O “Estado Judeu” em debate

31/03/2014 | Conflito; Opinião; Política

O que significa a exigência do governo israelense pelo reconhecimento do caráter “judeu” do Estado de Israel num futuro acordo com a liderança palestina? Trata-se de uma demanda justa ou fora dos parâmetros da razoabilidade?

ConexãoIsrael.org traz para os seus leitores o recente debate sobre esta questão específica que ocorreu em artigos publicados no jornal Haaretz envolvendo duas grandes personalidades da sociedade israelense.

Ari Shavit é jornalista e comentarista político. Escreve no jornal Haaretz e é apresentador do programa de televisão “Ioman” do canal 1 da tv israelense. Em novembro de 2013, publicou o seu úlitmo livro “My promised Land” que analisa o processo de guerras e crimes que estiveram presentes na criação do Estado de Israel.

Amos Schocken, é um dos diretores do grupo que dirige o jornal Haaretz. Em sua atuação no grupo é reconhecido por apoiar e incentivar publicações de opiniões entre diferentes pontos de vista.

Boa leitura.


Um Estado judaico não é besteira

por: Ari Shavit
(Traduzido por Yair Mau)

Meir Dagan acha que a exigência de se reconhecer Israel como um país judaico é uma besteira. Mas esta exigência não é besteira – é a exigência mais natural e justa que pode-se pensar. Por conta de quatro motivos deve-se apoiar Binyamin Netanyahu e Tzipi Livni, que a representam hoje como prioridade nacional.

Primeiro motivo: O conflito israelo-palestino não começou em 1967 e não é consequencia da ocupação e dos assentamentos. Este é um profundo conflito nacional-religioso-cultural-social, cuja base é a cegueira. Durante dezenas de anos o Sionismo se recusou em ver o povo palestino e se recusou em reconhecer seu direito de fundar um país palestino. Até hoje o movimento nacional palestino se recusa em ver o povo judeu e reconhecer seu direito de manter um Estado judeu. Foi esta dupla e prolongada cegueira que desencadeou a guerra de cem anos entre nós e eles. Portanto, para terminar com esta guerra nós devemos reconhecer suas aspirações nacionais e seu Estado, e eles devem reconhecer nossas aspirações nacionais e nosso Estado. Da mesma forma que não será possível ter paz sem um Estado palestino, não será possível a paz sem um Estado judaico.

Segundo motivo: A maior conquista dos acordos de Oslo foi fazer com que os israelenses reconhecessem o fato de que existe nesta terra um povo palestino com direitos legítimos. A maior conquista da cúpula de paz de Camp David foi que Israel reconheceu a necessidade de se criar um Estado palestino. O resultado conjunto de Oslo e de Camp David foi uma reviravolta israelense. O povo de Sião viu finalmente que existe um outro povo nesta terra e assim reconheceu que ele tem direito a um outro Estado, que possa expressar seu direito de auto-determinação. Sendo assim, não há motivo algum para que o povo da Palestina não abra finalmente seus olhos e veja que existe um outro povo nesta terra, que tem o direito de um outro Estado, que possa expressar seu direito de auto-determinação. Reciprocidade não é pecado. Simetria não é um crime de guerra. Aqueles que acreditam que israelenses e palestinos são iguais, tem um dever moral de exigir dos palestinos exatamente o que exigem dos israelenses.

Terceiro motivo: Os palestinos não voltarão atrás de sua exigência de retorno. O trauma da Nakba [tragédia em árabe, como a independência de Israel e a subsequente guerra são chamadas] é o seu trauma de fundação, e a vivência como refugiados é a vivência que os moldou, e não existe líder palestino que declare que os palestinos não voltarão nunca mais às cidades e vilas que perderam em 1948. Se houver uma solução qualquer ao problema dos refugiados, ela será superficial, e não essencial. E justamente porque não se pode exigir dos palestinos mudar drasticamente e converter sua identidade, deve-se exigir deles reconhecer que o povo judeu é um povo desta terra, que não chegou aqui de Marte. Deve-se exigir deles reconhecer que o povo judeu tem sua própria História, sua própria tragédia, e sua própria justiça. Os palestinos devem reconhecer que os judeus não são colonialistas, mas sim vizinhos legítimos. Não haverá paz se as crianças que estão crescendo no campo de refugiados Dheisheh não souberem que o país do outro lado da fronteira é um Estado judaico legítimo de um povo judeu de verdade, ao lado de quem eles devem viver. Justo aqueles que renunciam ao reconhecimento de Israel como um Estado judaico são aqueles que renunciam à paz.

