O Psicodélico Caminhão do Demolidor

20/11/2015 | Sociedade

– Bom dia. Por favor, preciso de um carreto, da rua Ben-Yehuda, em Tel-Aviv até a Bialik, em Ramat Gan. O senhor poderia me dizer quanto vai me custar?

Essa já era a minha quinta ligação em busca de um preço justo. Estava difícil.

– Qual é a carga?

– Um colchão e um estrado. Mas o senhor não se preocupe, eu carrego tudo. Só preciso do transporte. Quanto sai?

– 200 Shekalim.

– Tá ótimo. – Estava caro. Todos estavam caros. E se eu pechinchasse, talvez ele baixasse o preço. Mas sou ruim nisso, não tinha tempo e não estava de bom humor. – Hoje às 6 você está livre?

– Ehn… Deixe-me ver. – Deu um tempo e depois voltou à linha: – Às 6, né? Onde?

– Na Ben-Yehuda – repeti – numero tal. Vou estar esperando lá embaixo com o colchão e o estrado.

– Colchão e estrado, né? Prá onde?

– Rua Bialik, em Ramat Gan.

– Que andar?

– Não importa. Eu carrego tudo.

– Certo. Vai custar 300 shekalim.

– Mas você acabou de me dizer que eram 200!

– Tá. 200.

O Rafi era um sujeito que tinha alguma coisa entre os 50 e os 60 anos, mas com aquela cara acabada de de quem fumou a vida inteira. Tinha um cabelo grisalho, bem comprido, para além dos ombros, que ele não prendia e, eu suspeitava, também não penteava. Magérrimo, com um corpo que parecia ser musculoso por debaixo das pelancas gastas, todo encurvado para frente. Mas aquilo estava tudo errado: Ele tinha era que estar se segurando em uma guitarra Fender, com um cigarro de maconha pendurado nos beiços tocando hard blues em um palco mal iluminado. Mas não. Estava dirigindo seu caminhão com meu colchão dentro. O caminhão sim é que estava certo. Era um desses mercedinhos urbanos com caçamba de lona, toda pichada com spray de cores fosforescentes, desenhos psicodélicos e o telefone dele. Rafi – Mudanças. 054-Tal-Tal-e-Tal.

Subi com ele na cabine. O acabamento de plástico das portas e do painel davam dicas da idade do caminhão. No rádio tocava uma estação pop famosa pelo seu jabá. Então ele começou com aquilo que parece ser a grande compulsão de todo transportador em Israel: meter-se na minha vida, e contar a sua própria.

Depois do “O que é que você faz? Ah! Estuda! O que? E tem trabalho? Dá dinheiro?”, ele começou a contar da vida dele.

No exército (não perguntei quando foi isso) ele havia estado em uma unidade de demolição.

– Demolição?

– É. Isso. Demolição. De tudo. Desde paredes até prédios inteiros.

Desmontavam e destruíam de tudo. Galpões, edifícios, construções em geral, pontes, torres – coisa velha no caminho, ou coisa nova mal feita, ou estruturas inimigas. Depois dos três anos obrigatórios, assinou contrato com o exército por mais tempo, e acabou ficando mais quatro anos. Fez cursos no exterior e começou a usar explosivos como ninguém.

Depois desse período, (e depois de reclamar do trânsito um bocado) contou que foi fazer aquilo na vida civil. Fez alguns cursos no exterior para poder validar seu conhecimento no exército. Depois de vários anos na área de demolição, com empresa própria e tudo, decidiu que não havia mais o que fazer na área. Não havia trabalho (que foi, aliás, o lamento que o fez começar a contar a história toda). Vendeu tudo que tinha, comprou o caminhão – que pela idade e pelas condições, devia ser aquele mesmo – e vivia de fazer mudanças.

Disse depois que tinha também um Café seu, na esquina da Hertzel com a Wolfson, mas que o movimento era bem fraco, apesar da excelente localização no velho sul de Tel-Aviv, onde a gentrificação ainda não chegou. Mas a juventude já aprendeu a curtir.

 

Foi lá, aliás, andando e cuidando da minha vidinha, que eu vi o caminhão estacionado e peguei o telefone. Fiz questão de ver direito o lugar na outra vez que estive por lá. Dentro realmente estava vazio, fora, numa das duas mesas, havia dois velhinhos marroquinos que pareciam ser habitués e jogavam conversa fora.

 

A musica? O mais brega dos pops orientais. Nada de psicho-rock dos anos 70. Talvez por isso o lugar estivesse vazio.

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 2 )

2 comentários para “O Psicodélico Caminhão do Demolidor”

  • Raul Gottlieb

    20/11/2015 at 19:16

    Tenho uma amiga cujo filho serviu no Tza’al, setor de engenharia (ou seja, demolições).

    Ela me contou que o lema deles era “we will blow this bridge when we get to it”.

    Quem sabe não foi o teu amigo que inventou isto?

    Para quem tem mais fluência em inglês a piada tem a sua graça. Peço desculpas para quem não entendeu o jogo de palavras.

  • Marcelo Starec

    20/11/2015 at 23:34

    Oi Gabriel,

    Achei um bocado triste o seu texto…Uma história de alguém que aprendeu muito, cresceu e fez uma carreira – de repente, velho, fazendo qualquer coisa em que é possível sobreviver com ela…mas não fazendo com gosto, mas tão somente para “ganhar a vida”….Não é fácil passar por algo assim…Não mesmo…

    Abraço,

    Marcelo.

Você é humano? *