O Quebra Cabeças das Eleições em Israel

18/02/2015 | Eleições, Política.
quebra-cabeças da política de israel
quebra-cabeças da política de israel
Quebra-cabeças da Política de Israel

E quem é que ganha essas eleições?

Essa excelente pergunta que me é feita com certa frequência costuma ser respondida de forma bastante irritante: Não sei, mas é uma boa pergunta. É uma pergunta muito melhor do que qualquer resposta que eu poderia dar.

Por que? Em primeiro lugar porque Israel é um país parlamentarista, e no parlamentarismo não conta quem ganha as eleições. Na verdade, nem sequer conta quem é o líder do partido que ganhou as eleições. Por vários motivos é comum atrelar a figura do líder dos maiores partidos como se fossem, para todos os efeitos práticos, candidatos a presidentes em um país presidencialista.

Mas no parlamentarismo o jogo é outro, porque os partidos que não tiveram a maioria dos votos, farão parte do governo que vem de qualquer maneira, ao contrário do presidencialismo, onde os candidatos que perderam as eleições desaparecem e voltam a seus antigos afazeres depois de tudo acabado. Ou seja: se o primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil fosse uma votação para a Knesset, o PT teria 50 cadeiras, o PSDB ficaria com 41 e o PSB com 26, com outras 3 cadeiras para os outros partidos.

Normalmente o que acontece é que o maior partido está em melhores condições de barganha para negociar sua posição como partido líder do governo. Mas não é necessário que isso aconteça, e é indicado pelo presidente para montar o governo apenas aquele partido que conseguir o apoio de 61 parlamentares, não o maior partido. Isso significa que não é um processo automático o de um partido ter a maioria dos votos e montar o governo. Não aconteceu, por exemplo, nas eleições retrasadas, quando o Kadima teve mais votos que o Likud, mas não conseguiu a aprovação de 60 parlamentares e acabou ficando na oposição.[ref] É importante ressaltar que pela lei, os líderes dos partidos fazem sua recomendação de quem deve ser o primeiro-ministro ao presidente, e este nomeia o governo. É nomeado aquele que tem mais chances de montar um governo estável. Minha simplificação advém do fato de que, na prática, se a soma de parlamentares dentro dos partidos da coalizão é de 61, o presidente entregará o governo a esta coalizão.[/ref]

Houve no entanto um boato de que Reuven Rivlin, o atual Presidente de Israel iria, ao contrário do costume, entregar o governo sim ao partido de maior votação, independente do apoio que tenha do resto da Knesset e de acordos de coalizão. O boato já foi desmentido. Mas essa hipótese definitivamente causou furor e preocupação entre os partidos.

E isso significa que o eleitor, quando bota seu voto na urna, não está só escolhendo (direta ou indiretamente) quem será o primeiro-ministro, mas está escolhendo também como será formada a coalizão (ou a oposição). Você não pode votar em quem será o ministro do Exterior, por exemplo. Mas pode votar em um partido que afirma que vai pedir esta pasta para entrar na coalizão. Pode também votar em um partido que se recusará a entrar na coalizão se não tiver algumas das demandas essenciais atendidas, por questões práticas ou ideológicas. Alguns partidos, antes das eleições, são enfáticos com respeito a que tipo de coalizão estão preparados para participar (Meretz, de esquerda, se recusa a sentar num governo com o HaBait HaYehudi (A Casa Judaica) e/ou com o Israel Beiteynu (Israel Nossa Casa) – ambos de direita. O HaBait HaYehudi se recusa a estar junto com partidos que querem bloquear o desenvolvimento das colônias, e o Yesh Atid a sentar num governo com partidos ortodoxos que recusem o serviço militar, por exemplo). É possível participar ativamente do jogo ministerial e coaligatório através do voto.

Neste caso, o que realmente conta ao se estudar as pesquisas e ao se tentar entender os resultados de uma eleição parlamentarista é como se formam os blocos. Ou seja: quem vai sentar com quem no caso de conseguir um número significativo de votos.

Antigamente esta análise era fácil. Haviam dois partidos grandes, o Avoda (Trabalhista) e o Likud. Centro esquerda e centro direita respectivamente. Haviam os partidos menores, e chamados setorialistas: religiosos, árabes, extrema direita e extrema esquerda. Avoda e Likud ficavam entre 35 e 45 cadeiras. Quem ganhasse entre eles juntava os partidos afiliados ao seu bloco, junto com os partidos religiosos e terminava a conta formando o governo. Vez ou outra surgiram partidos ditos de centro, que não se alinhavam automaticamente a nenhum dos pólos nem a nenhum setor específico. Hoje em Israel, a única tradição eleitoral dos partidos de centro é o fato de desaparecerem depois de duas ou três eleições. Normalmente sobem por conta de uma insatisfação geral do eleitorado que não se sente suficientemente representado, e normalmente somem por conta do desapontamento deste mesmo eleitorado.

