O futuro não previsto pelos códigos da bíblia

Resumo     

No início dos anos 90, três pesquisadores lançaram um artigo acadêmico que prometia revolucionar todo campo científico. Um artigo que provaria a existência de Deus.

A evidência estaria oculta por meio de um código secreto contido na bíblia. O caso não ganhou de imediato a preocupação da mídia. Após o livro “Código da Biblia” (Michael Drosnin) ser publicado em 97, centenas de pessoas se impressionaram com a real possibilidade de achar uma prova de que as escrituras judaicas são de fato divinas.

A SLE[ref]SLE – Sequência de Letras Equidistantes[/ref] foi o método para desvendar os códigos secretos. Trata-se de ajustar todo o texto em linhas equidistantes, sem espaços entre as palavras, ignorando as vírgulas e os pontos.

Tabela 1 – Exemplo de Sequência de Letras Equidistantes (SLE) com os três primeiros parágrafos deste próprio texto (arrumado de 50 em 50 letras)

Introdução    

Ao longo da história, diversas pessoas se dedicaram ao estudo e à interpretação do livro mais influente de todos os tempos. O tema não se restringia apenas a rabinos ou religiosos. Acredita-se que Isaac Newton usou parte de seu tempo em busca de padrões e códigos escondidos no texto original[ref]http://jahtruth.net/newton.htm[/ref].

No meio do século XX, o Rabino Michael ber Weissmandl fez um resumo de muitas descobertas a respeito do assunto. Entre os achados do rabino, encontra-se o famoso exemplo em que a partir da primeira letra ת (Tav ) encontrada no livro Gênesis, saltam-se 50 letras e encontra-se uma letra ו (Vav ). Saltando outras 50 letras, encontra-se a letra ר (Resh ) e por fim, saltando-se mais uma vez 50 letras, encontra-se a letra ה (Hey ), que juntas formam a palavra תורה (Torá). O mesmo exemplo se repete quando aplicado ao livro Êxodo, o segundo do pentateuco que compõe a Torá. Vejam ambos exemplos na figura abaixo.

Exemplo no livro Genesis

Bible_code_imagem

Este caso e outros estudos similares despertaram o interesse de dois acadêmicos israelenses, Elyahu Ribs e Doron Witztum. Eles resolveram investigar a questão com o auxílio de duas ferramentas desenvolvidas no século XX: computadores e programas estatísticos.

As evidências

Após anos de pesquisa, os autores escreveram um artigo[ref] http://projecteuclid.org/download/pdf_1/euclid.ss/1177010393 [/ref] publicado no respeitado jornal acadêmico Statistical Science. O artigo buscava demonstrar que o fenômeno dos Códigos da Biblia era sobrenatural e restrito aos textos sagrados do antigo testamento. Para provar sua teoria, eles usaram como amostra uma lista de rabinos conceituados ao longo da História, que continha detalhes de suas datas de nascimento e de morte.

Seguindo o critério de SLE, estas informações (os nomes dos rabinos com suas respectivas datas de nascimento e morte) apareciam muito próximas umas das outras no livro Gênesis, quando comparadas a outros textos de tamanho similar. Ou seja, o primeiro livro da Torá apresentava um resultado significativamente melhor que os demais textos. Os achados eram impressionantes. Afinal, de acordo com a tradição judaica, o antigo testamento foi escrito por Deus, séculos antes do nascimento destes rabinos.

Em suma, os autores “sugeriam” que os códigos deveriam ter sido colocados no texto por alguma “força maior”, visto que estatisticamente falando, as probabilidades de acaso eram ínfimas. O editor da Statistical Science na época, Prof. Robert Kass, definiu no momento de sua publicação que “os códigos eram um enigma a ser decifrado”[ref]http://en.wikipedia.org/wiki/Bible_code[/ref].

O impacto e suas implicações

O impacto inicial foi pequeno. O tema não atraiu a atenção do público em geral. Com exceção de um restrito número de acadêmicos e de um grupo de judeus ultraortodoxos. Este último grupo [ref]http://www.aish.com/atr/Torah_Codes_Explained.html [/ref], interessado na reaproximação de judeus seculares à religião, percebeu no “Código” uma excelente possibilidade de provar que a Torá era de fato divina.

