O Hebraico, o Esperanto, e o imperfeito desequilíbrio judaico entre o particular e o universal

Ao longo da minha vida me deparei diversas vezes com a auto-pergunta “o que é ser judeu?”. A resposta, quando existe, já variou muito. Hoje em dia, se me pergunto a tão decisiva questão, acho que a resposta seria “o imperfeito desequilíbrio entre o particular e o universal”.

É assim que eu vejo muitos judeus que já conheci pelo mundo. Há um senso de compromisso muito grande com o local em que se está, de diversas formas possíveis – na cultura, ciência, economia, leis, política. E há também uma ligação mítica, quase incompreendida pelos próprios judeus, com uma terra distante sobre a qual pouco se sabe, com uma tradição milenar e uma história um tanto embaçadas pelas brumas do tempo, com símbolos exóticos que se confundem e que se misturam.

O coletivo e a continuidade judaica

Quando eu chamo esse equilíbrio de desequilíbrio, e quando digo que ele é imperfeito, acho que o que quero dizer é que ele é muito difícil de se estabelecer a nível individual. Por isso, quando falamos dos judeus, muitas vezes falamos do “povo judeu”. Porque os judeus são um povo. E ser um povo é ser um coletivo. E ser um coletivo não pressupõe incorporar todas as características do coletivo no âmbito individual. Por vezes, temos representantes que individualmente representam aspectos quase opostos desse desequilíbrio. E, justamente por haver uma origem comum dessa reação, uma identificação compartilhada, esse coletivo se compõe. Eu poderia dizer que o coletivo é uma característica essencial para o judaísmo. Talvez devesse inclusive adicionar o coletivo à minha resposta. O judaísmo precisa ser um coletivo, porque ninguém é capaz sozinho de representar tudo a que o judaísmo se propõe. O coletivo judaico é parte da minha resposta para o que é ser judeu.

Parte da característica de ser um grupo também quer dizer que nem sempre a continuidade vai ser algo linear. Grandes expoentes da história judaica tiveram problemas de continuidade. Apenas um dos filhos de Abraão e de Isaac permaneceram no judaísmo. Dois filhos do primeiro sacerdote, Aarão, desobedeceram as ordens do serviço sacerdotal e pagaram com a vida. Os filhos do grande rei da paz, Salomão, entraram em conflito, o que acabou dividindo o reino judaico em dois. Theodor Herzl teve sua continuidade interrompida de formas trágicas. O único neto de Chaim Weizmann, o primeiro presidente de Israel, vive hoje na Inglaterra. Muitas vezes, as pessoas ficam tão preocupadas em como manter a continuidade geracional do judaísmo em seu seio familiar, que se esquecem de dar sua própria contribuição ao povo judeu. E, justamente por sermos um coletivo, uma pessoa pode dar uma grande contribuição para o judaísmo, e os próximos a carregarem a tocha serão pessoas que vão se incorporar ao grupo ao longo do caminho no futuro, não necessariamente seus descendentes biológicos. Até porque, as diversas formas de manifestar o judaísmo mudam tanto, o mundo muda tanto, que se ater firmemente a formas antigas pode incorrer no perigo de se cair no ostracismo.

O Esperanto e o Hebraico

A segunda metade do século XIX foi muito difícil para a maioria dos judeus. Na Europa, os nacionalismos estavam se estabelecendo. As nações européias em formação estavam completamente focadas no particular. Duas grandes guerras mundiais foram em parte consequência disso. O diferente era um inimigo. Os judeus, ainda que extremamente comprometidos, dedicados, e integrados aos países onde foram aceitos, eram vistos com muita desconfiança por manterem uma característica que mais tarde a mesma Europa adotaria com fervor. A união, o universalismo, a globalização, estavam presentes de alguma forma na sociedade judaica. Havia uma identificação quase inexplicável entre os judeus de diversos lugares distintos, relacionada a uma ligação mítica a um lugar e a uma história que já não era compartilhada há quase 2 mil anos. Discriminação, perseguições e massacres eram comuns contra os judeus por toda a Europa. Uma solução era necessária e urgente. Então, exatamente na mesma época, dois judeus simbolicamente criaram duas soluções: Ludwik Lejzer Zamenhof e Eliezer Ben Yehuda. O primeiro criou um idioma universal chamado Esperanto. O segundo fez renascer um idioma quase morto por 2 mil anos chamado Hebraico.

