O Futuro da Conversão em Israel – Construir ou Dividir?

ruth
Não me instes a que te abandone e deixe de seguir-te. Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus“. Ruth 1:16 – (quadro de William Blake, 1795).

O processo de conversão, pelo qual não-judeus tornam-se judeus, sempre ocupou um lugar de destaque nas discussões comunitárias durante os milênios de nossa tradição.

Do ponto de vista teórico, a conversão é um fenômeno fascinante, porque ela define um dos aspectos mais polêmicos do judaísmo – que é o eterno embate sobre o que significa “ser judeu”.

Caso “ser judeu” seja uma característica exclusivamente hereditária, a conversão não pode existir. Se a conversão existe, então judaísmo é um traço cultural que pode ser adquirido ou abandonado independente da ascendência. Até hoje não conseguimos desenhar com precisão e delicadeza por onde passa a linha entre estes dois pólos.

Atualmente, possuímos um novo ingrediente nesta discussão: qual seria a política adequada acerca da conversão no atual Estado Judeu? A resposta de certa forma, influencia diretamente a percepção da diáspora sobre a questão.

Como resultado da Lei do Retorno e da consequente imigração de cerca de um milhão de olim da antiga União Soviética, existem atualmente mais de 300 mil imigrantes que são reconhecidos como judeus pela Estado e, consequentemente, tornaram-se cidadãos de Israel, mas não são judeus de acordo com a halachá (lei religiosa judaica). Este problema não é uma particularidade russa – ele atinge todos os judeus que possuem o direito de imigrar para o nosso país. A presente situação tem ramificações complexas – tanto para os imigrantes como indivíduos como para a sociedade israelense de forma geral.

A nível individual, direitos humanos básicos fundamentais dos imigrantes não-judeus são frequentemente violados em Israel. O casamento é o exemplo mais claro: a competência absoluta nesta questão concedida aos tribunais ortodoxos impede estes imigrantes de casar-se com judeus dentro de Israel – isto significa que eles não poderão se casar (dentro do país) com 80% da população. Outros exemplos, são a impossibilidade de serem enterrados em cemitérios judaicos (ainda que tenham falecido em combates pela defesa do Estado Judaico), não podem adotar crianças judias e possuem restrições para inscrever seus filhos em escolas ortodoxas.O panorama geral não é dos mais belos: existe um grupo considerável de pessoas que vivem em Israel e são sociologicamente judeus – a sua língua materna é o hebraico, recebem educação em escolas israelenses, prestam o serviço militar obrigatório – mas em contrapartida não são reconhecidos como judeus pelas autoridades religiosas oficiais do país.

A solução óbvia nos encaminha para um grande dilema: Afinal de contas, porque estes olim não se convertem ao judaísmo?

A lei israelense determina que a autoridade competente para a estipulação de regras sobre conversão é o Rabino Chefe de Israel. Desde a criação do Estado, até a presente data, o processo de conversão somente é reconhecido se conduzido por tribunais religiosos específicos indicados por esta autoridade – resulta deste fato, que a conversão oficial de Israel é unicamente realizada pela corrente religiosa ortodoxa. É um processo pouco transparente, onde o tribunal está obrigado a identificar três elementos básicos: social (o indivíduo faz parte de uma comunidade ortodoxa? seus filhos estão matriculados numa escola ortodoxa?), Psicológica (Qual é a sua motivação para se converter ao judaísmo?), ecomportamental (o candidatos estaria disposto a aderir para o resto da vida a um estilo de vida em estrita observância ortodoxa?).

Na minha opinião, o problema com este processo e seus requisitos é que a grande maioria dos imigrantes, bem como grande parte da comunidade brasileira e israelense, não reconhecem a relevância em perseguir um estilo de vida condicionado a regras ortodoxas que são, em aspectos essenciais, desconectadas de valores centrais das democracias ocidentais, tais como a liberdade de expressão e a igualdade de direitos entre os sexos.

É valido ressaltar que a maior parte destas pessoas, se identificam com o Estado de Israel e , sem sombra de dúvidas, vivem uma vida judaica nas esferas social, psicológica, comportamental, nacional e sionista. Para tal pessoa, a conversão ao judaísmo (religião) não representa apenas a cristalização do seu processo de absorção na sociedade isralenese – é tambem a única forma de garantir direitos fundamentais, que por hora, lhe são negados.

Estas pessoas não querem ser, nem são, diferentes da grande maioria da população de Israel, e eu não consigo entender por que eles estão sendo obrigados a seguir condutas que a maioria dos israelenses que nasceram judeus segundo a halachá não seguem e até mesmo desprezam. Na prática, muitos imigrantes, a fim de converter-se, são obrigados a fingir ser alguém que não o são. Como resultado, o caminho para se juntar a nação judaica é frequentemente pavimentada por um jogo de faz-de-conta, com mentiras e enganos. Não é surpreendente que tão poucos optam por seguir este caminho.

Eu entendo a conversão como um processo de confirmação de uma nova identidade. A exigência atual, que obriga candidatos a conversão de comprometer-se a aderir à ortodoxia judaica, como condição de admissão para a nação – representa mais um elemento de uma luta sobre o significado do judaísmo e do lugar da ortodoxia na vida do povo judeu em Israel e na diáspora.

Espero que o debate comunitário sobre a conversão ao judaísmo siga o seu curso com sabedoria. Em Israel a situação atual é um fato político – Caso não ocorram mudanças em breve, poderemos destruir a delicada relação entre o sentimento religioso e o sentimento nacional dos cidadãos israelenses – a conversão estará sendo utilizada como um instrumento para a divisão do povo e não como um elemento para a sua construção.

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