Foi apenas após a publicação do livro “O Código da Bíblia”, de Michael Drosnin, que o assunto ganhou maiores proporções. Baseado nos estudos de Rips e Witztum, mas bastante ampliado pelo próprio autor, o livro rapidamente tornou-se um best seller, ficando por treze semanas consecutivas na lista de livros mais vendidos do New York Times e sendo traduzido para inúmeras línguas.

Michael Drosnin deu um passo adiante. Além de descrever eventos passados, ele decidiu fazer previsões. Afinal, se os códigos eram divinos, eles continham informações sobre o passado, o presente e o futuro. Então, por que não fazer previsões com base neles? Foi o que fez o autor. Ele afirma em seu livro ter previsto o assassinato do primeiro ministro israelense Itzhak Rabin [ref]http://www.thebiblecode.info/index.php?cat=6[/ref]. Ver detalhes na Tabela 2.

Tabela 2 – Itzhak Rabin aparece em uma SLE de 4227 letras no livro de M.Drosnin

O descobrimento da farsa

Tomou cinco anos para que a farsa  das pesquisas sobre os códigos fosse desmascarada. Em 1999, por meio de um artigo[ref]Solving the Bible Code Puzzle. Link: http://www.jstor.org/discover/10.2307/2676736?uid=3738240&uid=2&uid=4&sid=21103374093453[/ref] em resposta a Ribs e Witztum, publicado na mesma Statistical Science, o enigma, finalmente, foi decifrado.

Os autores do artigo original, em uma arte de pseudociência, selecionaram uma amostra que lhes favorecia, escolhendo nomes e datas (em hebraico é possivel escrever as datas de formas distintas) que lhes permitiu encontrar o resultado esperado. Este processo ocorreu ou de forma intencional (manipulação de dados) ou por desconhecimento dos métodos de pesquisa corretos.

Uma lista similar, tão boa quanto a primeira de acordo com um juiz religioso, falhou em achar diferenças nos textos[ref]Ver artigo supracitado[/ref]. No entanto, o viés amostral foi apenas um dos equívocos encontrados no artigo original. Para outros problemas, vejam as referências no final do texto.

Entretanto, ainda persistia uma questão: como refutar a previsão de Michael Drosnin? Afinal, Itzhak Rabin havia de fato sido assassinado. Simples. As previsões do autor se mostraram erradas em muitos outros casos. Ele “previu”, por exemplo, a existência de um “atentado atômico” no ano de 1996 e duas guerras mundiais, uma no ano de 2000 e outra em 2006[ref] http://www.realbiblecodes.com/false-drosnin-predictions.php[/ref]. A própria previsão sobre o assassinato de Rabin pode ser colocada em questão, devido a uma má tradução do hebraico para o inglês feita pelo autor. (Drosnin não sabe hebraico. Para mais detalhes, ver Bar Hillel e Margali,1999)[ref] Bar Hillel e Margali (1999), Madness on the Method,Link: https://www.dartmouth.edu/~chance/teaching_aids/books_articles/Maya.html[/ref].

Como muito bem colocado pelo físico dinamarquês Niels Bohr, “(Fazer) previsão é muito difícil, especialmente se é sobre o futuro”.

Hoje em dia

Este tema chamou minha atenção depois que participei, no mês passado, de um seminário de uma renomada Yeshivá . Assisti a uma aula sobre os Códigos da Bíblia sem nenhuma referência a seus críticos. Todas as evidências contra a hipótese dos códigos parecem ter sido ignoradas pelos organizadores do seminário, que seguem cegamente tentando reaproximar judeus seculares da religião. Por sinal, o objetivo do seminário era demonstrar que não existe nenhuma incompatibilidade entre a história descrita na Bíblia e as descobertas científicas.

Discordo completamente deste tipo de abordagem. Todas as vezes que religiosos tentaram me convencer em acreditar na Bíblia por meio de associações entre religião e ciência, o argumento vinha desprovido de um vasto conhecimento dos verdadeiros métodos de pesquisa científicos. Além de exagerar na retórica, na maioria das vezes, existe uma falha em compreender dois conceitos primordiais:  

I) Amostras viesadas são problemáticas. Isto quer dizer que se os dados selecionados não foram escolhidos ao acaso, eles podem estar “contando uma história” que não representa a realidade. Fazendo uma analogia, significa tirar frases de um contexto e tentar resumir e explicar todo o texto com base nelas. Por exemplo, poderia dizer que a Bíblia prega o assassinato de crianças, mulheres e recém-nascidos com base na instrução que Deus dá a Saul em relação ao povo de Amalek, no livro 1 Samuel (15:3). Uma amostra viesada poderia levar-me a escolher este trecho como representativo de todo o conteúdo.  

