O impacto dos conflitos na economia israelense

25/07/2016 | Conflito; Economia

Avaliar os impactos das frequentes guerras e operações militares na economia israelense é uma missão interessante. E complexa. Nenhuma pesquisa que eu tenha conhecimento teve a ousadia de estudar estes impactos de uma forma geral, visto que existem uma série de dificuldades inerentes a este processo.

Os aspectos que tornam qualquer tentativa de um estudo abrangente uma missão praticamente impossível são basicamente três: (i) simultaneidade, (ii) amplitude, (iii) efeito reverso.

Simultaneidade

A guerra e as operações militares influenciam a economia, mas a economia também influencia as guerras e as operações militares. De forma mais clara e objetiva. Da mesma forma que os conflitos podem causar redução da demanda (um fator macroeconômico), a redução da demanda pode ela também ter sido uma das causas do conflito.

Amplitude

Inserir todas as variáveis do conflito que impactam na economia israelense, torna a análise impraticável. Em épocas de guerra, todos os setores da economia são afetados, mesmo que não na mesma intensidade. No curto prazo, o consumo da população se reduz, o turismo praticamente desaparece, há redução no número de trabalhadores em muitas empresas (por conta da convocação obrigatória de reservistas para o serviço militar), há destruição de prédios e instalações, deslocamento de populações, apenas para citar alguns setores atingidos.

No médio e longo prazo, os investimentos diminuem, há perdas de capital humano por conta de mortes e invalidez, aumento do orçamento dedicado a gastos militares, aumento dos gastos de proteção dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, entre outros. Não há forma de avaliar todos estes efeitos sem esbarrar, de alguma forma, na simultaneidade.

Efeito Reverso

A guerra também gera ganhos para empresas bélicas israelenses. Assim foi apontado em um estudo feito pelos professors Claude Berrebi e Esteban Flor. Isso amortiza, de certa forma, os efeitos causados na economia em geral. Não acredito que este efeito reverso chegue perto dos gastos que o país tem com os conflitos (considerando apenas questões economicas!), mas precisaria de um estudo mais profundo para justificar minha crença, e isto poderia motivar outro artigo apenas sobre este tema.

Entendidas as dificuldades, vale mencionar que não faltam exemplos de estudos parciais que tentam entender alguns destes fenomenos de forma separada e localizada.

Pois bem, levando em consideração todas estas limitações, vamos tentar pelo menos entender alguns fatos interessantes, com base no artigo lançado por Tal Wolfson e Joseph Zeira, da Universidade Hebraica de Jerusalém que, apesar de não resolverem a questão como um todo, jogam luz em alguns tópicos e auxiliam no entendimento de fatos interessantes.

As fases do conflito, e seus diferentes custos

Desde a primeira onda de imigração judaica até os dias de hoje, os autores dividem o conflito entre Israel, os palestinos, e os países árabes vizinhos em três grandes fases:

(i) pré-criação do Estado de Israel, (ii) período que se dá entre 1948-1982, com destaque para as décadas de 1960/70, e (iii) desde 1983 até os dias de hoje.

A grande diferença está no foco e no tipo de conflito. No primeiro e terceiro períodos, o conflito era (e segue sendo) contra a população árabe local, organizada (quando organizada) em milícias e grupos paramilitares. No segundo, as guerras se caracterizavam por ser conflitos militares convencionais de maiores proporções, incluindo exércitos grandes e organizados de países árabes, como Egito, Síria e Jordânia.

Os conflitos militares convencionais, do segundo período, eram muito mais custosos que os demais. É possível ver os gastos militares como porcentagem do PIB, durante os anos de 1950 – 2010 e entender melhor este ponto:

GDP defense
Fonte: The Economic Costs of the Conflict to Israel: The Burden and Potential Risks, Wolfson e Zeira (2015)

No início dos anos 1980, Israel viveu uma séria hiper-inflação causada pelo aumento do déficit público e a necessidade de impressão de moeda para custear os gastos militares. O plano de estabilização de 1985 se mostrou eficaz, muito por conta do tratado de paz com o Egito, que reduziu drasticamente as chances de uma nova guerra convencional contra diversos exércitos, como ocorrida em 1967 e 1973, e consequentemente, permitiu uma redução dos gastos militares.

A escalada da violência por longos períodos, as chamadas Intifadas, aumentam as chances de recessão, por conta da perda de confiança, redução de investimentos e demanda. Diferente dos períodos de guerra convencional, estes efeitos são mais lentos e de longo prazo, e se não exigem um aumento imediato dos gastos militares, acabam por desgastar a economia a médio-longo prazo.

Custos adicionais aos gastos militares do governo

Em economia, é comum considerar custos alternativos, que nem sempre são diretamente calculados, mas sim estimados com base em “qual seria uma alternativa” para esta alocação de recursos. Por exemplo, o uso alternativo de terras utilizadas pelo exército e o tempo de serviço militar compulsório podem ser entendidos desta forma. Eles poderiam ser aproveitados de outras maneiras, caso não fossem os conflitos.

