O fim de Amona

08/02/2017 | Conflito, Política.

Amona chegou ao fim.

Amona (עמונה) era um assentamento judeu construído na região central na Cisjordânia. Localizado em uma colina com vista para Ofra, foi fundado em 1995 em terras privadas palestinas. Em 2012, sua população era contabilizada em 200 habitantes. O nome “Amona” é uma homenagem ao trecho bíblico do Livro de Josué, que menciona a aldeia Kfar Ha’Ammoni (literalmente, Aldeia do Amonita).

Em 2006, a Suprema Corte de Israel decidira que o assentamento era ilegal, mas desde 2013, o governo israelense atuou para “driblar” tal determinação e evitar o despejo. Em maio de 2014, uma investigação policial revelou que o assentamento foi—de fato—fundado em terras palestinas privadas, e os documentos usados ​​pelos colonos para reivindicar a propriedade foram falsificados 

Em dezembro de 2014, o Tribunal Superior israelense ordenou que Estado evacuasse o local e demolisse completamente o assentamento dentro de dois anos.

Finalmente, em fevereiro deste ano, todos os colonos e manifestantes foram evacuados do local, e a sociedade israelense, em uma reprise do que observara em Gaza anos atrás, assistiu a novos confrontos dramáticos. Dez mil policiais israelenses, a polícia de fronteira de Israel e as forças de defesa israelenses foram conduzidos até Amona para realizar a demolição e assegurar que a decisão judicial fosse cumprida. Eles enfrentaram um número estimado de 4 mil manifestantes israelenses que ativamente protestavam dentro e em volta das casas, escolas e sinagogas.

 

Os manifestantes eram, em sua maioria, jovens de todo o país mas, especialmente, dos assentamentos e escolas vizinhas, alguns dos quais haviam construído fortificações dentro das casas e nos telhados em um esforço para bloquear, atrasar ou protestar contra a operação em andamento. Mais de 300 pessoas ficaram feridas, incluindo cerca de 80 agentes de segurança. Depois de várias horas, as casas foram integralmente demolidas.

Há diversos aspectos em toda esta história que poderiam ser alvo de uma análise mais  profunda—sociológicos, legais, morais, políticos… Eu, que sempre me opus declaradamente a construção dos assentamos e torcia em silêncio para a remoção de Amona, sempre busquei compreender a razão daqueles que defendem a manutenção de tais construções e a preservação deste assentamento em particular.

O embasamento religioso-nacionalista que defende os assentamentos sempre me causou enorme repugnância. E, justamente com este sentimento em mãos, fui em busca de autores/escritores que atuam dentro da esfera religiosa-ortodoxa do pensamento judaico—naturalmente vinculado em sua vasta maioria aos partidos de direita—que possuíssem uma opinião diferente de seus pares no que concerne a construção e manutenção de assentamentos. Deparei-me com o artigo abaixo que desejo compartilhar com os leitores.

Seu autor é  Donniel Hartman. Donniel é um rabino e educador judeu ortodoxo. Atua hoje como presidente do Instituto Shalom Hartman em Jerusalém. Ele escreveu livros e ensaios sobre o judaísmo e a modernidade entre os quais destaco “Putting God Second: How to Save Religion From Itself”.

A tragédia de Amona
artigo original, clique aqui

Trata-se de um dia triste. Triste porque nossos companheiros judeus estão vivendo um trauma. Os habitantes de Amona foram forçados a deixar as suas casas e embarcar em um futuro incerto, e milhares de soldados e policiais israelenses foram submetidos a ataques – físicos, emocionais e verbais.

É um dia trágico, porque este trauma está sendo manipulado para silenciar problemas reais: Onde as fronteiras de Israel deveriam idealmente ser estabelecidas? E mais importante, que tipo de povo desejamos ser?

A maioria de nós aqui em Israel, seja à esquerda, à direita ou ao centro, reconhece que o compromisso territorial e a formação de um Estado palestino não estão sobre a mesa no presente ou em um futuro imediato. Ainda que desejemos a “paz agora”, não teremos “paz agora”. Isso não deve, contudo, desviar-nos de pensar e determinar as fronteiras ideais de Israel—se existir e quando existir a paz amanhã.

Eu sei que hoje Amona não é o obstáculo para a paz. Pode, no entanto, ser um obstáculo para uma paz que um dia, possivelmente, abençoará a nossa terra.

Desde a Segunda Intifada e a crença de que estendemos as nossas mãos em direção a paz, e “eles” disseram: “Não”, e com o fracasso de nossa retirada unilateral de Gaza para mudar o status quo da hostilidade palestina contra Israel, deixamos de pensar no amanhã, sobre as fronteiras em que podemos viver. Porque não podemos ter “paz agora”, paramos de planejar a paz amanhã. Oramos por isso, mas não nos planejamos para isso.

