O Sequestro e a nossa Identidade

19/06/2014 | Conflito

Há exatos sete dias, três jovens civis israelenses foram sequestrados por um grupo terrorista na Cisjordânia.

A minha primeira reação à confirmação do sequestro foi incredulidade. Depois senti raiva. Muita raiva. E também senti medo, incômodo e tristeza. Na hora cheguei a acreditar que tudo seria apenas um susto ou um mal entendido que não passaria de algumas horas.  Hoje nos aproximamos do oitavo dia sem notícias concretas sobre o paradeiro e a condição dos adolescentes.

Em meio a copa do mundo, não dá mais para pensar em futebol. Pelo menos, não com o mesmo prazer e despreocupação que imaginei assistir as partidas neste mês. Depois de cada primeiro tempo, a televisão israelense divulga notícias, declarações e imagens dos garotos sequestrados. Em um dos jogos, a mãe de um dos adolescentes deu uma declaração pública agradecendo o apoio de todo povo judeu neste momento tão difícil. Ela não condenou o governo de nenhum dos lados, não pediu nenhuma ação brusca, destemperada. Apenas proferiu palavras de gratidão pelo apoio recebido que ela mesmo definiu como se fosse um “enorme abraço”. Depois de ver e ouvir algo assim, como se concentrar para o restante da partida?

Sou pai de um israelense de dois anos. Pela manhã, ao levá-lo para a creche, escuto o rádio à espera de boas notícias. Boas notícias não existem… Ouço apenas a declaração emocionada, agora do pai de um dos sequestrados desejando o breve retorno do seu filho. Chego na creche e entrego meu filho nas mãos da professora, despedindo-me com um beijo em seu rosto. Eu, que não sou religioso, penso nos garotos sequestrados e em seus pais. E rezo do meu jeito.

Quando o soldado israelense Gilad Shalit foi resgatado, escrevi um artigo chamado “O resgate da identidade” em que contei sobre a “descoberta” da identidade judaica do Rabino Jonathan Saks à epoca da Guerra dos Seis Dias em 1967. Ele conta em um de seus livros, que estudava na universidade de Cambridge, na Inglaterra, e havia ficado perplexo com a sua própria militância e envolvimento nas manifestações de solidariedade a Israel.

Sacks declarou que era possível perceber que algo idêntico acontecia com diversos judeus em diferentes comunidades judaicas ao redor do mundo. Depois da guerra, o rabino disse que a sua vida e a percepção de sua identidade judaica não eram as mesmas.  Num momento tão difícil para o nosso povo, ele havia percebido que “ser judeu” não era uma questão particular e pessoal, e sim, histórica e coletiva. Era o sentimento de fraternidade e responsabilidade com pessoas desconhecidas, de lugares desconhecidos, por uma ligação que vai muito além do laço de parentesco.

E então, depois que eu descobri as “raízes” da identidade judaica através do livro do rabino Sacks, escrevi o meu sentimento em relação ao retorno de Gilad:

…..Gilad Shalit fala alto à nossa identidade. Muito mais do que uma condição cultural, religiosa, pessoal e particular, o soldado sequestrado representa o nosso sentimento de pertinência a um povo.Milhões de pessoas ligadas por um sentimento que vai muito além dos laços de parentesco, estavam envolvidas com o futuro do soldado e preocupados com o seu destino. Juntos nós passamos pela tragédia e juntos comemoramos a sobrevivência e o retorno de Gilad.O judaísmo, mais uma vez, comprova a sua condição coletiva e histórica. A verdade é que Gilad deixou de ser Shalit no momento em que foi seqüestrado. A partir daquele momento, e para sempre, ele incorporou todos os nossos sobrenomes. Gilad Shalit, o nosso Gilad, está voltando para casa

E novamente vivemos a dor e a tristeza de um novo sequestro. E novamente um ato terrorista é perpetrado contra o nosso povo. E novamente uma tragédia nacional nos faz questionar a nossa esperança por paz.

Estaremos diante de uma interrupção de um processo de paz que nunca existiu ou da continuidade de um processo de guerra que nunca cessou?

