O que fazer com o que conquistamos?

08/06/2017 | Conflito; História; Política

Conheça a história dos bastidores da reunião secreta, feita pelo gabinete do primeiro-ministro israelense Levi Eshkol, pouco tempo após a vitória na Guerra dos Seis Dias. O jornalista Amir Alon foi atrás dos protocolos desta reunião e nos mostra um debate surpeendentemente consciente – e atual.

Tradução livre do artigo publicado no site Ynet em 18 de maio, no Especial 50 Anos dos Seis Dias.

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No dia 11 de junho de 1967, os cidadãos de Israel acordaram a uma nova realidade. Após a estonteante vitória contra os exércitos da região, de repente o território do jovem país se multiplicou por quatro—e à sua população foram adicionados cerca de um milhão de árabes. Com o final das batalhas, Israel precisou formular uma posição em relação aos territórios que conquistara e em relação aos habitantes árabes dali, para uma reunião da ONU sobre o assunto. Em cada frase dita nestas discussões secretas ressoam os dilemas e controvérsias que estão hoje no centro do diálogo político de Israel.

O arquivo do Estado revelou esta manhã (quinta-feira, 18/05/2017), à ocasião dos 50 anos da Guerra dos Seis Dias, os protocolos das reuniões do governo e das comissões ministeriais de segurança, desde o início do atrito com o Egito e Síria, passando pelos próprios seis dias de combate, até meses após a guerra enfrentando a nova realidade.

10 de junho de 1967: “O que fazer com a população dos territórios conquistados”

Em uma reunião de gabinete no sábado à noite, decidiu-se interromper os combates na frente norte, assim dando um fim à guerra. Depois que o ministro da educação e da cultura, Zalman Aran, resumiu que “esta é a guerra mais mitológica dentre as guerras dos judeus, e ela sustentará o povo judeu por décadas”, os ministros se levantaram para brindar pela memória dos mortos, dizendo “Lechayim” [à vida].

O primeiro-ministro Levi Eshkol disse no final da reunião que “é preciso decidir o que fazer com os cidadãos árabes dos territórios conquistados”, e assim começou a fase de debate sobre o assunto, que parece ainda não ter acabado até hoje.

14 de junho de 1967: conversas sobre a evacuação dos árabes do bairro judaico

No final da festa de Shavuot, o gabinete se reuniu para uma discussão de cinco horas, que começou com um apanhado diplomático do embaixador de Israel na ONU, Gideon Rafael. Ele contou que os EUA lhe disseram: “Ajude-nos. Conforme vocês sejam comedidos, e conforme falem menos de aspirações territoriais, e falem mais sobre suas necessidades de segurança, a livre navegação e os direitos que vocês merecem, assim será mais fácil para nós [os EUA] conseguir apoio na ONU”.

O ministro das Relações Exteriores Abba Eban completou: “A opinião pública nos EUA está começando a ficar contra nós. Estão se revelando críticas sobre nossa vontade de ficar com um território que não é nosso. Eles nos sugerem evitar declarar intenções de anexação, e nos mostrarmos menos com cara de vencedores, e mais construtivos. O governo dos EUA quer saber nossa posição em relação às questões territoriais, o problema dos refugiados e o status de Jerusalém, para poder formar a sua própria política. Me parece que o nosso governo precisará decidir a curto prazo a sua posição de como quer construir um novo Oriente Médio.

O primeiro assunto discutido pelos ministros foi o futuro de Jerusalém. Eles concordaram que deve-se unificar os dois pedaços da cidade e restaurar o bairro judaico da cidade velha, especialmente a sinagoga dali. Contudo, há árabes morando no bairro judaico, e os ministros não chegaram em um acordo de como deve-se lidar com o assunto.

“Havia a opinião de talvez se limpar o bairro judaico das casas, e transferir a população árabe para outro lugar”, disse Eshkol. “Moram ali cerca de duas mil famílias árabes. Havia a opinião de que talvez devêssemos começar com a restauração da sinagoga, o que envolveria a destruição da casa de dezenas de famílias com buldozers (tratores de esteira). Talvez se eles vissem que não há esperança, eles mesmos saíssem.”