Se Amona ficar, e com ele os outros assentamentos fora dos blocos de assentamento, certamente não teremos a paz pela qual estamos orando. Não teremos um Estado de Israel vivendo em paz e segurança, mas sim um Israel envolvido em um conflito permanente, alienado dos palestinos e dos nossos vizinhos árabes, e um pária na comunidade internacional.

Eu não quero a paz agora, pois é irreal e ingênuo, e no Oriente Médio quando se é irreal e ingênuo, você morre. No entanto, eu quero a paz amanhã. Eu quero a definição de fronteiras para que—se a possibilidade emergir—permitiremos a tal paz. Quero uma discussão vibrante e um debate respeitoso dentro de Israel sobre nossas aspirações para o amanhã. Estou triste quando o trauma de hoje dificulta nossas esperanças, nossa visão e nossa capacidade de planejar a realização dessas esperanças e a implementação dessa visão.

Hoje é um dia triste, pois o trauma de Amona está sendo usado como desculpa para não falar sobre quem queremos ser. Ninguém pode apreciar ou comemorar a dor de remover pessoas de suas casas, é fácil vilipendiar aqueles que suportam tais ações. É fácil esquecer que o trauma de Amona não é o resultado da decisão do Supremo Tribunal de fazer cumprir o direito internacional, mas sim é o resultado da decisão de permitir a sua construção em primeiro lugar.

A estratégia do movimento dos colonos e da direita política é garantir que o dia de hoje tenha sido tão traumático e difícil quanto possível, empurrando as linhas de protesto e desobediência, concordando com algumas medidas (limitadas) de violência que esperamos que cessem antes do real derramamento de sangue. Quanto mais horrível for a evacuação, mais fácil será argumentar que não devemos ser um povo que arranca judeus de suas casas.

Eu não quero remover as pessoas de suas casas, mas eu também não quero ser um povo que sanciona o roubo da terra dos outros. Não quero ser um povo que proteja os seus direitos inalienáveis à vida e à segurança e esquece que os direitos inalienáveis não são herança apenas dos judeus.

Como judeu que acredita que toda a humanidade é criada à imagem de Deus, e como sionista que acredita no direito do meu povo à soberania, à dignidade e à segurança, não posso deixar de esperar da mesma forma por um dia em que estes serão a herança do povo palestino.

Hoje não é esse dia. Hoje é um dia de tristeza e trauma. Que não seja um dia em que declaramos que cidades como Amona “não cairão novamente” [NT: referência à expressão “Massada não cairá nunca mais”—último foco de resistência contra os romanos e que foi destruída em 73 E.C., três anos após Jerusalém]—, mas um dia em que declaramos que cidades como Amona não serão construídas novamente.

Abraçamos a visão da realidade pela qual oramos e nos comprometemos com as políticas que permitirão que esta visão se torne realidade. Vamos lamentar coletivamente a dor e a tristeza que está em abundância hoje, e ao mesmo tempo lamentar a cegueira que ela inspira. Não está em nossas mãos prevenir a dor de hoje. Está em nossas mãos recuperar nossa visão.

——

Concluo:

Hartman é muito claro ao destrinchar a problemática dos assentamentos em geral e sobre Amona de forma específica. É uma voz isolada dentro do movimento judaico ortodoxo que vale a pena ser ouvida.

Por trás deste desastre político que lamenta a destruição de um assentamento ilegal, existe toda uma ideologia que corrói o nosso tecido social e alimenta discursos que se aproximam daquela linha tênue entre a liberdade de expressão e o vômito antidemocrático.

Pouco a pouco, vamos nos acostumando com a ideia de que não é possível viver uma vida sem hostilidades.  Envolvidos pela violência e barbárie que nos cerca em nosso dia a dia, é muito difícil nos lembrar daqueles intermináveis conflitos na história mundial, que um dia, finalmente, terminaram.

O fim da política de assentamentos não é o fim do conflito entre israelenses e palestinos. O fim de Amona hoje não representa a aproximação da sociedade árabe a um mundo democrático e de defesa de liberdades individuais. A destruição de casas ilegais de judeus, não é a pedra fundamental das necessárias mudanças estruturais da sociedade árabe, que todavia convive com leis que enfatizam a vontade de Deus acima da soberania do povo e encoraja a ampliação de suas fronteiras e o extermínio de infiéis.

O fim de Amona é apenas um sopro de oxigênio em um mundo asfixiante. Não é uma tragédia, tampouco motivo de comemoração. Amona é aquilo que nos permite continuar a imaginar que amanhã pode ser diferente. Uma sociedade que se esquece de planejar-se para a paz, estará condenada a justificar as atrocidades que comete para que os seus cidadãos (sobre)vivam em uma contínua guerra.

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