O Kotel não é para mim. É para todos.

02/07/2017 | Religião e Judaísmo

Não curto muito o Kotel (Muro das Lamentações). Não me julgue por isso, desculpe a franqueza. Aliás, não me desculpo. Serei franco neste artigo, como se estivéssemos em uma mesa de bar. Não gosto de estar no Kotel, mesmo. Não me sinto muito bem naquele lugar. Não me odeie por ser um judeu que diz isso. Eu prometo explicar porque.

Mas nem sempre foi assim. A primeira vez que estive lá, me emocionei. Sou historiador, adoro a minha profissão. Em 2004, estava em Israel pela primeira vez, e, depois de três dias, me levaram para conhecer um muro de mais de dois mil anos. No Brasil não existem construções como esta, tão antiga, tão grande, tão representativa. Me emocionei, mesmo. Não só com o Kotel, mas com passear pela cidade velha de Jerusalém, vendo ruínas de todas as “eras” que eu estudava na faculdade, desde o domínio romano até as mais modernas construções israelenses (que se fazem parecer antigas). Fiquei imaginando meus antepassados na porta do Templo Sagrado, provavelmente membros da elite judaica do momento. Claro, meu passado é de elite! Meu sobrenome, Koatz, é uma alteração do popular (entre os judeus) “Katz”, uma abreviação de “Cohen Tzadik” (“Sacerdote Justo”, expressão com origem no nome do primeiro sacerdote, Tzadok). Os cohanim (plural de cohen, sacerdote) eram uma casta na Jerusalém da época do Segundo Templo Sagrado, uma elite aristocrática, que controlava quem entrava no templo, se estavam vestidos e purificados apropriadamente, se seus animais igualmente eram puros, que cobravam impostos, e após o período da dinastia hasmonea, ganharam uma justa fama de corruptos e aproveitadores (será que eu e Ehud Olmert temos ancestrais em comum?). Quando o Segundo Templo foi destruído, alguns fariseus (outra casta, os pais do judaísmo rabínico pós-Templo) endinheirados decidiram comprar títulos de cohen para adquirir status. Parte dos cohanim sobreviventes, então, optaram por acrescentar adjetivos ao seu sobrenome, de maneira que pudessem separar a velha aristocracia (pura) dos novos ricos. Katz, então, é um sobrenome que se perpetuou ao longo da história. E Koatz é uma alteração de Katz, provavelmente bastante moderna.

Feito este (grande) parênteses, voltemos ao Kotel: imaginava meus ancestrais coxinhas (desculpem, não resisti) caminhando pelas ruas de Jerusalém, de nariz empinado. Imaginava que a construção ao lado de onde eu caminhava podia ter sido a casa de um ancestral meu. Todos queriam (e poucos podiam) estar próximos ao Grande Templo Sagrado. O templo representava para os judeus a centralidade e a unidade do povo, na capital onde o povo israelita pode unificar-se sob o reinado de David, que uniu as 12 tribos e constituiu a nação (no conceito antigo) de Israel. Me encantei com o Kotel.

Hoje já não gosto mais de estar lá. Não me sinto bem, sabe como é? Conhece aqueles lugares que te passam uma energia estranha, meio pesados? Não só isso: às vezes sinto como se não fosse bem vindo. Por três razões, principalmente.

A primeira é política, porque me assustou ir ao Kotel em um Yom Yerushalaim (dia que comemora a reunificação de Jerusalém), cuja violência dos que festejavam (!) me fez criar uma repulsa ao (mau) uso político desse símbolo, mas não quero me aprofundar nesta razão agora.

A segunda razão é porque sinto (atenção: disse “sinto”) que o que acontece lá se parece mais com uma seita pagã do que com judaísmo. Um monte de gente adorando um muro, deixando bilhetes (que são retirados à noite, pobrezinhos dos que pensam que os buracos entre as pedras são infinitos), beijando o muro (veja na foto abaixo quejá fiz isso, confesso, na primeira vez que estive lá – e estava sóbrio!), aos prantos, tratando-o como se aquelas pedras fossem algo divino – e são somente pedras. Não me sinto bem ao lado dessas manifestações de exaltação a um muro, ou a um lugar físico específico. Para mim o judaísmo não é isso. Para mim o judaísmo é sabedoria, são as fontes. Para mim o judaísmo se leva consigo todos os dias, quando falamos hebraico, quando nos identificamos em comunidade, quando festejamos os chaguim. Não me identifico com esta relação com o muro, que nem sequer se localiza dentro de onde era o Templo Sagrado (era a parte externa do templo).

