O Messias chegou. E se chama Moshe

28/03/2015 | Economia.

O novo ministro da Fazenda chama-se Moshe Kahlon, membro do recém-criado partido Kulanu. Apesar de não ter sido anunciado oficialmente, praticamente não há chances de que não seja ele que venha a ocupar este cargo.

A segurança da minha previsão, para um posto que deveria ser tão disputado, mostra uma interessante característica do processo político que marcou estas eleições.

Kahlon conseguiu um feito incrível durante a sua campanha: postulou-se a um cargo específico no governo, antes mesmo de saber os resultados das eleições.

Esta foi, sem dúvida, uma jogada de mestre do candidato. Veja abaixo, sua propaganda durante a campanha eleitoral.

Kahlon para Ministro da Fazenda, uma vitória para mim
Kahlon para Ministro da Fazenda, uma vitória para mim

Kahlon tinha motivos suficientes para acreditar que sua estratégia de demandar um cargo, antes mesmo da formação do governo, tinha tudo para  dar certo.

Primeiro, porque a imagem dele como ministro da Fazenda agradava a todos os setores da sociedade, já que seu maior feito político beneficiou a população como um todo, sem distinção de classe, religião ou etnia.

No ano de 2011, como ministro das Comunicações, Kahlon quebrou o oligopólio formado pelas três principais companhias de telefones celulares, que controlavam 95% do mercado. Os preços caíram drasticamente.

Para se ter uma idéia, no fim de 2010, a Cellcom, principal empresa de telefonia do país, vendia seu plano de chamadas e mensagens ilimitadas por 149 shekels, sem internet (exigia-se pagamento adicional). Hoje, a mesma empresa oferece o mesmo plano, com 6 giga-bytes de internet, por apenas 69 shekels. (cerca de 55 reais atualmente) Outras empresas, oferecem o mesmo serviço por apenas 49 shekels (cerca de 40  reais). Uma verdadeira revolução.

Segundo, porque mesmo que a União Sionista tenha postulado o argentino Manuel Trajtenberg para o cargo de ministro da Fazenda (Clique aqui para conhece-lo melhor) caso vencessem as eleições, Moshe Kahlon sabia perfeitamente que seria muito improvável que o bloco da esquerda conseguisse formar um governo sem a participação do seu partido. E por isso, deixou claro o preço do seu apoio.

O bloco da direita já contava com o apoio de Kahlon; seu partido pode ser definido como centro-direita no mapa político israelense. O anúncio, duas semanas antes das eleições, de que Benjamin Netanyahu convidaria Kahlon para ser seu ministro da Fazenda caso fosse eleito, apenas confirmou este prognóstico[ref]http://elections.walla.co.il/item/2837819[/ref].

A única coisa que faltava para Kahlon era garantir um numero mínimo de mandatos que fosse suficiente para torná-lo relevante na formação de uma coalizão. Suas dez cadeiras fizeram o serviço.

Como resultado de todo este processo, poucas vezes um ministro entrou no governo com tanto respaldo político, como no caso de Moshe Kahlon. Sua responsabilidade é enorme, e ela vem acompanhada de uma grande esperança de reformas estruturais na economia do país.

Seus dois principais desafios são claros: reduzir o preços dos imóveis e combater os altos custos de vida.

Ao que tudo indica, será lançada uma guerra contra os oligopólios. Apenas para ilustrar a situação, apresento alguns exemplos de mercados oligopolistas em Israel.

Os dois maiores bancos, Leumi e Hapoalim, detém o controle de 60% do mercado [ref]http://www.themarker.com/markets/1.2435764[/ref]. No mercado de seguros, apenas três companhias tem um “market share” de mais de 70% das principais modalidades: saúde, vida e fundos de pensão.[ref]http://www.globes.co.il/news/article.aspx?did=1000961582[/ref]. Na indústria alimentícia, apenas cinco empresas controlam 44% do mercado em Israel[ref]http://www.globes.co.il/news/article.aspx?did=1000667676[/ref]enquanto no Canada, por exemplo, as cinco líderes controlam apenas 16%. Veja a tabela abaixo:

Do lado esquerdo, a concentração do indústria alimentícia em Israel. O G-5, soma do “market share” das 5 maiores empresas chega a 44%. No Canada (a direita) este índice fica em apenas 16%.

Se tiver força política para abrir estes mercados, Kahlon dará um grande passo para reduzir os custos de vida da população. Vale notar que Kahlon exige, além do posto de ministro da Fazenda, outros importantes cargos no governo, como a Comissão Orçamentária e a diretoria da Administração de Terras de Israel. Ou seja, ele quer ter certeza de que estará presente em áreas fundamentais para a implementação de suas reformas.

Seu antecessor, Yair Lapíd, também havia recém fundado um novo partido nas últimas eleições, focando no mesmo público e fazendo promessas similares. Lapid ocupou o mesmo posto no último governo, mas não obteve sucesso.

