O Fantasma sai de cena

25/02/2013 | Política

Desde o estabelecimento do Estado de Israel, a mais importante questão no âmbito político é de como preservar um sistema democrático sem que este perca seu caráter judaico. No entanto, apesar de essencial, essa questão já não é mais diretamente debatida na esfera pública. Em Israel fala-se de assentamentos, serviço militar obrigatório para estudantes de Yeshiva, casamento civil, direitos das minorias, transporte público no shabat, etc. Todas essas questões são centrais no atual debate público israelense; no entanto, todas elas poderiam ser reduzidas a uma única pergunta: qual é a minha visão quanto ao caráter judaico e democrático do Estado de Israel? O ponto é que as questões supracitadas passam, essencialmente, pelo conflito entre democracia e judaísmo.

Tomemos como exemplo o caso dos assentamentos judaicos; em todas as discussões sobre o tema ouvimos, invariavelmente, argumentos baseados no “caráter judaico do país”, ou no “direito dos árabes que vivem nos territórios à cidadania israelense”, nos “colonos judeus e a grande Israel” e na “ocupação anti-democrática realizada pelo Estado”. A que debate nos referimos quando falamos sobre “cidadania”? E sobre o “caráter judaico”? Não seria uma debate sobre quais os limites da democracia e do judaísmo impostos pelo Estado? Certamente! Para debater sobre os assentamentos temos que desenvolver, mesmo que sem muita elaboração, um pensamento sobre o caráter fundamental do Estado de Israel. Temos que pesar argumentos favoráveis a uma solução mais democrática e outros que enfatizam a solução judaica.

A questão do direito das minorias não é muito diferente; de fato, nos acostumamos a ouvir sobre “o direito de voto e serviços públicos oferecidos igualitariamente”, “o problema demográfico”, “a preservação das liberdades religiosas”, etc. Quando defendo o direito das minorias levo em consideração minha identidade judaica? E os valores democráticos que possuo? Qual dessas “duas identidades” predomina nas minhas ponderações?

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De uma forma ou de outra, o conflito entre democracia e judaísmo se faz presente. Obviamente, estamos a discutir sobre as questões que se apresentam; no entanto, o debate ad hoc que se estabelece é, na realidade, muito mais profundo – o debate é sobre o caráter do Estado. Dessa forma, se queremos manifestar nossas opiniões sobre os problemas da sociedade israelense devemos antes responder a pergunta: qual é a minha visão quanto ao caráter judaico e democrático do Estado de Israel? Essa é, na minha opinião, a pergunta a ser respondida pelo cidadão israelense que visa o estabelecimento de uma posição coerente de seu Estado em relação as mais variadas questões. No entanto, para que a resposta seja dada, a pergunta tem que ser colocada – o debate público israelense tem de estar centrado no embate entre democracia e judaísmo. Note que não afirmo que uma resposta clara e contundente a essa pergunta solucionaria todos os problemas de Israel; acredito, no entanto, que ela evitaria a imensa capacidade israelense de transformar toda questão em um dilema insolucionável. Além disso, traria parâmetros mais transparentes para o processo de tomada de decisões. Definitivamente, não há como vencer a guerra sem vencer batalhas; mas para vencer batalhas, temos que pensar em como vencer a guerra.

Confesso não achar relevante a pergunta sobre qual deveríamos escolher, democracia ou judaísmo? Não a considero relevante por não acreditar que as duas sejam absolutamente excludentes; além disso, ambas representam, em diferentes medidas, os valores da sociedade israelense. Temos, portanto, que encontrar uma forma adequada para coexistência dessas duas fontes de valores.   Para isso, temos que nos perguntar como manter o equilíbrio e a estabilidade de um regime que é baseado na fusão entre judaísmo e democracia? Temos três possíveis soluções:

(1) Negligenciar a questão e seguir buscando soluções pontuais para os problemas que se apresentam. Essa tem sido a posição adotada por Israel. Ela se baseia na idéia de que em determinadas situações o caráter judaico deve predominar enquanto, em outras, o caráter democrático deve ditar as regras (jurisprudência). Dessa forma, admite-se que os valores judaicos e democráticos tem pesos iguais nas decisões e julgamentos. Como pode-se perceber, essa estratégia não tem sido eficiente na resolução dos problemas que Israel tem enfrentado; como dito anteriormente, sem uma posição clara quanto ao embate entre judaísmo e democracia, cada situação tende a se tornar uma dilema insolucionável.

(2) Colocar o caráter democrático antes do judaico.

(3) Colocar o caráter judaico antes do democrático.

Deixarei para um próximo texto as possíveis implicações das posições (2) e (3). Meu intuito era analisar o debate que se estabelece por trás das questões centrais discutidas em Israel. A idéia central desse texto é desconstruir o discurso sócio-político predominante e apresentar a raiz do seu desenvolvimento; dessa forma, torno clara a necessidade de colocar o embate entre democracia e judaísmo no centro do debate público. Afinal, ele já é o foco; nós apenas o tiramos de cena. Aprendamos a lição: não adianta querer tirar o fantasma de cena – ele estará sempre lá, caminhando entre nós, sussurrando nos nossos ouvidos. Cabe a população israelense perder o medo que tem de seus fantasmas e começar a enfrentá-los. Colocar a questão já é um bom começo.

