O país da água

15/05/2014 | Ciência e Tecnologia

Como Israel venceu um dos seus maiores desafios e transformou-se em uma nação com excesso de recursos hídricos?

Uma fonte de problemas políticos e econômicos

Desde antes da criação do Estado, a questão do abastecimento de água esteve na pauta de prioridades das lideranças sionistas. Um dos motivos da criação dos livros brancos na época do mandato britânico, que restringiam à imigração de judeus a terra de Israel na época do Ishuv, foi o relatório escrito pelo expert em agricultura, Sir John Hope Simpson, que apontava para um gargalo no suprimento de água na região, impedindo assim qualquer aumento populacional, sob pena de uma total escassez de recursos hídricos para seus habitantes.

A apreensão apenas se intensificou após 1948. Em menos de dez anos, a população do país mais do que duplicou e a falta de suprimento de água figurava entre os principais desafios do recém-criado estado.

O tempo passou, mas o desafio continuava. O desenvolvimento agrícola restringia-se de acordo com as possibilidades do país – a escolha do tipo de produto agrícola dependia da quantidade de água necessária para o seu plantio. A disputa pelos recursos hídricos serviu de fonte de atritos políticos tanto com a Síria, como com a Jordânia. Inclusive, a disputa pela água do rio Jordão foi um dos principais motivos causadores da Guerra dos Seis Dias. Ou seja, a água era tanto um problema estratégico interno que limitava o desenvolvimento econômico, como uma fonte reincidente de atritos com os países vizinhos.

imagem kineret
O lago Kineret

Se a demanda aumenta…

Sir John Hope Simpson tinha razão em dizer que o aumento da demanda tornaria inviável a questão hídrica no país, mas ele errou em acreditar que a oferta de água se manteria estática.

Havia espaço para novas fronteiras tecnológicas. A revolução teve origem na utilização de duas novas fontes de água não consideradas previamente: a água tratada do esgoto e a água proveniente do processo de dessalinização.

O gráfico 1 nos mostra a evolução da quantidade de água tratada por esgoto (reutilizada para fins agrícolas) e a água obtida por meio do processo de dessalinização em 1990, 2000, 2010 e 2011.

 grafico1

Por falta de dados mais detalhados para todas as categorias, não expus as quantidades atuais, mas estima-se que em 2013, as plantas de dessalinização já detém o potencial de produzir 505 milhões de metros cúbicos (mais que o dobro do que está apontado no gráfico para o ano de 2011). Uma revolução. O avanço tecnológico se deu por conta de um grande investimento do governo em plantas de dessalinização, mesmo quando estas ainda eram economicamente inviáveis.

Na última década, beneficiados pela descoberta de campos de gás natural – fato este que torna menos custosa a produção de água por este método, reconhecido por seu altíssimo consumo de energia – os israelenses passaram a contar com uma fonte segura de abastecimento. Estima-se que o custo baixou de $1 por metro cúbico para $0.40, ou até menos nas plantas mais modernas.

Paralelamente, Israel criou um esquema de tratamento de água de esgoto para fins agrícolas que está entre os mais desenvolvidos do mundo. Como pode ser visto no gráfico 2, a partir de 2011 o uso deste tipo de água foi maior que o uso de água doce na agricultura. A utilização deste recurso tem dois benefícios simultâneos: introduz uma nova e importantíssima fonte de água para o país e reduz a necessidade do uso de fertilizantes, já que a água reciclada já contém diferentes nutrientes que ajudam no enriquecimento do solo.

grafico2

As consequências

Da mesma forma que no campo político, a questão da água passou de motivos de guerra para a assinatura de acordos de paz com os jordanianos, a receita pode repetir-se agora que Israel goza de um saldo de recursos. Este superávit pode ser uma importante moeda de troca em uma região em que a água ainda é escassa e disputada. Se não diretamente, a elaboração de projetos de cooperação em conjunto com países vizinhos pode vir a ser um fator essencial na criação de uma utópica (hoje em dia!) integração regional.

Gráfico 3 – Variação do nível da água do lago Kineret

A linha vermelha de baixo representa o limite inferior: o momento de preocupação do israelense
A linha vermelha de baixo representa o limite inferior: em 2009 atingimos o nível mais baixo da história

Enquanto isso, a população segue observando atentamente o nível de água do lago Kineret (gráfico 3). Anos de poucas chuvas são marcados por apreensão, enquanto anos chuvosos ainda são comemorados. A cultura por aqui continua a mesma, seja por desconhecimento, seja por tradição.