Eu não me sinto capaz, neste momento, de oferecer qualquer resposta às perguntas acima. O que sim me sinto capaz é de exigir de nossa comunidade, de nosso povo, de nosso governo – inteligência, responsabilidade e seriedade nas reações ao sequestro.

Algumas reações individuais a esta tragédia começam a pipocar na rede. Revela-se nestas manifestações o que há de mais sórdido no ser humano. Veja o artigo do Yair Mau sobre o assunto, aqui.

Quando o ódio,  a raiva, o medo, a tristeza e o desconforto  invadem as nossas cabeças, devemos falar menos, escrever menos…. Devemos respirar fundo para nos lembrar o que nos diferencia dos terroristas e da distância ideológica que separa o nosso governo daqueles ancorados em leis religiosas que abominam tudo o que é diferente.

Peço aos leitores que, em seus embates públicos sobre a tragédia atual, saibam ser firmes e fortes na denúncia e condenação do terrorismo, sem que para isso tenham o mesmo comportamento e discurso ideológico daqueles que todos nós abominamos.

Nossa responsabilidade – histórica e coletiva – é compreender que a busca de justiça sem utilizar a força nos torna impotentes, mas buscar e exigir apenas a força, sem se preocupar com a justiça, nos transformará em apenas mais um grupo de tiranos.

Por ora, Eyal Yifrah, o nosso Eyal, Gilad Shaer, o nosso Gilad, Naftali Frenkel, o nosso Naftali, estão longe, muito longe de casa.

Espero vê-los em breve abraçando novamente os seus pais. E desejo que o beijo em seus rostos, não sejam de despedida, mas de alegria e regozijo por tê-los de volta em casa.

Essa casa que é de todos nós.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “O Sequestro e a nossa Identidade”

  • Sheila Tellerman

    19/06/2014 at 15:31

    Marcelão,meu querido Marcelão,tuas palavras tão verdadeiras e tão sensíveis me levaram às lágrimas.vc conseguiu expressar tudo que eu e muitos judeus ,aqui da Golá tb,sentimos quando um dos nossos sofre uma violencia como essa.Ainda bem que temos vcs do Conexão porque a imprensa aqui é “nojenta’e altamente tendenciosa,como vc já sabe.
    Estamos muito mobilizados e sensibilizamos nossos alunos no Liessin,trazendo os artigos e vídeos que vcs postaram.
    Eu sei que tudo o que fazemos é pouco mas é o que podemos fazer daqui:rezar e mais que tudo APOIAR israel.
    Na terça feira houve uma manifestação aqui no Posto 6 e domingo haverá outra ,em Ipanema.
    Temos a obrigação e um compromisso muito forte de mostrar solidariedade aos nossos meninos,à seus pais e à Medinat Israel.Um forte abraço à vcs e que possamos bem rapido nos alegrar com a volta de Guilad, Eyal e Naftali.
    PS:Concordo com vc que não é o momento de discursos raivosos,não vamos nos igualar aos palestinos,O João já me deu esse “toque”!!!

  • Mario S Nusbaum

    19/06/2014 at 17:06

    “Revela-se nestas manifestações o que há de mais sórdido no ser humano.”
    Pode ser Marcelo, mas achar que dá para combater animais raivosos com filosofia é ilusão.

    “Quando o ódio, a raiva, o medo, a tristeza e o desconforto invadem as nossas cabeças, devemos falar menos, escrever menos…. ”
    OK, podemos nos dar esse luxo, mas e as IDFs que TEM que agir? Os líderes israelenses?

    “Devemos respirar fundo para nos lembrar o que nos diferencia dos terroristas e da distância ideológica que separa o nosso governo daqueles ancorados em leis religiosas que abominam tudo o que é diferente.”
    Não concordo que REAGIR violentamente a uma violência é moralmente equivalente. Eu não só aceito o diferente como adoro a possibilidade de conhece-lo, e esse um dos motivos pelos quais me orgulho de São Paulo e gosto daqui, mas quando o diferente é quebrar a cabeça de um bebe com um rifle, explodir ônibus, escolas e bares, eu passo, não quero nada com ele e exijo que os responsáveis pela minha segurança tomem providências.