Para finalizar, alguns dados relevantes: segundo uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Israelense para Democracia, 41.9% da população judaica em Israel considera o caráter democrático do Estado tão importante quanto o judaico, 34.3% julga o caráter judaico como mais importante e 21.8% é mais fiel a definição democrática do Estado.

Comentários    ( 18 )

18 comentários para “O Fantasma sai de cena”

  • Raul Gottlieb

    26/02/2013 at 14:50

    Caro Bruno,

    Creio que você concorda com o fato de que a discussão que você propõe só existe depois de termos uma definição razoável sobre o que é judaísmo e o que é democracia.

    Como saber se são incompatíveis se não temos esta definição? O que é judaísmo e quais são os valores judaicos que contrariam os valores democráticos?

    É impossível seguir com este tema sem uma definição clara sobre isto. Fico no aguardo.

    Abraço, Raul

    • Bruno Lima

      26/02/2013 at 20:45

      Oi Raul,

      Obrigado pelo comentário.
      Concordo com você em relação a necessidade de definirmos democracia e judaísmo. Discordo que tenhamos que chegar a essa definição antes de iniciar o debate. O debate, em si, passa por essa discussão — Qual é o melhor tipo de democracia? Qual é a concepção de judaísmo mais adequada? Como conciliar os dois?
      Essa é uma discussão fundamental; na minha opinião, é exatamente sob essa discussão que o debate público israelense deve estar centrado.
      No entanto, essa é parte teórica do debate. As implicações práticas dessas concepções não devem ser analisadas separadamente. Na realidade, são os procedimentos políticos que determinarão a estabilidade da fusão judaísmo-democracia. Como poderíamos definir democracia sem pensar como ela seria operacionalizada? Como poderíamos definir judaísmo sem pensar na sua realização prática? Como definir ambos sem pensar em como conciliá-los concretamente?
      Dessa forma, indicaria, sim, o início do debate sem uma definição prévia dos termos.
      As definições devem ser estabelecidas pensando na coexistência de judaísmo e democracia – não na coexistência conceitual, mas prática. Não haveria nenhuma utilidade pública uma definição teórica sem que esta tenha praticabilidade empírica.
      Em geral, parte da negligência governamental quanto ao assunto é resultado de visões de judaísmo e democracia que se constroem separadamente. Uma coisa é pensar em um Estado que se defina judaico E democrático simultaneamente; outra é pensar em um Estado judaico-democrático. O meu desejo é ver um estado judaico-democrático, mas, para isso, temos que pensar, concomitantemente, nas implicações teóricas e práticas das definições que obteremos de cada um dos termos.
      Para deixar claro o ponto, penso em judaísmo e democracia como duas fontes de valores distintas (ou ideologias, se você preferir). Para consolidar uma associação entre ambos, temos que construir uma terceira ideologia (como sionismo socialista, democracia liberal, social democracia, etc.)
      Tenho muito a falar sobre o tema. Prometo expandir a discussão no próximo texto.
      Um grande abraço,
      Bruno.

  • Raul Gottlieb

    26/02/2013 at 21:16

    Caro Bruno,

    Identificar as contradições e as afinidades de dois conceitos que não estão definidos pode ser impossível, visto que não se conhecem os conceitos, apenas os rótulos.

    Mas também pode ser muito simples, justamente por causa disso – como se conhecem apenas os rótulos, basta definir que “judaísmo” é “democracia” ou vice-versa e vamos diretamente para a parte prática, onde vai valer tudo, visto que não há definição alguma.

    Não consigo entender como você vai conduzir o debate sem definir o que se está debatendo. Fico aguardando, cada vez mais curioso.

    Abraço, Raul

    • Bruno Lima

      27/02/2013 at 16:59

      Raul,

      Acho que não fui claro. A definição de judaísmo e democracia é parte do debate que deve se desenvolver. Imagina se eu (e somente eu) defino judaísmo através da sua concepção halachica; defino (eu, e somente eu), a seguir, democracia, como uma série de procedimentos que preservem certas liberdades. Você, então, me diz que esse judaísmo não se aplica a definição que estabeleci para democracia. Pior! Você critica a minha concepção de judaísmo em si. Nesse momento começamos um debate — um debate para chegarmos a um acordo quanto a definição de judaísmo e sua possível associação com uma estrutura democrática de governo. Do que serviu eu ter apresentado uma definição previa de judaísmo sem levar em consideração o que você (e outros) pensavam sobre o tema? Talvez para iniciar o debate devemos apresentar diferentes visões de judaísmo — nesse sentido, apresentar uma definicão prévia teria alguma utilidade. No entanto, como disse anteriormente, acredito que judaísmo e democracia somente coexistiriam dentro de uma nova concepção dos dois. Dessa forma, qualquer imposição conceitual seria nociva ao debate. Qual é o intuito de uma definição minha se esta tem que, na realidade, emergir de um debate publico que vise a conciliação entre democracia e judaísmo? Por que esperar que EU defina judaísmo se NÓS viveremos sob essa concepção? Não haveria nenhuma utilidade publica apresentar uma definição previa dos termos se é exatamente esse o objetivo do debate publico que proponho. Temos que, juntos, pensar numa definição [prática e teórica] de judaísmo e democracia de forma a concretizarmos um sistema que esteja fundamentado na fusão dos dois.