O ministro do Desenvolvimento e do Turismo, Moshe Kol, foi contra esta ideia. “Eu sou contra tirar agora os árabes do bairro judaico da cidade velha, para não despertar coisas ruins antes da assembleia da ONU,” disse ele. O vice primeiro-ministro Yigal Alon disse: “Eu sou a favor de que o bairro judaico esteja limpo de árabes. Se isto não for feito nos próximos dias, nunca será feito. Além disso, é preciso rodear a cidade velha com bairros judaicos bonitos.”

O ministro da Defesa Moshe Dayan reforçou o ponto: “É preciso decidir fazê-lo, e se sim fizermos, então há de ser agora. Dentro de dois ou três dias os passaremos a casas vazias nos arredores de Jerusalém, de Sur Baher a Ramallah. Não os jogaremos na rua. As casas que estão vazias agora não permanecerão vazias mais uma semana. Belém estava quase vazia, e enquanto isso já começaram a voltar. Se não fizermos isto agora, não haverá casas para os transferir.”

Eshkol esclareceu que “se passarmos estas famílias para outras casa, então eu não sou contra. E se vierem os donos destas próprias casas, então os passaremos deste bairro a outro bairro. Mas não na cidade velha. Pode ser que encontremos também no bairro árabe da cidade velha algum lote vazio para assentar judeus, mas é claro que antes de mais nada é preciso assentar judeus no bairro judaico.”

No final da reunião decidiu-se que se fará todo o possível para passar os árabes que moram no bairro judaico para outros lugares em Jerusalém e arredores. Se para a restauração do bairro for preciso destruir casas, então o gabinete decidirá quando.

15 de junho de 1967 (às 10h):  Região Autônoma x Regime Militar?

Depois da discussão anterior em que ficou decidido que Jerusalém não seria dividida novamente, é realizada uma reunião reduzida do gabinete, a primeira de uma série, para formular uma posição sobre o futuro dos territórios que foram conquistados, tendo como foco a Cisjordânia e as pessoas que lá residiam.

O ministro das Relações Exteriores Abba Eban atualiza a posição americana: “O sentimento deles (americanos) é: Jerusalém, sim, mas não os territórios. Eles ressaltam que será muito ruim se for dada a impressão para o mundo que queremos ficar com todo o território”.

Alon: “Vamos anexar do Monte Hebron até o Mar Morto, o Deserto da Judéia e mais a Grande Jerusalém a Israel, e a população árabe que lá vive. Será uma outra Galiléia”. Alon propôs transformar a Cisjordânia em região árabe autônoma: “Neste caso, eles não recebem o direito de voto. Não me importo se a região autônoma se chamar Palestina, se for conveniente para eles.”

Eshkol: “Eu aceito que a Jordânia seja a fronteira. Nós não podemos receber um milhão ou um milhão e duzentos mil refugiados árabes, senão estamos perdidos. Nós não vamos alcançá-los (demograficamente) através do aumento da taxa de fertilidade, e em poucos anos eles vão perguntar por que eles não têm o direito de votar, então teremos problemas terríveis na arena internacional”.

Begin: “Quanto a Israel Oriental (Cisjordânia)—não devolveremos nenhuma polegada de terra, porque devolver é entregar para um governo estrangeiro. Nós libertamos um pedaço da Terra de Israel. A idéia “Terra de Israel” também inclui Gaza. Há direitos históricos. Agora a questão é o que será dos árabes. Eu vejo um perigo muito grande com a autonomia (árabe), porque nós poderemos pressionar e acabar gerando a criação de um Estado palestino. Eu proponho que pensemos no seguinte: durante sete anos eles serão residentes e não cidadãos. Depois desse período perguntaremos a cada um se ele quer ser um cidadão leal ou, talvez, se ele quer ir para outro país.

