O Plano Real israelense

17/10/2017 | Economia

Inflação é uma elevação do nível geral de preços da economia. Já hiperinflação, como o próprio nome sugere, é a situação em que um país se encontra com uma taxa altíssima de inflação, que geralmente corrói uma ou mais funções básicas de uma moeda: reserva de valor, meio de troca e unidade de medida. Um exemplo disso é a perda de referência de preços. Em uma situação de hiperinflação, as pessoas têm maior dificuldade em discernir o que é caro do barato, de decidir se investem ou se gastam e mesmo se aceitam essa moeda no seu dia-a-dia.

A imagem acima ilustra bem os danos causados pela hiperinflação. Nela, vemos uma criança na Alemanha no começo da década de 1920 brincando com blocos de papel-moeda como se fosse um papel qualquer.

Diversos países já passaram por este problema, dentre eles, Brasil, Argentina, México e Israel. Assim, cabe fazer uma análise acerca do caso da hiperinflação israelense, seus antecedentes, dificuldades e consequências.

 

  1.       Antecedentes – como nasceu a hiperinflação israelense

 

Como pode-se observar no gráfico abaixo, Israel experienciou um grande crescimento econômico durante a década de 1960. Os níveis de educação da força de trabalho aumentaram significativamente como resultado de programas de capacitação e treinamento orquestrados pelo governo, apesar da grande leva de imigração provinda de países do norte da África e do Oriente Médio (que possuíam um nível de capital humano – medido em anos de escolaridade – menor do que os imigrantes europeus). Além disso, o outro fator tradicional de produção, capital, aumentou ainda mais. Todos esses elementos contribuíram para um grande crescimento da produtividade, e como consequência, do produto. (RIVLIN, 2010).

A exceção ao rápido crescimento é o ano de 1966, em que Israel experienciou uma queda drástica no crescimento devido principalmente a dois fatores: ao término próximo dos pagamentos de reparações pelo Holocausto nazista (que havia possibilitado o grande crescimento econômico da década de 1950 e começo da década de 1960), e pela incerteza quanto ao pedido para integrar a Comunidade Econômica Europeia. A recuperação se deu, infelizmente, pela via bélica.

A segunda metade da década de 1960 foi “salva” economicamente pela Guerra dos Seis Dias (1967), em que o aumento dos gastos do governo (principalmente com defesa) possibilitaram a retomada do crescimento. Além disso, a vitória na guerra gerou uma onda de otimismo que estimulou investimentos externos e entrada de capitais. Porém, a situação mudaria radicalmente com a Guerra de Yom Kipur, em 1973.

O período logo após a Guerra de Yom Kipur foi extremamente penoso para a economia israelense. O PIB cresceu em média 1% nos quatro anos seguintes, investimentos caíram abruptamente e as exportações diminuíram de maneira ininterrupta até 1976, prejudicando a balança comercial. A lira israelense desvalorizou e subsídios foram cortados devido a alocação de recursos para defesa. Precisava-se financiar o déficit da Guerra, por isso, o governo israelense implementou um programa de austeridade, elevando os preços de diversos bens e serviços importantes como consequência, como combustível, água e energia elétrica. (RIVLIN, 2010).

Fonte: Dados Banco Mundial, disponível aqui.

 

Foi nesse contexto de crise e austeridade que ocorreram as eleições nacionais de 1977. Tal pleito mudaria pela primeira vez a característica trabalhista que governou Israel até o momento, colocando no poder um representante da classe de imigrantes do norte da África e de países do Oriente Médio, que possuíam um status social menos favorecido em relação aos imigrantes europeus. Dentre os motivos da perda de poder pelos trabalhistas (leia mais aqui e aqui), depois de 29 anos governando, estavam a crise econômica e social gerada pela Guerra de Yom Kippur e o ressentimento dos imigrantes menos favorecidos para com os líderes de esquerda.

Porém, havia um paradoxo nos ideais do partido (Herut, atual Likud) de Menachem Begin. Enquanto a ideologia liberal de membros importantes dentro do partido indicava uma redução do gasto governamental, aumento da eficiência da máquina pública, privatizações e menor intervenção do Estado, o eleitorado de imigrantes orientais esperava políticas populistas que ajudassem a reduzir as diferenças sociais entre imigrantes já explicitadas.

Assim, uma série de políticas fiscais foram tomadas para levar a economia israelense rumo a uma maior liberalização. A Lira israelense desvalorizou, tarifas de viagens foram abolidas, e a principal mudança foi a possibilidade de se comprar bens em dólares o que os protegeria contra a desvalorização da Lira. A liberalização via política cambial não foi, contudo, acompanhada de uma redução nos gastos do governo. Ao contrário da política de austeridade do período imediatamente anterior, os gastos públicos aumentaram ao invés de reduzir. Os acordos de Camp David em 1979 não ajudaram nesse sentido. Enquanto os gastos com defesa deveriam ser reduzidos após a guerra, os acordos incorreram em gastos de transporte das bases do Sinai (que seria devolvido) para bases no Neguev. Em resumo, o déficit público que vinha sendo reduzido entre 1974-1977 passa a aumentar.

