O futuro é para os fortes

Dia primeiro de março de 2216, em Tel-Aviv, foi, por acaso, encontrado o corpo, quase intacto, de um colunista brasileiro, que havia morrido 200 anos antes. O comentarista foi reanimado e internado no hospital Litzman[ref]Yaakov Litzman foi o último ministro da Saúde de Israel. Depois de 2018 o cargo foi considerado inútil.[/ref] .

O corpo foi encontrado durante as escavações para a construção do metrô de Tel-Aviv (linha cor-de-rosa), que continuavam intermitantemente já há 200 anos. Estudos posteriores explicaram que o rapaz (já não tão rapaz assim) havia se conservado tão bem, possibilitando sua ressuscitação, porque caiu num bueiro aberto; o exato bueiro onde eram despejados resíduos industriais de uma fábrica de saladinhas prontas. Ficou mantido em um estado de suspensão por conta das impressionantes quantidades de coliformes fecais e conservantes químicos que acabaram tomando conta de seu metabolismo (importante ressaltar, embora não seja diretamente relevante para o caso, que agências espaciais do mundo todo se interessaram pelo caso e passaram a comprar hummus da dita fábrica, que ainda existe, para a hibernação de astronautas nas longas jornadas entre planetas).

Muito havia mudado no mundo e na região, e o blogueiro teve que passar por um curso relâmpago de geopolítica.

– Quem é o primeiro-ministro?

– Benjamim Netanyahu.

– Como?! Ele era primeiro-ministro quando eu… eh… morri!

– Várias pessoas na sua época já haviam reparado no fato de que Bibi não envelhecia nunca. Trata-se de uma mutação. Bibi é imortal. E se elegeu vez após vez desde 2009. E segue até hoje. E embora não tenha poder algum, como não tinha desde 2009, segue se reelegendo. Afora Putin, é o líder mais longevo da humanidade.

– Putin é ainda presidente da Rússia?

– Czar. Mas não da Rússia. A Rússia não existe mais como país. É apenas um estado da Eurússia.

– Eurússia?

– Sim. Todos os países da antiga União Soviética e toda a Europa Ocidental. Menos a Bélgica.

– O que aconteceu com a Bélgica?

– Ninguém queria a Bélgica. Depois, acabou virando depósito de lixo atômico e de rebeldes do ISIS.

– ISIS? Ainda existe o ISIS?

– Sim. Quer dizer, tecnicamente, sim. Desde que se tornaram cristãos e se uniram ao KKK durante o governo americano do Donald Trump…

E depois dessa, o psicólogo do hospital pediu para o instrutor ir mais devagar e se focar ao Oriente Médio.

– O que o senhor conhecia como Israel agora são três países diferentes. Há o reino de Judá, governado por Bennett IV, há o califado da Palestina, que está sem governo desde que foi criado em 2022, e aqui é o governo Tecno-Absolutista de Tel-Aviv, governado por computadores.

O instrutor trouxe um mapa e continuou a explicar:

– O califado inclui isso daqui. – Apontou para o que foi a Jordânia, um pedaço da antiga Síria e um bom bocado da Cisjordânia. – Eles vivem de ajuda internacional.

– Mas ainda?

– Culpa do BDS.

– E ainda existe BDS?

– Sim. É hoje um partido. O único partido marxista permitido na Eurússia pelo Czar Putin. Como nenhum dos partidários sabe nem história e nem geografia, o governo central usa o BDS para seus próprios fins. Boicota aqui e acolá, conforme os interesses. Para eles dá tudo na mesma.

– Isso daqui é o reino de Judá. A capital é a Eterna e Indivisível Jerusalém Ocidental Reconstruída (EIJOR). É uma monarquia teocrática controlada pelo sumo sacerdote da família Katz. Hoje é o Bennett IV. Filho da rainha Regev III. Vivem de rezar o dia inteiro, e de reescrever o Talmud em aramaico na língua do P, que é a língua que eles falam lá, desde que vídeos do antigo Rabino Ovadia Yossef foram canonizados. Sobrevivem da ajuda financeira de Tel-Aviv.

