O exemplo vem de Yafo

Por Ricardo Niskier

 

Sem solução. É desta maneira que a maior parte das pessoas, envolvidas ou não no conflito árabe-israeli, enxerga a atual situação do oriente médio. E pasme, leitor, que imagina que esta introdução precede uma solução simples e/ou inteligente. Na opinião de quem vos escreve, o conflito realmente não tem solução nem fim, enquanto ainda houverem pessoas que queiram simplesmente que o outro não exista e isto, por mais lindo que seja o mundo e seus contos de fada, está longe de cessar.

Mesmo assim, muita gente continua acreditando na possibilidade de convivencia conjunta e algumas cidades em Israel são marcadas pela grande quantidade de árabes e judeus morando lado a lado. Costumeiramente chamados de “primos”, creio que estejam mais próximos de irmãos, que brigam pelo ultimo pedaço de bolo e se olham atravessados porque um usou a roupa do outro. Na verdade, saímos todos do mesmo lugar e não é a história em que acreditamos que nos torna melhores ou piores.

Um dos polos culturais e gastronômicos mais conhecidos de Israel, Yafo (Jaffa) é marcado por esta convivência. Acredita-se que leva esse nome (Bonita em hebraico antigo) por causa do efeito que o sol provoca em suas construções de pedra. Seu porto natural foi utilizado durante a construção do primeiro templo e do palácio de Salomão e foi de lá que, segundo nos conta a Torah, o profeta Jonas saiu de barco à Tarsis, para depois ser engolido pela baleia. Além disso, a história da tão conhecida Tel Aviv está totalmente ligada à Yafo. Em 1909, 66 familias residentes da cidade fundaram um bairro no “subúrbio”, chamado de Achuzat Bait (Granja). Um ano depois, aquela área passou a ser chamada de Tel Aviv e apenas em 1950 Yafo deixou de ser considerado uma cidade, se incorporou e virou um bairro.

Casas do centro histórico de Yafo vistas de cima, com seu porto natural ao fundo.
Casas do centro histórico de Yafo vistas de cima, com seu porto natural ao fundo.

Com 55 mil habitantes, sendo 76% deles judeus, Yafo é um dos lugares mais charmosos de Israel, ao mesmo tempo em que carrega uma grande e inexplicável atmosfera de convivência em conjunto no limite da explosão. Charmoso, pois além de seu lindo centro histórico, uma boa parte das casas é antiga e traz um clima diferente do comum em Israel. Recheado de cafés, restaurantes, lojas de todos os tipos e gente de todos os lugares, não é raro caminhar pela Sderot Ierushalaim (Boulevard Jerusalem) e cruzar na mesma esquina com um Rabino Ortodoxo, um Imã muçulmano e um Padre, todos vestidos com seus trajes tradicionais, os mesmos que utilizavam há centenas de anos.

O idioma mais escutado por lá é o árabe, apesar do numero de judeus ser muito maior. Isso acontece principalmente por dois motivos. Primeiro porque a maior parte do comércio do bairro é propriedade de arabes. Assim, a maioria deles passa todo o tempo no bairro, enquanto os judeus que moram ali normalmente trabalham em outros lugares. Fora isso, muitos Olim Chadashim (imigrantes) moram lá pelo baixo custo em relação aos outros bairros de Tel Aviv, diluindo assim o hebraico falado na rua, que acaba substituído por linguas de todos os cantos do mundo, de português à russo.

Convivência no limite, porque o respeito e a coexistência existem, mas sem esforços notáveis para integração entre os … (nenhuma palavra foi encontrada para refletir o pensamento do escritor. Povos? Não. Religiões? Não. Entre os… os. Você, leitor, entendeu a mensagem). Estão todos lá, se respeitando e frequentando os mesmos supermercados, restaurantes, lojas, independente de qual seja a procedencia de seus donos e funcionários. Mas é inegavel que essa polidez acaba no momento social e em suas pequenas ruas, Yafo vê moradores árabes com moradores árabes e judeus com judeus. É muito raro ver, por exemplo, um judeu no meio de uma roda de narguila na esquina, ou um árabe tomando uma cerveja, inclusive pelo fato de o álcool ser proibido no Islamismo.

Há também no bairro, uma área chamada Ajami, aonde estão muitos palestinos e que funciona um pouco à mercê de todo o resto. Lá ainda vemos galinhas na rua fugindo do abate, burros de carga, charretes e um “clima de antigamente” muito grande. Neste local estão as máfias árabes, que nada tem a ver com a questão de Gaza ou dos territórios ocupados, mas que mandam naquele pequeno local, como Dons Corleones de kefia. Há um grau maior de violência, mas que não atinge as outras áreas de Yafo.

Essa convivência, com muito respeito e sem nenhum tipo de sonho esquerdista, é real. Não só em Yafo, mas tambem em Haifa, Acco, e diversas outras cidades do país. Ela deveria ser tratada como exemplo de que podemos viver lado a lado. Não precisamos transformar os outros e nem a nós mesmos para conviver, só é preciso respeito. Sonhar e idealizar um país judeu e um muçulmano, com uma ou duas capitais ou o que for, nunca é ruim. Mas se todos parassemos antes para pensar que podemos viver juntos, nada disso seria necessario!  Que Yafo sirva de exemplo!

Bandeira de Israel com mesquita ao fundo, no Shuk Hapishpishim (Mercado de rua em Yafo).
Bandeira de Israel ao lado de uma mesquita no Shuk Hapishpishim (Mercado de rua em Yafo).

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “O exemplo vem de Yafo”

  • Sergio Niskier

    27/12/2012 at 02:10

    Adorei o seu artigo. E adorei o site, o blog, e todo o resto. Ja que voce fala em convivencia, em exemplo, sugiro passear no site dos Acordos de Geneve – GENEVE INITATIVE, onde intelectuais, politicos, e mesmo cidadãos comuns, israelenses e palestinos, tentam sair da lógica nefasta da violência e das respostas piores a esta violência.

    Eu passeei nestas ruas de Yaffo com voce. E voce não entendia porque eu saudava todos. Com Shalom ou Salam. Mesmo que me olhassem com estranhesa. è verdade que nenhum respondeu. Nem os de kipa, nem os de kefia, o que os coloca todos no mesmo saco. Falta mesmo uma dose de humanidade pelas ruas do mundo. E pelo seu artigo, vejo que voce vai sucumbir e vai achar nos seus vizinhos, muçulmanos ou judeus, cristãos ou bahais, motivos de amizade e tolerância. Afinal tens um bom DNA para isto. Quem sabe em setembro, de novo ai em Yafo com voce, vamos juntos lançar a campanha do DIGA UM SALAM POR DIA. DIGA UM SHALOM POR DIA. E vamos começar com o nosso amigo da cerveja sem alcool da Sderot Yerushalaim.

    Acredite sempre na história do passarinho na floresta. Fazer a sua parte é fundamental.

    beijos a todos desta redação blogueira.

    Niskinha

    • Lauro Cohen

      26/01/2013 at 21:51

      O Sérgio Niskier falou exatamente o que eu ia dizer. Se cada um fizer a sua parte…muita coisa ruim vai poder ser evitada. E, quanto custa dizer um “oi”, um “olá”, um “bom dia” e uma “boa tarde”? Só um pouco de boa vontade, só isso.

  • EDISON PEREIRA

    08/01/2013 at 03:11

    Gostei muito do artigo. Yafo foi o primeiro local que conheci em Israel. Aprendi aqui um pouco mais sobre Yafo e seu exemplo no complexo contexto de Israel.
    Parabéns aos redatores.

    Edison Pereira
    São Paulo / Brasil

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