O lugar do fanatismo em Israel

Precisamos ser honestos: fanáticos possuem seu lugar em Israel.

Defino fanático o individuo que sabe o que é certo em todas as instâncias. Geralmente objetivam alcançar a “palavra de Deus” – e para uma missão tão sagrada – os fins sempre justificam os meios. São pessoas que não reconhecem a existência de uma opinião contrária a sua. Carregam consigo a única verdade existente. Não entenderam que rivalidades e disputas pertencem apenas ao jogo democrático, e o mais importante: possuem um profundo desprezo pela vida humana.

Eu nunca fui apresentado a Yosef Chaim Ben-David. Não faço parte de seu grupo etário e tampouco pertenço ao seu grupo social. Ele é um colono religioso que mora em Geva Binyamin, e eu sou um judeu laico que mora em Tel Aviv. Não compartilhamos da mesma ideologia, objetivos e valores. Entretanto, tal indivíduo é parte inseparável da minha vida. Da minha sociedade. Do meu povo.

Como judeu, israelense e sionista é difícil esquecer o crime que ele cometeu no dia dois de julho de 2014. Junto com seus dois amigos (menores de idade) queimaram vivo o jovem árabe Muhamad Abu Khdeir, de apenas 16 anos. Um crime tão absurdo que apenas reforça o sentimento de repugnância que sinto em relação aos fanáticos que estão entre nós.

Eu também não conheci os assassinos de Duma. Com muita franqueza digo que certamente não pertencemos ao mesmo grupo social, não compartilhamos a mesma ideologia, objetivos e valores. Entretanto tais assassinos são partes inseparáveis de minha vida. E ao que tudo indica, são parte da minha sociedade. Do meu povo.

Como judeu, israelense e sionista é difícil esquecer o crime que eles cometeram no dia 31 de julho de 2015. Ao arremessarem coquetéis molotov dentro da casa da família Dawabsheh, causaram o incêndio que causou a morte de uma criança de um ano e meio de idade, seu pai e sua mãe. Saber que o sobrevivente Ahmed Dawabsheh, de apenas quatro anos, está condenado a crescer sem a sua família aumenta consideravelmente a repulsa pela qual nutro pelos fanáticos que estão entre nós.

O ultimo mês em Israel deveria ser considerado um marco para o fanatismo judeu. Em questão de dias tivemos a sentença condenatória de dois participantes do assassinato do jovem Abu Khdeir e logo em seguida, Itzhak Gabay, um dos integrantes do grupo que incendiou a Escola Bilíngue em Jerusalém, foi sentenciado a três anos de prisão. Por fim, o inspetor geral da polícia Bentzi Sau, demonstrou otimismo em um possível esclarecimento do ocorrido em Duma, com a prisão de um suspeito de origem judaica. Uma coincidência impressionante que tais fatos sejam relembrados e estejam reunidos em um intervalo tão curto de tempo onde podemos observar bem de perto aquilo que há de mais terrível entre nós.

Então para que não reste dúvidas: do seio do nosso povo é possível observar o surgimento de pequenos grupos que possuem a ética e moralidade equivalente ao que há de pior no fundamentalismo de outros povos e religiões. E é claro: Ao contrário do que muitas vezes é divulgado, os organismos oficiais e instituições israelenses estão agindo de forma resoluta contra terroristas judeus. Obviamente fenômenos reacionários e assassinos também existem em outros países democráticos mas, neste caso, a angústia de muitos não é (nem deverá ser) considerado como qualquer tipo de justificativa ou entendimento.

Como judeu, israelense e sionista, não aceito sob nenhuma condição a ascensão da barbárie “made in Israel”. Eu esclareço: para mim, o tratamento de terroristas judeus deve ser equivalente a terroristas árabes. E isto significa aceitar a existência do terrorismo judeu e desejar que procedimentos e punições sejam similares, sem qualquer distinção ou tentativa de compreensão (como por exemplo, a demolição das casas dos envolvidos, a permissão para o uso de força em investigações policiais, impossibilidade de contato com advogados segundo a conveniência da instrução criminal, etc.).

