O Real valor do Shekel

03/10/2015 | Economia; Sociedade

Nas últimas duas semanas, o Real teve uma brusca desvalorização frente ao dólar. Os jornais destacaram que a moeda americana ultrapassou a simbólica casa dos R$4, algo que não acontecia desde 2002. Como o shekel (₪ [ref] O símbolo do shekel é ₪, juntando as duas primeiras letras em hebraico de Shekel Chadash (שח), entrelaçando-as. Na verdade, a moeda se chama Novo Shekel, mas todos dizem apenas “Shekel”, e assim também eu o farei.[/ref]) manteve-se estável frente ao dólar durante os últimos meses, a relação Real-Shekel também sofreu uma grande transformação.   

É possível observar no gráfico abaixo a drástica variação: se no início de 2015, estávamos próximos da taxa de R$1 = 2₪, hoje em dia,  a taxa é de R$1 para 1₪ (o Shekel esteve inclusive mais valorizado durante alguns dias). Bom para o israelense que vai pro Brasil. Péssimo para o turista brasileiro que visita a Terra Santa.

Eixo y = Real/Shekel Em apenas oito meses, o Real:Shekel passou de 1:2 para 1:1
Eixo y = Real/Shekel
Em apenas oito meses, o Real:Shekel passou de 1:2 para 1:1

Salário Minimo

Em 2015, o salário mínimo no Brasil alcançou R$ 788 [ref]http://minimosalario.com.br/[/ref]. Com base na cotação [ref]https://pt.coinmill.com/BRL_ILS.html [/ref] dos primeiros dias de Outubro (R$1 = 0.99 ), o salário mínimo brasileiro, convertido para shekel, estaria em torno de 777. Em Israel, o salário mínimo atual é de 4.650 ₪ [ref] http://www.moital.gov.il/NR/exeres/2F5EA151-6FAE-4203-91E0-3780483722E5.htm [/ref].Ou seja, 6 vezes maior que o salário mínimo brasileiro.

De acordo com [ref] http://www.salarios.org.br/#/piso [/ref], a média do salário do brasileiro, em Agosto de 2015, ficou em torno de R$1.041. Em Israel, este valor ultrapassou a casa dos dez mil shekels, chegando a 10.078  em Julho de 2015. Mais de nove vezes maior.[ref]Seria melhor comparar as medianas dos salários, mas não consegui encontrar dados atualizados para esta estatística[/ref].

Estas são informações bastante esclarecedoras. Somos levados a acreditar que o israelense goza de uma vida muito mais confortável que o brasileiro por conta de seus altos salários. Verdade?

Pode até ser, mas apenas o salário mínimo não é conclusivo neste caso. Se não levarmos em conta o custo de vida nos dois países, nada poderemos dizer sobre o poder de compra [ref] https://pt.wikipedia.org/wiki/Poder_de_compra [/ref]. Pode ser que um salário mínimo seis vezes maior, somente reflita um custo de vida seis vezes maior em Israel. Será?

Índice Big Mac

A famosa revista americana “The Economist” criou um índice criativo para avaliar a qualidade da taxa de cambio oficial entre moedas de distintos países baseada na Teoria da Paridade do Poder de Compra.  

A ideia? Avaliar o preço médio do famoso Big Mac em diferentes países e comparar os valores para entender a força de uma moeda frente a outra, considerando que o Big Mac é razoavelmente homogêneo, e acredita-se que a margem de lucro do sanduiche é similar na maioria dos países do mundo.  

Em Julho de 2015 (última data de postagem deste índice), o Big Mac em Israel custava 17.5 , enquanto no Brasil, ele valia R$13.

Vale notar que, em Julho, a taxa de cambio de mercado estava em torno de R$1 = 1.2 . Ou seja,o Real ainda estava mais valorizado que o Shekel. Desta forma, a taxa de cambio “Big Mac” estava muito próxima da taxa de cambio do mercado.(17.5 / 13 = 1.3)

Mas em termos de custo de vida, se fizessemos uma completa abstração, e considerassemos o famoso sanduíche como o “representante máximo” a ser consumido em ambos os países , Israel seria apenas 1.3 vezes mais caro que o Brasil.

Interessante? Sim. Indicativo? Um Pouco. Conclusivo? Ainda não.

Cesta básica

Para obter outro exemplo que não apenas o Índice Big Mac, resolvi fazer uma amostra de cesta básica nos dois países. Sem me apegar a técnicas de pesquisa avançada, me aproveitei da facilidade da internet e defini uma lista de nove produtos básicos a serem comprados em dois supermercados online (Extra, no Brasil e Rami Levi, em Israel)  em ambos os países em um mesmo dia. Veja o resultado na lista abaixo:

ExtraRami Levi
1 litro de leite2.784.7
1 Kg de peito frango9.2728.7
1 Kg Arroz2.295.1
1 Kg farinha de trigo5.059.8
200 g de manteiga4.987.7
1 kg Açucar refinado1.793.6
1 Kg de sal refinado2.091.4
1 Kg de tomate3.495.9
1 Kg de cebola2.990.8
Total34.767.7

Ou seja, o custo de vida em Israel, de acordo com essa simples amostra, é cerca de duas vezes mais alto que o custo de vida no Brasil.

Mas se o salário médio é mais de nove vezes maior, e o salário mínimo cerca de seis vezes maior, o israelense parece ter um poder de compra bem mais alto que o brasileiro.