Quarto motivo: Um acordo de paz israelo-palestino é em grande parte um acordo unilateral, onde Israel dá e os palestinos recebem. Somente o reconhecimento de Israel como um Estado judaico transformará o tão desejado acordo em um acordo bilateral. Por um lado Israel passará a seu vizinho bens concretos, territórios e direitos soberanos, e por outro lado os palestinos lhe darão o único presente que eles são capazes de dar: legitimidade.

Meir Dagan é um israelense de muitas qualidades. Sua biografia é uma biografia heróica de conquistas “graças à força”. Mas não se fará a paz utilizando a força, mas sim com o reconhecimento de direitos. Sem um explícito reconhecimento palestino de nosso nome, identidade e direitos – não haverá paz.


Ari Shavit está perpetuando a ocupação

por: Amos Schocken
(Traduzido por Marcelo Treistman)

“Sim, mas veja bem…” é uma maneira mais educada de dizer “não”, e é assim que devemos entender as palavras de Ari Shavit. Aparentemente ele apoia a solução de dois Estados, mas ataca aqueles que se opõem a demanda do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de que o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, deveria reconhecer Israel como Estado do povo judeu. Então, nós sabemos exatamente a posíção de Shavit, quando ele também ataca o “acampamento da paz” [como os esquerdistas se auto-denominam], mas seus ataques são baseados em posições que ele inventa para os seus oponentes.

“Em Washington , Nova York e até Tel Aviv “, Shavit escreveu: “uma ofensiva global está sendo elaborada nas últimas semanas contra o Estado nacional do povo judeu. Estão atacando furiosamente a demanda pelo reconhecimento de Israel como um Estado judeu. De repente, não só os assentamentos são um crime de guerra, mas também a demanda do povo judeu pelo reconhecimento do seu direito à auto-determinação. De repente, não há legitimidade à ideia fundamental do sionismo, que foi reconhecida na Declaração de Balfour, na resolução da partilha da ONU e Declaração de Independência de Israel.O pensamento de que ao lado do Estado da nação palestina (não democrático), haverá um Estado da nação judia (democrático) faz com que muitas pessoas boas percam as estribeiras”. As pessoas que geralmente são comprometidas com a igualdade não estão dispostas a conceder aos judeus o que eles firmemente exigem aos palestinos.”

O ataque de Shavit é infundado. Para aqueles que se opõem a exigência feita aos palestinos de que reconheçam Israel como Estado-nação do povo judeu, está claro que a idéia fundamental do sionismo, a autodeterminação do povo judeu em um estado soberano e responsável pelo seu destino – isto é, “o Estado judeu” – é a base para tudo. A Declaração Balfour, a decisão da partilha do território pelas Nações Unidas e o que afirma a Declaração de Independência são passos na direção para a realização da idéia fundamental do sionismo. Ao contrário do que diz Shavit, ter o Estado de Israel ao lado de um Estado palestino, com os dois vivendo em paz uns com os outros, é a aspiração de muitas pessoas boas. Eles ficarão satisfeitos se a paz for feita apenas com o Estado palestino, e não com o Estado nacional do povo palestino.

A fim de criar um equilíbrio artificial e justificar sua posição, Shavit inventa a nação palestina. Se houver uma nação palestina (se é que existe de verdade esse conceito de nacionalidade), então na Jordânia há aparentemente duas nações: a nação palestina e a nação beduína. “O Estado nacional do povo judeu.” Que tipo de definição é esta? Um judeu italiano, cuja família esteve na Itália desde a expulsão da Espanha não é parte da nação italiana? Melhor nem entrar nesse tipo de argumentação.

Quando Israel reconheceu o fato de que existem palestinos que merecem a autodeterminação, os palestinos reconheceram Israel – a mesma Israel, que foi fundada nos princípios fundamentais do sionismo. O que está faltando é um acordo essencial: fronteiras, segurança, refugiados e Jerusalém.

Shavit também deve explicar por que está difamando o “acampamento da paz”, como se suas posições dependessem do que os palestinos quiserem aceitar, ​​e não estivesse fazendo nenhuma exigências a eles. Afinal, no estágio em que estamos, os palestinos já renunciaram 78% do que era seu território, e Israel ainda não renunciou aos 22% restantes. Os palestinos devem ceder efetivamente sua reivindicação mais forte: o retorno de facto dos refugiados. Essa também é a posição do “acampamento da paz”, e sem isso, o debate sobre o sim ou não a um Estado nacional é supérfluo.