Israel, é verdade, possui os seus fanáticos. Não pense que eles são loucos, doentes ou que atuam como “lobos solitários”. Este fenômeno está inserido dentro de um processo de incitação contínua e respaldo intelectual por partes de alguns setores nos movimentos nacionais religiosos. Em alguns casos são apoiados por organizações que, inclusive, possuem  representantes dentro do parlamento israelense. Neste último mês, ao menos, o país caminhou para reforçar a ideia de que a lei e as instituições indicam que o fanatismo é um caso de polícia e que o lugar de nossos fanáticos é – sem dúvida – a cadeia.

Foto de capa de Rodrigo Uriartt. Seu Flickr é https://www.flickr.com/photos/ruriak/.

Comentários    ( 9 )

9 Responses to “O lugar do fanatismo em Israel”

  • Mario S Nusbaum

    18/12/2015 at 16:19

    Marcelo, antes de mais nada, para que não haja nenhuma dúvida, compartilho totalmente da sua repulsa a esses malucos assassinos, NADA justifica esse tipo de comportamento. Prossigo.

    ” do seio do nosso povo é possível observar o surgimento de pequenos grupos que possuem a ética e moralidade equivalente ao que há de pior no fundamentalismo de outros povos e religiões.”
    Até aí, como você mesmo observou, isso acontece no mundo inteiro. A questão é porque o número desses radicais vem crescendo? Por que o Trump tem o apoio de tantos americanos? E a le Pen, por que tem tantos eleitores?

    ” Não pense que eles são loucos, doentes ou que atuam como “lobos solitários”. Este fenômeno está inserido dentro de um processo de incitação contínua e respaldo intelectual por partes de alguns setores nos movimentos nacionais religiosos. Em alguns casos são apoiados por organizações que, inclusive, possuem representantes dentro do parlamento israelense.”
    Para mim isso é consequência, mais do que esperada, da complacência com o terror. No caso de Paris e também no da Califórnia os terroristas deram várias pistas do que provavelmente iriam fazer e as autoridades não fizeram nada! Todo mundo sabia que Molenbeek era um centro do terror e ninguém fazia nada. Sobre o Obama então acho que não preciso falar nada, o politicamente correto dele (parcialíssimo) causa cada vez mais revolta nos americanos que não gostam de ser fuzilados.

  • Fábio

    18/12/2015 at 18:01

    Caro Marcelo:

    Concordo com tudo. Só substituiria:

    1) “equivalente” para “igual”. Nem tudo que é equivalente é igual. A mesma lei para todos os atos. Esse é um princípio legal. Equivalente pode ensejar subjetividades;

    2) Você escreve: “há de pior no fundamentalismo de outros povos”. Ainda estamos esperando um termo que designe os fanatismos radicais. Alguns traduzem do inglês, “islã político”, “judaísmo político” etc. Em português soa estranho e impreciso.

    Mas chamá-los de “fundamentalistas” é sob vários aspectos conceder a esses grupos (de qualquer religião) o reconhecimento de que “voltam” ou pregam algo que tem qualquer relação ao *fundamento* das religiões e culturas é uma quase legitimação e reconhecimento de que em algum tempo essas tiveram qualquer coisa próxima ao que eles pregam e tentam praticar.

    Eles não “voltam” a nada e estão absolutamente distantes dos *fundamentos* das religiões. O que fazem é deturpar a história, a religião e as tradições de suas religiões. São muito mais heréticos (e criminosos) do que zelam por alguma coisa, sob todos os aspectos.

    Com um abraço, Fábio.

  • Marcelo Starec

    19/12/2015 at 00:01

    Oi Marcelão,

    Muito bom artigo!…Concordo contigo…Sou totalmente contra qualquer tipo de complacência com o terror…Venha de onde vier…Se for árabe, judeu ou seja lá de onde vier – tem de ter punição igual – como aliás, diga-se de passagem, vem sendo feito em Israel !…Sim temos de ter a coragem de sempre punir os nossos, quando comprovadamente culpados – mas também falta a Israel, em meu entender, colocar-se com dureza contra o Abbas e todas as lideranças palestinas, a fim de que essas abandonem, definitivamente, o apoio ao terrorismo islâmico – Nada justifica um homem jogar o carro contra civis inocentes em um ponto de ônibus e ainda sair com um machado, utilizando-o contra os feridos nesse ato de terror – e depois um sujeito desses ainda ter uma rua em seu nome, uma “bolsa terrorismo” para a sua família dada pelo Abbas e por aí vai….Isso é inaceitável !…E atitudes do outro lado tem de ser cobradas, tanto por Israel quanto pelo mundo!…mas, independente disso, o terror em Israel tem de ser sempre duramente combatido – venha ele de onde vier, inclusive obviamente de judeus israelenses!…..