Se a primeira razão que me afasta do Kotel é política, e a segunda é religiosa, a terceira razão é de ordem político-religiosa. Para que eu entre no Kotel, devo usar uma kipá. As mulheres devem vestir-se de forma “modesta” (leia-se: cobertas desde o pescoço até os joelhos, podendo deixar parcialmente destapados os braços, e devem vestir saias). Se por acaso um dia você estiver caminhando pelo shopping Mamila, ali pertinho da cidade velha de Jerusalém, resolver dar um pulo no Kotel e tiver esquecido sua kipá, não se preocupe: vão te dar uma (de papel) na entrada do lugar, como se fosse uma sinagoga privada. Não te deixam passar sem kipá, ainda que você não seja religioso, ou até mesmo judeu. Não importa. Mesmo que não haja no local nenhum sefer Torá, e que o Kotel não seja uma sinagoga, você é obrigado a usar kipá. E se você for mulher, não pense que é diferente: se você não for de saia (longa), te dão uns panos na entrada para que você improvise uma. Mas se você for homem, vale tudo. Pode chinelo, camisa regata, short do teu time de futebol… menos cabeça descoberta.

E aí você entra no Kotel, e, outra vez, se sente em uma sinagoga ortodoxa: separação de espaços entre masculino e feminino. O espaço masculino – que bom que nasci homem! – é tres vezes maior do que o espaço concedido as mulheres. As mulheres, coitadas, ficam amontoadas, esperando que outras saiam para conseguir um lugar do lado do muro, enquanto os homens gozam de um espaço amplo, e mais próximos do que seria o salão Kodesh HaKodshim (o “Sagrado dos Sagrados”, como o próprio nome já diz, salão mais sagrado do Templo Sagrado, onde somente o Sumo Sacerdote – Cohen HaGadol – podia entrar em Yom Kippur). Tampouco pense em ir com uma camisa com mensagem ideológica de dissenso (leia-se: a favor de dois Estados, ou criticando a coerção ortodoxa em Israel): não te deixam entrar. Não há lei que proíba, mas os policiais te barram a entrada.

Veja a parte dos homens, à esquerda, e a das mulheres, à direita.

Pensa que acabou? Não, meu amigo. As mulheres são proibidas (você não leu errado), com pena passível de prisão, de entrar na parte feminina do Kotel com sifrei Torá, tefilin ou Talit. Aí você pensa: “ah, mas isso nunca acontece realmente!”. É aí que você se engana, meu camarada! Leia aqui esse texto do companheiro Marcelão Treistman sobre um caso desses. Leia com atenção esta frase: Israel é o único país do mundo onde a lei proíbe e pode levar à prisão uma pessoa que usar um talit e ler a Torá. Onde? Claro, no Kotel. Isso tudo me faz não me sentir bem naquele lugar.

E aí você deve pensar: “mas sempre foi assim, tão fazendo drama agora…” Nada disso. Olhe essa foto abaixo: até os anos 1970, os ortodoxos rezavam ao lado de mulheres no Kotel. Você até pode alegar que, antes de 1967, o Kotel não estava sob domínio judaico, e seria impossível estabelecer essa regra. É verdade. Mas repare que não havia sequer uma separação voluntária. As pessoas podiam ir juntas ao Kotel, estar lado a lado, e ninguém reclamava. Porque o Kotel não é uma sinagoga ortodoxa (tampouco reformista ou conservadora), o Kotel é um espaço público. É um sítio arqueológico, um centro religioso, um ponto turístico, um montão de coisas em uma só. Mas é público. E em Israel, como sabemos, há uma certa dificuldade de separar o público do privado em questões referentes ao judaísmo. É complicado pra caramba. Imagine se todos os cristãos idealizassem um país, o único onde seriam maioria em todo o planeta, onde estariam a grande maioria de seus símbolos religiosos. Imaginem juntos católicos romanos, católicos ortodoxos russos, ortodoxos gregos, outros ortodoxos, protestantes tradicionais (mórmons, batistas, adventistas, etc), pentecostais, neopentecostais, maronitas, manonitas, e que este lugar ainda fosse o Vaticano. Ia ser uma bagunça que só Jesus salva, né? (perdão o trocadilho horrível) Pois é. Os judeus são poucos no mundo, mas têm corrente pra caramba! Já ouviu a piada, dois judeus, três opiniões? Conhece a história do judeu que naufragou e foi parar em uma ilha deserta, e construiu duas sinagogas: uma que ele frequenta, e outra que ele não frequenta e da qual ele fala mal? Assim somos nós.

