O que está em jogo nas eleições israelenses

Israel encontra-se em um momento especial. Próximo de eleições, a sociedade vive o fervor político de tempos remotos. Tempos em que ser de esquerda não possuía uma conotação negativa, tampouco uma imagem de traidor atribuída. Tempos em que a direita era de natureza nacionalista, mas profundamente democrática.

É verdade que a atual conjuntura política não se caracteriza dessa forma e que não devemos cair nas armadilhas do anacronismo ideológico. Ainda assim, os 26 mandatos previstos à lista conjunta dos partidos Trabalhista (Avoda) e HaTnua provocam uma sensação de que Israel vive um momento de mudança que conecta sua sociedade a princípios democráticos diluídos com o passar dos anos. Para quem acompanha o debate público, percebe-se que estamos diante de uma euforia ideológica marcada pelo embate entre o “Bloco Nacional” e o “Bloco Sionista” – como se os dois fossem diametralmente opostos.

Entre os partidos israelenses há uma disputa pela definição dos termos das eleições de março. Naftali Bennett, líder do partido Habait Hayehudi, afirma que o eleitor terá que decidir entre  “aqueles que se desculpam” e “aqueles que tem orgulho”. Isaac Herzog e Tzipi Livni, líderes do Bloco Sionista, clamam por uma eleição entre “sionistas” e “extremistas”. Moshe Kahlon, fundador do novo partido Kulanu, diz que as eleições não se definem por “esquerda” e “direita”, mas sobre “aqueles que apóiam uma política de bem-estar social” e “aqueles que agem apenas por interesse próprio”. Avigdor Liberman, número um do partido Israel Beiteinu, tenta convencer o eleitor israelense de que as opções são “pragmatismo” ou “desconexão da realidade”. Benjamin Netanyahu, por sua vez, prega que o tema central é a segurança nacional e que os candidatos ao governo israelense dividem-se entre “experientes” e “amadores”. Por fim, Aryeh Deri, líder do partido sefaradita Shas, argumenta que a sociedade está diante de “políticas que prezam pelas camadas humildes” ou “projetos destinados à classe média e média-alta”.

Definir os termos da eleição é estratégia natural no jogo político. De fato, candidatos de todos os partidos buscarão incessantemente impor as regras com as quais obterão maior poder de barganha em suas negociações com o eleitor.

Apesar de não participar efetivamente dessa dinâmica, acredito que as próximas eleições transcendem as dicotomias propostas. Elas vão além dos debates sobre “segurança nacional” e “estado de bem-estar social”, “esquerda” e “direita”, “pragmatismo e alienação”. Na realidade, esses debates, apesar de relevantes em si, passam invariavemente por uma escolha entre a preservação do status quo e a revigoração da cultura democrática em Israel. É isso que está em jogo nas próximas eleições.

Não me refiro ao status quo nos âmbitos social, econômico ou político. Refiro-me a um status quo mental que se traduz por estagnação ideológica e dá forma à indiferença patológica que polui a atmosfera israelense. A eleição oferece a oportunidade de fuga de um continuísmo político e de uma genuína transformação no discurso público; um discurso que apresenta sintomas de degeneração democrática e que teve princípios fundamentais enrijecidos com o “padrão Benjamin Netanyahu de governar”. Ela constitui a possibilidade de acreditar-se novamente na capacidade do Estado de Israel de readaptar-se a novas realidades políticas e de romper com a aparente impossibilidade de substituir uma forma de liderar que há tempos é nocivamente entendida como norma.

Obviamente, as eleições carregam consigo um profundo ceticismo sentido pelo cidadão. Ainda assim, esse mesmo ceticismo carrega uma vivacidade que preenche uma lacuna democrática deixada no debate público israelense; uma lacuna criada pelo vício político em Benjamin Netanyahu. Enquanto a sociedade israelense se ludibriava com “Bibi” e sua promessa de aumentar a auto-estima geral diante dos percalços de uma complexa realidade, não percebia que se embriagava aos poucos. Necessitando de doses cada vez mais fortes de um “ultra-nacionalismo” já não tão eficaz, o israelense vagarosamente matava seus anticorpos democráticos.

O ceticismo que domina o atual debate público é a reabilitação desse estado mórbido que Israel deixou levar-se. O medo do novo que hoje paira sobre ares israelenses é o primeiro estágio para revigoração de uma rica cultura democrática congelada numa visão conservadora e unidimensional do mundo.

Nessa primeira fase da atual metaformose israelense, há a possibilidade de que as novas gerações estejam vivendo o absurdo de uma nostalgia de tempos que não viveram. Tempos de Ben-Gurion, Menachem Begin, Isaac Rabin, Isaac Shamir e outros. Nesses tempos, ao menos na forma que se configuram no imaginário popular, Israel não se cegava diante de caricaturas carismáticas, tampouco se ocultava atrás daqueles que gritavam mais alto.