Nestas eleições, os partidos de centro são vários. Há o Yesh Atid, o Kulanu e o Israel Beiteynu (que para efeitos práticos de montagem de uma coalizão está no centro, apesar do discurso predominantemente direitista).

Mas nem os partidos de nicho são claramente representados nesta eleição. O Shas (ortodoxo sefaradita) esfacelou-se e deu cria a um partido, o Yachad, tão religioso quanto, não menos assistencialista mas mais, muito mais direitista. Há o tradicional ortodoxo ashkenazita Yahadut HaTora e afinal de contas o partido HaBait HaYehudi, que além de nacionalista, tem uma agenda ortodoxa religiosa. Há partidos que eram de nicho agora são mainstream, como o HaBait HaYehudi. Partidos que eram importantes e desapareceram completamente, como o Kadima, ou se tornaram nanicos, como o Israel Beiteynu.

Já está ficando complicado? Vamos a um fator importante que eu ainda não mencionei: a cláusula de barreira. A cláusula de barreira diz que se um partido recebeu menos de X% dos votos, ele simplesmente não entra na Knesset. Ou seja: na Knesset só há partidos que receberam mais de X% dos votos. Recentemente este valor subiu para 3,25%. Qualquer partido que não chegue a 3,25% dos votos válidos, suficientes para eleger 4 deputados, não terá qualquer representação. Isto gera 4 fenômenos interessantes:

  1. Partidos pequenos tentam se unir antes das eleições, para aumentar suas chances de afinal de contas entrarem na Knesset. Foi exatamente o que fizeram os três maiores partidos de maior representatividade árabe. Se uniram em uma única lista, embora tenham ideologias até mesmo contraditórias.
  2. Partidos que até agora eram apenas pequenos, ou estavam simplesmente diminuindo, não terão representatividade. Um exemplo é o Kadima, que sequer candidatou-se. Outro possível exemplo é o Israel Beiteynu, que envolvido em um enorme escândalo de corrupção, pode ser que nem entre.
  3. Quando um partido não tem, digamos 3.25% dos votos válidos, e por estar abaixo do limiar não é eleito para a Knesset, seus votos passam a ser inválidos. Isso muda completamente o balanço dos partidos que sobraram. As chances disso acontecer agora são muito grandes, o que significa que as regras podem mudar durante o jogo – basta que pequenos partidos no final não entrem na Knesset por conta da cláusula de barreira. Algumas pesquisas não levam isso em conta, ou levam, mas erram feio no fim das contas.
  4. Em sua maioria, a comunidade árabe tradicionalmente boicota as eleições. Os que votam costumam pulverizar seus votos por vários partidos, dentre eles o Avoda e até o Shas, que por assistencialista clássico, costuma ter nessas comunidades bons fregueses. Agora, quando os três principais partidos de maioria árabe se unem, muitos eleitores desta comunidade sentem-se mais à vontade para participar do pleito. Está prevista uma votação récorde dos árabes nestas eleições, o que por si só muda não só o cenário geral, mas faz com que o próprio limiar suba, pela quantidade absoluta de votos válidos que cresce.

E agora? Estão mais claras as regras do jogo? Pois então vamos aos blocos.

Quando em uma pesquisa o HaBait HaYehudi perde votos para o Likud, ou o inverso – ou seja: fluxo de votos dentro de um mesmo bloco, neste caso a direita, pouco muda para a imagem final de quem é que monta o governo. Quer dizer: Likud perdendo uma ou duas cadeiras para o HaBait HaYehudi ou Israel Beiteynu não muda quase nada em quem monta o governo. Neste caso, o Likud. Muda sim a forma como o acordo de coalizão será feito, mas isso serão detalhes internos dos partidos envolvidos.

Desde o começo das campanhas, votos têm migrado dentro de um mesmo bloco com frequência. Israel Beiteynu perdeu votos para o HaBait HaYehudi, que ganhou votos também do Likud, que perdeu votos para o Yahad.

Por outro lado, o Meretz perdeu votos para a União Sionista (coalizão Avoda-HaTnua), e vice versa.