Foto de 1917, retirada do site https://bonnadevorahaberman.files.wordpress.com/2014/03/women-on-left-side-1917.jpg
Foto de 1917, retirada do site bonnadevorahaberman

 

É complicado que o Estado diga: “danem-se vocês, religiosos, o espaço é público e quem administra é o Ministério do…” (agora ferrou! Que ministério administraria o Kotel? Bom, deixemos isso pra lá). Então o governo passa administração do Kotel para o… Rabinato! Sim, em Israel existe um rabinato central – ou melhor, dois, um sefardita e um ashkenazita -, que cuida de questões referentes a leis civis e questões religiosas. Na única democracia do Oriente Médio (sic), devido à pressão dos ortodoxos, não há casamento civil, não há divórcio civil e não há cemitérios laicos públicos. O rabinato administra questões como leis familiares (casamento e enterro, por exemplo), controla com selos autorizados pelo Estado a kashrut (leis alimentares) em lugares públicos (você sabia que é proibido escrever “kasher” na porta do seu restaurante se o rabinato não reconhecê-lo?) e diz quem é judeu e quem não é. E sabe o que mais eles fazem? Administram o Kotel.

O Rabinato é uma instituição pública (que se encontra até mesmo no exército), mas não é democrática. As correntes reformista e conservadora não têm espaço nessa instituição, quase que hegemonizada atualmente pelos ultra-ortodoxos (embora, anteriormente, esteve sob o controle dos nacionalistas-ortodoxos – leia meus dois textos sobre os judeus e o judaísmo em Israel aqui e aqui, se quiser entender melhor essa e outras divisões). Isso, claro, tem um motivo: os reformistas e os conservadores demoraram muito para apoiar o sionismo de fato, e até hoje, apesar de representarem a grande maioria do judaísmo na diáspora, em Israel são uma minoria quase que insignificante. Então quer dizer que em Israel a maioria é ortodoxa? Não, colega. A maioria é como eu: secular. Não pertence a nenhuma corrente. Alguns rezam um pouco, outros não rezam nada. Alguns acreditam em Deus, outros não. Alguns respeitam Shabat e comem kasher, outros vão à praia no sábado e comem salaminho. Alguns se identificam espiritualmente com o Kotel, outros não.

Meu caso é o segundo em todas as ocasiões citadas acima. Não sou menos judeu por isso, até porque judeu é substantivo. Seria como dizer que uma cadeira é menos cadeira que outra  (gracias pelo exemplo, companheiro Andy Faur). Eu poderia ser menos judaico, mas não é o caso. Sou menos religioso, sem dúvidas. Até porque não tenho religião. Mas sou judeu, sim, tal qual os ortodoxos. Minha identidade judaica não se define pela comida que como, por quantas vezes eu rezo ou por como eu me visto. Eu, portanto, pertenço ao grupo majoritário, aquele que não pertence a nenhuma corrente, e permitiu que os ortodoxos monopolizassem questões centrais da minha vida cotidiana. É isso mesmo.