Amostras viesadas, no entanto, não resistem a testes subsequentes como a repetição do mesmo experimento com outros dados (tecnicamente falando: testes de robustez[ref]Testes de Robustez são testes que visam identificar se os resultados encontrados em um estudo foram obtidos apenas devido a especificação utilizada, como por exemplo, a escolha da metodologia (ou do modelo) ou a obtenção de uma amostra não representativa da população. Estes testes visam comprovar  a credibilidade dos estudos por meio de alterações na especificação original. Caso os resultados se mantenham similares sob diferentes especificações, dizemos que os resultados não são “sensíveis” a estas alterações e, consequentemente, são “robustos”.[/ref]). Isso resulta em pseudociência.

II) Um acontecimento a posteriori sempre tem probabilidade de 100% de acontecer (depois que ele já aconteceu!). Eu sei que pode parecer trivial, mas não é. Um “milagre” está previsto em qualquer tipo de distribuição de acontecimentos. Ele tem uma probabilidade muito rara de acontecer, mas depois que ele ocorre, passa a ter 100% de probabilidade. Justificar algo que já passou e dizer que ele tinha uma probabilidade ínfima a priori, não prova a divindade por meio da ciência. Apenas prova a “divindade” da ciência por meio do acaso.

Particularmente, em relação à questão ‘ciência e religião’, compartilho mais das ideias do Prof. Yeshayahu Leibowitz(Z’L), um intelectual ultraortodoxo israelense, que nos diz que a Torá não serve como um livro que explica a criação; ela não substitui um livro de física ou de química. Ou seja, é inútil buscar estes tipos de associações entre ciência e religião. Cada uma delas tem um objetivo diferente: a primeira visa entender como funciona o mundo dos homens, enquanto a segunda está focada no “trabalho” em relação a Deus. Na fé e no cumprimento dos preceitos e mandamentos (Mitzvot).

Por mais que este por si próprio seja o tema de um outro texto, traduzo apenas uma analogia interessante escrita por Leibowitz em que ele relaciona a primeira carta recebida pelos jovens israelenses chamando-os para o alistamento militar, com a forma na qual devemos nos relacionar com a Torá. Leibowitz afirma: “a carta de alistamento não tem a intenção de passar informações sobre o exército ou sobre a guerra, e sim, chamá-lo para servir a pátria”[ref]Retirada do Livro “Eu queria perguntar para você, Prof. Leibowitz”, disponível em hebraico (רציתי לשאול אותך פרופ’ ליבוביץ)[/ref].A Torá nao vem nos oferecer um guia de como funciona o mundo –  ela não se ocupa da relação entre o homem e a natureza, e sim, da relação entre o homem e sua fé em Deus.

Por fim, gostaria de dizer que este texto também contém um código secreto. A Tabela 3 evidencia o código oculto dentro dos três primeiros parágrafos, destacando as palavras que aparecem “milagrosamente” quando o texto está escrito na forma de SLE com 50 letras.

Tabela 3 – Exemplo de Sequência de Letras Equidistantes com os três primeiros parágrafos deste próprio texto – Desvendando o código: NAO ACREDITE, MANIPULAR DADOS, MERO ACASO

Milagre? Inspiração divina? Não, longe disso. Apenas um pouco de esforço para deixar o texto mais interessante. A mensagem codificada confirma tudo o que o texto já nos diz: não acredite em pseudociência e em manipulação de dados. Busque uma forma mais coerente de se relacionar com suas raízes judaicas.[ref]Gostaria de agradecer aos colegas do Conexão Israel pela correções, comentários e sugestões no texto original.[/ref]