Contudo, as exigências adicionais que Shavit apoia, de que os palestinos desistam de sua história, incluindo a história que ocorreu dentro da Linha Verde antes do Estado ser fundado, e que ignorem que um quinto dos cidadãos israelenses são palestinos – destina-se a frustrar qualquer chance para a paz. Será que ele vai aceitar um reconhecimento palestino de um Estado nacional judaico construído sobre as ruínas de 400 aldeias palestinas e centenas de milhares de refugiados, que já se tornaram milhões, e onde 20% dos cidadãos são palestinos, tão nacionalistas como ele é? Aqueles que se apresentam como defensores da solução de dois Estados, mas que insistem em exigir o reconhecimento de um Estado nacional judeu, estão agindo para perpetuar a ocupação e os assentamentos.


Artigos originais publicados no jornal Haaretz:

1 – Um Estado judaico não é besteira – Ari Shavit
2 – Ari Shavit está perpetuando a ocupação – Amos Schocken

Imagem de destaque:
Flickr de USFWS Mountain Prairie, segundo a seguinte licença Creative Commons.

Comentários    ( 16 )

16 comentários para “O “Estado Judeu” em debate”

  • Raul Gottlieb

    31/03/2014 at 10:12

    Este debate é excelente e oportuno, pois como já tive oportunidade de dizer aqui, penso que sem esta definição o Estado de Israel não tem razão de ser. Parabenizo o pessoal do Conexão pela iniciativa.

    Contudo sinto falta da tréplica de Shavit publicada alguns dias após a resposta de Shocken no mesmo Haaretz. Para quem estiver interessado eu publico a íntegra dela aí embaixo.

    Estou lendo o livro do Shavit e a minha opinião preliminar é que ele adquiriu uma visão bem interessante, nem cegamente de esquerda e nem cegamente de direita. Mas nesta ponte que ele faz entre as duas visões ele jamais perde de foco que o Estado de Israel é moralmente justificado e que se defende de uma agressão continuada ao mesmo tempo em que ocupa o território de uma população hostil. Em suas palavras (página xii da introdução): nenhum país do ocidente ocupa um território, mas também nenhum país do mundo tem sua existência posta em dúvida.

    Interessante notar que ele tenta colocar pesos iguais na balança (o que é muito meritório), mas que a realidade acabe derrotando seu intento: enquanto que Israel é realmente o único país do mundo que tem a sua existência ameaçada, ele é apenas o único país do “ocidente” que mantém uma ocupação.

    Fico a me perguntar por que colocar Israel no ocidente, visto que ele fica na Ásia e que seus vizinhos são todos orientais? E a minha resposta até agora (tenho que terminar o livro antes de fechar o conceito) é: por que só assim a equação dele fecha!

    O seu louvável esforço pela equidade acaba, infelizmente, ressaltando que a ocupação é mais fruto do conjunto de valores esposados pelos árabes do que pelo conjunto de valores esposados pelos judeus.

    A seguir, sua tréplica (em inglês, a espera que um dos amigos do Conexão se disponha a traduzi-la).

    Sorry, Schocken: Israel’s old left can’t end the occupation

    Most Israelis are unaware of the debt they owe Amos Schocken. Without free media there is no democracy and there are no free media without owners who understand their duty as defenders of that freedom.
    Amos Schocken does. Unlike many media barons in this country, he knows that owning a newspaper does not imply ownership of the facts the paper publishes or the opinions it expresses. The little fresh air of freedom that we can still breathe in this country has been preserved for us by Schocken, his family and his partners.

    At the beginning of the week Schocken attacked me savagely. He did something that the publishers of the New York Times, New Yorker and Washington Post wouldn’t dream of doing. So be it. I respect and like my publisher and accept both his virtues and weaknesses with love. Therefore I won’t respond in a personal manner, but to the issue at hand. I’ll conduct the debate in Haaretz’s style and spirit, and on the basis of the values of openness and culture that Haaretz represents.

    There’s no longer any point in continuing the argument on the recognition of the Jewish state. I’ve said my piece on the matter and others have said theirs. The debate has become circular and futile. But there is a point in seeing the argument in a much wider context. Who is better equipped to bring peace, divide the land and end the occupation? The Neturei Karta of the old left, or those who broke out of the ghetto walls and dared to look at the real, cruel, complex world beyond them?