Poderia buscar mais e mais exemplos para reforçar a teoria, como preços de imóveis, serviços, outros produtos básicos, mas estou convencido que a conclusão seria a mesma. O Israelense médio tem um poder de compra bem mais alto que o brasileiro médio, representado por um salário entre 6-8 vezes maior, confrontado com um custo de produtos/serviços cerca de 1-3 vezes mais alto.

Isto apenas reforça outros fatores que tem feito a aliá brasileira bater recorde nos últimos anos. Menos desemprego, melhores oportunidades, melhor qualidade de vida em questões de sáude e educação pública, e sim, menores custos de vida, agravados pela recente desvalorização do Real.

 

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “O Real valor do Shekel”

  • a

    03/10/2015 at 18:01

    vale apena falar também sobre o custo de transporte

  • Eloi Laufer

    03/10/2015 at 20:57

    Com base nessa reportagem já decidi, vou morar em Israel, e minha dieta será bem econômica, a base de SAL e CEBOLA, que são os únicos produtos mais acessíveis…legal, gostei dessa análise…

  • Marcelo Starec

    03/10/2015 at 22:22

    Oi Amir,

    Muito interessante o seu texto e inteligentes e representativas as suas comparações!…Como economista, sempre gostei de tentar comparar os países não usando índices sofisticados, mas apenas dados básicos, que nos dizem muito. Não há dúvida de que o nível de vida do israelense médio é melhor do que o brasileiro, apesar de que a lógica deveria ser o contrário, se considerarmos o território do Brasil, seus recursos naturais abundantes e principalmente o fato do Brasil não precisar envolver tantos recursos na área militar para estar seguro…mas vejo outros pontos que, embora não se possa facilmente transformá-los em indicadores econômicos, são muito relevantes!…A violência, que está atingindo níveis totalmente fora do razoável – veja, nesse ano de 2015 pelo menos 2 judeus do Rio morreram vítimas da violência, mas não por ser judeu…Simplesmente por estarem residindo na cidade e olha que nenhum deles estava em local, digamos, “de risco” (Embora hoje é até difícil considerar algum lugar no Brasil que não seja…). Além disso, como você colocou bem, a saúde e a educação (algo que custa muito caro para um brasileiro médio) são de boa qualidade em Israel. E essa tranquilidade é muito importante no momento de uma decisão desse tipo, para qualquer pessoa em relação a qualquer país. Por fim, entendo ser um tremendo conforto para um brasileiro saber que em Israel tem direito a uma saúde e educação pública de boa qualidade e além disso, a segurança de que há em Israel um, digamos, “padrão mínimo” de vida garantido e que é baixo, mas te permite ter uma vida com um mínimo de dignidade…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Jose Chvaicer

    04/10/2015 at 11:12

    A vida é muito MAIS DIFÍCIL NO BRASIL do que este interessante porem IMCOMPLETO artigo mostra.
    Considerando que a jornada de trabalho no Brasil tem oficialmente 44hs semanais e em Israel 43hs. Usando dos dados do artigo quem ganha salario minimo em Israel trabalhou em Julho de 2015 somente 39 minutos para comprar um Big Mac, enquanto que no Brasil teve que trabalhar 3 horas!!!!
    Hoj, com a desvalorização do Real e o aumento dos preços…a vida se torna EXTREMAMENTE mais dificil no Brasil, e com a estabilidade do Shequel a vida esta DELICIOSAMENTE mais benevolente ao lazer em Israel. O artigo deveria se chamar FAÇA as CONTAS e depois a ALIAH!

  • פרידה

    04/10/2015 at 15:10

    Gostaria de ter uma ideia dos preços dos imóveis, não em Jerusalém e tel Aviv , mas em uma cidade que tenha infraestrutura .comparando com São Paulo .

  • Mauricio Peres Pencak

    04/10/2015 at 17:46

    Gostei muito do artigo e, para quem como eu, está firme no propósito de ALIÁ é de grande valia. Além do que, tenho particular predileção por essas comparações.
    Também pediria, se fosse possível, uma análise sobre valores de aluguel e valor de imóveis fora do eixo TEL AVIV-JERUSALÉM.
    Na conta de motivos para ALIÁ também pode colocar o quadro caótico de (in)segurança pública. Costumo afirmar que vivemos um quadro de guerra civil crônica e a realidade dá indicadores de sobra.

  • Guy Gandelman

    05/10/2015 at 15:09

    Parabéns pelo texto e análise! Morando em Israel há pouco mais de um mês, cheguei também a conclusão que tudo custa em média duas vezes mais que o Brasil, apesar do salário ser superior. Faltou apenas colocar na balança cerveja e bebidas alcoólicas em geral. Estas, custam em média três vezes ou mais que o Brasil. Tudo bem, o Brasil não é mais referência por conta da desvalorização do real. Mas, se comparado com a Inglaterra, por exemplo, o custo pra tomar uma cerveja ainda chega a ser praticamente o dobro. Ainda estou tentando entender por que é tão caro tomar uma cerveja na Terra Santa. Alguém conseguiria dar uma dica?

  • Paulo Milnitsky

    14/02/2016 at 01:36

    Uma pergunta : é verdade que quem faz aliá e tem idade elegível a aposentadoria recebe a mesma ? E quais são os valores ?
    abraço

Você é humano? *