O Preço do Silêncio

23/12/2012 | Conflito; Eleições; Política

De 16/11/2012

 

No silêncio do Shabat, ouço meus vizinhos recitando a benção do vinho. Eles fazem isso todas as semanas, com uma linda canção, como faziam seus familiares no Irã. No silêncio do cotidiano, passo por crianças que acabam de sair da nova escola que foi construída em minha rua, no último verão. No silêncio de nossas vidas, a mídia nos enche de informações inúteis, hipóteses absurdas, comentários vazios, visões com falta de humanidade, histórias contadas pela metade.

A mídia ganha com a quebra do silêncio e é nisso que ela está interessada. Os jornais israelenses vibram com os recordes de acesso aos seus sites a cada sirene tocada. Quando toca em uma cidade inédita a festa é ainda maior. Desde 1970 a sirene não tocava em Jerusalém, desde a Guerra do Golfo Tel Aviv estava quieta. Morreram 3 em Kiryat Malachi. Os jornais internacionais regozijam com as imagens de violência, como as do filho morto do editor de imagens da BBC em Gaza. Afinal, uma vez que ele trabalha para a BBC, sua vida parece valer mais aos olhos do mundo. A rede brasileira Globo adora o verbo matar e todas as suas variações. A Folha de São Paulo insiste em puxar a palavra “guerra” para a primeira página, mesmo que seja para negar sua existência. Eles estão se divertindo às nossas custas. Estourando champagne a cada foto vendida, cada propaganda clicada nos seus sites, cada palavra escrita ou falada vale uma salva de palmas.

 Vejo em todos os cantos os argumentos para que o ataque (ou defesa) continue. Que fique claro, as duas partes afirmam estar apenas se defendendo. “Nós fomos atacados primeiro!”, “Nossos cidadãos não podem viver com medo…”, “Vamos vingar as nossas crianças”, “Em nome de D-us!”, “Foram milhares de mísseis”, “É a proximidade das eleições”. Essas frases se multiplicam nas redes sociais. Cada um com a sua loucura. Eu não vivo para justificar as ações de ninguém a não ser as minhas. O Hamas está errado (e não deveria sequer existir) e já passou da hora de Israel entrar na linha.

 Explico:

  • O Hamas está errado (e não deveria sequer existir).

Convenhamos, o público que lê meus textos (se é que ele existe), é ocidental e nós adoramos nossas liberdades e direitos adquiridos ao longo dos últimos cem anos. Não consigo entender como alguém em sã consciência pode achar que o Hamas é uma entidade que carrega consigo e suas ações qualquer legitimidade. Eles atiram mísseis em populações civis. Durante anos seus terroristas suicidas se explodiram em lugares públicos cheios de civis israelenses. Eles matam a oposição. Eles contrabandeiam armamentos ao invés de investir em educação e saúde. Eles minam as possibilidades de paz entre Israel e os palestinos. Eles não estão interessados em paz e enquanto eles governarem qualquer território do mundo, esse território não será próspero. Resumindo, eles são a negação de todos os valores básicos das sociedades democráticas, das quais sou defensor e, acredito eu, vocês também.

  • Já passou da hora de Israel entrar na linha.

Eu amo Israel e por esse amor escrevo esse texto. Não sejamos cínicos. Nossos governos não fizeram nada substancial pela paz nos últimos 10 anos. Nosso Ministério do Exterior é liderado pelo extremista Avigdor Lieberman e nosso Primeiro Ministro é o cínico Netanyahu. A direita israelense se esconde atrás do medo de sua população. “A esquerda não vai ter pulso para manter nossa segurança”, falam os direitistas. Ao mesmo tempo, a direita traz de volta nossa honra. “Nós não podemos nos curvar diante da situação, se eles querem guerra, vamos guerrear”. “Se eles querem ter paz, vamos ter paz”. Se a bola está com eles, onde está a nossa responsabilidade? Ao que parece, com Netanyahu no poder, nós fazemos o que quer o Hamas e não o que queremos nós. Netanyahu me faz lembrar as histórias de tempos medievais: guerra, honra, vingança. Nós queremos paz e Netanyahu não pode nos dar o que queremos.

 Particularmente, sou a favor do atual ataque israelense. Não vejo porque Israel deveria ficar calado com os mísseis que caem em suas cidades e não vejo isso como uma espécie de pragmatismo. Devemos atacar exclusivamente os grupos terroristas e acabar com sua infraestrutura, mantendo o silêncio no curto prazo. Por outro lado, não vejo nenhuma movimentação de ambas as partes para trazer o silêncio no médio ou no longo prazo, o que é o problema essencial da questão.

 Nós compartilhamos do destino dos palestinos e vice-versa e por isso deveríamos agir de maneira diferente. Israel não estará agindo certo enquanto não mudar sua atitude em relação à questão palestina, mesmo que esteja agindo dentro do seu direito de defesa. Nunca vi amigos fazerem paz, pois fazer paz é coisa de inimigos. E paz exige concessões. Os palestinos nunca poderão exigir sua independência e liberdade enquanto não estiverem prontos para fazer concessões em questões chave do conflito.

 Enquanto isso, vamos divertindo o mundo com nosso show de horrores, sirenes e mortes. A mídia, Bibi e o Hamas agradecem.

Comentários    ( )

Um comentário para “O Preço do Silêncio”

  • Gabriel

    24/12/2012 at 13:27

    Jonja, muito bom o desabafo. Tomara que ajude mais pessoas a entenderem mais quem é o Hamas e como funciona a nossa mídia moderna que está todo o tempo buscando o próximo grande scoop (furo de notícia) “jornalístico”.

Você é humano? *