Quer saber mais sobre o assunto? Além das referências contidas no texto, veja também:

http://www.talkreason.org/articles/Codpaper1.cfm

http://www.letusreason.org/current3.htm

http://www.realbiblecodes.com/experiments/aumann_experiment.php

Quer buscar “códigos” na Biblia ou em qualquer outro livro? Veja um divertido tutorial neste link:

http://dmitrybrant.com/fun-with-the-bible-code

 

Comentários    ( 15 )

15 Responses to “O futuro não previsto pelos códigos da bíblia”

  • Fernando

    01/01/2016 at 04:24

    É estranho que ocorram abordagens por meio de análises e comparações científicas que tenham por objetivo levar alguém a acreditar na Bíblia. No entanto, algo diferente é realizar análises e comparações científicas para apurar se a Bíblia e cientificamente exata. A segunda opção, portanto, é livre de pretensão “proselitista”.
    No entanto, quando ambas abordam um mesmo fato (a criação da terra, por exemplo) e discordam, é inescapável, só há duas opções: ou uma está certa e a outra está errada, ou há ainda ignorância acerca dos fatos (quer científicos ou bíblicos). Ex: O período que levou a criação. O registro bíblico informa que este levou 6 dias, ao passo que análises científicas apuram que a terra e o universo têm bilhões de anos, o que seria impossível se o período criativo fosse realmente de 6 dias literais. Quem está certo? Análises e anos de estudo parecem não encontrar refutação. No entanto, surge a pergunta: Os 6 dias descritos na Bíblia são realmente literais? Se faz necessária uma re-análise da questão. Ora, uma análise profunda da ciência não deve excluir a necessidade de se realizar uma análise profunda das escrituras. O mesmo pode ser verdade. Caso contrário, haveria o risco de dizer que duas coisas são diferentes por receberem denominações diferentes quando suas características físicas são idênticas.

  • Fábio

    02/01/2016 at 02:50

    Caro Fernando:

    Existe esse argumento de que os 6 dias da criação seriam simbólicos ou representariam cada um deles um conjunto de muitos séculos. Ora, isso sugere lançar a flecha e depois pintar o alvo em volta. Do mesmo modo, já ouvi explicações (por parte de religiosos) que se pretendiam científicas argumentando que os testes de carbono 14 e outros métodos de avaliação seriam imprecisos ou até falsos.

    A Bíblia como a conhecemos foi passada ao papel por volta do século V AC, mais ou menos. Antes era passada oralmente. E o texto que temos hoje evidenciam que a composição tem pelo menos duas origens (alguns estudiosos as classificam como Elohista e Jeovista). De qualquer modo, a análise cuidadosa do texto revelam características que apontam para diversas interpretações e influências.

    Ou seja, existem muitas evidências de que o texto que chegou aos nossos dias mesmo sendo fruto de séculos de tradição oral, foi sendo moldado (acredito eu, pelos sábios) a partir do primeiro milênio AC. Várias são as influências de outras culturas, como por exemplo o Código de Hamurabi.

    Um texto assim, por mais que possua um número significativo de informações históricas que puderam ser comprovadas por meio da arqueologia e da história comparada, se revela, em essência, *obra dos homens* e não criação divina.

    E de bom tom com os religiosos dizer, que é obra dos homens, acompanhado de “por inspiração divina, quem sabe”, por uma questão de respeito da fé de cada um. Assim me parece.

    Com um abraço, Fábio.

  • Fábio

    02/01/2016 at 02:53

    PS: me desculpo pela coleção de erros de concordância! Enviei sem reler…

  • alberyg

    02/03/2016 at 05:06

    amigo não acredito nesse código de Michael Drosnin mas mas tem algo No meio do século XX, o Rabino Michael ber Weissmandl fez um resumo de muitas descobertas a respeito do assunto. Entre os achados do rabino, encontra-se o famoso exemplo em que a partir da primeira letra ת (Tav ) encontrada no livro Gênesis, saltam-se 50 letras e encontra-se uma letra ו (Vav ). Saltando outras 50 letras, encontra-se a letra ר (Resh ) e por fim, saltando-se mais uma vez 50 letras, encontra-se a letra ה (Hey ), que juntas formam a palavra תורה (Torá). O mesmo exemplo se repete quando aplicado ao livro Êxodo, o segundo do pentateuco que compõe a Torá. Vejam ambos exemplos na figura abaixo.sem contar o livro de Lvitico que tem YHWH no intervalo de 7 letras