Dayan: “A fronteira israelense é o leste da Jordânia (o rio Jordão). A Cisjordânia não é Hussein e Gaza não é Nasser. É Israel. E para vocês eu falo: não receberemos mais um milhão de árabes. Na Cisjordânia, continuaremos por um longo período com um governo militar, não daremos nenhum passo que nos traga uma situação em que eles possam votar para a Knesset (parlamento)”.

Eban: “Eu proponho que seja uma autonomia para todos os fins, que seja um governo independente, menos em questões externas e segurança, que serão feitas pelo governo central”.

Alon: “Por vermos o rio Jordão como a fronteira de Israel, eu acho que devemos construir uma faixa de assentamentos no vale do Jordão”.

Dayan: “Na minha opinião não precisa fazer isso. Se houver necessidade de um ponto de vista de segurança, podemos colocar tanques em alguns lugares, mas não acho que começar com assentamentos que representam a colonização da região. Não quero começar agora com a colonização da terra como outrora”

Begin: “Precisa-se, de qualquer forma, acelerar um processo único—fazer uma sociedade mista nas cidades grandes como Hebron, Belém, entre outras”.

Eshkol: “Talvez possamos mandar (para essas cidades) médicos, professores, profissionais liberais. Talvez seja possível abrir novamente uma Yeshiva em Hebron”.

Dayan: “Se nós dizemos que não queremos que os árabes de Nablus saiam para Haifa, não podemos pedir que judeus se mudem para Hebron. Temos que decidir se todos podem ir para qualquer lugar ou se são regiões separadas”.

Begin: “Em governos militares nem sempre há liberdade de ir e vir”.

Dayan: Em Jerusalém não faria agora nenhuma colônia. Nem no Gush Etzion, nem na Aravá e nem em Hebron. Eu quero checar as opções de uma linha geográfica, em que eles fiquem lá e nós, aqui. Não quero que declaremos autonomia (Nota do tradutor: Dayan se referiu à “soberania”), porque para mim, isso que um milhão de árabes não virão para Israel é tão importante quanto a Margem Ocidental [Cisjordânia].

17h, 15 de junho de 1967: “Nós vamos nos complicar com a Margem Ocidental [Cisjordânia]”

Dayan: “Eu proponho que o regime na Margem Ocidental seja um governo militar, que os árabes dali não possam passar para o território de Israel, mas sim o contrário. Há aqui uma divisão geográfica e não vamos começar um esse carnaval de que nós viajemos livremente para a caverna dos patriarcas [em Hebron] e para Gush Etzion, e que eles [os árabes] têm familiares em Israel e viajem para cá. Com exceção de Jerusalém, a fronteira que existia continuará existindo: eles ali e nós aqui. No que diz respeito a Hebron e Belém faremos ajustes. Há judeus que vão querer viajar à caverna dos patriarcas, turistas vão querer ir a Belém, faremos ajustes com isso. A única exceção é Jerusalém, que passa a Israel. O destino de Jerusalém é como o destino de Nazaré. Junto com isso [Jerusalém] recebemos 100 mil árabes a mais.”

Alon: “Em Hebron, em Belém e nos vilarejos ao redor, há 60 mil árabes, ou seja, um número não tão terrível, até abrirmos mão desse enclave, seja por motivos históricos e religiosos ou por motivos estratégicos. Por um aumento de algumas dezenas de milhares, eu não abriria mão de Hebron. Ao mesmo tempo é preciso construir assentamentos no Monte Hebron e nesta região. Devemos também estabelecer 12 assentamentos, kibutzim ou outra coisa, na região de Hebron e Belém. Não devemos esperar sequer um mês e precisamos estabelecer agora uma corrente de assentamentos. Estabeleceremos essa faixa justamente na época do choque. Devemos começar a acostumar os árabes da Margem Ocidental que eles não irão ao leste a partir de uma região determinada, que do lugar onde moram agora eles não irão ao leste ou ao oeste para dentro do Estado de Israel de hoje.”

Eshkol: “Todo não-judeu [goy] que tem consciência vai querer saber coisas claras. Se você lhe disser—Dê-nos seis meses para aprender e enquanto isso haverá um governo militar—tudo bem. Mas será que eles concordarão que os mantenhamos assim por muitos anos, nem para cá, nem para lá?”