As perdas de capital humano, muitas vezes ignoradas em estudos sobre os custos de operações militares, são um fator essencial na análise dos impactos dos conflitos.

A obrigação de serviço militar de três anos para homens, e dois para mulheres “atrasa” a rota de aumento de salários, que acontece ao longo da carreira da maioria dos trabalhadores. Veja abaixo um gráfico mostrando as diferenças de um indivíduo que serviu no exército, e outro que não serviu.

Retirado do artigo: The Economic Costs of the Conflict to Israel: The Burden and Potential Risks, Wolfson e Zeira (2015)
Fonte: The Economic Costs of the Conflict to Israel:  The Burden and Potential Risks, Wolfson e Zeira (2015)

Os autores acreditam que o total de perdas relativos a este tópico chegou a ser, em 2011, de 4,3% do PIB (Para mais detalhes, veja no artigo a metodologia do estudo). Ou seja, os gastos militares não levam em consideração as perdas de capital humano e estas são fundamentalmente relevantes, de acordo com o observado anteriormente.

O fundo para veteranos, que está no orçamento do Ministério do Bem Estar Social, apesar de ser relacionado ao conflito, tampouco consta na lista de gastos militares.

Uma fonte de custo inerente ao conflito é a construção de abrigos contra mísseis. Uma lei aprovada pelo governo exige que todos os novos apartamentos tenham um quarto especial que sirva de abrigo. Isto significou um gasto de cerca de 4,5 bilhões de shekels em 2011, de acordo com os autores.

A tabela abaixo resume esta questão –  o total de gastos militares de Israel é bastante acima dos gastos militares considerados oficiais – fato que torna o conflito algo muito custoso para os habitantes do país.  

Retirado do artigo: The Economic Costs of the Conflict to Israel: The Burden and Potential Risks, Wolfson e Zeira (2015)
Fonte: The Economic Costs of the Conflict to Israel: The Burden and Potential Risks, Wolfson e Zeira (2015)

A abrangência do tema permite a discussão de muitos outros tópicos interessantes, como por exemplo:

  • Qual o efeito do boicote aos produtos israelenses?
  • Quanto tempo dura para o setor de turismo se recuperar após uma onda de atentados?
  • Qual o gasto no desenvolvimento de sistemas anti-aéreos, como o domo de ferro, e quais seus custos de utilização?

 

Por fim, segue abaixo uma lista de artigos interessantes para quem deseja se aprofundar mais no assunto.

Lista de Artigos:

  1. Impact of terrorism on the Defence Industry , Berrebi and Klor(2010)    
  2. Financial markets and terrorism, Eldor and Melnick (2004)
  3. The Economic and Social Effects of Intensive Terrorism: Israel 2000-2004, Morag (2006)
  4. Macroeconomic consequences of terror: theory and the case of Israel, Eckstein and Tsiddon (2004)
  5. On Land and Security: Economic Aspects of Military Control over Land Resources in Israel, Shiffer and Oren, 2008

 

Comentários    ( 3 )

3 comentários para “O impacto dos conflitos na economia israelense”

  • Wesley Schmidt

    25/07/2016 at 21:33

    Texto muito bem elaborado! As variáreis são muitas, difícil ter uma visão geral E real.

  • Raul Gottlieb

    26/07/2016 at 00:03

    Amir, não seria razoável admitir que se Israel não tivesse sido obrigado a construir uma indústria bélica, ele teria investido no aprimoramento de outras indústrias? Se admitirmos isto, segue a conclusão que a indústria bélica não entra na equação. Ou entra muito pouco, pois ela influenciaria apenas no diferencial de rendimento entre a indústria bélica e as que a substituiriam. Não me parece razoável é supor que, caso não fosse necessária, a indústria bélica seria substituída por nada. Abraço, Raul

  • Marcelo Starec

    26/07/2016 at 13:23

    Oi Amir,

    Muito interessante esse artigo! Esse é um tema fundamental para a economia israelense, eis que sempre fez parte do dia a dia do Estado Judeu, desde sempre e infelizmente até hoje!

    Como economista, entendo que neste caso vale uma análise holística da questão. Trata-se de um jogo de soma negativa – a sociedade sempre perde e tem um custo com o conflito. É claro que, pontualmente, vamos encontrar “ganhadores”, mas como um todo, a sociedade perde!…Ela paga um preço alto!…Por fim, se as alternativas a nível de políticas do Estado seriam melhores ou piores, no caso específico de um Estado com território minúsculo e vizinhos agressivos, trata-se de uma questão muito complexa e que acaba saindo do escopo desse artigo – Exemplo – Sendo possível um acordo diferente do que existe hoje, isso permitiria reduzir os gastos militares? Na prática, esse tipo de resposta de modo nenhum é simples, embora superficialmente possa assim parecer!

    Um grande abraço,

    Marcelo.

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