O Império de Lieberman Contra Ataca

20/05/2016 | Política


Quarta feira (ante ontem, dia 18), o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou encerrada a negociação, iniciada semanas antes, com Isaac Herzog (e comentada aqui no Conexão). Tais negociações foram declaradas mal sucedidas.

Enfim, o Partido Trabalhista (União Sionista) não entrará na coalizão do governo.

Essa foi uma importante notícia. Mas nem de perto do drama que sucedeu: Bibi anunciou a inclusão na coalizão do Israel Nossa Casa (Israel Beiteynu) do ultra-direitista Avigdor Lieberman. Lieberman ficará com a pasta da segurança do atual ministro, Moshe “Boggi” Yaalon, do Likud.

Por que a notícia é tão dramática?
Em primeiro lugar porque Moshe Yaalon era um ministro da segurança respeitado. Respeitado pelo exército, oficiais e soldados. Respeitado pela população em geral, gente de direita e de esquerda. Tinha uma posição pragmática, tradicional, prática e cética. Defendeu os tribunais militares no caso do soldado que deu um tiro em um terrorista ferido e neutralizado. Foi o único, dentro do governo, a defender a lei. Era o primeiro a recomendar calma e agir com responsabilidade (mesmo tendo escorregado nesta orientação umas tantas e importantes vezes). Parecia, às vezes, o único adulto em meio a um monte de crianças mimadas e histéricas dentro do Likud.

E Lieberman não é nada disso. Não tem experiência alguma em segurança. É puro populismo e pouco, ou nenhum, pragmatismo. Luta usando as mesmas armas da ala mais histérica de dentro do governo: criando polêmica, sendo racista e gritando o mais alto que pode.

É dramático também pelo contexto: Lieberman é odiado por Netanyahu. Bibi se indispõe com qualquer um que tenha sequer a vaga possibilidade de ameaçar seu governo. Lieberman, que tem o mesmo público potencial de Netanyahu, além de ter surgido dos mesmos meios. É um antigo inimigo político.

O drama segue, também, à esquerda. A derrota de Herzog nas negociações com Netanyahu acaba com suas chances de liderar a oposição de forma construtiva. Pior: agora vai ter que lutar bravamente sequer para manter-se líder do Partido Trabalhista.

E agora?

O presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi já se pronunciou. Afirmou estar profundamente preocupado e desapontado com a decisão. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse que essa é mais uma prova de que Netanyahu não está, nem nunca esteve, interessado em negociações. Metade do mundo esperneou e pesquisas frescas de ontem do Canal 10 de televisão mostram que a população em Israel mesmo, de uma maneira geral, não gostaram da mudança. Preferem Yaalon a Lieberman.

Lieberman, dentro do governo, significa uma ameaça ao crescimento político de qualquer outro ministro do Likud. Portanto um foco de intrigas. Significa também uma briga de rinha com outro extremo-direitista, Naftali Bennett, atual ministro da Educação, do religioso A Casa Judaica (HaBait HaYehudi).

Mas, e por que, meu Deus!?

Em primeiro lugar, porque Bibi. E Bibi tem um importante plano, que é o de manter Bibi no poder. Para que? Para executar o seu plano mor: Manter o Bibi mais ainda no poder. Yaalon era uma ameaça a homogeneidade de pensamento nacionalista, e tinha o apoio do exército. Bibi temia ele próprio perder este apoio.

Em segundo, porque Bibi se sente inseguro. Ele se sente inseguro desde 1997, é verdade, mas ainda mais agora, quando sua relação com os EUA está tão precária: Obama ainda tem mais 80 dias de governo depois das eleições nos EUA, em que não estará devendo nada a ninguém. Alguns comentaristas políticos por aqui afirmam que Bibi está aterrorizado com a possibilidade de uma desforra.

Em terceiro lugar, porque o Likud precisava de um governo mais amplo. Uma coalizão só de 61 parlamentares (exatamente 50% + 1) é muito frágil, e significa que cada um deles tem um poder desproporcional. Acima de tudo, e por este motivo, Bibi foi atrás de mais um partido para ampliar a coalizão. Não fechou com os trabalhistas, a única outra opção que sobrou foi o partido de Lieberman. E Lieberman sabia disso.

Na verdade essa é só uma continuação das negociações que se iniciaram logo depois das eleições, pouco mais de um ano atrás. Desde então pairava no ar boatos de contatos, tanto com Lieberman quanto com Herzog. Mesmo porque era importante para Bibi manter seus ministros tão inseguros quanto ele próprio.

E depois?