    “Peço aos leitores que, em seus embates públicos sobre a tragédia atual, saibam ser firmes e fortes na denúncia e condenação do terrorismo”
    E? Será que algum terrorista deixará de se-lo só por causa de condenações?

    “Nossa responsabilidade – histórica e coletiva – é compreender que a busca de justiça sem utilizar a força nos torna impotentes, mas buscar e exigir apenas a força, sem se preocupar com a justiça, nos transformará em apenas mais um grupo de tiranos.”
    Com isso concordo 100%. A força TEM que ser usada com justiça e nada mais justo que usa-la contra terroristas.

    Por ora, Eyal Yifrah, o nosso Eyal, Gilad Shaer, o nosso Gilad, Naftali Frenkel, o nosso Naftali, estão longe, muito longe de casa.

    Espero vê-los em breve abraçando novamente os seus pais. E desejo que o beijo em seus rostos, não sejam de despedida, mas de alegria e regozijo por tê-los de volta em casa.

  • Rebeca Daylac

    19/06/2014 at 19:51

    Marcelo,

    Que voltem são e salvos para “Essa casa que é de todos nós”.
    bjs

  • Marcelo Starec

    19/06/2014 at 21:31

    Marcelão,

    Ótimo o artigo! Parabéns! Concordo e acho que temos de continuar a defender os bons valores que normalmente defendemos – Israel, apesar de estar em uma luta que no fundo permeia o seu direito básico de existir, algo que nenhum outro povo consegue entender, em sua plenitude. Apesar de tudo isso, Israel ainda pode apresentar ao mundo uma coexistência pacífica com o diferente, dentro de suas fronteiras. Quem sabe um dia isso também possa vir a ocorrer com todos os seus vizinhos? Tenho plena convicção de que é isso que a maioria dos israelenses e dos judeus do mundo gostariam que acontecesse! Infelizmente, entretanto, não há uma “fórmula mágica” para se chegar lá, se houvesse já se teria atingido essa meta e qualquer possibilidade de uma futura convivência pacífica passa pelo respeito e tolerância – onde atitudes como essa de sequestrar os 3 meninos não podem ser toleradas, sob nenhuma justificativa. O que fazer? Como fazer? Essas são as questões a se enfrentar sempre e termino com uma colocação sua, que achei boa: “compreender que a busca de justiça sem utilizar a força nos torna impotentes, mas buscar e exigir apenas a força, sem se preocupar com a justiça, nos transformará em apenas mais um grupo de tiranos.”
    Abraço,

  • Raul Gottlieb

    20/06/2014 at 15:00

    Muito bom o texto, Marcelo. Muito sensato e cheio de sensibilidade.

    Retomando a questão de uns posts para trás sobre a reação do M. Abbas e sua fala na Liga Árabe quando denunciou de forma corajosa e inequívoca o sequestro:

    Importante medir a reação dos Palestinos ao seu discurso. Ele foi condenado por todos. O Khaled A. Toame (jornalista israelense árabe) se pergunta se o Abbas não perdeu completamente a credibilidade depois destas declarações e se ele tinha (e tem) alguma condição de fazer um acordo com Israel. Leiam:

    http://www.gatestoneinstitute.org/4369/abbas-credibility

  • Raul Gottlieb

    20/06/2014 at 15:07

    Caro Marcelo Starec, claro que há uma fórmula, mas infelizmente ela é mágica: basta os árabes deixarem de ser árabes.

    Hoje morreram 34 pessoas (este foi o número de pessoas que eles conseguiram contar) num atentado na Síria.

    Ontem vimos os patriotas do ISIL executando a sangue frio civis ajoelhados em Mosul no Iraque (qualquer semelhança com os nazistas não é coincidências).

    Existem 200 e tantas meninas cristãs sequestradas por um grupo islâmico na Nigéria (sim, estes não são árabes, mas bebem na mesma fonte cultural) e assim por diante, todos os dias, todos os meses, todos os anos há muitos anos – muitos mesmo, bem antes da Europa ficar forte e varrer os árabes de volta.

    E tem aquelas boas almas que pensam que o problema é a ocupação israelense na Cisjordânia.

    Abraço, Raul

Você é humano? *