O “Estado Judeu” em debate

31/03/2014 | Conflito; Opinião; Política

O que significa a exigência do governo israelense pelo reconhecimento do caráter “judeu” do Estado de Israel num futuro acordo com a liderança palestina? Trata-se de uma demanda justa ou fora dos parâmetros da razoabilidade?

ConexãoIsrael.org traz para os seus leitores o recente debate sobre esta questão específica que ocorreu em artigos publicados no jornal Haaretz envolvendo duas grandes personalidades da sociedade israelense.

Ari Shavit é jornalista e comentarista político. Escreve no jornal Haaretz e é apresentador do programa de televisão “Ioman” do canal 1 da tv israelense. Em novembro de 2013, publicou o seu úlitmo livro “My promised Land” que analisa o processo de guerras e crimes que estiveram presentes na criação do Estado de Israel.

Amos Schocken, é um dos diretores do grupo que dirige o jornal Haaretz. Em sua atuação no grupo é reconhecido por apoiar e incentivar publicações de opiniões entre diferentes pontos de vista.

Boa leitura.


Um Estado judaico não é besteira

por: Ari Shavit
(Traduzido por Yair Mau)

Meir Dagan acha que a exigência de se reconhecer Israel como um país judaico é uma besteira. Mas esta exigência não é besteira – é a exigência mais natural e justa que pode-se pensar. Por conta de quatro motivos deve-se apoiar Binyamin Netanyahu e Tzipi Livni, que a representam hoje como prioridade nacional.

Primeiro motivo: O conflito israelo-palestino não começou em 1967 e não é consequencia da ocupação e dos assentamentos. Este é um profundo conflito nacional-religioso-cultural-social, cuja base é a cegueira. Durante dezenas de anos o Sionismo se recusou em ver o povo palestino e se recusou em reconhecer seu direito de fundar um país palestino. Até hoje o movimento nacional palestino se recusa em ver o povo judeu e reconhecer seu direito de manter um Estado judeu. Foi esta dupla e prolongada cegueira que desencadeou a guerra de cem anos entre nós e eles. Portanto, para terminar com esta guerra nós devemos reconhecer suas aspirações nacionais e seu Estado, e eles devem reconhecer nossas aspirações nacionais e nosso Estado. Da mesma forma que não será possível ter paz sem um Estado palestino, não será possível a paz sem um Estado judaico.

Segundo motivo: A maior conquista dos acordos de Oslo foi fazer com que os israelenses reconhecessem o fato de que existe nesta terra um povo palestino com direitos legítimos. A maior conquista da cúpula de paz de Camp David foi que Israel reconheceu a necessidade de se criar um Estado palestino. O resultado conjunto de Oslo e de Camp David foi uma reviravolta israelense. O povo de Sião viu finalmente que existe um outro povo nesta terra e assim reconheceu que ele tem direito a um outro Estado, que possa expressar seu direito de auto-determinação. Sendo assim, não há motivo algum para que o povo da Palestina não abra finalmente seus olhos e veja que existe um outro povo nesta terra, que tem o direito de um outro Estado, que possa expressar seu direito de auto-determinação. Reciprocidade não é pecado. Simetria não é um crime de guerra. Aqueles que acreditam que israelenses e palestinos são iguais, tem um dever moral de exigir dos palestinos exatamente o que exigem dos israelenses.

Terceiro motivo: Os palestinos não voltarão atrás de sua exigência de retorno. O trauma da Nakba [tragédia em árabe, como a independência de Israel e a subsequente guerra são chamadas] é o seu trauma de fundação, e a vivência como refugiados é a vivência que os moldou, e não existe líder palestino que declare que os palestinos não voltarão nunca mais às cidades e vilas que perderam em 1948. Se houver uma solução qualquer ao problema dos refugiados, ela será superficial, e não essencial. E justamente porque não se pode exigir dos palestinos mudar drasticamente e converter sua identidade, deve-se exigir deles reconhecer que o povo judeu é um povo desta terra, que não chegou aqui de Marte. Deve-se exigir deles reconhecer que o povo judeu tem sua própria História, sua própria tragédia, e sua própria justiça. Os palestinos devem reconhecer que os judeus não são colonialistas, mas sim vizinhos legítimos. Não haverá paz se as crianças que estão crescendo no campo de refugiados Dheisheh não souberem que o país do outro lado da fronteira é um Estado judaico legítimo de um povo judeu de verdade, ao lado de quem eles devem viver. Justo aqueles que renunciam ao reconhecimento de Israel como um Estado judaico são aqueles que renunciam à paz.

Quarto motivo: Um acordo de paz israelo-palestino é em grande parte um acordo unilateral, onde Israel dá e os palestinos recebem. Somente o reconhecimento de Israel como um Estado judaico transformará o tão desejado acordo em um acordo bilateral. Por um lado Israel passará a seu vizinho bens concretos, territórios e direitos soberanos, e por outro lado os palestinos lhe darão o único presente que eles são capazes de dar: legitimidade.

Meir Dagan é um israelense de muitas qualidades. Sua biografia é uma biografia heróica de conquistas “graças à força”. Mas não se fará a paz utilizando a força, mas sim com o reconhecimento de direitos. Sem um explícito reconhecimento palestino de nosso nome, identidade e direitos – não haverá paz.


