exigiu-se guardar o segredo. Mensagens às agências de notícias estrangeiras foram censuradas). Pediu-se aos convidados vestir traje escuro. Tendo-se limitado seu número a 350, encarregou-se Rifkind a nada invejável tarefa de escolher entre os membros do Conselho e o Diretório Nacional, os sionistas veteranos e líderes de partidos, os prefeitos, as personalidades religiosas e os chefes da Haganá, com o que ofendeu a muitos.

Convite para a declaração de independência.
Convite para a declaração de independência.

Entre os convidados estava o Dr. J. Shalit, que havia sido secretário de Herzl. No primeiro Congresso Sionista da Basiléia, havia hasteado a bandeira que logo passou a ser a do Movimento Sionista. Meio século mais tarde, Shalit pediu que lhe fosse pedido hastear a bandeira que seria a do Estado. Por falta de tempo e espaço, o pedido de Shalit teve que ser negado. Um ano mais tarde, na véspera do primeiro Dia da Independência, enviaram a bandeira a Shalit, que pendurou-a na varanda de sua casa. “Foram desculpas tácitas”, explicou Sherf, “por não haver podido satisfazer o pedido de Shalit”.

Os convites foram distribuidos em 13 de Maio. À seis da tarde daquele dia, o Diretório Nacional se reuniu para considerar por última vez o texto da Declaração. O rabino E.L. Fishman (mais tarde Maimon) chegou especialmente de Jerusalém em uma avião pequeno. No vôo de regresso, o mesmo avião devia trasladar Golda Meyerson a Jerusalém para um último encontro com o Alto Comissário britânico, Sir Alan Cunningham, e logo trazer Itzchak Grünbaum a Tel Aviv. Não obstante, por problemas demotor a caminho a Jerusalém, o avião teve que regressar a Tel Aviv. Assim foi que Golda Meyerson assistiu à cerimônia em Tel Aviv e Grünbaum ficou na Jerusalém sitiada.

Ben-Gurion informou os presentes da queda de Gush Etzion e da rendição de Yafo às forças da Haganá. Shertok apresentou entao, em nome do subcomitê de redação da Declaração, um rascunho de 22 cláusulas, o qual era o principal autor, e que sua filha Yael havia copiado laboriosamente a mão. Este era um documento comprido e de estilo legalista, ao qual Ben-Gurion se opôs. Lhe parecia que iniciar todas as cláusulas com “considerando” era contrário ao estilo hebreu e também recusou alguns giros excesivamente retóricos de Shertok. Mesmo que fossem formuladas outras objeções de forma e de fundo, o tema central do debate foi o uso do vocábulo “Deus” na última cláusula. Zisling se opôs com veemência à expressão: “e pondo nossa fé no Todo-poderoso…”. Não se podia exigir, nem a ele nem a outros, disse, manifestar fé em contra sua vontade. Os dois representantes dos grupos ortodoxos, Fishman e Shapiro, afirmaram que em um documento emitido em nome de todos os judeus do mundo, era inconcebível que não se mencionasse a Deus. Shapiro expressou preferência pela expressão “o Deus de Israel”, ou bem “o Todopoderoso, Redentor de Israel”.

Um dos nomes alusivos a Deus em hebraico é Tzur Israel, literalmente, a Rocha de Israel. Ben-Gurion concordou em formar um subcomitê (integrado por ele mesmo, Fishman, Shertok e Zisling) para dar os últimos toques no documento, na condição de que se aceitasse usar Tzur Israel no texto, deixando a cada um a interpretação desse término conforme as suas próprias convicções. A proposta foi adotada sem votação.