      Ha um debate conceitual — qual a melhor definição de judaísmo? E de democracia? E dos dois juntos? Da mesma forma — se queremos discutir o liberalismo e não temos uma definição clara do termo, o que fazemos? Definimos JUNTOS (dentro do debate) o que liberalismo significa para dar base comum a nossa discussão. Correto? É isso que proponho. Se, no entanto, entendo liberalismo como X e você como Y, não teremos como desenvolver uma discussão frutífera. Mas, se chegamos a um acordo quanto a definição (Z, por exemplo), poderemos, com mais facilidade, estabelecer um diálogo. Por isso, não entendo porque devo apresentar uma definição prévia dos dois, se o que busco é obter um acordo social que reconheça as definições que vou dar. Não tem sentido, na minha opinião, impor uma concepção de judaísmo e democracia — isso é o que acontece hoje e o que mantém essas duas ideologias distantes uma da outra.

      Esqueça todas as definições que temos de judaísmo e democracia. Coloquemos em pauta uma discussão sobre o que o povo entende por judaísmo e democracia. A seguir, busquemos uma forma de conciliação entre ambos.Temos que pensar em um novo sistema que una os dois. E, realmente, será um novo sistema político, com novas concepções de judaísmo e democracia. Concordo que seria complexo, mas não faltam exemplos de sistemas políticos que associaram idéias, em princípio antagônicas – social democracia é o melhor exemplo.

      Para que esse projeto seja colocado em prática começaria por perguntar como você entende judaísmo e democracia? Acho que a maioria não me daria perspectivas teóricas fechadas dos dois, mas idéias superficiais do que cada um representa. Mais uma vez, uma definição prévia não se faz necessária.

      Grande abraço, Bruno.

    • Bruno Lima

      27/02/2013 at 17:21

      A idéia que proponho é baseada num exercício filosófico proposto por John Rawls. Diante da dificuldade para encontrar uma definição ultimativa para o estado de natureza humana que serviria como base para um pacto social (Rousseau, Hobbes e Locke), Rawls propõe o seguinte modelo: nos coloquemos todos atrás de um véu da ignorância; atrás do véu não somos capazes de saber qual é o nosso status social, grupo étnico, classe econômica, etc. Diante de total ignorância, pensemos em uma estrutura social que eu aceitaria viver sem saber como será a minha vida (se serei rico ou pobre, judeu ou árabe, homem ou mulher). Rawls acreditava que a ignorância das nossas condições nos permitiria chegar a uma ordem social razoável — razoavelmente compactuada por todos.

      O mesmo tento fazer aqui: nos coloquemos atrás do véu da ignorância e esqueçamos que tipo de judeu eu sou e quais os direitos democráticos que usufruo. Diante de total ignorância, como eu defniria judaísmo e democracia? Sob que valores e visões judaíco-democráticos aceitaria viver sem saber qual será o meu status social, meu nível de religiosidade, e o quanto usufruo dos direitos democráticos? As definicões de judaísmo e democracia que proponho devem emergir desse “debate”.

      Essa é a base teórica do meu pequeno projeto.
      Espero não ter complicado mais do que parece! 🙂
      Grande abraço.

  • Marcelo Treistman

    27/02/2013 at 18:26

    Bruno, acho que a idéia do projeto ficou clara.

    Ainda não entendo exatamente onde chegaremos nesta discussão e creio que os questionamentos do Raul são relevantes.

    você deseja fundar um conceito através do “Nós” – ou seja da fusão das muitas definições destes conceitos, da chegada a um consenso. Não entendo como o indivíduo que conceitua democracia e judaismo como “X”, poderá chegar a um acordo com o cara que conceitua democracia e judaismo como “Y”. Será muito difícil chegar a “z” juntos pois o conceito basilar de um não é o mesmo de outro.

    Minhas respostas superficiais são:

    Judaísmo – É a resultante da elaboração cultural do Povo Judeu ao longo de sua história.

    Democracia – Sistema que garante o respeito a minorias, igualdade perante a lei, liberdade individuais, eleições livres e a possibilidade de divergência.

  • Raul Gottlieb

    28/02/2013 at 21:19

    Caro Bruno,

    As definições de judaísmo e de democracia podem ser debatidas sim, mas como iremos debatê-las se todos ficarem aguardando a contribuição do vizinho?

    Os debates de ideias não têm, normalmente, o objetivo de alcançar acordos ou consensos, mas de fazer cada um conhecer as ideias dos outros e, através delas, confrontar as suas e, eventualmente, enriquecendo-as e modificando-as. Por isto acho importante você colocar o teu ponto de vista. Sem ele não há ponto de partida para o debate.

    O Marcelo oferece duas definições que eu considero serem um bom ponto de partida. E me proponho a dar uma contribuição a partir da posição do Marcelo: “judaísmo é a resultante da elaboração intelectual do povo judeu ao longo de sua história”.