    The similarity between the old Israeli left and Neturei Karta is obvious. In both cases we’re dealing with curling up in a closed system that has lost all touch with reality. Both are small communities that isolate themselves from the Israeli public and live in increasing alienation from the Israeli state. In both cases we’re dealing with rigid orders trying to silence any member who asks questions, casts doubt and wonders if the order’s premises are still valid.

    I feel sympathy for people with burning faith and solid principles, who are ready to fall on their sword. But the truth must be told: The old left’s “guardians of the city” won’t evacuate a single settlement, won’t bring about the withdrawal from an inch of land and won’t bring peace a single day sooner. Why? Because their systematic disregard of Palestinian rejectionism and the region’s brutality makes them unreliable; their repulsion from the blue-and-white renders them irrelevant. This makes the Israeli public shut its ears to their justified arguments about the settlements, human rights and civil rights. The old left’s inability to prove that it is both Zionist and realistic renders it unable to carry out the great Zionist project of the 21st century – ending the occupation.

    Many good people still believe in the old peace, which was tried (and which failed) in Oslo, tried (and failed) in Camp David and tried (and failed) in Annapolis. So they make great allowances for the Palestinians and exert pressure on the Americans to push only the Israelis.

    Mine is a different approach. I believe in a different peace. On the basis of my faith that all people are equal and all nations are equal, I insist that the Palestinians also make a contribution to the reconciliation. If they do, fine. If not, it will be our duty to try to end the occupation by ourselves. We cannot fulfill the mission unless we persuade the Israeli majority that we are flesh of its flesh. We will not be able to achieve true peace unless we leave the ghetto walls and deal with reality as it is.

    • Marcelo Treistman

      31/03/2014 at 10:49

      Raul, obrigado pelo comentário. Eu também gosto muito das opiniões do Ari Shavit e concordo com 100% de sua argumentação.

      O discurso que insiste em não reconhecer a problemática existente na sociedade árabe e seu afastamento dos valores democráticos é um dos principais fatores na sociedade israelense para a perpetuação da ocupação e dos assentamentos. Não reconhecer este problema é dar um atestado de que você não está atrelado a realidade e o seu discurso é rapidamente descartado. Esta posição da esquerda israelense de colocar o peso maior da “solução do conflito” sobre os ombros de Israel é injusta e pouco pragmática. Fico feliz ainda que o Ari entende que a desocupação dos territórios é a maior projeto sionista do século XXI. Perfeito.

      Quanto a paz… Israel não tem jurisdição para intervir incisivamente na sociedade palestina para “curá-la” de suas lideranças que defendem um mundo anti-democrático e com a negação de liberdades. Este é um entendimento que deverá surgir no seio desta sociedade e não há nada que podemos fazer para ajudá-los neste sentido.

      Não inserimos a tréplica do Shavit porque entendemos que ela não trazia novos argumentos ao debate. A argumentação primordial está nos dois primeiros textos. No fundo, no fundo, sempre soube que alguém iria adicioná-lo aos comentários.

      Abraços

  • Raul Gottlieb

    31/03/2014 at 13:12

    Cometi um erro no meu comentário. O Shavit não diz que Israel é o único país do mundo que sofre ameaça existencial, ele diz que é o único país do Ocidente a sofrer esta ameaça. Assim, ele equilibra a sentença dele colocando o ” Ocidente” nos dois lados da balança. Desculpem o meu engano.

    Mas mesmo assim a minha argumentação se sustenta. Israel não está fisicamente no Ocidente.Ele não é a Bélgica, sentada entre a Holanda e a França. Assim que ele tem que enfrentar a realidade de quem divide uma fronteira com a Síria e não com a Holanda. Com quem esconde explosivos dentro de ambulâncias e outros mimos da cultura árabe.

    Argumentar que Israel está no Ocidente porque adota os princípios democráticos deste é errado, a meu ver. Israel é uma democracia de modelo ocidental, mas que tem que criar estratégias de sobrevivência no meio dos países Árabes. E isto Shavit não reconheceu (pelo menos até a parte que li do livro dele).