Naquela noite, em sua casa no boulevard Keren Kayemet, Ben-Gurion reescreveu a Declaração. Fez muitos cortes, eliminou algo de sua prosa altissonante (“defendendo-se esforçada e valorosamente” não se enquadrava com o estilo de Ben-Gurion), suprimiu os “considerandos” (Shertok seguia acreditando que com isso se tirava força jurídica do documento) e omitiu toda referência ao plano de partição das Nações Unidas. Seguindo outra sugestão, segundo a qual a Declaração deveria iniciar-se recordando a longa presença judaica em Israel ademais do exílio, Ben-Gurion escriveu um novo começo: “A Terra de Israel foi o berço do povo judeu”. Ben-Gurion submeteu seu rascunho ao subcomitê em sua casa na sexta-feira de manhã.

Nas primeiras horas da tarde, o texto foi submetido ao Conselho Nacional. De novo se pediu (sem sucesso) mencionar o nome de Deus, e definir as fronteiras, questão suscitada esta vez pelos delegados revisionistas. Estes, advogados da tese de um Estado judeu em ambas as margens do Jordão, exigiam agregar as palavras “em seus limites históricos”. Ben-Gurion, desejoso de levar a cabo a proclamação da independência com o apoio de todo o Conselho, propôs deixar todas as objeções e reservas para a primeira reunião do governo, prevista para o domingo seguinte. A única mudança proposta e aceita foi adicionar à lista de liberdades garantidas, religião, consciência, educação e cultura, uma mais: a do idioma. Foi o próprio Ben-Gurion quem decidiu chamar de Israel o novo Estado. O texto da Declaração foi aprovado por unanimidade na segunda votação, uma hora antes da proclamação da Independência .

Os membros do Conselho Nacional correram a suas casas para trocar de roupa. Sherf permaneceu nos escritórios do Keren Kayemet, esperando para que as secretárias terminassem de datilografar o texto. Não houve tempo para que um calígrafo o copiasse em um pergaminho.

Mesmo com os esforços para assegurar o segredo, a voz correu e uma multidão se congregou nas ruas contíguas ao museu. Fechou-se toda a zona para o trânsito; na escada de acesso ao museu tomou posição uma guarda de honra. Pouco antes das quatro quando Sir Alan Cunningham já havia embarcado no “Euralyus”, que devia zarpar da baía de Haifa à meia-noite, Ben-Gurion chegou em seu automóvel. Saudado por um policial, entrou no museu de Tel Aviv acompanhado pelos vivas da multidão.

Multidão concentrada na frente do prédio onde se estava lendo a declaração de independência
Multidão concentrada na frente do prédio onde se estava lendo a declaração de independência

Faltando minutos para começar, um pequeno esquecimento esteve a ponto de arruinar com o ato. Nos escritórios do Keren Kayemet, Sherf, com o texto da Declaração em suas mãos, descobriu alarmado que não teria como trasladar-se ao lugar da cerimônia. O hábil organizador, que havia conseguido veículos para todos os participantes, havia esquecido de si mesmo. Na rua, sem um táxi à vista, deteve o primeiro veículo que passou. O condutor a princípio se negou, alegando que corria a sua casa para ouvir a Declaração pela rádio. “Se não me levas ao ato no Museu, não ouvirás a tal Declaração, porque aqui a tenho em minhas próprias mãos”, aclarou Sherf ao jovem, que ao que parece estava conduzindo sem licença um automóvel emprestado. Segundo Nachum Nir (mais tarde Presidente da Knesset) que estava com Sherf naquele momento, um policial os deteve no caminho por excesso de velocidade. Nir explicou que a multa não tinha respaldo de autoridade alguma, já que o Mandato Britânico havia expirado, e ademais, se os seguisse demorando, não se proclamaria o Estado. “Não nos multou, contou Nir, e nos deixou passar”.

Zeev Sherf, responsável pela organização do evento da declaração de independência.
Zeev Sherf, responsável pela organização do evento da declaração de independência.