Yaalon declarou esta manhã que sai da politica. Nunca foi um político de carreira, e sempre fez muito pouco caso com o jogo das cadeiras ministeriais. Já tinha dito antes que não havia nascido ministro, e provavelmente não iria morrer ministro. Lieberman, novamente, e como sempre, vai falar despautérios a todos os lados, e vai fazer muito, muito pouco em termos práticos para o mal e para o bem. É seu modus operandi desde sempre. A briga dentro do partido trabalhista vai acirrar, e vai depender muito das figuras mais importantes, se isso é uma coisa boa ou não. As negociações de paz vão seguir inexistentes e os egípcios vão seguir botando a culpa de tudo que acontece por lá em Israel. O verão vem aí e, quem sabe, de acordo com a mais nova tradição, tenhamos guerra de novo.

Para ler mais, recomendo:

http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4805131,00.html

http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4805184,00.html

http://www.haaretz.com/israel-news/.premium-1.720352

http://www.haaretz.com/israel-news/.premium-1.720327

http://www.haaretz.com/israel-news/.premium-1.720353

http://www.haaretz.com/opinion/1.720365

http://www.haaretz.com/israel-news/.premium-1.720411

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “O Império de Lieberman Contra Ataca”

  • Mario S Nusbaum

    20/05/2016 at 20:13

    Sem entrar no mérito da política israelense, mesmo porque a brasileira já é suficiente para tomar o meu tempo e me convencer de que é impossível enter do assunto:

    “O presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi já se pronunciou. Afirmou estar profundamente preocupado e desapontado com a decisão”
    Sério e preocupante
    “O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas disse…”
    Não importa o que se segue, qualquer coisa seria irrelevante.
    Em relação aos EUA, tendo a crer que qualquer coisa que o Obama fizer poderá ser revertido facilmente. Mas tenho a impressão de que ele anda ocupadíssimo com assuntos muito importantes, tais como quem usa qual banheiro.

  • Mario S Nusbaum

    20/05/2016 at 21:14

    Gabriel,
    Acabo de saber algo sobre o Moshe Yaalon que me deixou estarrecido!
    “I call on you and your subordinates, once again, to keep speaking your minds,” Defense Minister Moshe Ya’alon demanded of the army’s officers in a speech he delivered at a May 15 reception marking Independence Day. “Be brave, not only on the battlefield, but also at the discussion table,” the minister urged them, speaking in front of the cameras. Ya’alon was not suggesting and not asking. He was demanding. To allay any doubts, Ya’alon added that the men in uniform should speak their minds, saying, “Do so even if your comments are not part of the mainstream, and even if they stand in contrast with the ideas adopted by the senior command, or the government.”
    Isso é inadmissível em qualquer democracia, um absurdo, equivale quase a pregar um golpe de Estado.

    • Gabriel Paciornik

      20/05/2016 at 22:42

      Mário, este caso foi bem reportado aqui em Israel. A polêmica aqui também foi muito grande. Deve um militar expressar opinião sobre as políticas do governo? Sim ou não?

      As opiniões ficaram divididas. Especialmente por causa do contexto. E o contexto é sério. E relevante para esse caso.

      Um soldado descumpriu ordens e botou em perigo seu pelotão. (Leia esse texto) http://www.conexaoisrael.org/tiro-pela-culatra/2016-03-30/gabpac

      Políticos se envolveram e a população mais radical também. Poucas semanas depois, no memorial do holocausto, um general se pronunciou preocupado com o extremismo dentro da população. Não foi um posicionamento político. Foi conceitual e ético.

      Foi desde caso que Yaalon estava falando.

      Eu, pessoalmente, neste contexto, acho que ele tinha razão.

    • Mario S Nusbaum

      22/05/2016 at 04:42

      Gabriel, sei que, infelizmente, Israel é um caso (quase que?) único no mundo. E, claro, sinta-se a vontade para discordar.
      Exatamente por isso não me sinto a vontade para opinar sobre casos como esse que me parecem extremos. Agora, de uma coisa tenho (quase) certeza, apesar de minha religiosidade ser ZERO: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá”

      Resumindo, na minha opinião, e, claro, posso estar totalmente errado, acho que “filosofar” sobre ética não é um luxo a que Israel possa se dar na situação atual.

      Como em praticamente tudo, nesse caso a questão é quantitativa e não qualitativa. “Deve um militar expressar opinião sobre as políticas do governo? Sim ou não?” Talvez sim, em casos EXTREMOS. Problema: QUEM define qual caso é extremo?