O instrutor apontou para um pequeno bloco ao redor de Jerusalém para mostrar onde ficava o reino. A parte oriental de Jerusalém não aparecia no mapa, e o colunista decidiu não perguntar por que. Perguntou, ao invés disso, sobre Tel-Aviv.

– Tel-Aviv é controlada por computadores. Foi uma tomada de forças violenta. Foi mais ou menos na época em que houve um plebiscito para decidir se Israel era um país judaico ou democrático. Os computadores decidiram que seres humanos são estúpidos demais para se auto-determinarem e tomaram o governo. Queriam escravizar a humanidade e tudo mais, mas entenderam rápido que as mulheres de Tel-Aviv eram melhores nisso do que eles. Então deixaram tudo como estava.

E aí apontou no mapa para mostrar:

– Aqui nesse mapa só se vê o mar. Mas esta é uma medida de segurança. 98% da área do nosso país fica sobre o mar, em ilhas artificiais. Vem daqui da orla até o Chipre. Se o reino de Judá descobre que somos muito maiores, vão pedir muito mais auxílio financeiro. Tel-Aviv vive de turismo. Temos uma réplica do Mar Morto dos tempos em que era salgado, uma cópia exata de Jerusalém antes da invasão iraniana. Tem até um parque temático, em que você pode abrir sua própria startup e falir! Tudo em realidade virtual. Temos até uma cópia exata de um bairro ortodoxo! E uns moradores que vivem ali igualzinho como se vivia nos anos a.B. (antes de Bibi), sem internet, sem celular… Deu até briga. Alguns sociólogos ficaram em dúvida que época estava sendo reproduzida ali, dizendo que a Idade Média tinha sido muito antes… Enfim, você vai adorar esse seu novo país!

Desesperado, o blogueiro só conseguiu perguntar:

– Pelo amor de Deus, me diga que nós já temos colônias em Marte!

Comentários    ( 3 )

3 comentários para “O futuro é para os fortes”

  • Raul Gottlieb

    03/03/2016 at 18:56

    Olá Gabriel,

    Belo texto. Fazer ficção, principalmente com viés humorístico, não é para qualquer um.

    Estilo literário à parte, você caminha pela presunção de que o futuro será uma continuação do presente.

    Claro que isto é uma especulação válida, mas eu penso que dificilmente as coisas vão permanecer como um prolongamento do presente nos próximos 200 anos.

    A meu ver, alguns fatores importantes e revolucionários estão quase virando a esquina para chegar à rua principal:

    – A obsolescência dos combustíveis fósseis.

    – A falência das políticas assistencialistas do Ocidente democrático com relação ao mundo islâmico. Num certo momento o Ocidente vai se dar conta que estas políticas levam ao suicídio e eu não vejo uma intenção suicida nestes países.

    – A democratização e a modernização do mundo árabe e islâmico, que teria um efeito devastador em tudo o que conhecemos até hoje no OM.

    – A transformação da ONU num núcleo de defesa da liberdade e da democracia em vez de ser a congregação espúria que dá um verniz de legitimidade multicultural ao racismo e ao totalitarismo (não apenas o islâmico, mas ele também).

    Enfim, isto também são meras especulações de minha parte, mas acho que elas mais prováveis que as tuas.

    Contudo o mais provável é que estejamos ambos redondamente enganados. Como dizia Rui Porto (um grande comentarista esportivo dos anos 70-80): “eu não gosto de fazer prognósticos antes do fim do jogo”.

    Abraço,
    Raul

    • Gabriel Paciornik

      18/07/2016 at 16:53

      Na verdade, foi só um artifício para fazer piada com o presente, e não com o futuro. Não me arrisco a fazer previsões sobre o mundo, muito menos sobre o Oriente Médio, com prazo de mais de 5 minutos.

  • Marcelo Starec

    03/03/2016 at 23:21

    Oi Gabriel,

    Belo artigo!!!…Foi muito divertido ler…Divertido e inteligente o artigo!….

    Abraço,

    Marcelo.

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