Ainda na conversão de votos dentro de um mesmo bloco: é muito difícil a essas alturas um típico eleitor de direita decidir mudar seu voto para o bloco da esquerda, e vice versa. Mas é aqui que entram os partidos do bloco do centro. Quando um partido identificado com a esquerda ou a direita perde votos para o centro (ou o contrário) há uma mudança conceitual importante na estrutura dos blocos. Especialmente porque ainda não está claro quem deles participaria de um governo de quem. Kulanu participaria de um governo do Likud? E da União Sionista? Sob quais circunstâncias? E o Yesh Atid? Perguntas que nenhum deles soube responder de forma clara até agora.

Então? Quem ganha essas eleições? A resposta, dentro do contexto do que eu acabei de explicar é a seguinte: As pesquisas mostram um fortalecimento da União Sionista. Mas o bloco da direita é extremamente forte. Mesmo ganhando as eleições, a União Sionista vai ter enormes dificuldades de criar uma coalizão forte. Se o Likud ganha, mesmo liderando o bloco direitista, vai ter tantos acordos a fazer que dificilmente vai ter um governo mais maleável do que teve até agora. E no fim, temos uma legião de indecisos que segundo alguns modelos vão votar para a direita, em outros modelos, vão votar maciçamente no centro e na esquerda, e muita coisa ainda vai acontecer.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “O Quebra Cabeças das Eleições em Israel”

  • Alex Strum

    18/02/2015 at 17:55

    Gabriel, muito boa a sua explicação. Parabéns
    Lembra a piada que diz que onde tem dois judeus tem pelo menos tres pontos de vista.
    Gostaria de saber quais são as principais questões que devem decidir as eleições? segurança, economia, religião,….?????
    No que a maioria da sociedade concorda e no que discorda mais??
    abs
    Alex

    • Gabriel Paciornik

      18/02/2015 at 18:44

      Alex, muito obrigado!
      É um consenso entre analistas que os israelenses vão votar em sua maioria com o bolso. Mas só até algum evento de segurança importante acontecer. Daí é imprevisível; a coisa pode pender mais forte para segurança, mas não dá para saber. Mesmo. No mais, uma importante onda de escândalos de ética e corrupção também estão fazendo um papel que até pouco tempo atrás nem era visível. Israel Beitenu desabou, e agora o Bibi também parece estar caindo. É tudo muito recente e vai demorar para ficar claro para onde vai essa tendência, e qual será a resposta do Likud.

  • Marcelo Starec

    19/02/2015 at 19:59

    Oi Gabriel,
    Excelente a sua explicação! Muito didática! Confesso que fico tentando entender mas não consigo contemplar todas as possibilidades – até mesmo pelo motivo que você colocou muito bem – há partidos que ainda não se posicionaram sobre a sua participação em uma determinada coalizão e sob quais condições e ainda que, segundo entendi, surpresas podem ocorrer. Por fim, gostaria de perguntar – não seria possível (como já houve no passado) uma proposta de um governo de União Nacional (contemplando diversos partidos) e nesse caso, seria viável a União Sionista chegar a algum tipo de acordo com o Likud?….
    Um abraço,
    Marcelo.

    • Gabriel Paciornik

      21/02/2015 at 13:52

      Muito obrigado!

      Quanto à sua pergunta, os mais experientes analistas que acompanham tem até medo de tocar neste assunto (governo de união), de tão dogmática que têm sido as campanhas. Há uma legião de partidos que afirmam que jamais sentariam-se com o Likud. Outra legião não menor dizendo que jamais aceitariam as imposições dos partidos de esquerda. É possivel? Sim. Mas improvável. Pelo menos no corrente andar das campanhas. No mais, eu acho que mesmo que haja uma proposta séria de governo conjunto, é improvável que ele seja efetivo e consiga fazer alguma coisa.

      Abraços!

  • Daniel PS

    20/02/2015 at 21:20

    Ótima análise!

    Texto bastante didático!

    Se puder acrescentar os números atuais das pesquisas, nas próximas vezes em que falar sobre as eleições, seria bacana também.

    • Gabriel Paciornik

      21/02/2015 at 13:55

      Muito obrigado. Felizmente esta campanha está extremamente dinâmica. Cada semana saem umas duas pesquisas independentes. Há uma evolução contínua no quadro e uma pesquisa é diferente da outra. Vamos postar novidades sempre que houver, mas vai ser difícil acompanhar o ritmo da mídia tradicional. Manteremos as análises o mais frequentemente possível, mas quanto às pesquisas, estaremos sempre atrasados 🙂
      Abraços!

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