  • Marcelo Starec

    31/03/2014 at 18:58

    Oi Yair,

    Gostei muito do artigo e do material trazido ao conexão! Gostaria de dar os parabéns ao Conexão por esse trabalho! Considero essencial frisar aqui algo que, no meu entender, precisa ficar muito claro a todos os interessados no tema. A questão de os árabes (e particularmente os palestinos) aceitarem Israel como um Estado Judeu é uma quebra de paradigma no pensamento árabe / islâmico de jamais ter aceito a existência de qualquer Estado não islâmico (cristão, judeu etc…) no que eles consideram terras islâmicas (aí eles incluem, em regra, qualquer território que já tenha sido algum dia islâmico, sendo que alguns vão além disso, inclusive!). Isto posto, trata-se de tornar possível a paz, no longo prazo, pois se estaria aceitando a legitimidade dos Judeus terem reconstruído o seu Estado dentro da palestina de forma justa, ou seja, que os judeus também tem vinculo e direitos sobre aquela terra e não apenas os islâmicos (no caso, os palestinos). Assim, trata-se de algo que representa o pilar básico da existência de Israel! Sem esse reconhecimento, fazer a paz não é possível, pois se Israel não é aceito como legitimo, na sua essência, como resolver a equação?
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    31/03/2014 at 19:22

    Devo estar perdendo alguma coisa, porque por mais que me esforce não consigo entender a insistência israelense no tal reconhecimento nem a recusa palestina.
    Que diferença faz como um país é chamado???? Alguém por um acaso acha que se amanhã, daqui a 10 anos ou daqui a 20, os palestinos tiverem capacidade de derrotar Israel e impor o absurdo, surreal, demagógico e completamente sem sentido “direito de retorno”, irão deixar de faze-lo porque “reconheceram” que Israel é um Estado judaico?????
    Será que em um cenário como esse, Síria, Egito, Irã e Líbano dirão algo como: ei, vocês não podem atacar Israel, afinal reconheceram que o país é judaico!

    “What’s in a name? That which we call a rose
    By any other name would smell as sweet.”

    Romeo and Juliet (II, ii, 1-2)

    • Marcelo Starec

      31/03/2014 at 23:19

      Oi Mario,

      Mesmo não sendo advogado, peço vênia para discordar dessa sua colocação. Na verdade, obviamente não se está falando em confiança integral e irrestrita, tal como se eles aceitarem, então Israel pode deixar de ter exército. Claro que não! Por outro lado, aceitar a existência de Israel, como Israel existe e foi criada é um importantíssimo paradigma de valores básicos, para poder-se chegar a uma paz! Desde o inicio da ideia de se criar um Estado Judeu até hoje, passando por todas as fases históricas, votações etc. – os árabes sempre rejeitaram a ideia do Estado Judeu (não islâmico ou não de maioria islâmica) por uma razão – eles creem que aquelas terras pertencem aos islâmicos, somente! Assim, no meu entender, não se trata de uma “bobagem” como parece a priori, mas de uma aceitação explicita de algo para Israel essencial, ou seja, que fazer a paz significa aceitar explicitamente que os judeus tem vinculo com aquela terra e podem lá reconstruir o seu Estado!
      Abraço,
      Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      01/04/2014 at 16:17

      Bom dia Marcelo. Talvez não tenha ficado claro, mas eu concordo com você!
      “! Por outro lado, aceitar a existência de Israel, como Israel existe e foi criada é um importantíssimo paradigma de valores básicos, para poder-se chegar a uma paz!”
      Sem dúvida. mas o que eu questiono é a SINCERIDADE de um eventual reconhecimento.
      Analisando-se o histórico do conflito, os palestinos (e árabes) poderiam perfeitamente reconhecer Israel como o reino de Deus e quando achassem que poderiam derrota-lo, atacariam da mesma forma que sempre fizeram.
      Resumindo e tentando esclarecer melhor: a credibilidade de um papel assinado pelo Abbas (e similares) é ZERO.
      É só por isso que acho não valer a pena perder tempo e energia nessa insistência. Por outro lado, se eu fosse ele, Abbas, aceitaria e gritaria o mais alto possível: estão vendo, eu fiz uma enorme concessão.
      O Bibi levantou a bola para ele, que só não faz o gol porque é imbecil.

  • Mario S Nusbaum

    31/03/2014 at 19:24

    ” no estágio em que estamos, os palestinos já renunciaram 78% do que era seu território, e Israel ainda não renunciou aos 22% restantes. ”
    Como é que é ???????????????

  • Gabriel Guzovsky

    31/03/2014 at 19:54

    Muito interessante o diálogo promovido pelo Haaretz. Valeu por traduzir e compartilhar! Na minha opinião, esquecem de um fator importante: essa mesa de negociação é uma das mais caras do mundo, mega high stakes poker e ninguém tem coragem de ir all-in. A situação, cinza como está agora, tem gerado benefícios para todo tipo de organização e tem muita gente que vive do conflito direta ou indiretamente. (não vou citar nomes para evitar problemas legais, mas é só pensar um pouquinho e fazer a pergunta – Cui bono? Quem lucra?)