Um minuto antes das quatro, Sherf chegou correndo e entregou os papéis a Ben-Gurion. O salão estava abarrotado de convidados, jornalistas nacionais e estrangeiros, fotógrafos e cameras-man. A Orquestra Filarmônica, que devia tocar Hatikva, o hino nacional, na cerimônia, ficou relegada ao segundo andar. (Um garoto devia avisar-lhes quando tocar, porém o aviso não chegou porque, segundo o que contou uma testemunha ocular, o garoto ficou trancado no banheiro). O locutor de Kol Israel, a rádio clandestina da Haganá, convertida agora em emissora oficial, ficou de canto no fundo da sala, sem poder ver o que acontecia no estrado. Parte da primeira reportagem da emissora oficial se baseou em notas rabiscadas que alguém ia entregando ao locutor.

Onze membros do Diretório Nacional ocuparam seus lugares na presidência, sobre o recém acabado estrado, com Ben-Gurion no centro. Ao pé do estrado se sentaram, um em frente ao outro, quatorze membros do Conselho do Povo. Dois dos membros do Diretório Nacional e dez do Conselho Nacional estavam ausentes.

Às quatro em ponto da tarde, Ben-Gurion se levantou e impôs silêncio. Os presentes se puseram em pé e entoaram Hatikva. Logo após, Ben-Gurion anunciou: “Vou ler a Declaração de Independência, que foi aprovada em primeira leitura pelo Conselho Nacional”. Em um tom controlado, descreveu os antecedentes e motivos da Declaração e subido um pouco a voz adicionou: “Pela presente proclamamos a fundação de um estado judeu na Palestina, que se conhecerá como Estado de Israel”. Novamente os presentes se puseram em pé e irromperam em aplausos.

Ben-Gurion lendo a declaração de independência.
Ben-Gurion lendo a declaração de independência.

Ben-Gurion seguiu lendo o texto: a constituição de órgãos de governo devidamente eleitos; os direitos sociais e políticos de todos os cidadãos, incluídam a proteção de todos os lugares santos; um chamado às Nações Unidas a admitir Israel na família das nações e outro à população árabe a participar em todos os órgãos e instituições do Estado. Também instou aos judeus de todo o mundo a reunir-se em torno do Estado nascente.

Ben-Gurion passou a ler o parágrafo final: “Confiantes na Rocha de Israel, assinamos esta Declaração, nesta sessão do Conselho Provisional do Estado, celebrada na terra pátria, na cidade de Tel Aviv, na véspera do sábado, cinco do mês de Iyar de 5708, quatorze de Maio de 1948”.

Apenas 17 minutos durou a leitura da Declaração de Independência.

O rabino Fishman, com voz sufocada pela emoção, pronunciou a tradicional oração de inauguração: “…shehecheyanu vekiyimanu vehiguianu lazman haze” (Bendito seja o Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que nos deu vida e nos preservou e nos fez chegar a este momento). Os presentes responderam com um amen fervoroso.

Ben-Gurion passou então à leitura do “Decreto de Estabelecimento do Estado”, aprovado horas antes, que investia o Conselho Provisional do poder legislativo supremo e revocava toda a legislação britânica baseada no Livro Branco de 1939. Novamente os presentes aplaudiram com fervor à abolição dos incômodos decretos, que durante anos haviam restringido a imigração judaica.

Faltava ainda assinar a Declaração de Independência. Zeev Sherf foi chamando os membros do Conselho Nacional para assinar, um a um, começando por Ben-Gurion e seguindo por ordem alfabética. Moshe Shertok, sentado ao lado de Ben-Gurion, o ajudava a segurar o pergaminho, ainda em branco, que estava ligado com um simples clip ao texto datilografado. Nas seguintes semanas, ao ir chegando a Tel Aviv para assinar os membros do Conselho Nacional que se haviam ausentado do ato, por estarem sitiados em Jerusalém ou estarem no exterior, o pergaminho teve que ser tirado cada vez da caixa forte do Anglo-Palestine Bank (hoje Bank Leumi). Entretanto um calígrafo havia copiado o texto no pergaminho, porém seja porque usara tinta de má qualidade (alguns dizem que deixou manchas), seja porque seu trabalho não foi satisfatório, pediu-se ao Estúdio Wallish que o refizesse. O novo pergaminho foi escrito e costurado com um fio grosso ao antigo que levava as assinaturas.