Particularmente, não acredito que a população mudará seu comportamento, já que esta cultura de valorização dos recursos hídricos passou a ser uma marca da sociedade – ela está enraizada no pensamento do israelense.

Mas mais importante que isso, a história da água apresenta uma característica ainda mais marcante desta sociedade. Característica esta que foi a responsável pela idealização, criação e segue hoje sendo um pilar básico da continuação deste Estado: a exímia capacidade de transformar desafios em oportunidades.

Fontes:

http://www.haaretz.com/news/national/1.570374

http://www.water.org.il/

http://www.mekorot.co.il/HEB/WATERRESOURCESMANAGEMENT/CONSUMEDATA/Pages/default.aspx

http://www.mekorot.co.il/Heb/articles/Pages/Kinneret.aspx

www.cbs.gov.il

Livro de ouro da agricultura e colonização – Editado pelo jornal Maariv, 2012

 

Comentários    ( 9 )

9 comentários para “O país da água”

  • Ricardo Arcanjo

    16/05/2014 at 16:29

    Ano passado participei de um seminário sobre planejamento e inovação agrícola em Israel (Programa Mashav) e um dos temas que mais me chamou a atenção foi a gestão de recursos hídricos. O sistema israelense de tratamento e reuso de águas para agricultura é fantástico!

  • Mario S Nusbaum

    16/05/2014 at 17:19

    Enquanto isso “nossos” políticos conseguiram produzir escassez no Brasil, um dos países com maior disponibilidade de água do mundo!

  • Marcelo Starec

    17/05/2014 at 08:16

    Oi Amir,

    Muito bom o artigo!…Com certeza, a gestão de recursos hídricos é uma das diversas áreas em que Israel pode servir de exemplo e auxiiar, tanto os seus vizinhos quanto diversos outros países, inclusive o Brasil.

    Abraço,

    Marcelo. .

  • Mauricio Peres Pencak

    18/05/2014 at 14:57

    Parabéns pela excelência do artigo!

  • Rafael Stern

    21/05/2014 at 23:59

    Vale lembrar que o rio Jordão Inferior (que saia do lago Kineret e chegava ao Mar Morto), antes um rio caudaloso, não passa hoje de um pequeno canal de esgoto. Israel só libera um pouco de água do Kineret na represa de Degania para não fechar por completo o sítio de visitação turística de batismo do Jesus, pois Israel precisa do turismo cristão. O Jordão Inferior é sustentado, principalmente, pelo esgoto de Israel, Jordanianos e Palestinos (boa parte desse esgoto, sem tratamento).
    Durante muitos meses do ano, o rio não atinge sua foz, o Mar Morto, que está secando num ritmo muito acelerado. Será que as tecnologias de uso da água vão permitir que um dia o rio Jordão volte a fluir novamente? Ou será que todo o excedente de água será utilizado na agricultura, e Israel vai aumentar suas exportações? Onde já se viu, um país desértico exportando insumos agrícolas? A agricultura teve seu papel no estabelecimento de um mito fundador para o país, mas isso veio às custas de um impacto ambiental gigantesco. Estamos dispostos a abrir mão do rio Jordão e do Mar Morto? Ou vamos recorrer a mais uma solução tecnológica megalomaníaca, o canal Mar Vermelho-Mar Morto, com um custo estimado de US$ 10 bilhões, diversos impactos ambientais ao frágil ecossistema da Aravá, e resultado desconhecido quanto à mistura de duas águas de composição tão distintas?

  • Rebeca Daylac

    04/06/2014 at 19:24

    Excelente artigo Amir!!!

  • Marcelo Starec

    09/02/2015 at 01:38

    Oi Amir,
    Aproveito a oportunidade para lembrar que Israel vem auxiliando países como a Índia e a China, bem como vários outros, inclusive países pobres da África, a solucionar, de modo eficiente e eficaz, a questão da água…´
    Abraços,
    Marcelo.

  • Vivian Mau

    22/11/2015 at 18:54

    Faltou falar sobre o controle da demanda, que também é importante. Os 2 principais foram no uso agricola e domestico.
    No uso agricola foi pela irrigação por gotejamento, que conseguiu reduzir muito a quantidade de agua consumida. No uso domestico foi pela politica de preços implementada (se nao me engano) em 2007. Cada casa tem uma quantidade basica de agua subsidiada, e para qualquer uso acima dessa quantidade uma tarifa maior é aplicada (é um pouco mais complicado, mas essa é a ideia). O consumo domestico de agua caiu muito desde que essa politica foi implementada.

    Nao adianta ter muita agua, se ela é desperdiçada

Você é humano? *