    Enquanto o conflito não chegar a um extremo grave, é muito improvável que a paz se crie espontaneamente. Na minha opinião, a paz começa na indignação do povo palestino com as suas lideranças (que os vem utilizando como escudo e arma – proxy – de outras potências regionais). Acredito que as pessoas que buscam a paz verdadeira deveriam focar seus esforços em mudar a cara da Palestina e não de Israel. Deveriam buscar criticar as lideranças Palestinas, denunciar os discursos de ódio e ir no meio de Gaza levando a bandeira da paz e da coexistência, questionando e manifestando.

    É muito fácil manifestar-se em Israel, um país democrático, é muito fácil vir cobrir o Oriente Médio em Israel e criticar Israel – o desafio está em fazer-se escutar e em criar mudança em uma sociedade corrupta e fascista disfarçada de underdog.

    • Mario S Nusbaum

      31/03/2014 at 22:08

      Concordo plenamente Gabriel, mas infelizmente somos minoria. Pelos mais variados motivos a grande maioria sempre poupou as lideranças palestinas, as maiores responsáveis pela falta de um acordo.

  • Edu

    31/03/2014 at 21:43

    Em Março de 1977, Zahir Muhsein, membro executivo da Organização de Libertação da Palestina (OLP), disse em entrevista ao jornal holandês Trouw: “não existe ‘povo palestino’. A criação de um Estado palestino é apenas um meio para continuar a nossa luta contra o Estado de Israel”.

    Walid Shoebat, um ex-terrorista da OLP, reconheceu a mentira pela qual ele estava a lutar: “Por que é que em 4 de Junho de 1967 eu era um jordano e durante a noite eu me tornei um palestino?… Nós considerava-mo-nos jordanos até que os judeus voltaram a Jerusalém, e de repente éramos palestinos. Eles removeram a estrela da bandeira da Jordânia e de repente tivemos uma bandeira palestina

  • Raul Gottlieb

    31/03/2014 at 21:53

    Muito bom Gabriel!

    E eu penso que a sociedade Palestina só vai se transformar quando parar de receber ajuda da ONU, Europa, USA e outros. Por enquanto a atitude corrupta e fascista, travestida de underdog vem enriquecendo muita gente. Quando esta fonte secar as coisas podem começar a mudar.

    O problema é que este dia ainda não está no horizonte e isto deixa uma galera inquieta.

  • Ricardo

    01/04/2014 at 17:37

    Israel deverá ser um Estado Judio?
    Alguns anos atrais Eu rejeitaría esa idea, de impor a necesidade e obrigatoriedade o reconhecimento de Israel como Estado Judio.
    Anos atrais ( e como muitos ainda vem o assunto) eu analizaría essa possibilidade so desde a perspectiva da relação ciudadão/estado, e sendo Eu uma persoa (judío) laico, Eu tería rejeitado por completo essa idea.
    Porem, o mundo cambia, então nossa posição cambia.
    Para entender a necesidade de cambio de nos os laicos e izquerdistas na nossa posição referente a um estado definido como judaico temos que ter em conta algumas coisas.
    Al decir de Sarter (mais o menos asim), “no soi eu quem se define judeu ou nao, som os antisemitas os que decidem si soi o nao soi judeu”. Vale decir, o asunto de um Estado de Israel Judeu, eis para o Mundo um fato, gostemos nos o não.
    – A verdade e fazendo um parentesis no persoal, Eu gostaría de falar de um Estado Hebraico e nao Judaico (e asimser mais universalista abosrvendo tudas as correntes desenvolvidas durante os 2000 anos de galut e tirar dos politicos religiosos o poder de definir quem eis um cidadão de primera e quem de segunda).-
    REtomando.
    A necessidade de definir hoje ao Estado de Israel como Judeu (ou Hebreu) nace do fato que o Mundo Arabe que rodea Israel ja não eis o Mundo Laico Pan-Arabico de Nasser e Sadat, sino um Mundo islamico donde as distintas correntes lutam entre elas pro o dominio religioso de região.
    Nesse contexto, o Estado de Israel, como representante de uma minoría cultural na regiao, deve EXIGIR o reconocimento de Estado Judio para establecer um fato politico porem tambein publico e popular dentro da população muculamana que um Estado nao-islãmico tein o dereito a existir.
    Estamos sendo testigos do que estã aconteciendo en Siria e Egito contra os cristianos e em certa manera contra os alawitas.
    Ja nos anos 40, o avó de Bashar el Assad, procurava apoio dentro da comunidade judaica mundial para evitar que França entregase a independencia e o goberno aos Sunitas, temendo, como de fato aconteció que estes intentasem eliminar e esclavizar as minorias sirias, en especial a la alawita.