A diferença neste caso,é que Kahlon conhece bem o ambiente político israelense, tem experiencia como ministro do governo, além de um bom trânsito com os demais partidos.

Em meu artigo “Israel é um país desenvolvido?” discuti a questão dos desafios que Israel tem pela frente para superar a desigualdade social, combater a pobreza e reduzir o alto custo de vida. Apontei a necessidade de um “messias” capaz de levar adiante reformas estruturais, capazes de solucionar estes problemas.

De fato, estas reformas demandam um alto custo político e terão a oposição de um forte lobby por parte de “players” poderosos e influentes na sociedade israelense.

A ampla aceitação de todos os partidos, o apoio popular e o sucesso em combater o oligopólio dos celulares deram a Kahlon um status muito diferente do obtido por seus antecessores.

O “Messias” chegou. Resta saber se o povo (e principalmente a elite) está preparado para as mudanças que ele pretende fazer.

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “O Messias chegou. E se chama Moshe”

  • Raul Gottlieb

    28/03/2015 at 10:56

    Não há nada de surpreendente no fato de que a abertura do mercado provoca melhores preços e melhores serviços, não é mesmo, Amir?

    Segundo a minha atual esposa, que acabou de voltar de Israel, todos os motoristas de taxi que ela contratou disseram que iam votar no Kahlon por conta da queda brutal em suas contas de telecomunicação.

    Enquanto isto a esquerda garante que vai alcançar um grau maior de bem estar e de riqueza regulando e engessando o mercado.

    E ainda não entende porque perdeu a eleição.

    Abraço, Raul

  • Marcelo Starec

    28/03/2015 at 21:15

    Oi Amir,
    Gostei muito do seu artigo!….O Kahlon parece ter entendido uma forte demanda da sociedade israelense, no sentido de obter um melhor nível de vida para a sua população e a maior concorrência, via de regra, produz esse efeito, em maior ou menor grau…

    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    28/03/2015 at 21:20

    Considerações políticas e ideológicas a parte, Israel é MUITO pequeno, me parece lógico que tenha bem menos empresas que o Canadá, segundo maior país do mundo.

    Na Bélgica por exemplo, This is a list of supermarket chains in Belgium. As of 2011, in Belgium three major groups form more than two thirds of the market:
    Setor bancário: The Belgian banking sector is dominated by four large banking joint stock companies,

    • Marcelo Starec

      29/03/2015 at 21:34

      Oi Mário,
      Discordo, em parte, dos seus argumentos. Toda essa ideia tem a ver com uma antiga teoria da economia de escala, ou seja, de que os custos fixos, tais como maquinário, administração etc. exigiam da empresa que esta possuísse um mercado grande o suficiente para ser viável. Ocorre que, com as mudanças tecnológicas que o mundo vem sofrendo, essa teoria cada vez menos se justifica. O próprio Kahlon provou isso em Israel na área de telefonia, área essa que sempre foi usada como um dos principais exemplos que justificaram que o país tivesse um monopólio do setor para que este possa se desenvolver. É claro que tudo isso deve ser reavaliado, de tempos em tempos, para se chegar a um equilíbrio entre o que é necessário para não tornar inviáveis as empresas e o que é uma mera vantagem que permite a empresa praticar preços maiores do que os necessários. Um bom exemplo foi dado no texto: “Para se ter uma ideia, no fim de 2010, a Cellcom, principal empresa de telefonia do país, vendia seu plano de chamadas e mensagens ilimitadas por 149 shekels, sem internet (exigia-se pagamento adicional). Hoje, a mesma empresa oferece o mesmo plano, com 6 giga-bytes de internet, por apenas 69 shekels. (cerca de 55 reais atualmente) Outras empresas, oferecem o mesmo serviço por apenas 49 shekels (cerca de 40 reais). Uma verdadeira revolução.”
      Um abraço,
      Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      30/03/2015 at 15:47

      Bom dia (aqui no Brasil) Marcelo! Concordo com o que você escreveu, principalmente com ” É claro que tudo isso deve ser reavaliado, de tempos em tempos, para se chegar a um equilíbrio entre o que é necessário para não tornar inviáveis as empresas e o que é uma mera vantagem que permite a empresa praticar preços maiores do que os necessários. ”
      Só faço uma ressalva: o custo da telefonia (telecomunicações em geral e computação principalmente) despencou no mundo inteiro, independentemente do modelo econômico, tem a ver com tecnologia. De resto, como eu disse, concordo, e temos (povos e países) que ficar sempre atentos para não descambar para nenhum dos extremos. Aqui por exemplo o Lula inventou a tal criação de campeões nacionais. Claro que o único objetivo era roubar, mas mesmo que não fosse, tratava-de algo inviável. Um abraço e uma ótima semana.

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