O melhor da TV

19/07/2017 | Cultura e Esporte

O melhor programa jornalístico de TV do mundo é israelense e se chama London & Kirschenbaum. Eu desejo a todos meus amigos e conhecidos de fora de Israel que possam um dia ter algo parecido com esta dádiva, uma verdadeira benção ao telespectador.

Yaron London e Moti Kirschenbaum são dois senhores, jornalistas respeitadíssimos, que há mais de 10 anos conduzem este programa diário de entrevistas no Canal 10. Escrevi em tempo presente porque ficava mais fácil de explicar, mas Kirschenbaum morreu repentinamente em 2015, e ainda não mudaram o nome do programa—e nem vão mudar!! Mexer no nome desta instituição televisiva daria mau agouro para sete gerações.

Desde então, Yaron London às vezes apresenta o programa sozinho, às vezes chama outros jornalistas e, às vezes até mesmo algum colega seu de Canal 10 apresenta em sua ausência. Sem menosprezar o pedigree jornalístico de London, o importante mesmo do programa é o formato.

Exemplo.

No dia 6 de julho de 2017, o (excelente) jornalista israelense Nadav Eyal apresentou o programa sozinho. Começou entrevistando Yair Lapid, líder do partido de centro Yesh Atid, figura mais importante da oposição israelense e, por enquanto, única pessoa com alguma chance de vencer Netanyahu nas próximas eleições.

A entrevista foi um show. Troca de idéias rápida, cheia de interrupções, como apenas os israelenses sabem fazer. Eyal não convidou Lapid para dar-lhe uma plataforma. Ele apertou o político de todos os jeitos com respeito à onda de doutrinacao religiosa das escolas públicas, processo conduzido pelo ministro da educação Bennett, bróder do Lapid na última coalizão. (Os dois se juntaram nas negociações de formação da coalizão, após as eleições de 2013)

Depois, foi a vez de debater a visita de Trump à Polônia com o correspondente especial nos EUA. Mais tarde, uma israelense de origem indiana participou do segmento que falava sobre a visita do primeiro-ministro da Índia a Israel, também nesta semana. Ainda convidaram um árabe-israelense para falar da nova iniciativa de incluir mais árabes na força de polícia de Israel, e fecharam o programa com a Parashat HaShavua, porção semanal da Torá, onde o comentarista convidado combinou análise bíblica com a crise de eletricidade de Gaza.

Deixei de lado vários outros assuntos, vocês já entenderam a ideia.

Por que eu acho este programa um presente dos deuses do Olimpo? Porque as notícias não são apresentadas como uma série de fatos que jorram da boca do âncora, que supostamente tem idoneidade e integridade jornalística. As notícias são apresentadas de uma forma mais próxima da realidade, como um debate entre indivíduos, onde os apresentadores ora fazem papel de advogado do diabo, ora riem com os entrevistados, e frequentemente terminam um segmento sem conclusão definida. A realidade é complexa, o debate seguirá rolando da próxima vez, amigo telespectador.

Um grande motivo de orgulho provinciano é que o meu amigo e colega de Conexão Israel, Gabriel Paciornik, já foi duas vezes entrevistado neste programa, para falar sobre o Brasil. Que inveja louca, eu me imagino sentado ao lado de Yaron London, morrendo de medo de falar uma besteira do lado desta lenda viva. Vejam abaixo o clipe (minuto 24).


Para o vídeo poder ser visto, o bloqueador de propagandas deve ser momentaneamente desativado.

Gabriel conta:

“Fui, nas duas vezes, para falar de assuntos que entendia muito pouco. Não tenho experiência alguma com televisão ao vivo, mas, depois que fui convidado, só pude dizer: SIM! Yaron London sempre foi um dos meus heróis — passar vergonha em cadeia nacional para conhecer ele pessoalmente? Bobagem! Já passei vergonha por menos. Contei para ele e ao repórter que me chamou o quanto o programa é importante para mim, o quanto eu tiro de material dele para escrever minhas análises, e que é um prazer retornar o favor — só não disse que entendo pouco do que me chamaram para falar lá. Que se arrependessem depois!”

[Entre a escrita deste texto e sua publicação (questão de uma semana), o Gabriel conseguiu ser convidado de novo ao programa, desta vez para falar da condenação do Lula. Onde há “2 vezes”, leia-se 3 vezes.]

Na era do fake news, jornalismo impresso capengando, isolamento de opinião nas redes sociais, tudo o que eu quero é assistir um programa que me trate como um adulto, e que às vezes (apenas às vezes) me mostre algo que eu não queria nem saber a respeito, mas agora que já vi, concordo que é importante.

Dos dois fundadores, London e Kirschenbaum, um já morreu, e o programa se mantém com o mesmo nome. Jogada inteligente. Um dia, quando o patriarca Yaron London também se for (até os 120!), o cajado vai passar para a mão de outros, se Zeus quiser.


Imagem de capa: By Hanay, CC BY-SA 3.0, Link.