    De fato, o Estado de Israel não surge so como um Estado so pra o povo judeu, nace tambem como um estado que aceita e protege a outras minorías culturais (charquesim, drusos, samaritanos, baahi, karaitas, beduinos, crisitanos).

    Então o que temos eis que hoje en día eis para nos uma obrigação el reclamar o reconhecimento como Estado Judio para asím obter nao so a nivel politico e de governos, sino dentro da população musulmana o dereito a existir como um estado no musulmano.
    Y eis por essa razão que a Liga Arabe barra o assunto. Nao por amor aos Palestinos, sino por seus propios medos a suas propias minorias, pois isso despertaria um sentimento nacionalista -en especial por os Kurdos dentro de Irak e Iran (30% de população deles eis kurda), e Egito (10% da população cristiana kopta, maiormente concentrada no sul)- que obrigariam a re-definir as fronteras de muitos de essos paises.

    Resumindo, apoio o reclamo de um Estado de Israel Hebraico ( me conformo com uno Judaico), nao porque seja uma necesidade “espiritual e/ou nacionalista”, eis porque judeos nos vem, e como judeos devem nos aceitar.
    O tipo de judeu…..essa sim eis uma interna…e de poca importancia para o Mundo.

    Disculpem o nivel de meu portugueis

    SDs

  • Gabriel Guzovsky

    01/04/2014 at 18:45

    Eu acho que o maior problema é que as pessoas têm, e com razão, muitíssimo MEDO do extremismo religioso. Acredito que os brasileiros e especialmente os repórteres que vem aqui tratar do assunto Oriente Médio acabam entrando no caminho do relativismo cultural para fugir da raia, argumentando que os extremistas são diferentes, que tem outros códigos culturais (muitas vezes considerados inferiores – coitados -por esses relativistas culturais acomodados – e eu diria até mesmo racistas na sua forma de pensamento).

    Estudei Publicidade na FAAP e o meu professor de Filosofia da Comunicação foi o Luiz Felipe Pondé. Ele tem uma aula muito boa sobre o assunto que me marcou, vou colar um texto muito bom dele aqui abaixo que ajuda a explicar o meu ponto acima com relação aos Palestinos:

    Contra o relativismo
    por Luiz Felipe Pondé

    O que você faria se estivesse a ponto de assistir a um ritual de antropofagia? Interromperia (sem risco para você)? Ou deixaria acontecer em nome do relativismo cultural (essa ideia que afirma que cada um é cada um, que as culturas devem ser respeitadas em sua individualidade e que não podemos compará-las)?

    No primeiro caso, você seria um horroroso descendente dos “jesuítas”; no segundo você seria um relativista chique. Sempre suspeitei que esse papo relativista fosse blablablá. Funciona bem em aula de antropologia, em bares, em parques temáticos e lojas de curiosidades. É evidente que “jesuítas” de todos os tipos fizeram horrores nas Américas. Todo adulto bem educado sabe que é feio condenar cultos à lua ou à chuva. Mas há algo no relativismo cultural que me soa conversa fiada: o relativismo cultural morre na praia quando você é obrigado a conviver com o Outro. E o “Outro” nem sempre é legal.

    Se você aceita a antropofagia em nome do respeito à “cultura”, aceita implicitamente a ideia de que o valor da vida humana seja subordinado à “cultura”. A vida humana não tem valor em si. Todo estudante de antropologia sabe recitar esse credo. Quando confrontado com dilemas como esse, o relativista diz que se trata de uma situação meramente hipotética (hoje não existe mais antropofagia). Mas a verdade é que quando o relativista diz que a antropofagia é hoje quase nula, e, portanto, esse dilema não tem “validade científica”, está literalmente correndo do pau porque “alguém” acabou com a antropofagia, não? Por que a antropofagia “acabou”?