    Gosto muito desta definição e dela decorre que o judaísmo é diferente a cada dia, pois a cada dia o povo judeu evolui (não no sentido de aprimorar, mas no sentido de modificar) sua elaboração intelectual.

    Enquanto Yehuda Halevi gastou muitas páginas (num tempo onde o papel era caro e os livros copiados manualmente!) de sua maior obra “Os Kuzari” para defender a Torá como um tratado científico e concluir que a terra é plana, nenhum livro judaico publicado nos últimos séculos faz a mesma afirmação.

    Ou seja, o judaísmo do século 11 é diferente do judaísmo do século 21. Ao perceber isto, deduz-se que o judaísmo de amanhã será diferente do judaísmo de hoje.

    Então, caberá a nós – povo judeu – decidir qual o judaísmo que queremos a nossa época. Ele pode perfeitamente incorporar os valores da democracia, conforme a definição do Marcelo (que acho boa, porém incompleta), até porque a distância de um judaísmo democrático para o dos Profetas Bíblicos é bem pequena.

    É importante reconhecer também que não existe apenas um judaísmo, posto que não existe consenso nas criações intelectuais. E que estamos dispostos – por definição – a incluir todas as correntes intelectuais judaicas debaixo do mesmo guarda chuva.

    Alguns itens básicos estão no centro da definição do que é judaico. Nenhum deles tem a ver com o ritual ou o cumprimento de obrigações religiosas. Estes itens estão relacionados com o monoteísmo x idolatria (e monolatria), ação social x ritual, o que os americanos chamam de “peoplehood” (um neologismo interessante para expressar o sentimento de pertinência a um povo) e outros, que não consigo esgotar neste momento.

    Mas fora estes parâmetros, o judaísmo se abre num leque enorme, que é hoje em dia majoritariamente aderente aos princípios democráticos.

    Então eu respondo à tua indagação dizendo: claro que o Estado de Israel pode ser democrático e judaico ao mesmo tempo. Basta entender que judaísmo é a elaboração intelectual do povo judeu e que a maior parte do povo judeu quer viver sob uma democracia. Simples assim.

    Um abraço, Raul

  • Yair Mau

    01/03/2013 at 20:13

    Gostei da proposta de diálogo. Na minha opinião não é possível chegar a um balanço razoável entre democracia e judaismo, se a pessoa preza muito um dos dois valores. Eu por exemplo prezo muito a democracia, e não estaria disposto e encontrar o “outro lado” no meio do caminho, para mim seria inaceitável. Acho que é possível ter uma democracia plena, com leves toques de caráter judaico, mas isso provavelmente não contentaria alguém do outro lado do espectro.

    Claro que pode-se argumentar (como de fato foi feito), de que a visão dos profetas de Israel condiz com o “judaismo democrático”, o que quer que isso signifique. Eu não gosto disso. Não gosto de buscar valores modernos nas fontes, sejam elas o Tanach ou Aristóteles. A nossa visão moderna de democracia é radicalmente diferente de tudo o que se pensava no mundo antigo. Chamar uma democracia iluminada de judaismo segundo os profetas não faz o trabalho necessário, aqueles que querem um forte caráter judaico estao falando de teocracia, não de “paz e amor” dos profetas. Eu confesso ter simplificado e distorcido os pontos de vista, não precisam corrigir.

    Concordo com os outros comentários, que dizem que o autor deve expressar sua opinião e propor algo, além de promover a discussão.

    Por fim, já que o “véu de ignorância” foi citado, proponho o seguinte exercício.
    Toda vez que um país decide favorecer os cristãos (por exemplo), ou limitar o acesso de judeus a certos cargos, ou incluir Jesus em um texto público, etc, os judeus de todo o mundo (inclusive de Israel) se levantam e protestam o absurdo da decisão. Se o caráter judaico de Israel for minimamente significativo, Israel fará aos não judeus — e principalmente a proprios judeus de correntes variadas — os mesmos absurdos que tanto nos chocam. O “véu de ignorância” acaba por me construir um sistema fortemente democrático, talvez com um ou outro aspecto judaico marginal.

  • Raul Gottlieb

    02/03/2013 at 12:05

    Caro Yair,

    Não reconhecer raízes antigas nos valores modernos equivale a dizer que o homem moderno tem ligação apenas biológica com o homem antigo?

    Equivale também desqualificar as noções de pertinência de escolas de pensamento e de conduta “antigas”, posto estas que se modificam o tempo todo?

    “Aqueles que querem um forte caráter judaico estão falando de teocracia”, diz você, afirmando a seguir que é uma simplificação que não deve ser tomada ao pé da letra. Mesmo assim, pergunto: que importância tem para a definição do meu judaísmo a existência de um grupo que defende um judaísmo teocrático? Por qual razão preciso aceitar seus postulados, se os considero inadequados e não fundamentados?

    Fazendo um paralelo (imperfeito como todos): a existência de criacionistas (mais de 40% dos norte-americanos segundo Dawkins) desqualifica, desvaloriza ou coloca em cheque o pensamento e as atitudes dos que promovem e confiam na ciência?

