O Fantasma sai de cena

25/02/2013 | Política

Desde o estabelecimento do Estado de Israel, a mais importante questão no âmbito político é de como preservar um sistema democrático sem que este perca seu caráter judaico. No entanto, apesar de essencial, essa questão já não é mais diretamente debatida na esfera pública. Em Israel fala-se de assentamentos, serviço militar obrigatório para estudantes de Yeshiva, casamento civil, direitos das minorias, transporte público no shabat, etc. Todas essas questões são centrais no atual debate público israelense; no entanto, todas elas poderiam ser reduzidas a uma única pergunta: qual é a minha visão quanto ao caráter judaico e democrático do Estado de Israel? O ponto é que as questões supracitadas passam, essencialmente, pelo conflito entre democracia e judaísmo.

Tomemos como exemplo o caso dos assentamentos judaicos; em todas as discussões sobre o tema ouvimos, invariavelmente, argumentos baseados no “caráter judaico do país”, ou no “direito dos árabes que vivem nos territórios à cidadania israelense”, nos “colonos judeus e a grande Israel” e na “ocupação anti-democrática realizada pelo Estado”. A que debate nos referimos quando falamos sobre “cidadania”? E sobre o “caráter judaico”? Não seria uma debate sobre quais os limites da democracia e do judaísmo impostos pelo Estado? Certamente! Para debater sobre os assentamentos temos que desenvolver, mesmo que sem muita elaboração, um pensamento sobre o caráter fundamental do Estado de Israel. Temos que pesar argumentos favoráveis a uma solução mais democrática e outros que enfatizam a solução judaica.

A questão do direito das minorias não é muito diferente; de fato, nos acostumamos a ouvir sobre “o direito de voto e serviços públicos oferecidos igualitariamente”, “o problema demográfico”, “a preservação das liberdades religiosas”, etc. Quando defendo o direito das minorias levo em consideração minha identidade judaica? E os valores democráticos que possuo? Qual dessas “duas identidades” predomina nas minhas ponderações?

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De uma forma ou de outra, o conflito entre democracia e judaísmo se faz presente. Obviamente, estamos a discutir sobre as questões que se apresentam; no entanto, o debate ad hoc que se estabelece é, na realidade, muito mais profundo – o debate é sobre o caráter do Estado. Dessa forma, se queremos manifestar nossas opiniões sobre os problemas da sociedade israelense devemos antes responder a pergunta: qual é a minha visão quanto ao caráter judaico e democrático do Estado de Israel? Essa é, na minha opinião, a pergunta a ser respondida pelo cidadão israelense que visa o estabelecimento de uma posição coerente de seu Estado em relação as mais variadas questões. No entanto, para que a resposta seja dada, a pergunta tem que ser colocada – o debate público israelense tem de estar centrado no embate entre democracia e judaísmo. Note que não afirmo que uma resposta clara e contundente a essa pergunta solucionaria todos os problemas de Israel; acredito, no entanto, que ela evitaria a imensa capacidade israelense de transformar toda questão em um dilema insolucionável. Além disso, traria parâmetros mais transparentes para o processo de tomada de decisões. Definitivamente, não há como vencer a guerra sem vencer batalhas; mas para vencer batalhas, temos que pensar em como vencer a guerra.

Confesso não achar relevante a pergunta sobre qual deveríamos escolher, democracia ou judaísmo? Não a considero relevante por não acreditar que as duas sejam absolutamente excludentes; além disso, ambas representam, em diferentes medidas, os valores da sociedade israelense. Temos, portanto, que encontrar uma forma adequada para coexistência dessas duas fontes de valores.   Para isso, temos que nos perguntar como manter o equilíbrio e a estabilidade de um regime que é baseado na fusão entre judaísmo e democracia? Temos três possíveis soluções:

(1) Negligenciar a questão e seguir buscando soluções pontuais para os problemas que se apresentam. Essa tem sido a posição adotada por Israel. Ela se baseia na idéia de que em determinadas situações o caráter judaico deve predominar enquanto, em outras, o caráter democrático deve ditar as regras (jurisprudência). Dessa forma, admite-se que os valores judaicos e democráticos tem pesos iguais nas decisões e julgamentos. Como pode-se perceber, essa estratégia não tem sido eficiente na resolução dos problemas que Israel tem enfrentado; como dito anteriormente, sem uma posição clara quanto ao embate entre judaísmo e democracia, cada situação tende a se tornar uma dilema insolucionável.

(2) Colocar o caráter democrático antes do judaico.

(3) Colocar o caráter judaico antes do democrático.

Deixarei para um próximo texto as possíveis implicações das posições (2) e (3). Meu intuito era analisar o debate que se estabelece por trás das questões centrais discutidas em Israel. A idéia central desse texto é desconstruir o discurso sócio-político predominante e apresentar a raiz do seu desenvolvimento; dessa forma, torno clara a necessidade de colocar o embate entre democracia e judaísmo no centro do debate público. Afinal, ele já é o foco; nós apenas o tiramos de cena. Aprendamos a lição: não adianta querer tirar o fantasma de cena – ele estará sempre lá, caminhando entre nós, sussurrando nos nossos ouvidos. Cabe a população israelense perder o medo que tem de seus fantasmas e começar a enfrentá-los. Colocar a questão já é um bom começo.

Para finalizar, alguns dados relevantes: segundo uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Israelense para Democracia, 41.9% da população judaica em Israel considera o caráter democrático do Estado tão importante quanto o judaico, 34.3% julga o caráter judaico como mais importante e 21.8% é mais fiel a definição democrática do Estado.

Comentários    ( 18 )

18 Responses to “O Fantasma sai de cena”

  • Raul Gottlieb

    04/03/2013 at 21:21

    Bruno,

    Eu realmente não devo ter entendido nada do que você escreveu. No máximo muito pouco. Eu penso que um país que mantém chaguim judaicos não é necessariamente judaico, assim como não é o feriado de Natal que torna o Brasil ou os USA países cristãos.

    Yair, a tua leitura do passado é fundamentalista, pois ignora o contexto do momento e impõe que ele seja igual ao de hoje. A meu ver o entendimento do mundo passa por entender os contextos históricos.

    Mas é claro que eu posso estar completamente errado. Mesmo assim não me queiram mal.

    Abraço, Raul

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