Ari Shavit está perpetuando a ocupação

por: Amos Schocken
(Traduzido por Marcelo Treistman)

“Sim, mas veja bem…” é uma maneira mais educada de dizer “não”, e é assim que devemos entender as palavras de Ari Shavit. Aparentemente ele apoia a solução de dois Estados, mas ataca aqueles que se opõem a demanda do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de que o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, deveria reconhecer Israel como Estado do povo judeu. Então, nós sabemos exatamente a posíção de Shavit, quando ele também ataca o “acampamento da paz” [como os esquerdistas se auto-denominam], mas seus ataques são baseados em posições que ele inventa para os seus oponentes.

“Em Washington , Nova York e até Tel Aviv “, Shavit escreveu: “uma ofensiva global está sendo elaborada nas últimas semanas contra o Estado nacional do povo judeu. Estão atacando furiosamente a demanda pelo reconhecimento de Israel como um Estado judeu. De repente, não só os assentamentos são um crime de guerra, mas também a demanda do povo judeu pelo reconhecimento do seu direito à auto-determinação. De repente, não há legitimidade à ideia fundamental do sionismo, que foi reconhecida na Declaração de Balfour, na resolução da partilha da ONU e Declaração de Independência de Israel.O pensamento de que ao lado do Estado da nação palestina (não democrático), haverá um Estado da nação judia (democrático) faz com que muitas pessoas boas percam as estribeiras”. As pessoas que geralmente são comprometidas com a igualdade não estão dispostas a conceder aos judeus o que eles firmemente exigem aos palestinos.”

O ataque de Shavit é infundado. Para aqueles que se opõem a exigência feita aos palestinos de que reconheçam Israel como Estado-nação do povo judeu, está claro que a idéia fundamental do sionismo, a autodeterminação do povo judeu em um estado soberano e responsável pelo seu destino – isto é, “o Estado judeu” – é a base para tudo. A Declaração Balfour, a decisão da partilha do território pelas Nações Unidas e o que afirma a Declaração de Independência são passos na direção para a realização da idéia fundamental do sionismo. Ao contrário do que diz Shavit, ter o Estado de Israel ao lado de um Estado palestino, com os dois vivendo em paz uns com os outros, é a aspiração de muitas pessoas boas. Eles ficarão satisfeitos se a paz for feita apenas com o Estado palestino, e não com o Estado nacional do povo palestino.

A fim de criar um equilíbrio artificial e justificar sua posição, Shavit inventa a nação palestina. Se houver uma nação palestina (se é que existe de verdade esse conceito de nacionalidade), então na Jordânia há aparentemente duas nações: a nação palestina e a nação beduína. “O Estado nacional do povo judeu.” Que tipo de definição é esta? Um judeu italiano, cuja família esteve na Itália desde a expulsão da Espanha não é parte da nação italiana? Melhor nem entrar nesse tipo de argumentação.

Quando Israel reconheceu o fato de que existem palestinos que merecem a autodeterminação, os palestinos reconheceram Israel – a mesma Israel, que foi fundada nos princípios fundamentais do sionismo. O que está faltando é um acordo essencial: fronteiras, segurança, refugiados e Jerusalém.

Shavit também deve explicar por que está difamando o “acampamento da paz”, como se suas posições dependessem do que os palestinos quiserem aceitar, ​​e não estivesse fazendo nenhuma exigências a eles. Afinal, no estágio em que estamos, os palestinos já renunciaram 78% do que era seu território, e Israel ainda não renunciou aos 22% restantes. Os palestinos devem ceder efetivamente sua reivindicação mais forte: o retorno de facto dos refugiados. Essa também é a posição do “acampamento da paz”, e sem isso, o debate sobre o sim ou não a um Estado nacional é supérfluo.

Contudo, as exigências adicionais que Shavit apoia, de que os palestinos desistam de sua história, incluindo a história que ocorreu dentro da Linha Verde antes do Estado ser fundado, e que ignorem que um quinto dos cidadãos israelenses são palestinos – destina-se a frustrar qualquer chance para a paz. Será que ele vai aceitar um reconhecimento palestino de um Estado nacional judaico construído sobre as ruínas de 400 aldeias palestinas e centenas de milhares de refugiados, que já se tornaram milhões, e onde 20% dos cidadãos são palestinos, tão nacionalistas como ele é? Aqueles que se apresentam como defensores da solução de dois Estados, mas que insistem em exigir o reconhecimento de um Estado nacional judeu, estão agindo para perpetuar a ocupação e os assentamentos.


Artigos originais publicados no jornal Haaretz:

1 – Um Estado judaico não é besteira – Ari Shavit
2 – Ari Shavit está perpetuando a ocupação – Amos Schocken

Imagem de destaque:
Flickr de USFWS Mountain Prairie, segundo a seguinte licença Creative Commons.

Comentários    ( 16 )

16 Responses to “O “Estado Judeu” em debate”

  • Rafael Kuperman

    14/04/2014 at 21:23

    Boa tarde!
    Gostaria de, se possível, solicitar textos nos quais Meir Dagan acha que a exigência de se reconhecer Israel como um país judaico é uma besteira.
    Muito obrigado!

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