    Abraço, Raul

  • Yair Mau

    03/03/2013 at 11:34

    Caro Raul,

    por eu dar muito mais valor à democracia que ao caráter judaico, quando vejo alguém falar da “visão dos profetas” como algo judaico que é harmonioso com a democracia, logo penso que a pessoa está fazendo concessões àqueles que dão muita importância ao caráter judaico. Assim sou eu. Citações dos profetas são lidas por minha cabeça como: “Vocês querem caráter judaico? Então tomá lá, os profetas do judaismo falaram A, B e C.”.

    Acho totalmente desnecessário cavar nas fontes citações dos profetas que estejam em harmonia com a democracia.
    a) contento-me com Jefferson, Montesquieu, Paine, etc. Eles são de fato os pais da democracia moderna, que em nada se parece com outros sistemas anteriores.
    b) quem encontra frases bonitas dos profetas, certamente deixou de lado uma montanha de outras frases que justificariam outras ideologias menos dóceis, como genocídio, escravatura, misoginia, etc. Por que escolher uma frase e não outra? Isaías, Amos e compania seriam neandertais em termos morais mesmo se comparados aos torcedores do Betar Yerushalaim. Eles estão assim distantes dos nossos valores modernos.

    Pra resumir. eu não acredito em quem fala de judaísmo “paz e amor dos profetas” como base para o caráter judaico do Estado. De outro lado, eu certamente acredito em quem diz que quer um estado guiado pela halachá.

    • Marcelo Treistman

      03/03/2013 at 13:41

      Yair, eu juro que não consigo compreender a sua posição.

      Você afirma que não podemos fazer escolhas. Escolher “apenas” a parte “boa” das palavras dos profetas seria na sua opinião um erro conceitual de quem ousa equiparar o judaismo a demcracia moderna…

      Entretanto, sem perceber, você realiza uma escolha ao classificar os profetas como neandertais pelas suas posições acerca da escravatura, genocídio, etc… ignorando as “partes boas”, frases, ordenamentos, ensinamentos, que estão inseridos em todas as democracias ocidentais..

      Se você é contra a eleição de uma parte em detrimento da outra, porque você opta apenas em ressaltar as “partes ruins”?

      Uma estado democrático não requer de forma alguma que o Estado se considere Ateu. É possível que a democracia esteja vinculada a uma corrente religiosa – desde que – optemos pelas “partes boas” de nossa herança cultural que possa coexistir em um Estado Democrático.

      Por que você insiste em legitimar o discurso dos charedim (anti-democrático, segregacionaista) como o “correto discurso judaico”? Como se eles estivem ditando o que é o verdadeiro judaísmo, ignorando as correntes judaiscas que promovem o diálogo como mundo moderno.

      Não podemos permitir que a liberdade de [ter ou não] religião ponha em causa a liberdade religiosa. Temos que descobrir a via média. E essa é dizer não, se alguém quiser forçar outro a beijar a cruz ou a Estrela de David.

      Mas, se eu vivesse no Brasil e houvesse uma cruz na parede do tribunal, diria aos meus filhos que eles vivem num país cristão. Que somos acolhidos, não somos discriminados. A mesma coisa vale para Israel. Podemos construir um Estado Judeu Democrático que acolha os demais pensamentos religiosos.

      A Dinamarca tem uma cruz na bandeira, a Inglaterra e a Grécia igual. Vamos pedir que em prol da construção de um Estado Democrático de fato, tirem a cruz das bandeiras? É isso que você deseja? Na Grã-Bretanha, o chefe de Estado é o chefe da Igreja, há uma Igreja de Estado, o hino nacional é uma oração. Quem ousará dizer que o país não é democrático?

      O fato de um país eleger uma identidade religiosa e uma prática de não-discriminação é um sinal de uma sociedade pluralista e tolerante. Ou seja – vejo como algo positivo a adoção do judaísmo como característica de valorização dos “bons” valores que os nossos profetas lá atrás indicaram.

      E SIM – podemos e devemos escolher quais deles poderão estar em pé de igualdade com os valores democráticos. Podemos e devemos escolher quais dos ensinamentos são aceitáveis no mundo moderno. A nossa tradição nos ensina que as “eleições” sempre fizeram parte do nosso povo. Nunca exisitu um único judaísmo. Algumas corretnes sobreviveram e outras menos aptas desapareceram da face da terra..

      Acredito na autodeterminação como direito fundamental. Acredito no direito de os britânicos serem protestantes, de os franceses serem laicos e dos Israelenses optarem por um Estado Judeu.

      Como podemos imaginar a identidade brasileira sem o catolicismo? No preâmbulo da Constituição do Brasil diz: “promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil”.

      O seu heroi Jefferson, pai da constituição americana possuía uma visão beeeem interessante sobre a escravidão de negros… Afinal de contas, porque você opta apenas pela parte “boa” de Jefferson, ignorando os pensamentos “ruins”?

      Abracos Grandes!

    • Bruno Lima

      03/03/2013 at 17:55

      Bom, vamos por partes.