As eleições de março oferecem novamente essa possibilidade. A possibilidade de que o cidadão israelense encontre dentro de si o sionismo, o judaísmo e a democracia que lhe deram identidade; de que seja mais independente e menos receoso quanto a assumir que tudo aquilo que acreditou não lhe trouxe mais segurança ou estabilidade. Essa possibilidade deve-se aos céticos que voltaram a acreditar no poder da dúvida e passaram a vislumbrar uma Israel sem Benjamin Netanyahu na liderança de seu governo. Nesse momento, não há imagem mais democrática do que essa.

Não sou um trabalhista convicto, admito. Não concordo com todos os artigos que compõem a plataforma ideológica do Partido Avoda. Ainda assim, por mais paradoxal que pareça,  no cenário atual abrir mão do voto sincero para adotar um estratégico aparenta ser a atitude mais ideológica. De fato, renunciar ao voto “natural” para votar no “Bloco Sionista”, liderado por Isaac Herzog e Tzipi Livni, significa revigorar uma parcela da sociedade que cresceu indiferente à “coisa pública” (a res publica de outros tempos) por se ludibriar com o discurso uníssono da “ameaça existencial”. Hoje, votar estrategicamente no  “Bloco Sionista” é um ato de altruísmo político em prol da democracia israelense.

Isaac Herzog não é Benjamin Netanyahu, sem dúvida. Ainda assim, o sujeito de voz fraquejada e comportamento moderado parece ter tocado uma parcela da população como se carregasse um alto-falante e vibrasse como um verdadeiro líder. É verdade que trouxe consigo uma grande dúvida. O israelense não sabe ao certo o que representa estar sob a sua liderança, tampouco como será a sua gestão em uma coalizão dirigida pela união de dois partidos ideologicamente distintos – Trabalhista (Avoda) e HaTnua. Ainda assim, ao menos nesse momento, percebe-se que  o cidadão voltou a acreditar na possibilidade de mudança. E, independente do resultado das eleições, essa já é uma excelente demonstração de que Israel caminha em direção à revigoração de sua cultura democrática.

 

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “O que está em jogo nas eleições israelenses”

  • Marcelo Starec

    07/02/2015 at 21:05

    Oi Bruno,
    Muito bom o seu artigo!…De fato, em meu entender, leva a todos aqueles que se interessam por Israel a uma reflexão…E no meu modo de ver seria algo como – queremos correr o risco de tentar algo novo ou nos sentimos mais seguros em manter o status quo atual ?…Esse tipo de questão, no Brasil ou em outros países se limita ao risco de perder o emprego ou melhorar de vida, mas em Israel uma pergunta aparentemente simples como essa é mais complexa e cuja decisão chega até mesmo a questão limite – conseguiremos sobreviver ou quantos terão de morrer para isso, se algum plano ousado for feito e der errado?…Eu não tenho resposta e nem acredito que exista uma forma óbvia de responder a isso…mas de fato há o risco por tentar fazer algo e o de tentar manter o status quo, ambas as estratégias são arriscadas e entendo o medo de fazer e também o de não tentar fazer algo novo…ainda, em termos práticos, não sei até onde é possível ousar, já que qualquer tentativa por óbvio não depende apenas do lado de cá. Por fim, termino reiterando o meu elogio ao artigo e suas colocações sobre, na minha interpretação que, na realidade, nem os partidos são tão “diametralmente opostos” como podem parecer para alguns e tampouco vale hoje ficar olhando para trás e idolatrando figuras do passado. Entendo que as figuras do passado, por mais importantes que tenham sido, por lá ficaram e hoje, se vivas e na ativa estivessem, teriam de enfrentar outros desafios e muito provavelmente, cada um a seu modo, teriam de abordar as questões de modos bem distintos.
    Abraços,
    Marcelo.

  • Henrique Samet

    08/02/2015 at 02:26

    Prezados
    A luta numérica é mais ampla. Quantos partidos o Bloco Sionista pode amealhar caso ganhe a maioria nas eleições. Quanto o Bloco Extremista (este é o nome correto) pode ganhar caso ele ganhe a maioria .
    Tenho a impressão (não a certeza) de que o fiel da balança serão novamente os partidos religiosos.
    Há que se fazer as contas em termos de coligações.

  • Raul Gottlieb

    08/02/2015 at 10:43

    Penso que os ideais e objetivos sionistas de 1892 (ou de 1947) não servem como norte para Israel de 2015.

    Eu desconfio muito dos movimentos políticos que pregam a “volta ao passado glorioso”.

    Isto quase sempre dá muito errado!

  • Boris Sender

    08/02/2015 at 16:11

    Concordo plenamente com a opinião do Raul Gottlieb.

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