Sabe quando a bancada evangélica quer tornar obrigatório o ensino de bíblia nas escolas públicas brasileiras, e você, cidadão laico, se opõe porque acha que a religião deve se manifestar no meio privado (aquela máxima: cada um faz o que quer com a sua vida, mas não obriga os outros a ser como ele)? É isso o que acontece em Israel. Há quatro anos, depois de muita pressão, o governo anterior (com o mesmo primeiro-ministro, mas sem os partidos ultraortodoxos na coalizão) cedeu às pressões dos judeus não ortodoxos, especialmente dos EUA, e inaugurou uma parte do Kotel (a parte mais ao sul, menos sagrada e dentro de um sítio arqueológico privado, mas quem se importa?) mista, onde poderiam entrar homens e mulheres, vestidos como bem entenderem. Lá as mulheres podem ler Torá, usar talit, e rabinos reformistas podem fazer bar-mitzvaot sem problemas. Isso não transforma o Kotel em um espaço público, está longe de resolver a questão.

O argumento dos falsos moderados para a criação deste “setor misto” é de que a reza e a vestimenta das mulheres desrespeitam os ultra-ortodoxos, e, portanto, o caminho mais razoável seria separá-los (claro, com a regra ultraortodoxa valendo na parte mais interessante do muro). O argumento é ridículo, convenhamos: como se a forma como alguém se veste pudesse me desrespeitar. Quanto à reza, pior ainda. Não há absolutamente nada em nenhuma fonte judaica que corrobora a proibição das mulheres de ler a Torá (o que, diga-se de passagem, não podem fazer nem na parte separada). Enfim, a medida não resolve nada, mas pelo menos dá um pouco de direitos aos grupos não ortodoxos. O governo ainda caminhava para outro progresso: reconhecer as conversões reformistas e conservadoras como legítimas (quase que forçado pela Suprema Corte de Justiça, diga-se de passagem), democratizando um pouco mais a relação entre judaísmo e Estado.

O problema é que no novo governo (comandado pelo mesmo Netanyahu), os ultra-ortodoxos têm mais voz que nunca. Conseguiram o maior orçamento público para as academias rabínicas da história do Estado de Israel (nem perguntem quanto recebem do Estado as academias rabínicas não ortodoxas), barraram o alistamento militar dos jovens ultra-ortodoxos (que avançava gradualmente), e, essa semana, barraram a Lei da Conversão e forçaram o governo a dar fim ao espaço misto no Kotel. Mostraram que o Estado judeu não é para todos os judeus, é só para uma parte. A merda foi tão grande que as duas das maiores organizações sionistas que atuam na diáspora, a Agência Judaica Para Israel e a Organização Sionista Mundial, divulgaram cartas com duras críticas à posição do governo Netanyahu, cancelando eventos em conjunto e deixando claro que a decisão é um atentado aos caminhos dos teóricos do Estado judeu e democrático. Isso nunca tinha acontecido antes.

Falo a verdade: ainda que o Kotel fosse aberto a todos, provavelmente não seria meu lugar preferido de visitas por conta das outras duas razões já explicadas acima. Eu poderia ficar quieto (como fica a maioria dos israelenses judeus seculares como eu), pois não me afeta diretamente. Mas o Kotel é um símbolo, muito mais do que o próprio muro. Hoje, o Kotel representa a força dos intolerantes, que não permitem que outras formas de expressão do judaísmo se manifestem no seu local mais significativo. Por isso, a luta pelo Kotel é a luta pela democracia em Israel, por um Estado que respeita todas as expressões de judaísmo. Eu entro na briga pelo Kotel, apesar de reconhecer que o Kotel não é para mim. É para todos. Para mim inclusive, se eu quiser.

Comentários    ( 2 )

2 comentários para “O Kotel não é para mim. É para todos.”

  • Rafael

    03/07/2017 at 03:48

    Quem disse que a maioria dos judeus da diáspora são reformistas ?

    Se amanhã um grupo de judeus resolver que querem rezar no kotel fazendo pilates, ou yoga…. devemos então abrir novos espaços pra eles ?

    • João K. Miragaya

      03/07/2017 at 06:09

      Ninguém disse nada sobre a maioria dos judeus da diáspora, mas a verdade é que o reformismo é, disparada, a maior corrente do judaísmo na diáspora (fo dizendo agora).

      Se a maioria dos judeus quiser rezar fazendo pilates ou yoga, não acredito que haja nenhum problema. Isso não divide o povo, não censura ninguém e não é ofensivo. No entanto, se alguém quiser rezar no Kotel xingando os outros, certamente deveria ser proibido. O Kotel é um espaço público, e deveria ser tratado como tal.

Você é humano? *