Zamenhof nasceu em Bialystok, na Polônia (na época era Império Russo), e Ben Yehuda nasceu em Luzhki, Lituânia (na época também Império Russo). Zamenhof observava a Europa ensandecida nos seus particularismos, e acreditava que a criação de um idioma que fosse falado por todos os povos ajudaria a criar união, comunicação, e paz. Ele acreditou que o universalismo das nações iria resolver não apenas a questão judaica, mas também as guerras no mundo. Ben Yehuda, vendo todos os povos estabelecendo seus países, falando seus idiomas, pensou que os judeus também precisavam viver em sua tão sonhada terra, Israel, e falar seu próprio idioma – o idioma falado quando os judeus habitavam Israel 2 mil anos antes, o idioma com o qual a história judaica foi escrita, o idioma através do qual o mundo foi criado. Em 1887, Zamenhof publicou o primeiro livro sobre o Esperanto. Em 1881, Ben Yehuda imigrou para Israel, onde alguns anos mais tarde publicou o primeiro dicionário do Hebraico moderno, e onde também criou seu filho falando apenas Hebraico, sem contato com outros idiomas. Foi a primeira criança cuja língua-mãe foi o hebraico em quase 2 mil anos.

O particular e o universal na história judaica

O gene dessa dicotomia nada contraditória judaica pode ser encontrado nos mitos fundadores do povo judeu. Abraão, o primeiro patriarca, recebe de Deus uma promessa de que seria o “pai de uma multidão de nações” (Gênesis 17:4). Mas, quando seu filho Isaac chega à idade de se casar, Abraão manda buscar para ele uma mulher de sua família, de sua cidade, bem longe de Canaã (Gênesis 24:3). Aquele que é convocado a ser o pai de milhões não quer que sua descendência seja gerada fora de sua própria família. Moisés começa sua vida como príncipe do maior império do mundo daquela época, e termina conduzindo um pequeno povo de escravos por uma jornada pelo deserto de volta à sua pequena terra de origem. O universal e o particular se encontram sem se chocar ao longo de toda a narrativa bíblica.

O sionismo trouxe progressos e revoluções lindas para o judaísmo. O idioma hebraico, a auto-determinação, o trabalho na terra, o encontro de diversas culturas, entre dezenas de outras belezas. Mas o sionismo se apresenta também como um caminho delicado para o judaísmo. Enquanto se propõe a ser uma opção humilde e livre, o sionismo vai enriquecer o colorido mosaico da cultura e da história judaica. Mas muitos sionistas ao longo dos últimos cem anos adotam uma postura muito arrogante em relação aos judeus que vivem em outros países, tentando se apresentar como o único caminho legítimo para a continuidade e para o florescimento do judaísmo. Nesse momento, o sionismo peca ao tentar anular o aspecto universal do tênue desequilíbrio entre o particular e o universal, não apenas empobrecendo o judaísmo, mas descaracterizando-o. Mesmo que não se apresentando de forma escancarada, o gene dessa postura se manifesta em Israel de diversas formas.