Pergaminho da declaração de independência.
Pergaminho da declaração de independência.

Ben-Gurion pediu a todos os firmantes para usar seus nomes hebreus, porém alguns não o fizeram, entre eles Golda Meyerson e Moshe Shertok. Herzl Rosenblum, redator chefe do diário Yediot Acharonot e membro do Partido Revisionista, que assinou com o nome de “Herzl Vardi”, se arrependeu disso e continuou a usar Rosenblum quase imediatamente após a cerimônia. Mordechay Ben-Tov assinou com letras pequenas em sinal de humildade, e o rabino Fishman antepôs a sua assinatura o acrônimo B-H (com a ajuda divina), talvez como reação à omissão do Nome de Deus no texto da Declaração. Alguns afirmam que se deixou espaço para a assinatura de Chaim Weizmann. Embora este ilustre da Independência , e mais tarde primeiro presidente do Estado, não fosse membro do Conselho Nacional, é surpreendente (e ele o considerou como uma ofensa pessoal) que sua assinatura não figurasse na Declaração.

Ben-Gurion assinando a declaração de independência, e ao seu lado, segurando o pergaminho, Moshe Shertok (Sharett).
Ben-Gurion assinando a declaração de independência, e ao seu lado, segurando o pergaminho, Moshe Shertok (Sharett).

O último a assinar foi Moshé Shertok. Os presentes aplaudiram enquanto a Orquestra Filarmônica tocava Hatikva. Terminado o hino, Ben-Gurion novamente silenciou os presentes e anunciou: “O Estado de Israel está constituído. Esta sessão está encerrada”. Numa cerimônia de 32 minutos, um povo apátrida durante 2 mil anos recobrou sua independência. Em seu diário, Ben-Gurion anotou: “Às quatro, proclamação da Independência. Em todo o país, profunda alegría e júbilo, e de novo, como em 29 de Novembro, me sinto como quem anda enlutado em um festejo”.

Multidão em Tel Aviv comemorando a independência.
Multidão em Tel Aviv comemorando a independência.

Junto ao museu muitos dançavam, alguns choravam; outros agarravam os exemplares de Yom laMedina (“O dia do Estado”), uma edição especial conjunta dos jornais principais do país, que por um dia esqueceram seus desentendimentos ideológicos, enquanto outros liam que o recrutamento continuaria durante o sábado. A Haganá colou cartazes chamando a população a construir refúgios antiaéreos e evitar congregar-se. Horas mais tarde, os Estados Unidos conferiram seu reconhecimento ao novo Estado e pouco antes do amanhecer, Ben-Gurion falou pela rádio ao povo norte-americano. Enquanto estava falando, aviões egípcios bombardearam Tel Aviv. Concluido seu discurso, correu ao aeroporto Sde-Dov de Tel Aviv, onde haviam caído várias bombas. Do jipe em que fez o trajeto, Ben-Gurion contemplou a cidade. “Havia gente em pijama em todas as janelas. Não pareciam muito assustados. Tive a sensação de que superariam o desafio”.

Edição especial do Yom haMedina, com a manchete "O povo declara o Estado de Israel"
Edição especial do Yom haMedina, com a manchete “O povo declara o Estado de Israel”

Cinqüenta anos mais tarde, a voz de Ben-Gurion ainda ressoa no número 16 do boulevard Rothschild. Depois da Guerra de Independência , o museu seguiu instalado ali até que, em 1971, foi trasladado ao novo Pavilhão Helena Rubinstein. Seu antigo local, localizado no que fora o “lote número 43”, se cedeu à Casa da Bíblia, o instituto de pesquisa predileto de Ben-Gurion. Nos fins dos anos setenta, a prefeitura de Tel Aviv tomou posse do andar térreo e o restaurou, devolvendo-lhe o aspecto que tinha em 14 de Maio de 1948. O Salão da Independência abriu suas portas ao público em 1978. Em salas contíguas ao salão principal se expõem fotografias, mapas, recortes de jornais e documentos diversos, entre eles as distintas versões da Declaração.

