O medo que precede o terrorismo

16/10/2015 | Conflito; Opinião

Israelenses não nascem com medo de palestinos e vice-versa. Não são seres inatos ou geneticamente programados para sentir repulsão. Os dois povos são criados em uma cultura de medo que tende a distanciá-los. E quando a distância não é a opção, a aproximação é feita com violência. Esse é o desenvolvimento patológico das culturas israelense e palestina. O medo que seus governantes e comunidades provocam delineam o comportamento hostil que marca o dia-a-dia dos dois povos.

Por medo, nós, seres humanos, evitamos, repelimos, nos distanciamos e nos tornamos intolerantes. Por medo, perdemos qualquer senso de empatia e naturalizamos a animosidade. Agimos de forma inconsequente e irracional. Essa é a expressão do medo que observamos atualmente entre israelenses e palestinos. Quando estimulado com frequência, o medo provoca desespero e, no longo prazo, a necessidade por uma solução. Os estímulos externos – o discurso de ódio, a reportagem manipulada, a conversa inflamada, a foto alterada, o vídeo enviesado – fomentam um medo que cresce com o tempo e conduz judeus e palestinos a tomarem “corajosas atitudes” para pôr fim a esse ciclo de desespero interno.

Obviamente, o medo poderia atuar de outra forma. Ele poderia ser um fator de curiosidade e entendimento; um motivo de busca pela solução pacífica daquilo que inquieta israelenses e palestinos como indíviduos que, como quaisquer outros, almejam apenas viver em paz. Mas esse tipo de comportamento racional é constantemente reprimido pelas culturas de ambos. Dentre os dois povos observa-se sem qualquer pudor o silenciamento do diálogo, a inversão do conceito de paz e a perda de qualquer esperança.

Além disso, a imensa maioria dos analistas insiste em descrever e explicar a atual situação em termos territoriais, religiosos, nacionalistas, políticos ou econômicos, esquecendo se tratar de indivíduos que vivem suas ansiedades e medos intensamente. Esses indivíduos não são meras expressões de “questões territoriais ou religiosas”. Suas atitudes inconsequentes são o resultado de um longo processo psicológico que consolidou o medo como traço de personalidade e viu na irracionalidade a salvação. A verdade é que por trás de atos de coragem há um medo reprimido que analistas políticos preferem não abordar.  

Obviamente, os elementos sociais são relevantes para o entendimento da situação, mas eles não explicam, por exemplo, a atitude de uma palestina de 17 anos que decide esfaquear um cidadão israelense em plena luz do dia ou a de um colono judeu que ateia fogo em uma casa onde vive uma família árabe. Há algo muito mais profundo do que “questões territoriais e religiosas”. Há uma patologia psicológica que não está sendo tratada. “O conflito”, como o entendemos, é mais do que um conceito brando a ser analisado estrategicamente. “O conflito” é também interno, alimentado no âmago da existência de israelenses e palestinos que convivem com seus ódios e desesperos diariamente.

Uma coisa é certa: árabes e judeus não se tornam terroristas da noite pro dia. Eles não agem de forma homogênea, como máquinas acionadas e programadas para causar caos. Eles são o resultado, cada um no seu mérito, de um contínuo condicionamento a sentirem medo um do outro. Eles são a manifestação do regime do medo e da insegurança que foi lentamente instaurado na região. Eles são, como colocou o filósofo Friedrich Nietzsche, humanos, demasiadamente humanos, por fazerem da sua humanidade um motivo para desumanizar.

A questão é como israelenses e palestinos foram condicionados a sentir tamanho medo? O que ocorreu ao longo dessas décadas que fez com que utilizassem a violência como recurso? Dar respostas claras a essas perguntas é uma tarefa complexa, mas consideremos o experimento realizado pelo psicólogo John B. Watson em 1920. No experimento, Albert, um bebê de não mais que um ano de idade, é colocado em um sala diante de observadores interessados em seu comportamento. Em um primeiro momento, Albert é exposto a diversos “estímulos” tais como um coelho branco, um rato, um pedaço de algodão e outro de madeira. Diante dos animais e dos objetos, o bebê não demonstra qualquer sinal de medo ou inquietude, apenas serenidade e calma. Em um segundo instante, os observadores liberam um alto som que assusta Albert de tal forma que o faz chorar. Conclui-se, portanto, que Albert apresenta reações contrárias a dois diferentes estímulos. No entanto, o psicólogo John B. Watson estava interessado na seguinte pergunta: Qual será a reação do bebê ao deparar-se com os animais que lhe provocavam serenidade junto com o alto som que lhe produzia um intenso medo? Para responder a essa pergunta, os observadores fizeram o seguinte: toda vez que os animais se aproximassem de Albert o alto som seria liberado. Dessa forma, o bebê passou a chorar diante da aproximação dos animais por temer o som. Pior, depois de algumas repetições, o som já não era mais necessário para provocar o medo – bastavam os animais (que antes lhe provocavam serenidade) para Albert começar a chorar. A conclusão da pesquisa é de que o bebê foi condicionado e teve um medo implantado artificialmente.