      “As opiniões ficaram divididas. Especialmente por causa do contexto. E o contexto é sério. E relevante para esse caso.”
      Assim como também ficaram divididas quando as IDFs foram obrigadas a retirar os colonos de Gaza, certo? Então, pau que dá em Chico também dá em Francisco.
      A cada dia que passa mais me convenço de que o conflito israel x palestinos é insolúvel, e torço, desesperadamente para estar errado..

  • Raul Gottlieb

    20/05/2016 at 23:55

    “Mahmoud Abbas, disse que essa é mais uma prova de que Netanyahu não está, nem nunca esteve, interessado em negociações.”

    O Globoesporte noticiou que esta foi a reação do Abbas ao saber que o Flamengo foi eliminado pelo Fortaleza na segunda rodada da Copa do Brasil.

    Ou seja, este cara nunca disse nada diferente, independente do assunto, do contexto e das circunstâncias. Ele é mais repetitivo que novela da Globo.

    Sobre o que Yaalon disse, conforme o comentário do Mario, eu acompanhei o caso e achei que o Yaalon foi perfeito. Ele não estava pregando uma rebelião ou desobediência às ordens e sim que os funcionários públicos, inclusive os militares, também tem o direito à livre expressão.

    O Yaalon expressa o enorme desconforto que muitos em Israel tem ao perceber o avanço de leis que tentam cercear as liberdades individuais.

    • Mario S Nusbaum

      22/05/2016 at 04:48

      Pois é Raul,

      “O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas disse…”
      Não importa o que se segue, qualquer coisa seria irrelevante.”

      E o pior é que a opinião dele talvez seja mais relevante em relação à Copa Brasil do que ao conflito com Israel.

      Como brasileiro me conforta ver que “nossos” representantes são gênios e estadista brilhantes comparados aos palestinos, como judeu me desespera.

  • Henrique Samet

    23/05/2016 at 20:34

    Para variar estão discutindo sobre o acessório. Na briga entre estas figuras as vezes a verdade aparece.
    Se ética é luxo então viva o terrorismo!
    Aquilo que a opinião pública judaica e israelense pró-paz com os palestinos ficou rouca de alertar sobre as políticas públicas desde governo e anteriores, foi confirmada, quem diria, pelo ministro da Defesa renunciante Iaalon e por Barak ex primeiro ministro e ministro da defesa do próprio Netaniahu afora o vice-comandante do Exército de Israel anteriormente. Os termos utilizados incluem quebra de valores morais, similaridade com fascismo, extrema direita no poder e ameaças as liberdades democráticas. Agora só falta chama-los, aos denunciantes , de antissemitas e traidores.
    Certamente o trio nomeado acima não é santo e teve parte na construção deste estado de coisas que agora denuncia. Podemos compará-los a Von Papen, um político alemão obscuro que abriu as portas à ascensão de Hitler ao poder na ilusão de que poderia controla-lo e manipulá-lo. A criatura pôs o criador no bolso!

    • Mario S Nusbaum

      24/05/2016 at 00:17

      Henrique, reli meu post e percebi que não ficou claro o que eu quis dizer. “acho que “filosofar” sobre ética não é um luxo a que Israel possa se dar na situação atual” Não acho que ética é luxo, e por isso escrevi “filosofar (entre aspas)” sobre ética. Com isso eu pretendi me referir ao que popularmente chamamos de frescura. No mundo REAL, jovens de 18, 19 anos com poder vão SEMPRE abusar. A questão é, claro, onde traçar a linha.
      Quem ler, como eu li, os depoimentos do pessoal do Breaking the Silence vai perceber que a maioria deles trata de coisas como essa: “Listen, first of all, any tank driving on a road is unhealthy, the very fact that it is going on a paved road. There were some really clumsy commanders who shaved electric poles.” Unhealthy????? Guerras são unhealthy!!!!! A pior de todas: “The “Shubidubi” joke
      testimony catalog number: 137260
      rank: Staff Sergeant
      unit: Nahal Brigade
      area: Hebron
      period: 2004
      One sin we all committed was the “Shubidubi” joke. Shubidubi and Shuarmah. Again, it’s only now that I regard it in this sense of proportion.

      What’s Shubidubi?
      You’d usually use it with some kid, because adults. . .first of all, they’d understand and that would be unpleasant, and secondly, they’d get it. So you ask some kid, “Hey kid, are you bidubi?” And he’d ask back, “Shu bidubi?” Meaning “What’s bidubi?” and then you’d crack up. Same with Shuarmah. The soldiers would smirk, the kid would giggle embarrassedly and walk away. From here it sounds funny. It’s insane.”
      Henrique, o que você acha dessa gravíssima denúncia?