Ainda que até há pouco o Salão da Independência era quase desconhecido (se estima que 80% dos israelenses não têm idéia de onde se proclamou a independência ), está reconquistando agora o lugar que merece no mapa histórico e cultural do país. Com a celebração do cinqüentenário, milhares de estudantes e de turistas começaram a visitá-lo.

O salão da declaração da independência hoje é aberto a visitantes.
O salão da declaração da independência hoje é aberto a visitantes.

No passeio pelas salas, o visitante encontra uma apresentação da história do sionismo e dos acontecimentos que precederam 14 de Maio de 1948; um curta-metragem revive o espírito pioneiro de Tel Aviv naqueles dias.

O mais emocionante, porém, é sentar-se no salão onde se proclamou a Independência. Ainda que as cadeiras agora sejam todas iguais e os quadros originais estejam no museu de Tel Aviv ou na Knesset em Jerusalém (em seu lugar foram pendurados outros de menor valor), o ambiente conserva uma aura de plena autenticidade. Estão a fotografia de Herzl e as bandeiras de Israel; estão também a longa mesa e os microfones originais; o espírito do passado toca o presente. No pequeno salão ressoa a voz gravada de Ben-Gurion, anunciando a criação do Estado de Israel. Quando os visitantes se detêm a cantar Hatikva, o hino da esperança, em coro com os estadistas de então, é como se estivessem reafirmando em certo modo a independência e como se, de forma emocional, quase mística, se criasse de novo o Estado de Israel.


Abaixo um video com Ben-Gurion lendo a declaração de independência:

 

Fotos:
usdiplomacy.org
wikipedia.org
eretzmuseum.org.il
bar-and-bat-mitzvah-in-israel.com
goldameir.org.il

 

 

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “O Estado de Israel Declara Independência”

  • Raul Gottlieb

    14/04/2013 at 13:06

    Muito lindo o relato! Obrigado.

    Uma pergunta e uma observação:

    Pergunta: porque a data prevista para o final do Mandato – 1o de agosto de 1948 – foi antecipada para 15 de maio?

    Observação: “Tzur Israel” é um dos atributos de Deus e não um dos nomes alusivos à Deus. Na teologia judaica, Deus não tem nome, apenas atributos.

  • Raul Gottlieb

    14/04/2013 at 13:35

    Me ocorreu uma segunda pergunta:

    É verdade que a decisão de fundação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 não foi uma decisão unânime do Conselho do Povo?

    Que uma parcela dos delegados recusou o plano de partilha por considerar que tinham direito à todo o território do Mandato original (incluindo o Reino da Jordânia)?

    Se for verdade, você sabe qual percentual dos delegados aprovou a fundação do Estado em 15 de maio?

    • Yair Mau

      14/04/2013 at 13:55

      Raul, obrigado pelas mensagens. Não sei responder suas perguntas. Vou me informar, e se descobrir algo eu posto um outro comentário. Lembrete: eu sou só o cara que encontrou o texto, traduziu e fez upload para cá, a pesquisa não é minha.

  • Mauricio Peres Pencak

    14/04/2013 at 19:31

    Bom, muito bom. Fiquei emocionado!

  • João alexandre

    15/06/2015 at 15:42

    Meu Deus q pesquisa emocionante, minha igreja, é uma grande defensora da causa de Israel, encaramos isso como uma missão dada pelo próprio Deus. Uma nação cujo nome foi dado pelo próprio Deus, Gênesis 32.28. Parabéns. Antes pela ignorância não amava essa nação, que ao longo dos anos sempre se defendeu dos seus opressores e ditadores, mas agora, sonho em ser um defensor dessa causa.

    Minha Igreja é Assembleia de Deus Central em Gramacho, conhecida como Igreja Viva 24 horas. O senhor estar convidado em conhecê-la, e estudar conosco, ficará surpreendido, pelo conteúdo e embasamentos históricos sobre esta linda nação. Abraços.

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