O humor em Israel também é político

Em Israel, o humor mais popular é o humor político. O israelense gosta de besteirol, também assiste aos filmes do Adam Sandler, e também produz humor pastelão. Mas os programas mais populares da TV israelense são de humor político, de um nível que no Brasil receberiam um horário na madrugada de alguma TV a cabo. O programa mais antigo e popular, passa no Canal 2 de televisão e se chama Eretz Nehederet (“Terra Maravilhosa”), que já está em sua décima-terceira temporada. O programa tem estilo humorístico semelhante ao Casseta & Planeta, com os atores – e roteiristas – fantasiando-se de personagens importantes da sociedade israelense, e encenando quadros. A diferença é o conteúdo do humor, muito mais político e sem piadas preconceituosas. Outro programa interessante é o Yehudim Baim (“Aí vêm os Judeus” – leia mais aqui, e veja vídeos traduzidos ao português aqui). Nesse programa, os participantes encenam esquetes da história do povo judeu (desde Abraão até os dias atuais) em tom de humor, com muito sarcasmo e crítica política. Passa no Canal 1 de televisão. Meu preferido se chama Gav HaUmá (“As Costas da Nação”), e é sobre ele e sobre o seu criador que falaremos aqui (e veremos alguns vídeos, também).

Gav HaUmá começou como Matzav HaUmá (“A Situação da Nação” – que também é o nome do discurso que o presidente norte-americano faz todo mês de janeiro, The State of the Union), mas mudou de nome quando passou do Canal 2 de televisão para o Canal 10, há três anos. O programa foi criado e é dirigido, produzido e editado por Lior Schleien (foto acima). Schleien, de 38 anos, é atualmente o terror dos políticos israelenses, sobretudo dos que estão no governo. Seu principal alvo hoje, entretanto, está na oposição e já foi muito importante em sua carreira: o apresentador praticamente iniciou sua carreira na televisão com um bloco de humor político no programa de Yair Lapid, atual líder do partido Yesh Atid. Como o feitiço se volta contra o feiticeiro, Schleien acabou por casar-se com a parlamentar Merav Michaeli (Partido Trabalhista), deputada que defende causas feministas e que vive em um apartamento no mesmo edifício que Schleien, em andares distintos. Esse fato é curioso porque o apresentador, antes de conhecê-la, declarava seu voto abertamente ao partido Likud, algo que não acontece hoje.

Schleien serviu às forças armadas como jornalista da Aeronáutica, e posteriormente formou-se em direito na Universidade de Tel-Aviv, onde atualmente cursa o seu mestrado. Foi roteirista do Eretz Nehederet em seus dois primeiros anos, e teve inúmeros programas de humor desde meados dos anos 2000. O principal dele (com mais de 600 episódios) chamou-se “A Noite” com Lior Schleien, que em determinado momento lembra bastante as entrevistas de Jô Soares (confira o original aqui).

Em 2010 ele lançou o programa Matzav HaUmá, no popular Canal 2, e desde então é seu principal trabalho. O programa semanal (posteriormente duas vezes por semana) consistia, basicamente, em duas sessões: eram três blocos de 10 minutos, nos quais em dois deles um painel, formado por Schleien e por outros três comediantes (Guri Alfi, Orna Banai e Einav Galili) e eventualmente um convidado, faziam sessões de piadas sobre temas que Lior apresentava. Por exemplo: o ex-presidente do Irã afirmou que Israel deveria ser varrido do mapa. Lior convocava a mesa a sugerir maneiras de varrer Israel do mapa, e cada um dava quantas sugestões sua criatividade permitisse. A temática é sempre política, e os comentários na maioria das vezes não são compreensíveis para quem não está muito bem informado e atualizado sobre o que acontece no meio político israelense. No outro bloco, era recebido um político (dependendo da sua importância, este espaço ocupava dois blocos ou até o programa inteiro), que era bombardeado por comentários em forma de pergunta, cujo objetivo era escrachá-lo. Poucos políticos, como Avigdor Liebermann e Yair Lapid, se recusaram a ir ao programa. Até mesmo Benjamin Netanyahu, em condição de primeiro-ministro, foi bombardeado (veja uma pequena parte deste programa legendado em português no vídeo abaixo), ainda que alguns afirmem que o programa foi editado e que Netanyahu já sabia o teor das piadas antes de chegar. Pode ser que seja verdade, ele é o primeiro-ministro. Mas, ainda assim, os comediantes não pegaram leve com ele, como não pegam com ninguém. E por que os políticos continuam indo? Por duas razões: a primeira, porque quando não vão, são detonados nos painéis incessantemente, até dizer chega. São ridicularizados por ter medo de um bando de comediantes, e ficam com fama de covardes. Mas também participam do programa porque, quando se saem bem em suas respostas, ganham moral com o público israelense. Devolver a piada é a melhor maneira de se defender, e a ministra da Justiça Ayelet Shaked, do partido A Casa Judaica, demonstrou isso nas duas vezes que participou do programa. Outros, nem tanto.

