O sionismo que se respira aqui

No dia que antecedeu o Yom Shoá, data internacional em que se rendem homenagens às vítimas e aos heróis que perderam a vida no Holocausto, minha filha pré-adolescente chegou em casa com uma vela na mão, dentro de uma latinha. Do lado de fora, estava escrito o nome de um judeu de Budapeste, com sua data de falecimento. A lição de casa da minha menina (como de todos os alunos) era acender a vela naquela noite, pensar com compaixão na alma do falecido e ler na internet o resumido histórico de sua vida, publicado no site do museu Yad Vashem, o  Museu do Holocausto.

Eu estava cansadíssima, como sempre, ela também. Era dez horas da noite quando chegamos da cerimônia que aconteceu no centro de nossa suburbana Raanana, a exemplo das que foram realizadas em todas as cidades israelenses. Insistiu em sentar à frente do computador. Leu a história do seu homenageado enquanto a velinha ardia sobre a mesa da cozinha. Queria saber mais a respeito da história do seu homenageado, mas no site havia pouca informação disponível sobre ele. Perguntou sobre nossa família – toda proveniente da Alemanha e da Polônia –, ouviu o pouco que eu soube contar. Estava visivelmente emocionada. E eu junto.

Credito à escola esse trabalho de conscientização emocionante, do qual resulta um interesse real. Desde esse ano, o Holocausto deixou de ser, para ela, um evento histórico distante que envolve desconhecidos para se tornar um tema vivo e infelizmente doloroso – meus avós, paternos (alemães) e maternos (poloneses), perderam grande parte de suas famílias na Shoá. E por isso eu disse para ela, ao final da cerimônia bem conduzida que assistimos, que eu não precisaria conter minhas lágrimas ao ouvir o depoimento ao vivo dos sobreviventes que moram em nossa vizinhança: a história deles é muito similar à nossa história.

A escola é a promotora dessa catarse pela qual ela passou nesse dia e por todas as transformações que vejo acontecer na vida dela. Judaísmo e sionismo são dois assuntos que, em sua escola, estão tão intimamente associados que, para ela, parecem uma coisa só. Por aqui, há três opções de escola, que são divididas por nível de religiosidade. A  “mamlachati” é bastante desvinculada do judaísmo, se assemelhando à maioria das escolas judaicas brasileira. A “mamlachti-datii”, onde ela está, é religiosa “light”, frequentada não apenas por judeus religiosos sionistas (os “kipá srugá”), como também por famílias que procuram por uma educação com mais conteúdo judaico, mesmo que ele não exista dentro de suas casas. As escolas charedi, ultraortodoxas, estão em um outro nível, em que o sionismo inexiste – e entre elas há de todas as correntes. E são tantas que não saberia descrever a diferença entre elas.

Na escola da minha fillha, há bandeiras e brasões de Israel em todas as salas. Em todos os eventos sociais, de toda a natureza, o encontro é finalizado com a condução do Hatikva, o lindo hino nacional. Todas as crianças conhecem a letra na ponta da língua. Lembro bem do evento que antecedeu o Yom Haatzmaut, dia da independência de Israel que acontece nesse mês de maio, do ano passado. Foi a primeira vez que vi minha filha dançando com a bandeira de Israel na mão. Claro que tive que enxugar as lágrimas de emoção com a manga da camisa, e não sei explicar bem o porquê, já que sionismo, no meu sangue, sempre esteve muito diluído – agora não mais. Depois deste evento, a vi em muitos outros, inclusive pelas ruas de Raanana (sempre organizados pela prefeitura, com a participação de todas as escolas da cidade), com a bandeira na mão. Agora, próximos novamente do dia da independência, as varandas das casas estão com bandeiras hasteadas, nos carros há bandeiras nas janelas, nas ruas há bandeirolas azuis e brancas. Há até uma “roupinha de vidro retrovisor” em muitos deles – inclusive no meu. Sionismo, judaísmo, nacionalismo, tudo muito misturado, tudo muito a mesma coisa.

Recebi nesse mês a visita de uma amiga belga de décadas, não judia. Veio com o marido e as filhas, que nunca haviam tido contato com nada que se refira a Israel ou ao judaísmo. Lembro do medo que ela viveu nos meses de preparação da viagem. Moça instruída, me pregava sustos ao perguntar coisas como “O exército permite a utilização de GPS? Minhas meninas vão poder andar de shorts pela cidade? Em nosso jantar de Shabat, vamos comer comida fria no escuro?” Pelo o que puder perceber depois, ao vivo, ela não acreditou em nenhuma das minhas respostas. Mas o país não precisou fazer nenhum esforço para romper com todos os preconceitos. O Waze funcionou muito bem, obrigado. As duas filhas passearam com minissaia misturadas às israelenses com seus minishorts e botas (acabaram comprando para elas também!). No Shabat, comemos com a sala iluminada e recebi elogios pelo meu “slow cooking”, moda que, descobri agora, sigo. Foram embora com o coração partido por terem ficado tão pouco e já prometeram que voltam, e logo, pois em duas semanas “não dá para ver nada”. Moça sofisticada, chef de cozinha, elogiou a qualidade e a variedade de vinhos e de queijos do país. Amou o “labane”, um queijo cremoso azedo (similar à coalhada), e carregou na mala quilos de tehina (pasta de gergelim), de halva (doce de gergelim), zátar e pimentas de todos os tipos, para continuar saboreando Israel em casa.

Elogiaram a simpatia do israelense, a disposição em ajudar. Impressionaram-se com a alegria e a prontidão de todos os meninos e meninas-soldados, para os quais pediram informação o tempo inteiro – e em inglês. Ficaram impressionados com o nacionalismo do israelense: esperavam trombar com uma população revoltada com o serviço militar e encontraram jovens afáveis, confiantes e orgulhosos de sua farda. Saíram daqui até com um inimaginável elogio para a polícia, que os ajudou pronta e educadamente quando envolveram-se em um acidente leve com o carro. E falando em inglês.

Enfim, viveram Israel. A Israel das bandeirinhas, dos meninos-soldados, do Shabat iluminado e até do slow-cooking. Então constatei, feliz da vida, que todo o esforço que não fazemos para gerenciar a terrível opinião pública a respeito de nós, compensamos com naturalmente no “corpo-a-corpo”.

Logo chega Yom Haatsmaut e a escola já está fazendo seu bom trabalho de transformar minha filha em uma pequena sionista voraz. Ela já está à caça de roupas azuis e brancas, que deverá usar nesse dia na escola onde, claro, haverá um evento para todas as famílias dos alunos. Eu estarei lá. Mas dessa vez serei esperta: levarei comigo um lencinho no bolso.

Imagem de capa: http://israelstreet.org/wp-content/uploads/2012/04/israeliimmigrants.jpg

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