O preconceito mora ao lado

04/09/2015 | Opinião; Sionismo; Sociedade

Em menos de um mês o contrato do apartamento onde moro acaba. Comecei hoje a batalha para achar algum apê legal e por um preço razoável.

Sites e grupos no Facebook são as formas mais fáceis de encontrar algo. Obviamente, vemos de tudo. Em meu primeiro dia, já tive a oportunidade de visitar três apartamentos em bairros diferentes de Jerusalém.

Começo a busca. Cada bairro com suas características. Uns mais charmosos, outros menos. Mas o que importa mesmo são as conversas.

Achei um apartamento que se encaixava no que eu vinha procurando. Preço razoável, levando-se em conta o altíssimo custo de aluguéis da cidade. Ba’aka é o nome do bairro.

Entrei em contato com uma proprietária por volta das 18h. Perguntei quando poderia ver o apartamento. Combinamos as 19h40.

Na hora marcada eu chego. A porta está entreaberta. Dou três batidas e uma senhora simpática, super grávida, vem em minha direção.

Cheia de roupas na mão, estava arrumando a bagunça de quem está se preparando para se mudar.

– Olá, sou Marcos, muito prazer. Tudo bem?

– Oi, sou Shulamit. Tudo bem, fora o calor.

A casa estava quente. A janela da sala fechada. Shulamit se apressa em abrir.

Ela me mostra o apartamento. Dois quartos, cada um com uma cama de casal. Achei estranho. Além dela e do marido que mais poderia morar ali?

A minha questão é resolvida imediatamente. Seu marido entra na casa e vem ao nosso encontro.

– Olá, boa noite. Nossa, como você está linda. Diz o marido dando um beijo no rosto de Shulamit. Oi, sou Roí. Tudo bem? Continua ele estendendo a mão.

– Olá, sou Marcos, tudo bem?

Roí estava usando kipá, e logo pude entender que, apesar de casados, eles dormem em quartos separados, seguindo algumas interpretações da religião judaica.

Muito simpáticos, continuamos conversando sobre o apartamento. Então Shulamit pergunta:

– Você é estudante? Sim. Também estudante. Faço mestrado na Universidade Hebraica de Jerusalém.

– Que legal. Em que?

– No departamento de estudos sobre América Latina.

– Você veio da América Latina?

– Sim. Sou brasileiro. Fiz aliá (imigrei) há cinco anos.

Os dois abrem um sorriso. Roí então pergunta:

– Você também trabalha?

– Sim. Em uma ONG com projetos sociais.

– Que tipo de projetos?

– Projetos de diálogo entre israelenses e palestinos.

– Peraí, você é de esquerda ou de direita? – Atira Shulamit.

– Esquerda.

– Esquerda? Indaga sem acreditar na minha resposta. Você gosta dos árabes?

– Eu gosto de todo mundo. Principalmente dos que gostam de mim.

– Eu não gosto de árabes.

– Temos de conhecê-los para podermos saber de quem gostar ou não. Pessoas ruins há de todos os lados. Também do nosso lado. Os últimos dias são prova disso, certo? – Referia-me aos atentados à casa de uma família palestina na Cisjordânia, e à Parada Gay de Jerusalém. Foram três mortos, ao todo.

O sorriso que recebi quando disse que tinha feito aliá foi substituído por um silêncio de quem não tinha argumentos para retrucar.

– É verdade. – Disse Shulamit.

– E os vizinhos? São legais? Tranquilos? Perguntei.

– Sim. São ótimos. Tem psicólogos, terapeutas, estudantes. Todos fazem o que querem. Ninguém toma conta da vida de ninguém. Ashkenazim (judeus de origem europeia). Muito melhor assim.

Impressionante como uma procura de apartamento mostra algumas faces da sociedade israelense. O preconceito de Shulamit não é só com árabes (muçulmanos ou cristãos). É com judeus com origem em países árabes. Por isso a sua preferência pelos vizinhos ashkenazim.