(Confira a entrevista completa com Netanyahu em inglês aqui.)

Apesar da direção, edição e produção de Schleien, a grande estrela do programa (que por três vezes venceu o prêmio de melhor programa de sátira da Academia da Televisão Israelense) era o comediante Guri Alfi, um dos quatro participantes do painel. Alfi deixou o programa pouco após a transferência para o Canal 10 e a mudança de nome. Schleien decidiu, então, não manter ninguém fixo em seu lugar, revezando os participantes do painel todas as semanas. A audiência, no entanto, caiu após a saída de Guri Alfi, e Schleien teve de reinventar-se. E o fez. Em um dos três blocos, o apresentador inaugurou um quadro chamado “O Monólogo”, inspirado no programa norte-americano “Last Week Tonight With John Oliver”. O quadro é semelhante ao programa “Greg News” (apresentado por Gregório Duvivier na HBO), e tem duração de apenas 10 minutos. Neste quadro, Lior Schleien escolhe um tema e o explica de maneira didática, com muito sarcasmo e opinião política. Frequentemente o escolhido é um político (quase sempre do governo), que tomou alguma decisão absurda ou fez algum pronunciamento racista, ofensivo, antidemocrático ou simplesmente estúpido aos olhos do produtor. O monólogo encerra o programa e passou a ser a parte mais esperada de Gav HaUmá. Há muita semelhança entre os temas tratados por Schleien e Duvivier: religião e Estado, fake news e pós-verdade, corrupção e outros são algumas das temáticas compartidas.

Eu escolhi três monólogos e os legendei para que o leitor possa ter ideia de como é o programa. Vai uma pequena explicação sobre cada um dos blocos selecionados.

1. Naftali Bennett é ministro da Educação e líder do partido A Casa Judaica (e uma das principais vítimas de Schleien). O monólogo é uma resposta a uma postagem sua no Facebook, criticando o programa de Schleien (o post está traduzido no vídeo). Bennett pertence à corrente nacionalista-ortodoxa, mas a crítica foi a todos os ortodoxos envolvidos  na política.

 

2. Gilad Erdan é ministro de três pastas: Hasbará (diplomacia pública), Segurança Interior e Questões Estratégicas, além de ser o vice-líder do Likud. Erdan tem um programa na rádio “Galei Israel”, onde, esporadicamente, critica Lior Schleien por acusá-lo de charlatão. Por três vezes Gilad Erdan, ministro da Segurança Interior, antes de receber a perícia policial condenou a ação de terroristas, e posteriormente veio ao público que não se tratava de atos terroristas.

 

3. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel desde 2009, quase nunca dá entrevistas. Os jornalistas se queixam de que o chefe do governo se comunica com a mídia somente por meio de pronunciamentos e de sua página no Facebook. Há pouco tempo, de forma surpreendente, Netanyahu decidiu dar uma entrevista ao Canal 20 de televisão, o canal dos ortodoxos.

 

Gostou? Quer mais? Em português não tem, mas em inglês e em espanhol tem um pouco mais. Deixo os links abaixo para que o leitor se divirta:

Em espanhol

Monólogo criticando o grupo Quebrando o Silêncio (Shovrim Shtiká): https://www.youtube.com/watch?v=eZj3mdi9M4E

Simulação de uma entrevista com Isaac Rabin: https://www.youtube.com/watch?v=rqBPArLT3YQ

American Firts, Israeli Second: https://www.youtube.com/watch?v=p8FRgrbW_Yg

Em inglês

Um habitante de Tel-Aviv orgulhoso: https://www.youtube.com/watch?v=IcYOgvb54UA

Yair Lapid em duas palavras: https://www.youtube.com/watch?v=OBX-Ifzxxos

Comentários    ( )

Um comentário para “O humor em Israel também é político”

  • Ana Maria Piazera-Davison

    09/10/2017 at 18:07

    Excelente artigo, e muito obrigada pelas legendas.
    Adoro este tipo de humor.

Você é humano? *