      1) Todos concordam que definições mais claras para judaísmo e democracia tornam-se necessárias para que as políticas governamentais israelenses ganhem consistência.
      2) Julgando pelo que foi dito, para mim está claro que antes de qualquer definição prévia de judaísmo e democracia temos que decidir qual das ideologias se adaptará a outra. Como digo no texto, temos três opções: (1) negligenciar a relaçação entre os dois e mantê-los em nível de igualdade – posição que me parece muito problemática; (2) dar preferência aos valores democráticos; ou (3) dar preferência aos valores judaícos. Notem que não entendo “dar preferência” como “excluir um ou outro”, mas como uma hierarquia de valores que permite que elas coexistam “verticalmente” (em detrimento da primeira opção que nos oferece uma relação horizontal ente democracia e judaísmo).
      Sob essa ótica, analiso aqui a posição de cada um:

      O Raul argumenta: “Então, caberá a nós – povo judeu – decidir qual o judaísmo que queremos a nossa época. Ele pode perfeitamente incorporar os valores da democracia, conforme a definição do Marcelo (que acho boa, porém incompleta), até porque a distância de um judaísmo democrático para o dos Profetas Bíblicos é bem pequena.” Entendo, portanto, que há uma preferência pelo caráter judaico do estado; este tem que “incorporar os valores da democracia”, fazendo, assim, com que a democracia se adapte ao judaísmo e não o contrário.

      O Yair argumenta: “O “véu de ignorância” acaba por me construir um sistema fortemente democrático, talvez com um ou outro aspecto judaico marginal.” Entendo por essa afirmação que o Yair vê a democracia como o pilar de sustentação do sistema de governo israelense; o judaísmo, se adaptado a ordem democrática, ocupará apenas uma posição marginal.

      O Marcelo argumenta: “Judaísmo – É a resultante da elaboração cultural do Povo Judeu ao longo de sua história.Democracia – Sistema que garante o respeito a minorias, igualdade perante a lei, liberdade individuais, eleições livres e a possibilidade de divergência.” Não pude perceber por essas definições qual é a ordem de preferência que se estabelece entre judaísmo e democracia. Talvez o Marcelo sustente uma posição horizontal, onde as duas ideologias coexistem em nível de igualdade.

      Eu, particularmente, tendo a concordar com o Yair; acho que o judaísmo tem que se adaptar aos ideais democráticos e não o contrário. A questão é: qual o tipo de judaísmo que tem que se ajustar a qual sistema democrático? Como tomo a democracia como referência começarei pela sua definição. Seguindo o modelo de Robert Dahl, o princípio básico da democracia é igualdade política. Os procedimentos necessários para manutenção desse princípio são: (1) participação efetiva – antes da adoção de qualquer política, todos têm que possuir direitos e oportunidades iguais de serem escutados; (2) igualdade de voto – todos devem possuir a oportunidade e o direito de votar e serem votados e todos os votos devem ter pesos iguais; (3) transparência política – todo cidadão tem o direito de saber, na medida do possível (que não afete a segurança nacional – essa é uma outra importante discussão), as políticas alternativas a serem decididas e suas possíveis implicações; (4) controle da agenda – o interesse público deve ser sempre colocado antes do interesse pessoal; para isso, todos devem ter liberdade de expressão e associação que os permitam fiscalizar as políticas públicas; e (5) inclusão dos adultos – todo adulto deve adquirir cidadania completa, sem diferença de raça, credo, religião, etnia ou local de residência (dentro dos limites soberanos do país).
      Segundo essa definição, a democracia pode ser reduzida a três pilares básicos que sustentam a igualdade políca: inclusão, participação e governo da lei.

      A definição de judaísmo que segue consegue, ao meu ver, adaptar-se bem ao conceito de democracia descrito acima: judaísmo são os chaguim. Não vou entrar agora numa explicação de porque considero os chaguim como a única realização judaica sustentável em um regime democrático (tradição, cultura, valores e pensamentos judaicos são todos parte da explicação). Mas, tendo a crer, que essa idéia não entraria em contradição com as condições essenciais para democracia; ao menos, não em contradições fundamentais.

      Acabei adiantando muito do que escreveria no meu próximo texto; de qualquer forma, ainda vou elaborar essa idéia para deixá-la mais clara.
      Muito boa a discussão.

      Grande abraço.

  • Raul Gottlieb

    04/03/2013 at 00:53

    Bruno,

    Qual dos pilares democráticos o judaísmo contraria? Mesmo na tua curiosa definição que “judaísmo são os chaguim” (definição que transforma o judaísmo numa coleção de rituais – numa coreografia), é perfeitamente possível que haja democracia com chaguim em pé de igualdade, não é mesmo?Todos os países elegem os seu feriados e alguns são religiosos.

    O Brasil é menos democrático porque o Natal é feriado aqui? Ou os USA e tantos tantos tantos outros? Porque Natal é feriado nos USA, tendo em vista a estrita divisão Religião-Estado que existe por lá?

    O Cristianismo americano não é religioso porque não participa do Estado?

    Acho que na raiz disto tudo está a tua tentativa de comparar maçãs com borboletas (muitos diriam laranjas, mas laranja também é fruta, então escolhi um animal para enfatizar a distância).

    Democracia é sistema político, Judaísmo é religião (ou cultura numa definição mais ampla, que me agrada). Uma coisa não tem nada a ver com a outra, apesar do Yair ter certeza que toda a religião digna do nome deseja impor um regime teocrático.

