O Resgate da identidade

 

 

“…Foi então que algo extraordinário aconteceu…”. O verão de 1967 acabara de mudar para sempre a vida do hoje rabino Jonathan Sacks. Estudante na universidade de Cambridge, na Inglaterra, o rabino havia se envolvido ativamente em diversas manifestações de solidariedade a Israel em decorrência da recém iniciada Guerra dos Seis Dias.

Ele relata em seu livro “Uma Letra da Torá” que novatos e veteranos, que nunca haviam se identificado publicamente como judeus, se encontravam para rezar na pequena sinagoga, trabalhavam em conjunto para recolher fundos, promoviam debates e passeatas. Queriam expressar de todas as formas a sua preocupação com aquele pequeno país que ficava a milhares de quilômetros da universidade. Sacks afirma que era possível perceber que algo idêntico acontecia em diversas comunidades judaicas ao redor do mundo.
O final da história todos conhecem. A guerra estourou e Israel venceu – em apenas seis dias, numa das maiores vitórias militares da história moderna. O Rabino conta que os estudantes comemoravam e respiravam aliviados. A vida poderia voltar ao normal. Não para ele…
Sacks afirma que a sua identidade judaica estava sendo definida. Foi naquele exato momento que ele percebeu que ser judeu não era uma questão particular e pessoal, e sim, histórica e coletiva. Era o sentimento de fraternidade e responsabilidade com pessoas desconhecidas, de lugares desconhecidos, por uma ligação que vai muito além do laço de parentesco.
Na ultima semana, Israel ficou em silêncio durante alguns minutos. Não era um silêncio de respeito ao mortos. Era um silêncio diferente – uma quase exaltação de respeito à vida. Houve uma verdadeira comoção coletiva quando rádio e televisão anunciavam que Gilad Shalit, o soldado sequestrado há seis anos estava voltando para casa.
O Governo israelense havia tomado uma das decisões mais difíceis dos últimos tempos. O preço pago pelo resgate é extremamente alto. 1027 presos palestinos serão liberados. Entre os presos, existem aqueles que participaram da elaboração e execução de ataques terroristas que assassinaram centenas de israelenses.
Muitos afirmam que esta decisão incentivará novos sequestros e possivelmente aumentará a certeza dos terroristas de que a violência é o único caminho para a expulsão e aniquilação do “império sionista”. Confesso que o meu lado racional esta do lado deles. Como não questionar a possibilidade de estarmos expondo a nossa sociedade a uma nova onda de terror?
Mas confesso também, que aqueles minutos de profundo silêncio após a notícia da libertação e a criação de uma imagem de Gilad sendo abraçado novamente pelos seus pais, foram o bastante para acabar com qualquer lógica. A matemática já não fazia mais sentido. Naquele momento, 1 era igual 1027. Na verdade, naquele momento, 1 era maior do que 1027. Muito maior!
Era curioso verificar e compartilhar a alegria de milhões de pessoas ao redor do mundo. Pessoas que como eu, não conheciam Gilad Shalit pessoalmente, e não tinham uma ligação literal de parentesco.

Gilad Shalit fala alto à nossa identidade. Muito mais do que uma condição cultural, religiosa, pessoal e particular, o soldado sequestrado representa o nosso sentimento de pertinência a um povo. Milhões de pessoas ligadas por um sentimento que vai muito além dos laços de parentesco, estavam envolvidas com o futuro do soldado e preocupados com o seu destino.

Juntos nós passamos pela tragédia e juntos comemoramos a sobrevivência e o retorno de Gilad. O judaísmo, mais uma vez, comprova a sua condição coletiva e histórica.
Fico feliz de poder viver este momento.
Gilad Shalit é parte integrante de nossa identidade. Gilad Shalit simboliza a nossa responsabilidade mútua. Gilad Shalit é o valor judaico da vida humana. Gilad Shalit é o nosso povo.
A verdade é que Gilad deixou de ser Shalit no momento em que foi seqüestrado. A partir daquele momento, e para sempre, ele incorporou todos os nossos sobrenomes.
E então, algo extraordinário aconteceu. Gilad Shalit, o nosso Gilad, esta voltando para casa…

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