O ministro Barzilai: “Eu acho que nós vamos nos complicar com tudo o que chamamos de Margem Ocidental. Nós queremos algo que não pode ser. Nós queremos um novo território sem os moradores que estão ali. Você toma um território sem os moradores, não dá aos moradores direitos civis. Eles não são cidadãos em nenhum aspecto, e nem serão cidadãos de forma alguma. Eu não sei qual é o medo de se pensar a possibilidade de conversar com Hussein e com a Jordânia. Se ficar claro que ele pode receber algo como Nablus e algo a mais, pode ser então que nós recebamos um mínimo de moradores que ficarão conosco, e também a maior parte do território. Talvez isso seja uma ilusão completa, qual seria o medo de falar com ele e verificar essa possibilidade?”

Begin: “Isso não soa como ilusão, mas sim como uma catástrofe—a transferência de parte da Terra de Israel para Hussein.”

Eshkol: “Para mim uma coisa está clara. Eu não quero mais terra, e não quero mais árabes. A pergunta é quando seremos uma minoria no país.”

Begin: “Eu quero que todos os membros do governo saibam que quando estendermos os limites de Jerusalém, os cidadãos árabes da cidade não virarão logo cidadãos israelenses de acordo com as regras internacionais, mas sim daremos cidadania de forma individual. Cidadania não se dá de forma massiva, mas sim pessoa por pessoa.”

Moshe Kol: “Estes árabes nasceram na Terra de Israel e não vamos tratá-los como se trata imigrantes de outros países. A lógica diz que do jeito que você quer, a Terra de Israel virará um estado binacional. Aqui em Israel devemos tratar os árabes como se faria nos melhores países do mundo. Nós não queremos perseguir minorias. Alguém me disse ontem—temos que mudar o nome do país, temos que chamá-lo Terra de Israel.—As pessoas agora tem várias ideias.

Ministro das Finanças Pinchas Sapir: “É possível vencer uma guerra e depois disso, permanecer em uma luta permanente, o que é ainda pior que uma guerra.”

Eban: “A proposta do ministro Begin de incluir toda a região a Israel, mas sem outorgar cidadania, tem uma visão de completude geográfica, completude histórica, completude da pátria. Mas quando eu a analiso, eu chego à conclusão que isto é um barril de pólvora. Nós ficamos com duas populações, uma com todos os direitos civis, e outra sem nenhum direito. Ou seja, essa imagem espetacular a primeira vista passa a ser um imagem bem sinistra.”

Zalman Aran: “É uma ilusão pensar que teremos árabes em Israel e não lhes daremos direitos. Eu quero dizer isto aos patriotas do Estado de Israel. Eu digo com minha simples lógica—é possível, Deus nos livre, chegar a uma derrota de Israel através da vitória, porque este não será o Estado de Israel. Para que precisamos disso? O raciocínio com relação à Margem Ocidental deve ser ‘o que não’. Para mim é absolutamente claro que nós estamos nos trazendo uma corda que nos vai enforcar, sem nenhuma utilidade a não ser uma satisfação sentimental histórica. O povo de Israel viveu quatro mil anos, e viverá ainda mais.”

Comentários    ( )

One Response to “O que fazer com o que conquistamos?”

  • Jonas

    13/06/2017 at 12:34

    É assustador ler o ar “profético” destas transcrições. É claro ver eles delineando os problemas que foram surgindo, e hoje fazem parte do dia a dia de Israel. Pena não ouvir deles as soluções também.

    Pra mim essa “guerra” de 50 anos que agora temos devido aos territórios ocupados e aos refugiados e seus descendentes, tira o gosto da vitória da guerra dos 6 dias. Para mim me parece que isso é o dragão (Smaug) deitado sobre o ouro e lá dormindo. Todo mundo sabe que esta lá mas ninguém quer mexer com ele. Será que vai aparecer algum “herói” para achar o ponto fraco?

    Continuem com esse ótimo trabalho que vocês fazem.