    Algumas hipóteses: 1) os antropófagos foram mortos por gripes ou em batalhas; 2) foram convertidos pelos horrorosos “jesuítas” e seus descendentes; 3) descobriram formas mais fáceis de comer e rituais que deixam as pessoas (isto é, os Outros) menos irritadas e com menos nojo. É importante conhecer o “lugar” da antropofagia nas religiões dos canibais, mas isso é apenas um “dado” antropológico. Uma descrição de hábitos (ruins). Mas o relativista tem que correr do pau mesmo, porque seu credo funciona bem apenas nas conversas de salão. A vida é sempre pior do que as festas. Relativistas culturais são, no fundo, puritanos disfarçados, gostam de “aquários humanos”.

    Os seres humanos são culturalmente promíscuos, e “a cultura” sem promiscuidade (trocas, misturas, confusões) só existe nos livros. Use internet, televisão, celulares, aviões e estradas, faça sexo ou guerra, e o papo do relativismo cultural vira piada. Na realidade, as pessoas lançam mão do argumento relativista somente quando lhes interessa defender a “tribo” com a qual ganha dinheiro e fama. O problema com o debate sobre os índios (ou qualquer outra cultura considerada “coitada”) é a mitologia que ela provoca. Se, de um lado, alguns falaram dos índios (erradamente) como inferiores, bárbaros ou inúteis, por outro lado, os que “defendem” os índios normalmente caem no mito oposto: eles são legais e só querem viver “sua cultura”, e eles não são “capitalistas” como nós, e blablablá. Índios gostam de poder como todo mundo, vide os índios “conscientes de seus direitos” devorando computadores, celulares e internet no Fórum Social, em Belém -ou ficam na idade da pedra mesmo e precisam que o Estado os defenda do mundo.

    As culturas mais bem-sucedidas são predadoras e seduzem as mais fracas (ser mais bem-sucedida não implica ser legal). Por que levar medicina científica (invenção dos “opressores”) para as aldeias? Não seria contaminação “cultural”? Vamos ou não brincar de “curandeiros”? Que tal abraçar árvores? Se você é católico e quer ser fiel aos seus princípios, você é um retrógrado; se você quer viver no meio da selva (com direitos adquiridos porque você é de uma cultura “coitada”), você é apenas uma tribo com direito a integridade cultural. O conceito de cultura é quase um fetiche do mercado das ciências humanas. Não que não existam culturas, mas o conceito na sua inércia preguiçosa só funciona no laboratório morto da sala de aula ou do museu. A vida se dá de forma muito mais violenta, se misturando, se devorando.

    Nada disso é “contra” os índios, mas sim contra o relativismo como ética festiva. O oposto dele não é o obscurantismo, mas a dinâmica da vida real. O relativismo é um (velho) problema filosófico e um “dado” antropológico. Um drama, e não uma solução.

    • Raul Gottlieb

      02/04/2014 at 10:02

      Gabriel,

      Eu concordo integralmente com o teu comentário sobre a estupidez do relativismo cultural e noto que as pessoas tem medo da violência islâmica e não exatamente do extremismo religioso sobre o qual esta violência repousa.

      Me explicando melhor: ninguém tem medo do extremismo tibetano, animista, judaico ou cristão. Mas as pessoas se borram de medo do extremismo islâmico. Logo, o que faz a diferença é o “islâmico” e não o “extremismo”.

      E este medo provém da violência à qual eles lançam mão. Rushdie foi condenado à morte em 1989 porque fez um romance que não agradou aos donos da religião islâmica. Ele conseguiu se esconder, mas tantos outros escritores e pensadores foram selvagemente executados pelos mesmos “crimes” de opinião.

      Covardemente o mundo reagiu com este estúpido relativismo cultural tão bem descrito pelo Pondé e não com a violência que o ataque à liberdade de expressão exigia. Era o caso de denunciar o Islã, de banir os países que não adotam a declaração universal dos direitos do homem das trocas internacionais, etc. Contudo, tudo o que fizeram foi “entender” que cada cultura esposa valores diferentes e que é errado fazer julgamentos.

      A reação pusilânime do mundo (da grande imprensa e dos governos) alimentou o ciclo da violência. Hoje em dia é permitido falar mal de tudo (e isto é salutar), menos da violência islâmica (e isto é doentio).

      Abraço, Raul

  • Rafael Kuperman

    14/04/2014 at 21:23

    Boa tarde!
    Gostaria de, se possível, solicitar textos nos quais Meir Dagan acha que a exigência de se reconhecer Israel como um país judaico é uma besteira.
    Muito obrigado!

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