O inevitável balanço de 5775

O custo de vida esteve altíssimo, não houve perspectivas para a compra da casa própria, o presidente Obama atuou como um emissário místico do mal, Israel começou a construir um muro para proteger sua fronteira com a Jordânia e o Isis manteve sua marcha de disseminação em todos os países de nossas fronteiras, e além. Agora mude o tempo verbal dessas frases para o presente para saber das notícias de hoje.

Não, não, não, pessimismo não é meu forte, nem meu fraco. A realidade é
que anda mesmo desanimadora. 5775, vamos falar de você, a partir, obviamente, do meu ponto de vista, que não exprime o de nenhuma maioria ou minoria no país, e apenas sobre os assuntos que me chamam a atenção.

Nesse último ano, a compra da casa própria esteve mais uma vez no centro das discussões. O custo de moradia em Israel é altíssimo, ainda mais porque todo mundo quer viver onde todo mundo já vive, ou seja, no centro do país. O de vida também esteve alto. Incrível como, depois de chegarmos à inacreditável paridade entre real e shekel, parece ter ficado ainda mais caro por aqui. Os brasileiros israelenses que ainda têm resquícios de finanças no Brasil sentiram isso com muita clareza.

Preços à parte, os brasileiros continuam chegando. A aliá[ref]Imigração judaica a Israel.[/ref] do Brasil ressuscitou nos últimos dois anos, batendo um recorde após o outro. Em uma matéria publicada há poucas semanas no jornal israelense Haaretz, a motivação foi atribuída ao aumento da violência no país tupiniquim. O resto fica por conta da Dilma, ou do ódio a ela. Mas não falemos sobre isso, não aqui.

Claro que vivemos preocupados com o Irã. O tema do acordo com o “enviado do mal”, sheik Barack Obama, garantiu um espaço de destaque diário. Também ouvimos nosso enfático primeiro-ministro Bibi Netanyahu declarar basicamente a mesma coisa o tempo todo e nos dividimos em dois grupos: os que acham o primeiro-ministro um bobão alarmista e os que colocam a segurança de sua vida e da do resto do universo em suas mãos. Em comum, há o fato de sabermos que ele é o que “temos para hoje”.

Jerusalém “pegou fogo” nos últimos dias, semanas e meses (ou milênios?), com uns jogando pedras nos outros, louquinhos esfaqueando meninas e soldados, aquela histeria infelizmente já conhecida. Com o clima tenso, o ânimo de todos se esfriou. Este ano, na semana de Selichot no Muro das Lamentações (veja matéria sobre Selichot clicando aqui), não se viu nem metade da multidão que havia comparecido nos dois anos anteriores.

Também por isso, bateram-se palmas quando Bibi disse que, replicando a construção do muro na fronteira com o Egito, o governo iniciaria um outro nos separando da Jordânia. Porque com Isis não se brinca e nem com as nuvens humanas de centenas de milhares de refugiados sírios, resultado de uma guerra feroz que ninguém fez questão de olhar com atenção nem no ano passado, nem em nenhum outro. Agora não há mais como virar a cara. Os políticos israelenses de esquerda fizeram discurso de “lembremo-nos que já fomos refugiados e absorvamos parte deles”; os da direita disseram “nem a pau, Juvenal”. Com tudo isso, o antigo problema de Israel com os imigrantes ilegais da Eritreia e do Sudão sublimou-se nesse 5775. Deu aquela sumidinha básica do noticiário. Também na Terra Santa não há nenhum mal que não possa ser esvaziado da mídia por um mal maior.

Nesse findo ano, foi iniciada uma revolução liderada pelos pais dos quase três milhões de estudantes israelenses contra o Ministério da Educação, exigindo o fim de classes do tipo “lata de sardinha”, com crianças saindo pelas tampas.

But… nem tudo são espinhos. A tarifa da eletricidade baixou, assim como o Imposto sobre o Valor Agregado cobrado sobre todos os produtos e serviços em Israel. O calor está amainando e logo vem a  chuva. Conseguimos passar o verão sem guerra. O ano de shmitá, no qual é proibida a utilização do solo israelense na agricultura (cumprida por uma parte dos agricultores locais) acabou. Logo começa a estação de morangos e de uvas, o que faz tudo virar uma delícia. Fora isso, depois do jejum de Yom Kipur, vem a bonança de Sucot (Tabernáculo), a festa mais bonita de Israel.

E essas coisas nos dão esperança para acreditar que o mal é temporário. Mantenha-mo-nos na torcida, então, por um feliz 5776.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “O inevitável balanço de 5775”

  • Marcelo Starec

    22/09/2015 at 07:33

    Oi Miriam,

    Seu texto, como sempre, é muito agradável de ler, diz tudo de um modo “light” e gostoso…Para ser bem sincero, sem querer de modo algum ser pessimista, desde meus tempos de garoto até hoje nunca vi Israel diferente disso aí…As pessoas vivendo um monte de dificuldades – em outros momentos muito piores do que as atuais e enfim, Israel melhorou muito em várias áreas, porém continua precisando brigar no dia a dia para sobreviver mas…Não foi assim com o povo judeu desde sempre?…Enfim, torço mas não espero por grandes mudanças, mas apenas por um cenário em que possamos sobreviver e quem sabe, de repente, termos alguma chance real de paz – Essas coisas as vezes acontecem!…Eu me lembro bem quando fizemos a paz com o Egito – e quase todo mundo era 100% descrente (Eu era uma exceção…rs)…Até porque o Primeiro Ministro era então o Beguin, considerado na época o grande inimigo da paz!…Que o ano que vem nos traga surpresas agradáveis!…Gmar Chatima Tova!….

    Abraço,

    Marcelo.

  • Daniel PS

    30/09/2015 at 19:04

    “enviado do mal”, sheik Barack Obama”

    É uma pena que a única iniciativa racional colocada em prática para brecar o programa nuclear iraniano seja vista com tanto desdém por alguns.

    A manutenção do “bloqueio” ao Irã, como desejam parlamentares republicanos (EUA), o atual governo israelense e parte de seus cidadãos, apenas geraria uma nova Coreia do Norte no oriente médio. Ou seja, um Irã dotado de capacidade nuclear bélica e que mantém controle sobre seu próprio povo a partir de um discurso belicoso dirigido contra ISR e os EUA.

    Bloqueios não esmagam regimes ditatoriais, apenas os fortalecessem. Basta ver o exemplo de Cuba, Coreia do Norte, ou mesmo o Irã.

    Nada como um pouco de liberdade e fluxo de capitais para que o discurso de ódio se enfraqueça rapidamente. A melhor forma de aproximar sociedades é com a globalização – que necessariamente se inicia pelo comércio.

    Obama está longe de ser um santo… mas busca solucionar intrincados conflitos na base do diálogo, e não do canhão. Se observamos os frutos do canhão de Bush (recrudescimento do terrorismo em todo o mundo), acho que estamos melhor servidos!

    abraço a todos

    • Miriam Sanger

      01/10/2015 at 21:29

      Oi, Daniel.
      Um montão de pessoas — eu entre elas — ainda não entendeu o real objetivo de mr. Obama. Acho que há obviamente muito dinheiro por trás desse acordo. Acho não: sabe-se que há. E não concordo com a sua visão, da mesma forma que você não concorda com a minha.
      Acho que não vai demorar muito para entendermos e vermos o resultado dessa estratégia. Acredite: estou torcendo para estar errada e você, certo.
      Chag Sameach e obrigada pelo comentário,
      Miriam