Existe um grau de mania de perseguição deveras exacerbado entre setores da sociedade israelense. Parece que o tempo todo o mundo inteiro está tramando algo contra Israel e os israelenses. O noticiário na televisão em Israel é algo inacreditável. Quando não tem algum ataque ou guerra, ou se o parlamento não está prestes a se desfazer (coisas que acontecem com certa frequência por aqui), o noticiário começa a mostrar como uma obra ao lado do jardim de infância está fazendo barulho para as crianças numa cidade pequena em Israel. Como se a Venezuela não estivesse passando por uma profunda crise política, ou como se a Catalunha não estivesse em pé de guerra com o governo espanhol por sua independência. O pouco de notícias internacionais que aparecem no jornal são indiretamente ligadas à Israel – alguma declaração do Trump que possa provocar uma guerra, ou algo sobre a Rússia financiando grupos radicais no Oriente Médio. A única exceção é a previsão do tempo. Eles passam 10 segundos falando de Israel (“está quente, e vai continuar muito quente. Não vai chover”), e depois falam “mas vejam só essa tempestade de neve que aconteceu na Islândia, um mês antes do comum. Pegou as pessoas desprevenidas, coitadas”. Eu nunca vi em nenhum outro lugar a previsão do tempo falando sobre outros países (a não ser, é claro, em relação a cataclismas extremos). Mas enfim, a previsão do tempo tem o potencial para salvar a alma judaica do Estado de Israel. Além disso, estamos enterrados numa lama de um conflito que já dura 50 anos. Desde os primeiros meses de conflito, alguns grupos já declararam qual seria a solução. Até hoje, meio século depois, as sociedades israelense e palestina no fundo sabem muito bem qual é a solução para o conflito. O mundo inteiro sabe. Mas ninguém toma a corajosa atitude necessária para solucioná-lo. E enquanto isso, vamos desperdiçando uma energia gigante nesse ciclo de ódio e de guerras. Grandes expoentes da literatura, da filosofia e do pensamento contemporâneo israelenses estão enterrados até o pescoço nesse conflito mais do que desgastado.

Desequilíbrios e equilíbrios no nível individual

Stephan Zweig, ao chegar a Petrópolis fugindo do nazismo, escreveu um livro de louvor ao Brasil intitulado “Brasil – o País do Futuro”. Sim, foi um judeu imigrante que cunhou essa famosa expressão, que constitui o cerne da identidade nacional brasileira. Jornalista e escritor europeu, Zweig era amigo pessoal de Freud e de Herzl. No final da vida, decidiu doar seu acervo de cartas à biblioteca da Universidade Hebraica de Jerusalém. O mesmo se deu com Albert Einstein, o renomado cientista que lecionou nas maiores universidades do mundo, doou sua obra e direitos de imagem à incipiente Universidade Hebraica de Jerusalém. Zygmunt Baumann (pensador judeu que teve influência notável no pensamento social mundial contemporâneo, falecido no início de 2017), depois de conseguir sair da Europa pós-segunda guerra mundial, chegou a morar um curto período em Israel, quando lecionou na Universidade de Tel Aviv. Mas sentindo um chamado interno a se dedicar mais ao universal, foi lecionar na Inglaterra. Amós Oz, mergulhado até a alma no conflito israelense-palestino, escreveu o belíssimo livro “Como Curar um Fanático”, que é citado no mundo todo como referência às mais diversas questões de convivência, comportamento, conflitos que vão desde a esfera familiar até coisas muito maiores. Ele também mergulhou fundo na alma humana no livro “Caixa Preta”, pelo qual ainda vai ganhar o Nobel de Literatura.

Sem dúvida, muitos outros israelenses conseguem dar o salto e dialogar com o universal. Hoje em dia, isso se dá principalmente nas áreas de ciência e tecnologia. Mas eu gostaria de trazer justamente dois exemplos de israelenses que dialogaram com o particular e com o mundo nas áreas do pensamento contemporâneo e cultura. Essa postura é a representação de um sionismo essencialmente judaico.

Israel: do particular ao universal

Yuval Harari é israelense, historiador, e trabalha como professor na Universidade Hebraica de Jerusalém (leia mais sobre ele neste excelente artigo de Yair Mau). Escreveu dois livros nos quais aborda o conceito de macro-história – Sapiens e Homo Deus. Seus livros se tornaram líderes de venda em todo o mundo, e seus conceitos são trabalhados em universidades através de grandes intelectuais. Mas Yuval Harari também compreende muito bem a sociedade israelense, e faz questão de atuar e de influenciá-la. Em 2014, publicou este artigo (excelente tradução de Yair Mau), em que discute as anomalias com que o Estado de Israel convive hoje no mundo. Em 2015, publicou um excelente artigo de jornal em que discute como combater o terrorismo, defendendo que operações militares são a forma menos efetiva. Em 2016 publicou no jornal um polêmico artigo no qual fala sobre a influência (ou falta dela) dos judeus nos rumos da história mundial. Em 2017, publicou um artigo brilhante no jornal em que discute os rumos da educação israelense, com a crescente influência da religião, e as estratégias para lidar com isso, propondo ações afirmativas e a valorização dos valores seculares.