    Abraço,
    Raul

    • Bruno Lima

      04/03/2013 at 02:08

      Raul,

      Acho que você não me entendeu. Você me pergunta: “Mesmo na tua curiosa definição que “judaísmo são os chaguim” (definição que transforma o judaísmo numa coleção de rituais – numa coreografia), é perfeitamente possível que haja democracia com chaguim em pé de igualdade, não é mesmo?” Eu te respondo: Sim; como ressalto no texto, essa é a única definição sustentável de judaísmo para um sistema político democrático. Por essa definição, judaísmo e democracia não estarão “em pé de igualdade”, mas poderão coexistir sem contradições fundamentais. Portanto, não entendi a sua pergunta [retórica] e, obviamente, as comparações que seguem.
      “O Brasil é menos democrático porque o Natal é feriado aqui?” Não, pois define ou manifesta oficialmente a religião através dos “chaguim”. Exemplo que Israel deveria seguir para não se tornar “menos democrático” por possuir um judaísmo religioso/halachico.

      “Porque Natal é feriado nos USA, tendo em vista a estrita divisão Religião-Estado que existe por lá?” Os Estados Unidos não adotam nenhuma religião constitucionalmente. Ainda assim, preservam os valores cristãos através dos “chaguim”; por isso, o natal é feriado nos EUA — é a definição que encontraram para cristianismo (olha que curioso: a mesma que proponho para Israel) e aquela que melhor se adapta aos ideais democráticos. Seguindo essa lógica, a minha proposta é que Israel defina, constitucionalmente (diferente dos americanos), o seu judaísmo como chaguim.

      Portanto, não entendo a sua dúvida. Os chaguim, na minha opinião, preservam o judaísmo sem que este afete o caráter democrático do estado. Se você vê o judaísmo como “algo mais”, coloque-o em prática na sua vida pessoal. Publicamente, o judaísmo se resumirá a essa série de rituais simbólicos.
      Além disso, se você define rituais como uma mera “coreografia”, te sugiro uma breve análise antropológica do que esses rituais podem vir a representar pro imaginário popular. Clifford Geertz, “The intepretation of cultures”, é um bom começo.

      Você ainda argumenta que “Democracia é sistema político, Judaísmo é religião (ou cultura numa definição mais ampla, que me agrada). Uma coisa não tem nada a ver com a outra (…)”. Como, então, você entende a união dos dois? Você parece ver os dois como absolutamente excludentes, o que não me parecia ser a sua visão. Além disso, se judaísmo como cultura te agrada, estaríamos, eu e você, falando de um mesmo judaísmo? Aquele definido por “coreografias”?

      Você ainda afirma: “acho que na raiz disto tudo está a tua tentativa de comparar maçãs com borboletas (muitos diriam laranjas, mas laranja também é fruta, então escolhi um animal para enfatizar a distância).” Novamente, você parece não entender o que proponho. Primeiro, não estou “comparando” nada, mas analisando a relação de duas ideologias — afinal, pode ser que borboletas e maçãs sejam incomparáveis, mas talvez sejam correlativos. Segundo, admitindo que democracia é maçã e judaísmo borboletas, como você enxerga o “ecossistema israelense”? Seriam maçã e borboletas partes de dois ecossistemas distintos?

      Não entendo como você enxerga a relação entre democracia e judaísmo. De qualquer forma, espero que nessa relação, maçãs e borboletas possam coexistir em harmonia.

      Abraço.

  • Yair Mau

    04/03/2013 at 08:09

    Marcelo:
    “Você afirma que não podemos fazer escolhas.”
    Claro que se pode fazer escolhas, mas deve-se estar consciente que outros podem falar dos “profetas” quando querem dizer coisas diferentes.
    “Se você é contra a eleição de uma parte em detrimento da outra, porque você opta apenas em ressaltar as “partes ruins”?”
    Eu ressalto as partes ruins porque não dá pra falar dos profetas como se eles fossem em nossos dias uma fonte de luz e inspiração moral. Talvez em seu momento. Hoje não.
    Vejamos Isaías 14:21: “Preparai a matança para os seus filhos por causa da maldade de seus pais, para que não se levantem, e nem possuam a terra, e encham a face do mundo de cidades. ”
    Quem sabe um pouco de Isaías 13:15-16?
    “Todo o que for achado será transpassado; e todo o que se unir a ele cairá à espada. E suas crianças serão despedaçadas perante os seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e as suas mulheres violadas.” Sào muitos os versículos assim, se quiser eu te mando uma lista.
    A minha escolha dessas frases não é mais ou menos legítima que a do lobo e da ovelha. A última coisa que eu quero para mim é morar em um país onde os profetas bíblicos são a inspiração moral.
    “Por que você insiste em legitimar o discurso dos charedim (anti-democrático, segregacionaista) como o “correto discurso judaico”?”
    Não é o correto discurso judaico, nada disso. O que disse é que eu acredito que eles acreditam no que dizem, só isso. Diga-se de passagem, eles estão errados (digo eu).

