O orgulho gay de Jerusalém

Na quinta-feira, dia 1, aconteceu a 12a Parada do Orgulho Gay de Jerusalém. E, como não podia deixar de ser, em Jerusalém a Parada é bem diferente das do resto do mundo. Eu brinco com os amigos que é o evento mais hétero e menos animado que existe, mas o mais importante.

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Pra começar, para entrar no Parque da Independência, onde começa a concentração, todos são revistados e ganham uma pulseirinha de identificação. Dentro do parque há um mini palanque, onde representantes dos diversos setores do movimento gay fazem pequenos discursos. Um tradutor de linguagem de sinais traduz simultaneamente todas as falas. Gays, lésbicas, transexuais, bissexuais, transgêneros, todos mandaram suas mensagens. Um dos líderes lembrou dos que não podiam estar ali: pessoas que não saíram do armário porque o preço a se pagar é muito caro, os que não conseguiram chegar até Jerusalém por questões financeiras, palestinos que não passaram nos check-points.

A apresentadora, uma drag-queen, lembra à todos, como uma boa iídiche-mame[ref] a caricata mãe judia[/ref], que o sol está forte e devemos beber água para não desidratar. E que há uma urna aberta recebendo sugestões para o tema do próximo ano: casamento, direito de doar sangue, etc.

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Tradução simultânea para linguagem de sinais

O tema deste ano foi “Queremos Mudanças”, numa menagem aos membros da Knesset para que aconteçam mudanças na política do governo em relação à comunidade LGBT, especialmente em termos de igualdade nos direitos para os casais homossexuais.

O público, composto de gays e héteros, homens, mulheres, transgêneros, representantes dos partidos de esquerda com bandeiras – e para minha supresa o Likud – movimentos juvenis, ONGs, aplaude e espera a hora da marcha começar.

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Olim Chadashim

Outra diferença é a cara de protesto. Nada de trios-elétricos ou carros de som em clima de festa. As pessoas caminham em seus grupos políticos, cada qual com seu megafone e suas bandeiras. De um lado o Hadash, partido comunista Árabe-Judeu exigindo Justiça Social, e três passos a frente o grupo LGBT Olim, grupo de apoio aos novos imigrantes que fazem parte da comunidade LGBT, com um ótimo cartaz escrito em Inglês: We are queer and we moved here!

O trajeto até a Kenesset é todo monitorado pela polícia, com policias e grades por todos os lados. Em Israel, qualquer manifestação com mais de 50 pessoas precisa de autorização policial, e no passado aconteceram ataques de ultra-ortodoxos, alguns violentos. Em 2009 dois jovens foram assasinados em um centro de apoio gay em Tel Aviv.

Na metade do caminho começamos a sentir um cheiro muito desagradável. Todos começam a olhar seus sapatos pensando que tinham pisado em alguma coisa, até que chegamos em uma área que foi isolada pelos organizadores. Algum intolerante havia jogado uma espécie de bomba-fedorenta. Não consegui identificar se eram de fato fezes ou lixo, mas o cheiro era insuportável. Mas passamos, e foi um único incidente.

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Cena triste: a parte isolada da rua por causa da intolerância.

Chegando na Kenesset um grupo de gays observantes, de kipá e tzitzit, cantam e dançam músicas religiosas. Uma das policiais comentou conosco: que bonito ver isso aqui. Nesse canto do mundo onde intolerância e violência acabam sendo questões quase corriqueiras do dia-a-dia ela tinha razão. Que bonito.

A Knesset
A Knesset

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