Arik Einstein, a eterna voz de Israel, lançou em 1968 uma música chamada Prag (Praga). Lançada pouco tempo depois da Guerra dos Seis Dias, quando a euforia sionista estava no seu auge, essa ousada música foi uma homenagem à Primavera de Praga, que teve fim com a invasão soviética à Tchecoslováquia. Enquanto até então as músicas enalteciam Eretz Israel, o que se enfatizou com a vitória surpreendente na Guerra dos Seis Dias, Shalom Chanoch escreveu e compôs, e Arik Einstein cantou uma “música que eles sonharam sobre Praga”. Foram muito criticados por pessoas que não entendiam o que ele tinha a ver com o que estava acontecendo em Praga. “Te faltam coisas nossas para enaltecer e cantar?”, lhe perguntaram. Mas o sionismo essencialmente judaico foi salvo pela parcela da sociedade israelense que demonstrou que estava aberta às questões do mundo. A vitória militar representou uma vitória física – Israel estava aqui para ficar. O sucesso da música Prag representou uma vitória cultural – Israel era um país normal, com seus êxitos e problemas internos, e que queria estar sintonizado e integrado ao que acontecia no mundo. Confiram a música e a letra no Shirim em Português.

 

Português Transliteração עברית
Na cidade presa no sonho
Uma sobra pesada e estranha irrompeu
E a lua em vermelho
Mergulhou sua majestade em fuligemQuem não fechou seus olhos
Doeu por sua amarga noite
Silêncio de rendição sem batalha
Manteve-se as armas guardadas até a morte

Como sobre Praga o amanhecer não irrompeu
Pela terceira vez acabou sua força
Como silenciou-se a voz na praça lotada no dia de festa
Uma canção que sonhei sobre Praga
Lá o amanhecer ainda irromperá

Como uma fotografia velha amarelada
Ficou a cidade fantasma
Aos pés de ursos surdos
E em seu pescoço a faca de abate

Ninguém sai pela porta
Cheiro salgado de gueto
De um canto a outro
Pela cidade é levado pelo vento

Como sobre Praga o amanhecer não irrompeu…

Apenas o silêncio restou
Um homem jovem escapa de repente
Então lhe subiu uma luz estranha
Ali na praça que morreu

Uma canção que sonhei sobre Praga
Lá o amanhecer ainda irromperá
Lá o amanhecer ainda irromperá

El hair shvuyat hachalom
Tzel kaved vazar hegiach
Veyareach beadom
Et malchuto taval bepiachMi shelo atzam et einav
Et leilo hamar kaav hu
Dumiat knia bli krav
Ish et nishko natzar ad mavetEich al Prag shachar lo baka
Bashlishit kala kocho
Eich nadam kol kikar homa bechag
Shir shechalamti al Prag
Sham hashachar od ivkaKmo tatzlum yashan matzhiv
Ir shel refaim mutelet
Leraglei dubim chershim
Uvetzavara hamaacheletEt pitcho ish lo yotze
Reach getaot maluach
Mikatze vead katze
Al pnei hair nisa baruachEich al Prag shachar lo baka…Rak hasheket ba notar
Ish tzair chomek lefeta
Az ala lo or muzar
Sham bechikar hair shemetaShir shechalamti al Prag
Sham hashachar od ivka
Sham hashachar od ivka
אל העיר שבוית החלום
צל כבד וזר הגיח
וירח באדום
את מלכותו טבל בפיחמי שלא עצם את עיניו
את לילו המר כאב הוא,
דומית כניעה בלי קרב
איש את נשקו נצר עד מוות

איך על פראג שחר לא בקע
בשלישית כלה כוחו
איך נדם קול כיכר הומה בחג.
שיר שחלמתי על פראג –
שם השחר עוד יבקע

כמו תצלום ישן מצהיב
עיר של רפאים מוטלת
לרגלי דובים חרשים
ובצוארה המאכלת

את פתחו איש לא יוצא
ריח גטאות מלוח
מקצה ועד קצה
על פני העיר נישא ברוח

איך על פראג…

רק השקט בה נותר
איש צעיר חומק לפתע
אז עלה לו אור מוזר
שם בכיכר העיר שמתה

שיר שחלמתי על פראג
שם השחר עוד יבקע
שם השחר עוד יבקע