O #mimimi do High-Tech

Não é de hoje que as empresas israelenses de tecnologia se destacam. Histórias vencedoras, como as da irrigação por gotejamento e do mensageiro ICQ, populam há décadas os vídeos de divulgação que o governo prepara para o mundo, além das infinitas correntes de emails que aquele seu único tio que ainda usa email sempre envia.

Mas estas empresas não disputam apenas o mercado global com as concorrentes de seus respectivos setores, há também a guerra pelo talento. Bons programadores, designers, analistas e gerentes de projetos são flertados, conquistados e roubados neste ambiente bastante dinâmico, que envolve as empresas israelenses, as filiais locais das grandes multinacionais e ainda atraentes oportunidades de emprego nas charmosas capitais europeias e nas grandes cidades norte-americanas.

Reter esta mão-de-obra qualificada e competente não é moleza. O setor de alta tecnologia (que os israelenses chamam de high-tech com um sotaque que faz soar mais pra aitek) já paga salários bastante superiores ao resto da economia, e às vezes um aumento não é suficiente para manter alguém que está sendo lisonjeiramente cortejado.

No mundo tradicional, as empresas costumavam oferecer um telefone corporativo, um carro com combustível pago, mais um ou outro mimo. Mas estes são benefícios tediosos, e as empresas de high-tech já dobraram esta esquina há muito tempo. De uns anos para cá, o objetivo é criar um ambiente onde o trabalhador se sinta mais em casa, onde possa até fingir que não acorda toda manhã e passa o dia longe dos filhos apenas pelo dinheiro. E a empresa pode oferecer tantos benefícios que parece que seu principal objetivo é tornar a vida do funcionário mais simples e divertida.

No meu escritório, por exemplo, todos trazem seus cães, há café-da-manhã e jantar, além de uma cozinha por andar, repleta de todo tipo de comida (frutas, verduras, biscoitos, leite e uma variedade infinita de sucrilhos) e um barista disponível das 9 às 20 para preparar o café do jeito que você mais gosta. Há uma pequena lojinha com fliperama, cabine de fotografia, sofás, livros e revistas. E por um preço camarada, você ainda pode cortar o cabelo, fazer as unhas, mandar roupa à lavanderia e consertar sua bicicleta, entre outros pequenos serviços para os quais ninguém nunca tem tempo.

Naturalmente, esta realidade resultou em uma geração de jovens trabalhadores mimados, prontos para reclamar dos mais insignificantes detalhes. Com muita ironia, estas reclamações (e outras tantas situações que poderia gerar reclamações similares) começaram a ser catalogadas em uma página do Facebook chamada “Probleminhas no High-tech”, cujas postagens traduzirei abaixo.

"Não tem muitas barraquinhas de sorvete. Meu waffle belga tá começando a esfriar"
“Não tem muitas barraquinhas de sorvete. Meu waffle belga tá começando a esfriar”
"Acabou o tomate e não tem cebola pro omelete do café-da-manhã"
“Acabou o tomate e não tem cebola pro omelete do café-da-manhã”
"A mesa de ping-pong nova fica muito perto da máquina de sorvete"
“A mesa de ping-pong nova fica muito perto da máquina de sorvete”
"Mas porque não tem canudo?"
“Mas porque não tem canudo?”
"O protesto deu certo e trouxeram canudos. Mas são muito finos"
“O protesto deu certo e trouxeram canudos. Mas são muito finos”
"O bar de sucos atrapalha o acesso ao Xbox"
“O bar de sucos atrapalha o acesso ao Xbox”
"Colocaram bicicletas pra facilitar a locomoção entre os prédios da empresa, mas não são elétricas"
“Colocaram bicicletas pra facilitar a locomoção entre os prédios da empresa, mas não são elétricas”
"A sujeira no vidro está estragando o pôr-do-sol"
“A sujeira no vidro está estragando o pôr-do-sol”
"Não trouxeram limão pra Corona"
“Não trouxeram limão pra Corona”
"A TV nova atrapalha quando eu me balanço na rede"
“A TV nova atrapalha quando eu me balanço na rede”
"Organizaram um Dia de Meditação, mas não tem sombra pra todo mundo"
“Organizaram um Dia de Meditação, mas não tem sombra pra todo mundo”

 

Por fim, quatro posts que compõem uma verdadeira novela:

"Deixaram os presentes de Pessach esperando nesse sol"
“Deixaram os presentes de Pessach esperando nesse sol”
"O presente que eu escolhi é grande demais, devia ter escolhido o Nespresso"
“O presente que eu escolhi é grande demais, devia ter escolhido o Nespresso”
"Distribuíram o presente justo no dia que eu não vim de carro"
“Distribuíram o presente justo no dia que eu não vim de carro”
"Todas as cápsulas são me mesmo sabor"
“Todas as cápsulas são do mesmo sabor”

 

Comentários    ( )

One Response to “O #mimimi do High-Tech”

  • Raul Gottlieb

    25/07/2016 at 23:04

    Oi Claudio,

    Adorei a frase “onde possa até fingir que não acorda toda manhã e passa o dia longe dos filhos apenas pelo dinheiro”.

    Me passou pela cabeça a imagem do nosso antepassado comum, Amram ben Yochanan, passando os dias de sol a sol nas montanhas de Yehudá, correndo atrás das suas cabras para garantir o sustento da família. Realmente, o mundo mudou muito! Antigamente ninguém trabalhava apenas pelo dinheiro. A galera tinha amor às cabras…

    Em seguida lembrei da anedota do ex-PM Shimon Peres em visita ao porto de Haifa. Ele foi saudado com uma faixa; “Financiamento barato para automóveis ou greve geral”. Um ano depois, numa nova visita, tendo passado a lei do financiamento barato, ele encontrou outra faixa: “Estacionamento gratuito ou greve geral!”. Este pessoal do hi-tech é muito mimado mesmo.

    Abraço,

    Raul

    PS – As historinhas são bem engraçadas, mas o foco no pessoal que trabalha pensando só em dinheiro e na “novidade” das exigências crescentes do ser humano com relação ao seu bem estar, me pareceu esquisito.