Constata Rivlin (2010) que a principal consequência das reformas implementadas pelo novo governo é a inflação, que vai assolar a economia israelense até 1985. Tal crescimento da inflação ocorreu devido grande parte a desvalorização da Lira, que aumentou os custos de importação, que foi passada para a população pela demanda inelástica, isto é, pouco sensível ao preço por bens de consumo. Ou seja, os preços continuavam a aumentar sem mudar a quantidade consumida dos bens. O sistema de indexação garantia uma conexão entre o aumento de salários com o aumento do custo de vida, fazendo com que o aumento de preços fosse passado para a economia como um todo. Esse é o principal motivo pelo qual medidas de austeridade tiveram pouco efeito em reduzir a inflação nos anos seguintes.

Entre 1979 e 1985, a hiperinflação israelense destruiu o mecanismo de preços do país. Em 1984 a taxa de inflação atingiu o ápice e ficou na casa dos 445% neste ano, levando a um consenso entre políticos e sociedade civil de que a situação estava insustentável.

 

  1.       Plano de Estabilização Econômica (1985)

 

Assim, o governo trabalhista (eleito em 1984 para um governo de união nacional) montou um time de economistas liderados por Michael Bruno para colocar em prática o que foi chamado de “Plano de Estabilização Econômica”. Tal plano, seria uma mistura de soluções liberais com táticas heterodoxas de controle de preços. Tais componentes eram: desvalorização cambial, redução drástica do déficit público e congelamento de todos os agregados econômicos indexados em Shekel, todos com ajustes pré-estabelecidos, negociados e acordados com a Histadrut (Central Sindical) por exemplo: salários e câmbio nominal (não descontado da inflação). Ou seja, por mais que ainda haveria uma pressão para que os preços continuarem crescendo mais alguns meses, os salários e o câmbio ficariam estáveis, apenas com mudanças pré-programadas. Tudo isso acompanhado de uma disparada na taxa de juros do país, sob o risco de levar Israel a uma depressão, o que torna o plano inicialmente bastante impopular. Além do mais, criou-se uma nova moeda: o Novo Shekel, que substituiu o Shekel original cortando três zeros. Tal nova moeda vigora até os dias de hoje.

Segundo um dos próprios criadores do plano, as medidas mais importantes tomadas foram as no sentido de reduzir os gastos públicos e como consequência o déficit público, medidas tidas até hoje como ortodoxas. (RIVLIN, 2010).

Fonte: Dados Banco Mundial, disponível aqui.

 

O gráfico acima mostra como em 1984, a maior parte do PIB israelense era composta por gastos do governo (89%), e que o Plano de Estabilização de 1985 reduziu sistematicamente os mesmos até chegar em um piso de 36% em 1991.

Outro fator importante a ser ressaltado de acordo com RIVLIN (2010) é que a inflação alta israelense já acompanhava o país há algum tempo, como comentado em trechos anteriores, porém, vinha ao mesmo tempo junto com crescimento econômico e prosperidade, e, com isso, outras agendas foram sempre mais importantes do que o controle de preços (como por exemplo defesa e questões sociais). Apenas quando a inflação atinge seu ápice em junho de 1985 que o governo entende que a prioridade no momento deve ser o controle de preços. Somente após a quebra na balança de pagamentos e a pressão dos EUA (que enviaram inclusive uma comitiva americana-israelense para supervisionar a situação) é que Shimon Peres entende a gravidade do problema, e toma as medidas necessárias para o combate efetivo da inflação.

Shimon Peres, que inicialmente não estava certo sobre o programa, uma vez que comprou a ideia foi direto e assertivo. Sabendo que seria uma medida inicialmente impopular, o primeiro-ministro passou as ações necessárias em uma longa reunião noturna com seu gabinete (que durou 19 horas) e sugou parte do seu grande capital político.

Shimon Peres em uma conferência de imprensa no dia 1 de julho, após a longa reunião de gabinete. O Jornal Haaretz definiu esse dia como “o dia em nasceu o Capitalismo Israelense”. Veja o original aqui.

 

Os Estados Unidos começaram a acompanhar a economia israelense com bastante atenção desde 1984. Stanley Fischer (PhD MIT), que mais tarde viria a ser Presidente do Banco Central israelense, assumiu o cargo de orientador de política econômica israelense, de dentro do governo americano (departamento de política externa). O mesmo, foi responsável pela formação do Comitê Econômico israelense e americano que supervisionou e orientou o plano de estabilização de 1985.

Fonte: Dados Banco Mundial, disponível aqui.

 

Nesse sentido, o Plano de Estabilização Econômica de 1985 foi uma das maiores reviravoltas econômicas e sociais na breve história do Estado de Israel, e serviu de inspiração para diversos outros países combaterem esse fenômeno tão danoso à uma sociedade. O gráfico acima mostra a magnitude do plano, que possibilitou que Israel tenha, até hoje, um controle sobre a sua inflação.

Gabriel Igor Rehfeld. Economista pela PUC-RIO, com interesse na área de desenvolvimento socioeconômico e ambiental. Ativista na comunidade judaica carioca, porém com aliá marcada para outubro de 2017. Judeu, sionista e ambientalista.                    

Referências

RIVLIN, Paul. The Israeli economy from the foundation of the state through the 21st century. São Paulo: Cambridge University Press, 2010.

ARLOSOROFF, Meirav. July 1, 1985: The Day Israeli Capitalism Was Born. Haaretz Online,  Jul 03, 2015. Acessado em: 15/outubro/2017 às 01:38h.

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