O que aconteceu em Jerusalém, e porque.

25/07/2017 | Conflito; Política

Neste texto vou analisar o como e o porquê da corrente onda de violência em Jerusalém. Para mais detalhes no o que está acontecendo, ouça o excelente podcast do meu amigo Marcos Gorinstein.

O resumo do que acontece é basicamente este:

  • Dia 14/07, três terroristas palestinos de Umm al-Fahm mataram dois soldados israelenses dentro da Esplanada das Mesquitas.
  • O gabinete de segurança de Israel decidiu colocar detectores de metais nas entradas da esplanada para evitar novos ataques.
  • Palestinos saíram às ruas para protestar contra a medida. Houve muita violência, três palestinos foram mortos, mais de 190 ficaram feridos, além de mais de 50 policiais israelenses.
  • Na noite do dia 21, um terrorista palestino invadiu uma casa numa colônia israelense e matou a facadas três membros de uma família. Um deles era um idoso.
  • Na noite do dia 23, atacado por um manifestante, um guarda armado da embaixada de Israel na Jordânia usou sua arma de fogo. Matou o manifestante a tiros. O governo jordaniano chamou o segurança e funcionários da embaixada para questionamento.

 

A maior parte das explicações a respeito desta onda de violência passa pelo fator da insatisfação popular e o não avanço das negociações.

Essa não é uma explicação suficiente, nem convincente, e nem sequer é uma explicação. Insatisfação popular nunca foi motivo suficiente para gerar insurgências. No mundo todo, sob todos os regimes possíveis, sempre se encontram pessoas insatisfeitas. Muitas delas organizadas e com suficiente motivação para gerar violência. Na Palestina em geral e em Jerusalém Oriental em especial, nunca faltou insatisfação. Nem violência. (como descreve o Marcos novamente aqui)

O não-avanço das negociações também não explica nada. A Segunda Intifada explodiu justamente depois das negociações de Camp David. Além do mais, falta de negociações costuma ser a norma, não a exceção neste caso.

Violência civil, no mundo inteiro, só acontece quando há uma combinação de dois fatores importantes.

  1. Incompetência das forças instituídas em segurar as manifestações.
  2. Motivação política e organização de forças opositoras.

Uso esses dois termos (incompetência e motivação) de forma puramente técnica. Às vezes a incompetência é de ordem política. Outras, de ordem prática. Outras, ainda, é incompetência pessoal e/ou de ordem administrativa mesmo. Motivação, neste caso, é um fator físico. Quase mensurável, e não simplesmente uma força psicológica, ou social – pode ser a capacitação técnica, monetária ou um fator de inteligência.

Vamos fazer uma breve análise do que significa “força opositora” neste específico caso.

Um observador mais apressado vai concluir que a briga é entre Israel e os palestinos. Mas não é só e simplesmente isso. Dentro do cenário político palestino há vários grupos antagônicos.

O Fatah, que atualmente controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia, tem dois grupos opositores extremamente fortes. O Hamas e a Irmandade Muçulmana. Ambos, por motivos políticos, farão tudo que for possível para desestabilizar a Autoridade Palestina e o Fatah. O próprio Fatah é um jogo complicado de coalizões internas que tem visto a ascensão de dois possíveis herdeiros ao atual líder Mahmud Abbas. Um é Mohamad Dahlan e o outro Jibril Rajub. Dahlan é o predileto, é pragmático e hábil, mas tem fama de corrupto. Rajub se alinhou com as frentes mais religiosas e mais extremistas. (Um exemplo interessante da personalidade desses dois: Tanto Rajub quanto Dahlan falam excepcional hebraico. Mas Rajub só se deixa entrevistar em árabe. Dahlan prefere inglês).

A população de Jerusalém Oriental sempre foi muito mais religiosa e extremista do que seus pares praticamente laicos no norte da Cisjordânia. São fortemente ligados à Irmandade Muçulmana e ao Hamas, e não confiam na Autoridade Palestina.

Palco político internacional:

Ultimamente, o Oriente Médio se vê dentro de uma guerra fria entre Arábia Saudita e o Catar/Irã. Catar e Arábia Saudita sempre foram inimigos. Nos últimos meses este conflito tem tomado proporções mais sérias. Países alinhados à Arábia Saudita (Egito, Jordânia, a Autoridade Palestina, entre outros) passaram a reprimir e a cortar laços com organizações ligadas ao Catar e aos xiitas (como o canal de notícias Al Jazeera, o Hamas*, a Irmandade Muçulmana, Assad na Síria e o Irã).

* Hamas é uma instituição religiosa sunita. Mas tem fortes ligações com o Irã, que é xiita, e com o Catar, que é misto. A Irmandade Muçulmana também é sunita, mas está sendo perseguida nos maiores centros sunitas do Oriente Médio, como Egito e Jordânia. Como corolário do famoso “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, passa a ser apoiado pelo Catar.

Os detalhes de como se dá essa relação entre Catar, Irã e Arábia Saudita são complicados e podem ser lidos aqui. Para nosso assunto, basta entender que há uma profunda divisão e que a Arábia Saudita está fazendo tudo o que pode para boicotar economicamente todos os grupos ligados ao Catar e especialmente à Irmandade Muçulmana.

É aqui que entra Jerusalém Oriental.

Sob pressão externa, a Irmandade Muçulmana não perdeu tempo para achar esta oportunidade de criar caos. No mundo inteiro, quase todas as mesquitas são protegidas por detectores de metal. Na Esplanada das Mesquitas, isso se tornou motivo para revolta.

Ao mesmo tempo, a Autoridade Palestina não pode se envolver diretamente. Seria acusada de colaboracionismo com Israel, a briga interna no Fatah seria influenciada e criaria uma insatisfação ainda maior na população.

Bibi não pode ser pragmático e simplesmente tirar os detectores de metal da esplanada. Tem o seu rival de direita, Naftali Bennett no seu encalço, louco para apontar as “fraquezas” do primeiro-ministro. Deve, portanto, conceder sem conceder, manter o Status Quo anterior e fingir que nada aconteceu.

Poderia simplesmente negociar com a Jordânia* uma forma de resolver o assunto. Mas depois do atentado do dia 21, ficou mais difícil. Bibi hoje tem muito mais medo do A Casa Judaica, o partido de Bennett, do que qualquer violência. E, bem, se explodir mais violência, tanto melhor: afasta o foco de suas investigações criminais e pode até dar a oportunidade de melhorar seu visual nas pesquisas de opinião.

 

*Neste caso a Jordânia seria o melhor canal de negociações. A Waqf, organização religiosa responsável pela administração da esplanada das mesquitas, é ligada ao governo jordaniano.

Combinação nefasta de incompetência de um lado, motivação de outro.

Post Facto:

Dia 24, de noite, surgiu uma solução para os dois problemas mais urgentes: os detectores de metal na entrada da esplanada das mesquitas e o segurança israelense preso na Jordânia: a retirada dos detectores.

Parece a resposta mais óbvia possível para a charada. Mas Bibi tem seus próprios problemas domésticos. Agora vai ter que se ver com sua coalizão e os partidos de direita que vão questionar a decisão e a soberania do governo de Israel sobre o monte do templo. Antigamente, quando havia um governo forte nos EUA, uma pequena ceninha seria montada: EUA exigem do governo de Israel que o óbvio seja feito. Israel reclama. EUA insistem, Israel pede contrapartidas de segurança dos palestinos. EUA garantem. O governo de Israel cumpre o pedido e fica tudo sendo culpa do Tio Sam.

Agora esse plano não funciona mais. A próxima mão do jogo, quem dá, é o Bennett. 

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