    Abraço,

    Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      19/12/2015 at 17:01

      Marcelo, repare que eu citei França e EUA como exemplos de complacência com o terror mas não Israel. O motivo é simples, estava esperando que algum de vocês, que moram aí, fizesse isso. Como você disse, é inaceitável!

  • Raul Gottlieb

    21/12/2015 at 12:45

    Fábio,

    Que tal Islamofascistas, judeufascistas, esquerdofascistas, etc.?

    Acho que define bem os grupos que têm como ideologia o totalitarismo e a supremacia de sua corrente de pensamento sobre as demais.

    Dos grupos que pregam a destruição física ou intelectual dos que pensam diferente.

    Dos grupos que antidemocráticos.

    Eu também não gosto do termo “fundamentalista” porque é certo que todos nós temos convicções que julgamos fundamentais. O problema começa quando não aceitamos a diversidade e a opinião dos outros.

    O que você acha?

    Abraço,
    Raul

  • Fábio

    21/12/2015 at 16:55

    Caro Raul, a turma passou a utilizar o termo “fascismos” para designar além do italiano, os demais regimes que surgiram mais ou menos inspirados no surgido em 1922. Minha opinião é de que o fascismo ou fascismos tem relação com um período específico da história, ali no entre guerras.

    Designar qualquer regime como fascista em período posterior ou anterior me soa anacronismo. Embora outros tantos regimes autoritários tenham reproduzido algumas das características do(s) fascismo(s).

    Não utilizo e não gosto do termo “totalitário” e “totalitarismo”. Me parece ser um termo impreciso que muitas vezes aparece como adjetivo em argumentos de natureza político-ideológica ou retórica.

    A dificuldade em classificar esses grupos (mal) chamados de “fundamentalistas” está nos problemas de tradução dos diferentes idiomas, me parece. “Islã político” ou “judaísmo político” traduzidos do inglês dão margem a uma confusão enorme.

    Espero que qualquer dia desses alguém inteligente produza uma obra brilhante que possa cunhar um termo que resolva essa indefinição.

    Com um abraço, Fábio.

  • Raul Gottlieb

    23/12/2015 at 08:11

    Então vamos esperar. Mas enquanto isto, podemos usar fascismo e totalitarismo, não é?

    • Fábio

      02/01/2016 at 04:08

      Caro Raul, eu não uso, mas se você se sente confortável utilizando esses termos, é possível buscar alguns argumentos para utilizá-los. As palavras se prestam ao debate e especialmente a ênfase. Dependendo onde é que esse debate esteja ocorrendo essa “adjetivação” poderá ou não ser criticada e se constituir em janela para respostas de cunho retórico. Assim me parece. Com um abraço, Fábio.

  • alice franca leite

    25/12/2015 at 19:12

    Acho que vocês estão cobertos de razão! A palavra FUNDAMENNTALISMO tm conotação ideológica e nãp tem a ver com atitudes sádicas tipo KKK nos EUA e onde for,nazi-facistas e perversões similares que ainda se vê e verá! Enquanto isso o PACIFISMO é perdido de vista e a Paz vai pro brejo,como se diz aqui no Brasil ,um país gerado nas UTOPIAS de Cristovam Colombo e sefaraditas expulsos da Ibèria de quem herdamos SANGUE e PRINCÍPPIOS de convívio.
    Sugestão de leitura:HEREGES de Leonardo Paduro sobre a saga de um judeu de Amsterdam do sé.XVI a nossos dias,,é imperdível e Paduro não é judeu mas é fraterno .Outro esquecido é um Prêmio Goncourt dos anos 1958…1954:um sionista francês e pacifista chamado André Svars=Bart que escreveu “O último justo” obra que me converteu à causa da Paz,do HUMANISMO que me traz a vocês,irmãos em esperança de dias melhores sem radicalismos…