A intolerância e ignorância andam juntas e, quando combinadas, explodem em atentados terroristas, como os dos últimos dias de julho.
O combater o racismo e não se calar são tarefas fundamentais de quem defende uma sociedade israelense democrática. Já caímos no abismo, mas ainda não chegamos no fundo.

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “O preconceito mora ao lado”

  • Eloi Laufer

    04/09/2015 at 20:45

    Achei muito interessante e agradável de ler a tua crônica, e estou tentando entender a questão, pois nós aqui no Brasil, mais ao Sul, nunca tivemos preconceitos com Árabes, e fico muito satisfeito em saber que trabalhas com intenção de aproximar Judeus e Palestinos, serias digno de receber uma medalha em caso de sucesso nessa empreitada, pois a acho muito difícil. Mas já que entendes do TEMA, gostaria de te dizer que nós aqui, fomos educados com a ideia de sermos descendentes de alemães, portanto brancos, de preferência louros, o que nos introjetou uma tremenda rejeição ao preto, portanto, hoje ao nos defrontarmos com o problema dos “emigrantes” senegaleses ou haitianos, ficamos sempre com o pensamento negativo e prontos a renegá-los como mão de obra de segunda linha….mas confesso que eu, assim como muitos hoje estão revendo seriamente seus preconceitos. Desejo que tenhas muito sucesso.

  • Marcelo Starec

    04/09/2015 at 22:03

    Oi Marcos,

    Muito interessante o seu artigo!…Parabéns!…Mostra claramente que todos nós devemos refletir, atuar e combater o preconceito – digo, todos os tipos de preconceito!…Concordo plenamente contigo!…Agora, faço uma ressalva apenas…o preconceito é algo que sempre existiu e sempre vai existir, por mais que a gente lute contra…Ele é uma característica muito básica do ser humano (se defender daquilo que você não conhece e portanto desconfia e tem medo…). Uma sociedade sem nenhum tipo de preconceito nunca existirá em lugar nenhum, é utópica, mas podemos sim – e devemos – nos esforçar para lutar contra o preconceito – De inicio não generalizando nenhum grupo…Não pré-julgando pessoas que você não conhece, procurando conhecer o outro como ele realmente é e por aí vai…Por isso considero essencial dialogar, conhecer o outro, discordar quando for o caso, ser sempre sincero e é por aí que se pode construir a paz – e por fim nunca achando que você precisa “adotar a narrativa do outro e se anular” para conversar!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Mauricio Peres Pencak

    06/09/2015 at 03:06

    Também sou praticante da ARTE SUAVE, treinando na Gracie Barra Botafogo, sediada na academia Top Defense, tendo por Sensei, o amigo Rodrigo Prujansky.
    Queria aproveitar a oportunidade para cumprimentá-lo pelo belo trabalho social e divulgação do JIU JITSU.
    Após me aposentar -sou professor da rede pública- pretendo fazer ALIÁ e gostaria de treinar em ERETZ.
    Um abraço e KOL HaKAVOD!

  • Raul Gottlieb

    06/09/2015 at 12:55

    Israel é um país onde o conceito de esquerda – direita não segue os parâmetros do resto do mundo e que é adotado – com uma certa imprecisão – no Brasil.

    Mas aqui no Brasil, uma pessoa ser de esquerda suscita uma série de predicados negativos que dizem respeito à capacidade de raciocínio da pessoa e à sua aderência sincera aos contratos por ela assinados.

    Eu teria muita dificuldade em fazer algum negócio de médio-longo prazo com uma pessoa desconhecida que se declara petista ou psolista aqui no Brasil.

    Por motivos óbvios. E isto não é nem intolerância nem preconceito. É defesa da poupança arduamente construída e um solidamente estabelecido pós conceito.

    Escrevo apenas para você ler, Marcos, porque suspeito que, pelo que tenho observado no passado, você não vai publicar este comentário.

  • paulo

    08/09/2015 at 02:20

    fechou negócio?
    açs