Deixemos de lado as questões éticas envolvidas e os questionamentos metodológicos sobre o experimento. Pensemos sobre as lições que podemos tirar dele. O que entendemos, no contexto de árabes e israelenses, sobre o condicionamento do medo e o comportamento dos indivíduos? O que é o “alto som” que provoca tanto medo nas duas sociedades e o que passou a ser temido que antes era motivo de serenidade e calma? O fato é que israelenses e palestinos acostumaram-se a entender um ao outro como motivo de medo – essa é a causa da distância, da repulsão e da violência. O “alto som” provocado pelos governantes de ambas as partes fomenta essa cultura da irracionalidade e das atitudes inconsequentes. A recomendação é o tratamento desse medo, pois é provável que israelenses e palestinos estejam perdendo belos dias de serenidade e calma.

 

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “O medo que precede o terrorismo”

  • Yonatan D. Knopf

    16/10/2015 at 16:41

    Kol hakavod! Excelente artigo! Finalmente leio palavras tão racionais a respeito do conflito. Gostei de seu ponto de vista sobre o medo individual de cada cidadão. Meu tio foi ano passado morar em Israel e diz que apesar de ser judeu fez muita amizade com palestinos, que diz ele, serem pessoas amigáveis e simpáticas. Com certeza pelo fato de não ser nascido em Israel, ele não tem esse medo enraizado.
    E novamente, parabéns pelo site, sentia falta de um conteúdo mais abrangente e interessante a respeito de Israel.
    Continuem sempre assim!

    • Mario S Nusbaum

      17/10/2015 at 01:49

      Yonatan, qual é a diferença entre o seu tio e os 5 estudantes americanos que foram salvo por um corajoso palestino de uma corja que ia lincha-los? Eles também não eram israelenses.
      Temo pelo que possa acontecer, se é que já não aconteceu, com Fayez Abu Hamdia, a mensch, a exceção que confirma a regra.

  • Marcelo Starec

    16/10/2015 at 21:50

    Oi Bruno,

    Muito bom o artigo!…Não tenho dúvida alguma de que o seu ponto é válido e você está com toda razão ao levantar essa questão dessa forma. Acho que o grande problema não são as pessoas, mas as lideranças, a educação para o ódio que recebem – enfim, há todo um “preparo”, de muitos anos, para se chegar a tal ponto. Eu apenas discordo de que ambos os lados estariam em, digamos, condições iguais. Em um lado, Israel, a população coexiste com uma grande comunidade árabe muçulmana desde 1948 ou antes (Claro que isso não elimina a existência de extremistas, tão ruins quanto os do lado de lá, mas são hoje poucos e vivem sob leis que os impedem de fazer o que bem entendem…). Do outro lado, há uma linha mestra que não admite tal coexistência (Não apenas dentre os palestinos – mas em todo o Oriente Médio de um modo geral !)…Assim, a “independência” de um Estado Palestino é normalmente vista como a expulsão de qualquer judeu que lá viva, como condição sine-qua-non…e isso é aceito!…Israel tem uma digamos “paz fria” com a Jordânia, mas ainda assim, até hoje, é proibido a um judeu tornar-se cidadão daquele país e o mesmo ocorre em Gaza e em tantos outros locais – e pelo jeito o Estado Palestino caminhará no mesmo sentido!…A educação para conviver com o diferente infelizmente não é igual dos dois lados!…Mas faço questão de colocar: Não é um problema de seres humanos – todos são, da mesma forma!…mas simplesmente da educação que recebem e das lideranças que tem – e nesse ponto os dois lados tem defeitos claro, mas não se igualam!

    Abraço,

    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    17/10/2015 at 01:43

    Sempre que leio um artigo parecido com esse, e tenho lido vários ultimamente, tenho a sensação de que perdi algo. Como é possível comparar, nesse aspecto, os dois povos? Os palestinos NUNCA demonstraram a mínima vontade de viver em paz com Israel. Desde 1948 vem tentando, de todas as formas possíveis, destruir o país.
    Desculpe Bruno, mas os dois medos não são equivalentes. Compare a proposta feita em Taba com o que os palestinos DIZEM querer e vai entender meu ponto de vista

  • Mauricio Peres Pencak

    18/10/2015 at 10:53

    Pensei que era o único a ter essa impressão, mas vi em outro comentário o mesmo sentimento. Alguém distraído ou com conhecimento superficial do conflito, ao ler o artigo, colocaria um sinal de igualdade entre as partes.
    Israel é uma sociedade democrática, plural e convive com as diferenças, apesar de todas as tensões daí derivadas.
    As iniciativas de mútua coexistência com árabes que se intitulam palestinos tem por origem sempre o lado judeu.
    A contrapartida do lado árabe-muçulmano é uma política permanente de incitação ao assassinato, atentados e destruição. E tanto faz se são chefes religiosos ou seculares .
    Não existe abordagem “neutra” desse confronto.

    • Mario S Nusbaum

      18/10/2015 at 13:46

      “Não existe abordagem “neutra” desse confronto.”
      Pois é Mauricio, seria o mesmo que se declarar neutro entre a justiça e a injustiça, a maldade e a bondade.

Você é humano? *