    Concordo com o Bruno sobre as festas judaicas poderem ser compatíveis com uma plena democracia. Podem, mas nem sempre o são. Proibir vender chametz em pessach é problemático para uma democracia, assim como paralizar o país no shabat (que não deixa de ser uma festa).
    Outro aspecto do judaísmo que é harmonioso com a democracia é a lingua hebraica. A defesa e promoção da língua, bem como o estudo da literatura e cultura hebraica, para mim é judaismo também.

    O Raul tem razão quando diz que “o Yair tem certeza que toda a religião digna do nome deseja impor um regime teocrático.” Eu acho isso mesmo. Caso contrário, qual seria toda a ideia de se saber a vontade de Deus e não querer fazer nada com isso? Atenção: não estou dizendo que apenas quem quer teocracia é o legítimo representante da religião, mas sim que invariavelmente essas figuras estão presentes. Eles não querem me encontrar no meio do caminho desse exercício do balanço democracia-judaismo, e tudo bem, porque eu também não quero encontrá-los.

    • Marcelo Treistman

      05/03/2013 at 00:49

      “Portanto, afirmo que os negros, sejam originários de uma raça distinta, ou ao menos diferenciada pelo tempo e circunstâncias externas, e são inferiores aos brancos em toda sua investidura, tanto no corpo como na mente.” Thomas Jefferson, Notas do Estado da Virginia, Pergunta XIV, Subtítulo 3.

      Caro Yair,

      Talvez eu esteja enganado. Mas há algumas mensagens acima eu poderia jurar que você considerava o Thomas Jefferson como o baluarte da democracia. Se Isaias, profeta judeu, deveria ser relegado ao esquecimento público, pelas palavras de violência e injustiça, Jefferson seria uma de nossas fontes de luz e inspiração moral. Repito as suas (Yair) palavras: “Jefferson é de fato um dos pais da democracia moderna”.

      Curioso, não?

      Por que você decide excluir a “parte ruim” do que Jefferson disse ou escreveu, ressaltando a sua importância para a construção da democracia moderna, e no caso de Isaías, escolhe ressaltar o que ele falou ou escreveu sobre a violação de mulheres, ignorando o que foi dito sobre o “lobo e a ovelha”?

      Desconsiderar a influência da tradição judaico-cristã na construção de um estado democrático moderno, tendo como herói Thomas Jefferson não lhe parece uma contradição? Desconsiderar a existência de postulados profundamente democráticos nas fontes judaicas não lhe parece um exagero?

      Note que o processo de escolha que você realiza com o TJ é saudável. Tenho certeza que você discorda do que ele escreveu “naquela circunstância”, mas isso nada lhe impede de considerá-lo um dos seus “heróis da democracia”. Eu digo que a mesma coisa pode e deve ser feita com os profetas.

      Qual o problema de entender que o Isaías deu uma mancada lá no 14:21…? O seu medo de que as “partes ruins” dos profetas sejam utilizadas na retórica dos fundamentalistas judeus, deve ter o mesmo peso que que o seu medo da utilização de algumas idéias de Jefferson por grupos como o Ku Klux Klan. Você tem razão: “…invariavelmente essas figuras estão presentes…”… Por que deixar Isaías para os os charedim?

      Acredito que o nosso papel é escolher e ressaltar as influências positivas do que foi escrito e dito no passando. Dentro de seu contexto histórico, tanto Jeffersson, como os profetas, estiveram a frente do seu tempo e nos transformaram no que somos hoje.

      De resto acho que todos neste forum tem uma opinião bem parecida de como o Estado de Israel deveria gerir a sua característica judaica. Concordo com a questão constitucional dos chaguim. Ainda falta discutir sobre o ensino religioso?
      Quem é judeu? Shabat? Kashrut?

      Até logo!

  • Ilan

    04/03/2013 at 21:02

    Democracia e judaísmo são inconciliáveis porque tratam de domínios diferentes, assim como a música e a arquitetura.

    Democracia é a regra de convivência coletiva, enquanto judaísmo (qualquer religião) pode servir de inspiração mas não deve ser ferramenta de governo.

    Quando se trata de coletividades, a democracia é ativa, o judaísmo é passivo (dentro de casa cada um faz como achar melhor).

    O judaísmo deve enriquecer-se da experiência democrática e vice-versa, mas cada um no seu quadrado. O Estado é democrático, não pode ser judaico – judias são algumas pessoas que lá vivem. Isso significa que sempre que houver conflito entre democracia e judaísmo (como o direito de um ortodoxo apedrejar meu carro quando dirijo no shabat), a primeira deve prevalecer sempre.

    Vocês escrevem muito! E Raul fala que está entupido de trabalho…

    Abraços

  • Raul Gottlieb

    04/03/2013 at 21:21

    Bruno,

    Eu realmente não devo ter entendido nada do que você escreveu. No máximo muito pouco. Eu penso que um país que mantém chaguim judaicos não é necessariamente judaico, assim como não é o feriado de Natal que torna o Brasil ou os USA países cristãos.

    Yair, a tua leitura do passado é fundamentalista, pois ignora o contexto do momento e impõe que ele seja igual ao de hoje. A meu ver o entendimento do mundo passa por entender os contextos históricos.

    Mas é claro que eu posso estar completamente errado. Mesmo assim não me queiram mal.

    Abraço, Raul

Você é humano? *